A Permacultura como mediadora de práticas educativas na escola

Importância

A permacultura na escola traz conexões que contribuem significativamente para a formação de seres humanos mais autônomos, engajados e com senso de responsabilidade individual e coletiva com o meio ambiente e a sociedade.

As práticas de Educação Ambiental que serão apresentadas a seguir têm como referência e inspiração os ensinamentos da permacultura, orientadas principalmente pelos princípios éticos que respaldam essa perspectiva: cuidar da terra, cuidar das pessoas e partilha justa (HOLMGREN, 2013). Deste modo, a escola é entendida como um espaço de aprendizagem que pode oportunizar e potencializar a relação entre as pessoas e a natureza.

Por isso, as temáticas abordadas buscam considerar e valorizar os saberes dos educandos e suas famílias, bem como a relação que se estabelece com a natureza, trazendo nas discussões o diálogo entre os conhecimentos das Ciências, os problemas e soluções socioambientais. Esse movimento tem como intuito desenvolver um olhar coletivo para onde vivemos – local e global.

Objetivo

  • Apresentar práticas de Educação Ambiental que dialogam com a realidade dos educandos;
  • Refletir sobre como a permacultura pode contribuir para a formação de pessoas mais autônomas e críticas;
  • Contribuir para o desenvolvimento de práticas educativas no âmbito escolar numa perspectiva permacultural.

Conteúdo mínimo

Abordar conhecimentos referentes às Ciências da Natureza, tais como decomposição, microrganismos (compostagem), ciclo vegetal, tipos de plantas (plantas medicinais e aromáticas), entre outros.  E também, conceitos mais amplos que se inter-relacionam como: sustentabilidade, agroecologia, alimentação saudável e segurança alimentar.

Metodologia

As práticas educativas têm como referência a perspectiva crítica e transformadora da realidade. Pois, ao concebermos os problemas ambientais como resultado da intervenção humana na natureza resultante do atual modelo civilizatório, é indispensável considerar uma abordagem que problematize essa relação.

A perspectiva de educação que referencia essas práticas tem como premissa que “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção” (Freire, 2015 p16). Neste mesmo sentido, a realidade é a principal mediadora das aulas e neste processo “quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender” (Freire, 2015 p25).

Por isso, a organização e detalhamento das atividades tem como referência a organização didática e metodológica dos Três Momentos Pedagógicos (Delizoicov, Angotti, Pernambuco, 2011), metodologia que visa identificar e problematizar situações-problema para buscar possíveis soluções sob diferentes óticas.

O primeiro momento, chamado de problematização inicial, consiste em identificar e problematizar as interpretações que os estudantes têm sobre a temática abordada. Busca-se instigar os estudantes com uma ou mais perguntas sobre a temática, para que compartilhem os seus conhecimentos prévios e também os seus limites explicativos. Vale ressaltar que para fazer estas perguntas o educador pode usar diferentes recursos: vídeos, filmes, imagens, reportagens entre outros.

O segundo momento se refere à organização do conhecimento, momento em que o educador (ou educadores) seleciona quais conhecimentos científicos serão pertinentes para dialogar com as questões apontadas pelos estudantes. É o momento que também são apresentadas as estratégias e recursos didáticos a serem utilizados para alcançar os objetivos de aprendizagem.

A aplicação do conhecimento é a etapa em que o estudante, de posse dos conhecimentos abordados, faz uso destes para compreender a situação que originou a problematização e estabelecer relações com as perguntas iniciais vislumbrando soluções para a resolução do problema.

A seguir, serão apresentadas duas propostas de práticas pedagógicas realizadas no contexto das aulas presenciais e uma com a possibilidade de adaptação ao ensino remoto:

  • Espiral de ervas: valorizando o conhecimento e saberes da comunidade;
  • A formação de guardiãs e guardiões das sementes crioulas;
  • Compostagem na escola e em casa.

A escolha de apresentar essas práticas se deve ao fato de serem experiências que podem ser realizadas com poucos recursos e que proporcionaram importantes momentos de reflexões com toda comunidade escolar.

As práticas educativas que serão apresentadas foram planejadas para turmas dos anos iniciais[1], mas podem ser adaptadas para outros níveis. Além disso, essas propostas podem e devem ser realizadas conforme a realidade dos estudantes e o contexto em que a escola está inserida.

O planejamento precisa ser realizado de acordo com o cronograma escolar e isso exigirá uma reorganização dos horários das aulas para promover o trabalho coletivo entre os docentes, com o objetivo de efetivar a interdisciplinaridade e aproveitar melhor o tempo disponível para abordagens mais contextualizadas.

Para alcançar os objetivos de cada temática, é recomendado fazer práticas nas hortas escolares, experiências pedagógicas, entrevistas, visitas de estudo, oficinas pedagógicas com voluntários e famílias da comunidade.

[1] As práticas educativas apresentadas têm como referência as aulas realizadas entre 2018 e 2020 no contexto do Projeto Meio Ambiente em parceria com a Escola Básica Passo da Limeira e Escola Reunida Balcino Matias Wagner no município de Alfredo Wagner, estado de Santa Catarina.  As turmas tinham a carga horária de 2 horas/aula semanais destinadas ao projeto e uma educadora ambiental lecionando e orientando as aulas.

Práticas

Espiral de Ervas: valorizando o conhecimento e saberes da comunidade

6h (7 aulas)

Primeiro momento

A proposta deste momento é que os estudantes tragam os seus conhecimentos prévios sobre a temática, relacionando a importância das plantas medicinais em nossas vidas. Deste modo, faça uma sessão de questionamentos breves aos estudantes trazendo perguntas como:

  • Quem toma chá? Para que eles servem?
  • Quem gosta de temperos?
  • Quem tem chá e temperos na horta de casa?
  • Quais os nomes destas plantas?
  • Quais são os seus efeitos para o organismo humano?
Segundo momento

Deixe que os estudantes se sintam à vontade para exporem o que pensam sobre o assunto. Enquanto eles falam, é importante anotar no quadro as palavras-chave de suas respostas. Depois disso, é fundamental explicar o que são plantas medicinais e aromáticas, o que são princípios ativos e frisar que algumas plantas são benéficas e outras podem ser tóxicas ao nosso organismo.

Depois desta breve explicação você pode elaborar com os estudantes um pequeno roteiro de entrevista com perguntas como: Quais famílias tem plantas medicinais e aromáticas (temperos) em casa? Quais plantas medicinais e aromáticas são mais utilizadas e quais são seus principais usos? Deixe os estudantes à vontade para proporem outras questões.

Após retornarem com as respostas do roteiro, cada estudante compartilha os saberes de sua família com o restante da turma. Neste momento, também é interessante encaminhar que tragam algumas folhas das plantas para a confecção de um portfólio ou livro das plantas medicinais e aromáticas.

Como forma de divulgação da pesquisa, proponha que o portfólio ou livro produzido seja levado para casa por cada um dos estudantes. Assim, todas as famílias poderão conhecer e compartilhar dos conhecimentos e saberes desta temática.

Terceiro momento

Para colocar em prática os saberes e conhecimentos aprendidos, encaminhe com os estudantes para que tragam pela menos uma muda de “chá ou tempero” para fazer o plantio. Já na horta, apresente o conceito de espiral de ervas com o objetivo de chamar atenção para o formato não convencional do canteiro. Neste momento é importante explorar os conhecimentos dos estudantes sobre a posição do sol e ressaltar que as plantas possuem características e preferências diferentes em relação à luminosidade, solo, água entre outros fatores abióticos.

Dica – É importante (re)aproveitar materiais para a construção da espiral (rochas, tijolos, troncos). Após a base finalizada, cada estudante pode apresentar as informações que sabe sobre a muda que trouxe e com a ajuda de um guia, avaliar qual local seria mais apropriado na espiral para fazer o plantio.

Cabe ressaltar a importância desta prática para valorizar os saberes dos estudantes e de suas famílias. Isso refletirá no protagonismo e pró-atividade deles, que se sentirão seguros para compartilhar diferentes saberes.

Dica – Para potencializar essa atividade convide outros docentes e funcionários da escola, lembre-se que as famílias e a comunidade em geral são bem-vindas também.

Fotografia de um espiral de ervas com pedras empilhadas em forma de espiral junto a horta da escola e próximas a um muro de alvenaria.
Espiral de ervas junto a horta da escola.
Manutenção da espiral de ervas e distribuição das mudas entre estudantes.
Manutenção da espiral de ervas e distribuição das mudas entre estudantes.

A formação de guardiãs e guardiões das Sementes crioulas

15 aulas (20 horas)

 

Primeiro momento

Como na temática anterior, busque iniciar a aula com uma prática de problematização. As sugestões de perguntas buscam aproximar o estudante do tema, levantar conhecimentos prévios e até mesmo limites explicativos que podem ser aprofundados no decorrer das aulas. Use a criatividade neste momento e faça perguntas como:

  • De onde vem as sementes?
  • Todo fruto tem semente?
  • Toda planta nasce de semente?
  • Por que em alguns casos, é preciso comprar as sementes para o plantio?
  • Na sua família se costuma guardar, comprar ou trocar sementes? Por quê?
Segundo momento

Para fazer a introdução do assunto convide, se possível, uma guardiã ou guardião das sementes crioulas. Promova uma roda de conversa para que ele ou ela conte sobre o seu papel e trate de questões como:

  • O que são sementes crioulas?
  • Quais formas de resgatar as sementes crioulas?
  • O que é segurança e soberania alimentar?
  • Qual é a importância de preservar as sementes e garantir que a diversidade delas permaneça nos cultivos?

Apresente algumas variedades de sementes crioulas e distribua entre os estudantes.

Para dar sequência nos estudos você pode sugerir que se faça um levantamento para saber mais sobre as sementes crioulas do município e ao final, criar um banco de sementes na escola. Para isso, será necessário elaborar de forma coletiva um roteiro de entrevista junto aos estudantes.

Terceiro momento

Após a etapa de entrevistas, os dados deverão ser sistematizados e divulgados para a comunidade escolar (proponha ideias de divulgação, mas deixe os estudantes escolherem a preferência deles: redes sociais, vídeos, podcast, feiras, cartazes, folders entre outros).

Aproveite para dar destaque a alguns resultados obtidos nas entrevistas:

  • A semente crioula mais antiga (desde quando é plantada na família ou entre vizinhos);
  • A história de como a semente chegou até a pessoa;
  • Receitas de pratos típicos feitos com o cultivo de sementes crioulas.

Com esse caminho, os estudantes passarão a perceber a riqueza que as sementes trazem consigo. Oportunizando também valorizar a história e os saberes da comunidade.

Oficina sobre sementes crioulas
Distribuição de sementes crioulas para os estudantes.
Sementes crioulas da comunidade
Amostras de sementes crioulas obtidas na comunidade pelos estudantes.

A compostagem na escola e em casa 

6 aulas (7 horas)

Primeiro momento

Esta prática educativa pode ser desenvolvida no ensino presencial ou remoto. Inicie o debate fazendo as perguntas aos estudantes:

  • O que acontece com as folhas e frutos que caem no chão? Para onde vão?
  • E os galhos e troncos de árvores?
  • Vá para a área externa de sua casa (ou escola) e observe o que está acontecendo com as folhas das árvores, galhos, frutos que estão caídos no chão?
  • Qual o destino dos restos de alimentos/comida de sua casa?
Segundo momento

Aborde o conceito de decomposição e na sequência enfatize a importância dos microrganismos (fungos e bactérias) para a transformação da matéria. Utilize recursos audiovisuais para auxiliar na explicação.

Neste momento, é possível direcionar o assunto com o objetivo de aprofundar os conhecimentos em relação aos resíduos sólidos e a coleta seletiva. Neste caso, é importante considerar o contexto onde vivem os estudantes e compreender as suas realidades, pois nem sempre há coleta seletiva no município ou em todas as localidades e/ou bairros.

Por isso, é fundamental dialogar sobre a responsabilidade socioambiental individual, coletiva e das instâncias públicas para buscar possíveis soluções para essa problemática (a discussão deve ser feita respeitando o nível de ensino de cada turma).

Neste mesmo sentido, é valido fazer a discussão sobre o porquê de fazer uma composteira, visto que em contextos como na área rural os resíduos orgânicos costumam ser “destinados” à horta ou ainda, servem para alimentar animais. Na área urbana é indispensável que se fale sobre o destino dos resíduos e o impacto disso para o meio ambiente.

Essa discussão tem como objetivo evidenciar que ao “compostar” estamos produzindo adubo orgânico e reduzindo a quantidade de resíduos sólidos destinados a um aterro sanitário e em contrapartida pode-se produzir alimentos com qualidade e mais saudáveis.

Após essas explicações, encaminhe um vídeo com orientações para fazer o experimento de uma mini-composteira. A mesma deve ficar em observação durante aproximadamente 30 a 45 dias. Um dos objetivos é que os estudantes observem quais as principais mudanças que ocorrerão no experimento e acompanhem a transformação dos resíduos orgânicos e ao final, utilizem o adubo produzido.

Terceiro momento

Para colocar em prática os conhecimentos aprendidos, proponha como finalização que os estudantes façam uma composteira em casa, com os materiais e recursos que estão disponíveis.

Mini-composteira
Experiência da mini-composteira.
Compostagem em casa
Experiência da compostagem em casa.

reflexões

Por meio das três propostas de práticas educativas apresentadas é válido destacar alguns pontos convergentes. Dentre eles, a importância de valorizar os conhecimentos e saberes prévios que os estudantes e as famílias possuem. Esse movimento proporciona estreitar a relação e o diálogo entre escola-família-comunidade.

Deste modo, também é possível fortalecer o trabalho coletivo entre os docentes, promover abordagens mais contextualizas, problematizadoras e geradoras de reflexões e ainda, romper com a lógica dos conhecimentos segmentados.

Por fim, esse movimento potencializa a autonomia e o senso de responsabilidade dos estudantes, que não devem ser vistos apenas como espectadores das práticas e do conhecimento, mas sim, enquanto protagonistas deste processo de ensino e aprendizagem, bem como, agentes de transformação.

Com inspiração na perspectiva permacultural estas propostas buscam promover pequenas transformações na escola e consequentemente na formação de todos que fazem parte da comunidade escolar. Espera-se que essas práticas tornem-se inspiração para se pensar outros contextos e outras propostas educativas.

Conteúdo complementar

Vídeos

  • Assista à playlist Permacultura na escola no canal da Rede NEPerma Brasil.
  • Confira a série ComPOSTAGEM produzida pela Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo.

Leitura

Para conferir sobre espirais de ervas:

Para conferir materiais sobre sementes crioulas:

Referências sugeridas

DELIZOICOV, D.; ANGOTTI, J. A.; PERNAMBUCO, M. M.; colaboração de SILVA, A. F. G. Ensino de ciências: fundamentos e métodos.  4ª ed.  São Paulo, Cortez. 2011.

FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia – Saberes Necessários à Prática Educativa. 3ª ed. Rio de Janeiro: Paz e terra, 2015.

HOLMGREN, David. Permacultura: princípios e caminhos além da sustentabilidade. Tradução Luzia Araújo. Porto Alegre: Via Sapiens, 2013. 416 p.

Entre em contato com a autora.

A Permacultura como mediadora de práticas educativas na escola