Arquitetura e permacultura

Importância

A arquitetura comparece no ambiente planejado da permacultura como um conhecimento importante, pois as edificações consistem nas zonas energéticas de uso mais intenso. Assim, um entendimento de seus conceitos se torna pertinente no processo de planejamento do espaço, pois será a partir do ambiente construído de forma adequada, como um abrigo, que as pessoas poderão morar, trabalhar e pensar sobre as demais ideias de planejamento e manejo da área, de forma holística e sustentável.

Objetivo

O propósito do módulo de arquitetura é auxiliar as pessoas que têm vontade de construir a própria casa, ou alguma outra edificação, a partir do olhar da permacultura. É importante deixar claro que é necessária formação técnica para construir com segurança, especialmente edificações grandes e complexas, pois é preciso conhecer a resistência dos materiais, ter noção de estrutura e respeitar as normas técnicas, por isso é fundamental o conhecimento, o estudo e a experiência no ofício de construir.

Entretanto, no processo de construir, seja a casa, a oficina, o galpão, deve haver intensa participação dos que pretendem desfrutar desse abrigo como lar. Um primeiro requisito, recomendável, seria o envolvimento afetivo, considerar a obra como uma extensão das pessoas, expressando seus gostos e valores. O segundo aspecto importante é aprender com a experiência de construir, pois “a mesma casa que edificamos é a casa que nos edifica” (ditado grego). E, finalmente, é importante entender que a edificação “vive”, interage com as pessoas e com seu entorno, respira pelas paredes, precisa de cuidados e envelhece com o tempo, como se possuísse uma espécie de metabolismo que envolve ar, água, energia e resíduos.

Conteúdo mínimo

  • Pensar a edificação como um elemento integrado ao local e à paisagem planejada.
  • Entender como as energias da natureza fluem em relação à edificação e como podem contribuir para minimizar gastos energéticos e impactos ambientais.
  • Compreender que, por ser a zona mais utilizada no ambiente planejado, há necessidade de abrigar as pessoas com conforto e segurança.

Metodologia

A forma de ensinar arquitetura e permacultura em nosso PDC leva em consideração duas etapas. Na primeira, são introduzidos alguns conceitos básicos de arquitetura associados aos 12 princípios da permacultura, por meio de uma exposição permeada por diálogo com os estudantes. Na segunda, convida-se a turma para aplicar os conceitos apresentados em uma atividade prática, realizada em grupos.

Utiliza-se a casa, uma residência unifamiliar, como exemplo de edificação, por ser a mais próxima da experiência de vida dos estudantes, procurando facilitar o entendimento dos conceitos em relação aos atributos e características dos ambientes (como quartos, cozinha, sala etc.).

Exposição

90 min

A exposição prevista na primeira parte busca apresentar conceitos da arquitetura associados aos 12 princípios de planejamento em permacultura.

Assim, inicia-se propondo que os estudantes pensem nas necessidades, características e funções de uma casa. Pode-se listá-las no quadro. E em qual seria sua Zona 0. Após uma breve conversa sobre essas ideias, passa-se a refletir sobre cada princípio.

O princípio 1 – “observe e interaja” – aborda questões relativas à concepção do projeto, que deve partir de uma análise do terreno disponível, considerando a topografia, a resistência do solo para as fundações, o entorno imediato, como vizinhança e vistas privilegiadas. Aborda também as características do clima local, a orientação solar, a direção dos ventos predominantes, a incidência de chuvas e as temperaturas e suas variações nas estações do ano. Inclui ainda as demandas dos usuários, o tamanho da família, suas preferências e necessidades.

Sobre o princípio 2 – “capte e armazene energia” – são lembradas as necessidades de uso de energia na edificação, a depender do clima local. Para aquecimento do ambiente ou da água, pode-se utilizar energia solar, eólica, queima de madeira de poda, escolher materiais com boa inércia térmica para as paredes, assim como empregar a ventilação cruzada para refrigeração dos ambientes, sendo também importante conhecer as maneiras de melhor aproveitar a iluminação natural e o uso de sistemas de baixo impacto ambiental.

Já o princípio 3 – “obtenha rendimento” – inclui o aproveitamento de espaços para plantio de alimentos de ciclo curto junto à casa, bem como noções de ergonomia no mobiliário e na organização do espaço interno.

O princípio 4 – “pratique autorregulação e aceite conselhos (feedback)” – trata da importância de usar o recurso do projeto arquitetônico, visto como uma atitude sustentável, uma vez que as concepções e mudanças são desenhadas previamente no papel, não acarretando custos adicionais de uma demolição, por exemplo, para corrigir algum erro de construção no futuro. São também abordadas noções de escala e de modelo reduzido como auxiliares para o ato de projetar.

No princípio 5 – “use e valorize os recursos naturais renováveis” – a partir de uma análise do clima local, observa-se o posicionamento das edificações, relacionado à sua eficiência energética e ao seu conforto térmico. Versa-se sobre o uso das cartas solares, a relação entre sol, ventilação e salubridade dos ambientes internos de maior permanência, o uso da vegetação adequada no entorno e os efeitos de radiação, condução e convecção das formas arquitetônicas e dos materiais utilizados.

Quanto ao princípio 6 – “não produza desperdícios” – procura-se abordar o tratamento dos efluentes produzidos em unidades habitacionais, como banheiro seco, círculo de bananeiras, bacia de evapotranspiração, bem como ressaltar a importância do aproveitamento de materiais na construção via reuso, reaproveitamento e reciclagem.

O princípio 7 – “design partindo de padrões para chegar aos detalhes” – traz noções de proporção e harmonia para a concepção da edificação e de seus ambientes, por meio da percepção do retângulo áureo e da sequência de Fibonacci presentes na natureza e na obra humana.

Em relação ao princípio 8 – “integrar ao invés de segregar” – apresentam-se os espaços comuns de convívio de pessoas, as funções compartilhadas, as diferenças entre ambientes que demandam maior ou menor privacidade, alerta-se para a acessibilidade universal, bem como para a importância dos mutirões para a construção solidária e pedagógica.

No princípio 9 – “use soluções pequenas e lentas” – chama-se a atenção para a qualidade dos materiais, especialmente da rede elétrica e hidráulica, em relação a sua segurança e durabilidade (sustentabilidade), abordando também a necessidade de cuidados durante a execução da obra, evitando improvisos que podem colocar as pessoas em risco, e a necessidade de uso dos EPIs (equipamentos de proteção individual), como luvas, óculos e capacetes em algumas atividades.

O princípio 10 – “use e valorize a diversidade” – aborda os múltiplos métodos de bioconstrução, a partir dos materiais disponíveis no local e adequados ao clima, como o uso de pedra, madeira, palha, bambu, a construção com terra, como adobe, superadobe, hiperadobe, cob, taipa de pilão, pau a pique, cordwood, solo-cimento, solo-cal etc. Introduzem-se as diversas técnicas, testes e aplicações, de modo a facilitar o reconhecimento dos materiais que apresentam maior potencial de uso no ambiente que se deseja planejar de forma sustentável.

Preparo do cob no Instituto Çarakura, Florianópolis. Foto: Soraya Nór.

Com o princípio 11 – “use as bordas e valorize os elementos marginais” – questiona-se qual seria a borda da casa: suas paredes, fachadas, jardins… O tópico versa sobre as relações interior/exterior.

Por fim, o princípio 12 – “use criatividade e responda às mudanças” – remete a pensar sobre as dinâmicas do tempo, os ciclos do dia, da semana, das estações do ano, levando também em consideração as diferentes etapas da vida das pessoas, as gerações que habitam a casa ao longo do tempo, com diferentes necessidades de espaços e com diferentes formas de utilização.

Práticas

Pensando o abrigo

90 min

Sugere-se que esta prática seja realizada em grupos, preferencialmente com a mesma configuração dos grupos que serão constituídos para o projeto final do PDC. Essa sugestão de composição das equipes tem por objetivo que os integrantes possam retomar as discussões em vários momentos do processo de aprendizado, com maior fundamentação para a tomada de decisões.

A proposta é que cada grupo projete uma residência unifamiliar, considerando que os estudantes possuem um conhecimento comum compartilhado sobre a vivência em uma casa.

Escolhe-se, coletivamente, um local para a construção que seja do conhecimento de todos e estipulam-se as mesmas características para os moradores, como o número de filhos, as idades etc., ou seja, todos os grupos terão a mesma demanda.

Assim, propõe-se que os participantes construam uma maquete de argila, contemplando os diferentes ambientes da residência, aplicando os conceitos e os princípios apresentados e discutidos na etapa anterior.

Para a atividade prática serão necessários os seguintes materiais:

  • papel para rascunho e eventuais desenhos;
  • uma base de madeira com cerca de 40×50 cm, por grupo;
  • recipientes com água; e
  • argila para modelar, cerca de 1 kg por grupo.

Na base de madeira é fundamental que seja previamente fixada uma seta indicando o posicionamento do Norte, para que sejam observados na decisão de distribuição das ambientes da casa, a insolação, os ventos, as vistas etc.

Educandas moldando em argila a residência planejada. Foto: Arthur Nanni.

Os grupos devem trabalhar por cerca de 60 minutos, sendo a última meia hora reservada para que cada grupo apresente a maquete da casa aos demais.

Essa apresentação deve ser desenvolvida num ambiente interativo, que possibilite a troca de informações e o enriquecimento da experiência para maior apreensão dos conceitos, para que também possa ocorrer a percepção sobre a diversidade de ideias e de soluções possíveis aplicadas à prática da arquitetura.

Atividade no EaD

Utilizando o mapa da área de estudos escolhida pelo participante e com base no diagnóstico dos setores e nas características climáticas da área, solicite:

  • Análise do clima local (características climáticas, trajetória solar).
  • Determine o melhor local para inserir as estruturas (Zona 0).
  • Analise os elementos, utilizando a metodologia de planejamento permacultural para a(s) estrutura(s) a ser(em) construída(s), prevendo suas características, funções e necessidades.
  • Defina e justifique quais seriam as melhores técnicas de bioconstrução para o local, considerando o clima e a disponibilidade de material.
  • Desenhe, manualmente ou em um software de sua preferência, um projeto básico para essas estruturas. É importante sempre indicar a orientação (o Norte). No caso de escolher o modo manual, escaneie ou envie uma fotografia com boa qualidade.

Conteúdo complementar

Vídeos

Leituras

Aula

Referências sugeridas

ADDIS, Bill. Reuso de materiais e elementos de construção. São Paulo: Oficina de textos, 2010. 368 p.

ANGER, Judith; FIEBRIG, Immo; SCHNYDER, Martin. Edible Cities: Urban Permaculture for Gardens, Yards, Balconies, Rooftops and Beyond. East Meon, Hampshire: Permanent Publications, 2013. 156 p.

GOUVÊA, Luiz. Cidadevida: curso de desenho ambiental urbano. São Paulo: Nobel, 2008. 235 p.

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