Atualizado em
Arthur Nanni
A energia eólica está intimamente vinculada à do sol, pois o aquecimento de superfícies com diferentes albedos irá produzir áreas com diferentes pressões, gerando assim as condições para o fluir dos ventos. Não à toa, desertos secos geralmente apresentam muita insolação e ventos persistentes.
Ventos mais intensos estão geralmente presentes em paisagens vinculadas à planícies costeiras e de vales abertos. Aparecem também em planaltos e topos de serras e chapadas onde a altitude expõe estas elevações permitindo o fluir mais intenso do ar. Indicadores podem dar uma ideia dessa intensidade, como árvores com crescimento pendendo para uma direção, como é o caso da Chapada do Araripe no Ceará.

Já, ventos de baixa intensidade são geralmente negligenciados em nosso dia-a-dia, mas se olharmos atentamente eles estão presentes em todas as pequenas tarefas que a natureza realiza moldando paisagens, deslocando nuvens para criar chuvas, transportando pólens e gerando frutos e, claro, sendo transformado em outras energias, como a elétrica, gerada por meio de aerogeradores.
Assim, a energia dos ventos está mais presente do que você pensa no dia-a-dia, podendo ser aproveitada para promover a ventilação de casas, auxiliar no manejo da biomassa, desidratar folhas e frutos e no desenvolvimento de cultivos quando os ventos precisam ser atenuados por quebra-ventos para minimizar a desidratação das plantas e, até mesmo, evitar prejuízos com arrancamento e tombamentos de árvores.
O aproveitamento dos ventos na permacultura pode ser feito de diversas formas buscando sempre otimizar a eficiência energética e aumentar resiliência da paisagem planejada. O uso criativo e racional atenta para os princípios de observação, captação de energia e integração.
Dessa forma, buscamos aproveitar todas as manifestações da energia eólica, independente da sua intensidade. Nesse sentido, trazemos a seguir algumas tecnologias e técnicas que nos auxiliam a enxergar o potencial de aproveitamento de cada fluxo de ar que cruza a paisagem.
Ventos fracos em vales fechados
👆🏼Entenda os Contextos fitoecológicos onde a técnica é adequada
Em paisagens de fundo de vale com presença de fluxos lentos de ventos e curta duração da insolação, é preciso olhar atentamente para os potenciais de aproveitamento de ambas energias. Desta forma, o planejamento precisa atentar para o posicionamento relativo dos elementos na paisagem, buscando melhor aproveitar os fluxos para efetivar os ciclos de manejo de diferentes elementos.
Características
Paisagens de vales fechados e profundos com pouca incidência de ventos e luz solar, onde os fluxos precisam ser otimizados para cumprir funções para elementos.
Necessidades
Depende de uma boa leitura da paisagem ao longo do ano, do reconhecimento de setores e de técnicas de manejo e dispositivos apropriados que estimulem o fluxo dos ventos e explorem ao máximo a insolação.
Funções
Muitas “pequenas” funções podem ser realizadas por esses fracos fluxos eólicos e insolação limitada, tais como:
- secagem de roupas;
- coleta de plantas aquáticas em açudes e tanques;
- ventilação de cultivos;
- secagem de lenha;
- secagem de grãos.
As técnicas em detalhe
A incidência de ventos poucos intensos é comum em vales fechados em climas úmidos, comuns em contextos fitoecológicos de Floresta Ombrófila Densa (FOD), Mista (FOM) e Aberta (FOA) e, nas Florestas Estacionais (FED e FES) e transições (ecótonos) entre estas.
O micro aproveitamento desses fluxos exige muita interpretação e interação com os diferentes setores na paisagem buscando “vencer” os pequenos manejos do dia-a-dia, como a secagem de roupas, o manejo de plantas, ou mesmo, a secagem de lenhas e grãos.
A secagem de roupas com o varal alongado no sentido Sul-Norte permite que o sol pegue em ambos os lados das roupas, para melhor secar as peças estendidas no varal.
A valorização das bordas com o posicionamento relativo do varal entre elementos com diferentes albedos como açude (zona 2) e os canteiros (zona 1), estimula/provoca a circulação de ar, melhorando a eficiência do processo de secagem das roupas. A circulação desse ar será benéfica também às culturas dos canteiros, pois diminuirá a incidência de fungos nas plantas.
No contexto do Sítio Igatu, localizado num vale da serra do leste catarinense, vento e sol são restritos. Assim, “casar” a ocorrência de ambos é crucial para a efetividade das atividades cotidianas. Para se ter uma ideia, num dia de sol de inverno há apenas 6 horas de insolação e esta, ocorre de forma pouco intensa devido ao período frio. Desta forma, aumentar a diversidade de direções de incidência da luz solar com canteiros redondos e, permitir “microcorredores” de circulação do ar alinhados em diferentes direções, melhoram as chances de sucesso no desenvolvimento das culturas, bem como, permitem diversificar estas, explorando-se cada pequeno nicho de microclima conformado no arranjo dos canteiros.
Outra estratégia interessante para locais de pouca incidência de ventos é a adoção de elementos de “afunilamento” dos fluxos, utilizando-se árvores de maior porte e paredes de edificações como a casa ou galpões, criando-se corredores de vento.

O aproveitamento da biomassa de plantas aquáticas pode ser um grande aliado na fertilização de solos para produção de alimentos. Para coletá-las com maior facilidade, no Sítio Igatu espera-se a ocorrência do vento sul para acumular as plantas no lado certo de coleta das plantas, onde passa a entrar em ação a energia da gravidade. Leia a descrição completa dessa técnica de coleta de biomassa em “Açude-bomba” [link em breve].


Aliada ao fluir do vento, a exposição para a direção onde a luz solar é mais prolongada ao longo do dia, é crucial para uma boa secagem da lenha. No sítio Silva, a família mantém a pilha de lenha voltada para oeste e armazenada ao lado de um acesso que limita as zonas 1 e 5. Nesse acesso há maior circulação de ar e o intenso manejo de culturas de baixo porte na zona 1, fazem com que sejam mantidas as condições abertas para a incidência de insolação. Mesmo com todos esses cuidados, a lenha estará pronta para uso apenas depois de 1 a 2 anos, devido ao clima ser muito úmido. Daí a importância de uma boa leitura da paisagem e de um planejamento com posicionamento relativo adequado de elementos.

Assim, para se ter lenha pronta e disponível para uso, é preciso incluir no manejo das árvores uma boa programação de corte, buscando atender além desta, também outras demandas de manejo na paisagem, como abertura de luz, podas de biomassa ou de condução, cumprindo assim, mais funções e poupando o gasto de energia animal empregada.
A secagem de grãos em contextos fitoecológicos, como os das Florestas Estacionais Deciduais e Semideciduais, que têm estação seca bem definida, é outra aplicação do uso dos ventos aliado à insolação. Os terreiros de secagem dos grãos de café, presentes em boa parte dos espaços familiares de produção de alimentos é um bom exemplo. No caso da família Canova, o terreiro fica na Zona 1 ao lado do galpão e opera como pátio de manobras quando não está sendo utilizado para a secagem.

Verificação de aplicação
O terreiro de secagem de grãos de café foi verificado em 2022 no Sítio da Família Canova em Alegre/ES. Documentado desde 2009, o espaço começou a ser planejado em 1949 por Valdeci Canova, um agricultor e educador com visão muito à frente do seu tempo. Com um sistema agroflorestal em clímax, hoje o espaço segue sendo manejado por seu filho Santos.
A secagem de lenha foi verificada no Sítio Silva em Anitápolis. Os demais exemplos foram verificados em 2021 e 2025 no Sítio Igatu em São Pedro de Alcântara. Ambos espaços estão em Santa Catarina..
Referências de suporte
MCKENZIE, L. LEMOS, E. A Permaculture Guidebook from East Timor. 2nd edition. Permatil. 2008. 384p. https://permatilglobal.org/complete-guidebook/
Rede NEPerma Brasil (2021). Permacultura em Prosa visita o Sítio Silva em Anitápolis [Gravação de vídeo]. https://tubedu.org/w/v5ERvfcopFYeu8DLyZ93dk
Rede NEPerma Brasil (2021). Aula 8—Leitura da paisagem [Gravação de vídeo]. https://tubedu.org/w/913SB6g58rLxfmHA7GbXdF
SANTOS, O. L., REINATO, C. H. R., JUNQUEIRA, J. D., FRANCO, E. L., SOUZA, C. W. A. & REZENDE, A. N. (2017). Custo-benefício da secagem de café em diferentes tipos de terreiro. Revista Agrogeoambiental, 9 (4), 11-21. Doi: http://dx.doi.org/10.18406/2316-1817v9n42017966
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