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Compreendem as possibilidades de reaproveitamento das águas que tiveram algum uso no espaço de planejamento. Aqui são apresentadas técnicas de tratamentos pós-uso e destinação para outros elementos na paisagem, tais como:
Círculo de bananeiras
Arthur Nanni
👆🏼Entenda os Contextos fitoecológicos onde a técnica é adequada
Círculo de bananeiras é um elemento clássico de saneamento ecológico descentralizado, bem difundido no Brasil. Trata-se de um dispositivo de tratamento de águas cinzas provenientes de usos domésticos nos tanques, pias, chuveiros e máquinas de lavar roupas e louças. A lógica por trás dessa tecnologia é a compreensão de efluente doméstico como um recurso e não como um problema.
Características
Trata-se de uma estrutura com uma escavação com dimensionamento definido pela demanda – número de pessoas e usos – que busca tratar as águas usadas, por meio das raízes e da microflora e microfauna que se forma ao redor delas, com aproveitamento também da evapotranspiração das águas via plantas de folhas largas, como bananeira, inhame, taioba, etc.
Adequada para solos não muito permeáveis e climas que não sejam muito frios ao ponto de ocorrerem geadas ou neve. Nestes casos este sistema é possível mas requer adaptações de espécies, aumento da quantidade de círculos ou do comprimento das valas e consciência da possibilidade de infiltração dos líquidos em vez do tratamento e evapotranspiração. Também não é adequado para terrenos frequentemente alagados. Normalmente é instalado próximo às casas e estruturas construídas, portanto na zona 1.
Necessidades
A tecnologia social necessita para sua implantação de solo não muito permeável (argilas e siltes), um leve desnível a partir das fontes geradoras de águas cinzas, plantas com alto poder de transpiração (folhas largas), além de troncos e galhos grossos ou outro material biodegradável e poroso a serem depositados dentro, para constituir uma parte estrutural e uma superfície para o desenvolvimento de um biofilme que auxiliará na decomposição da matéria orgânica que vier nas águas cinzas.
Por se tratar de um sistema de tratamento vivo, há necessidade de manutenção (limpeza) de tempos em tempos, através da retirada de todo o material acumulado no buraco a ser encaminhado para uma compostagem, e a reinstalação e reconstrução dessa parte interna do sistema com o buraco e a camada de galhos coberta com palhada.
Funções
O círculo de bananeiras tem a função primordial de tratar e destinar as águas cinzas, mas também:
- Reutilizar águas cinzas como fertilizadoras de plantas que podem produzir excedentes e ter outras funções;
- Gerar lodo fertilizado para aplicação em árvores ou para compostagem;
- Gerar biomassa.
A tecnologia em detalhe
O círculo de bananeiras baseia-se na mímica da natureza, que nos apresenta plantas com grande área foliar e alto poder de evapotranspiração, bem adaptadas a áreas úmidas. Essas áreas são filtros naturais que, por possuírem baixa energia de escoamento das águas, retém matéria orgânica e metais, operando como um verdadeiro filtro de impurezas, deixando passar águas com melhor qualidade, por meio da incorporação em sua biomassa e pela evapotranspiração, que retorna água limpa para a atmosfera.
A abertura do círculo de bananeiras prevê a escavação dos horizontes A e B do solo, sendo o que o último não deve ser rompido (até o C), pois possui geralmente mais argila, um importante fator impermeabilizante, que reduz a infiltração e contaminação para estratos mais profundos de solos na paisagem. Dessa forma, sugere-se escavar profundidades em torno de um metro, mas sempre tendo o cuidado de permanecer dentro do horizonte B.
Em locais onde há horizonte A passando diretamente para o horizonte C de solos (neossolos), a tecnologia é desaconselhada, mas caso se deseje implantá-la, adaptações podem ser feitas. Nesse caso, sugere-se a aplicação de uma camada (em torno de 15 cm) compacta de argilas no fundo e nas paredes da escavação. O uso de lonas plásticas é desaconselhado, pois as mesmas têm vida útil curta se tornando um problema adicional.
O dimensionamento dependerá do volume de águas cinzas geradas. Para uma família média brasileira de 4 pessoas, o indicado é 1 m3 ou uma caixa d’água de 1000 L em climas úmidos como da Floresta Atlântica e Amazônica. É importante que a escavação não seja muito larga, 1 m de largura está bom, para haver o sombreamento completo das águas quando as bananeiras estiverem adultas. Isso evitará odores ruins oriundos do sol que pega nas gorduras que vêm com as águas cinzas. Assim, para projetos coletivos, o indicado é fazer um corredor de bananeiras com largura de 1 a 1,5 m, de preferência em padrão meandrante, para maximizar os sombreamentos e conferir estabilidade à escavação.
Em situações de solos arenosos com presença de horizonte A e onde o horizonte B apresentará alta permeabilidade, vale também a adaptação com uma camada de argila. Se houver longo período de estiagem, como a Caatinga e Cerrado, não há a necessidade de impermeabilização com argilas, mas aconselha-se a relocação das plantas do camalhão para a parte interna do dispositivo.

Em terrenos muito planos, sujeitos a alagamentos, sugere-se levantar os camalhões para evitar a entrada de águas laterais. Caso o lençol freático esteja muito próximo à superfície do terreno, essa tecnologia é desaconselhada, daí outras opções mais indicadas podem ser, a zona de raízes operando em caixa estanque ou em sistema em espiral, com posterior reutilização dessa água para irrigação.
Em locais frios, onde são registradas geadas brandas, sugere-se a implantação de plantas de folhas largas em diferentes estratos. Assim, teremos as bananeiras como estrato mais alto, que sofrerão com o frio, mas haverá o suporte de plantas mais baixas, como o inhame ou a taioba para seguir evapotranspirando e “sugando” as águas fertilizadas quando as bananeiras forem atingidas por frios extremos, geadas ou neve. Ainda considerando as temperaturas baixas, a tecnologia é desaconselhada para regiões como a Estepe e a Floresta ombrófila mista, presentes no sul do Brasil, em virtude do frio intenso e o potencial comprometimento das plantas evapotranspirantes, gerando colapso do sistema.
Um passo-a-passo de como construir um círculo de bananeiras pode ser encontrado na cartilha Tratamento de esgoto na zona rural: Fossa verde e círculo de bananeiras e, também, em Manejo Sustentável da Água, publicado pelo IPOEMA em 2014.
Verificação de aplicação
As implantações mostradas aqui foram conferidas em dois locais com contextos bioclimáticos diferentes. O círculo de bananeiras do Sítio Maravilha em Araçuaí/MG, uma unidade experimental e demonstrativa de permacultura, gerenciada pelo permacultor Celso de Souza Silva, integrante da equipe do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, foi visitado em agosto de 2024 e mostra o desenho para climas com alternância de estações secas e chuvosas. Já no Sítio Igatu em São Pedro de Alcântara/SC, visitado em fevereiro de 2025, é usado o esquema de estruturação para climas chuvosos e frios.
Bibliografia
Castagna, G., Barros, L., Yamamoto, P., & Dias, J. (2019). Manejo da água: Guia prático. Instituto de Projetos e Pesquisas Socioambientais. https://ipesa.org.br/arquivos/cartilha_manejo_da_agua_ipesa_v2.pdf
Figueiredo, I. C. S. (2018). Tratamento de esgoto na zona rural: Fossa verde e círculo de bananeiras. Biblioteca/Unicamp. https://www.fecfau.unicamp.br/~saneamentorural/wp-content/uploads/2017/11/Fossa-Verde-e-C%C3%ADrculo-de-Bananeiras-UNICAMP.pdf
IPOEMA. (2014). Manejo Sustentável da Água. Instituto de Permacultura: Organização, Ecovilas e Meio Ambiente. https://ipoema.org.br/wp-content/uploads/2019/05/Cartilha-A%CC%81gua-Sustenta%CC%81vel_2019.pdf
Paulo, P. L., Galbiati, A. F., & Magalhães Filho, Fernando Jorge Corrêa. (2018). CataloSan—Catálogo de Soluções Sustentáveis de Saneamento: Gestão de Efluentes Domésticos. Ministério da Saúde, Fundação Nacional de Saúde. http://www.funasa.gov.br/documents/20182/39040/CATALOSAN.pdf/ab32c6fc-c7ee-406f-b2cd-7eba51467453
Zona de raízes em espiral
Arthur Nanni
👆🏼Entenda os Contextos fitoecológicos onde a técnica é adequada
O tratamento de águas cinzas com zona de raízes é bem conhecido e difundido na permacultura. São sistemas inspirados em áreas alagadas naturais que funcionam como filtros de nutrientes, purificando as águas que por elas passam.
O uso de padrões naturais pode melhorar o desempenho dessa filtragem -o tratamento – e gerar subprodutos que podem ser utilizados como insumos em outros processos dentro do espaço planejado, agregando mais funções a esse elemento.
Características
Um sistema de tratamento de águas cinzas por meio de plantas aquáticas flutuantes, que opera em um circuito linear em forma de espiral, construído em ferro-cimento.
A retenção de nutrientes na biomassa das plantas aquáticas pode chegar a 90%, fazendo com que o efluente final apresente boa qualidade e possa ser utilizado em outros processos, atendendo as necessidades de outros elementos na paisagem planejada.
Necessidades
Para implantação, o sistema necessita de espaço físico capaz de comportar o volume das águas cinzas geradas e de impermeabilização com concreto do leito do elemento. Além disso, necessitará da inserção de plantas aquáticas adaptadas às condições bioclimática locais.
O manejo compreende a retirada periódica de parte das plantas, permitindo que os indivíduos que ficam no sistema, sejam as matrizes para a propagação e manutenção do serviço de tratamento das águas. Na estação quente o manejo exige maior frequência devido ao rápido crescimento das plantas.
Funções
O sistema de tratamento tem como funções:
- Tratar as águas cinzas domésticas;
- Gerar biomassa de adubação para plantios em outras zonas;
- Irrigar hortas e viveiros na mesma zona;
- Alimentação de pequenos animais.
A tecnologia em detalhe
Trata-se de um sistema que mimetiza áreas alagadas naturais por meio de um reservatório que nivela volumes de águas cinzas e, contém plantas aquáticas flutuantes, que se beneficiam da carga de nutrientes provenientes das águas cinzas domésticas.
Segundo Sfredo (2013) o sistema foi construído em 2008 durante um curso de permacultura realizado no Instituto Çarakura, para atender à demanda de tratamento de águas cinzas geradas pela pia da cozinha do sítio. O seu funcionamento iniciou apenas em 2009.
Segundo Sfredo (2013), o centro do sistema possui:
… um tubo de concreto de 90 cm de diâmetro, com um fundo falso que fica há 10 cm acima do fundo verdadeiro e consiste num disco de cimento perfurado, pelo qual o cano de entrada do sistema passa, liberando o efluente nesse espaço sob o disco perfurado. Acima desse disco, o cilindro foi preenchido com cascalho e restos de materiais do sítio (como pedaços de telha, etc). Ao redor desse cilindro foi erguida uma parede fina em espiral, contabilizando três voltas a partir do ponto inicial, utilizando-se a técnica de ferrocimento, que consiste na utilização de uma tela de ferro como armação, sobre a qual foi aplicada uma massa de brita, areia e cimento. O wetland tem aproximadamente 3,30 m de diâmetro e 0,53 m de altura.
Em relação a trajetória do efluente, a autora coloca que o mesmo:
… passa pela caixa de gordura, e chega ao sistema abaixo do fundo falso do tubo central e, por ascensão, o efluente sobe até transbordar do tubo central para o início da espiral e preenche toda a estrutura. Nessa primeira etapa o efluente já é filtrado fisicamente, ao passar pelo disco perfurado e pelos cascalhos e biologicamente, pelo biofilme que se forma na superfície do cascalho.
Em relação às plantas, foram introduzidas três espécies vegetais aquáticas flutuantes: Eichhornia crassipes, Pistia stratiotes e Spirodela intermedia, sendo que a primeira, no período de verão cresce mais intensamente, prevalecendo sobre as demais, exigindo um manejo de retirada mais frequente.
Segundo Sfredo (2013) “a manutenção de uma densidade ótima de biomassa, ou seja, sem que haja sobreposição de biomassa e clareiras na superfície, é fundamental para o sucesso do tratamento”. Ainda menciona que a planta “S. intermedia possui alto teor proteico e pode ser utilizada como complemento na alimentação dos animais criados no sítio, como patos, galinhas e ruminantes”, atribuindo uma função adicional ao elemento.
A autora conclui ainda que o sistema com plantas aquáticas flutuantes “apresenta boa eficiência no tratamento de águas cinzas”.
Verificação de aplicação
A técnica foi verificada em 2010 e as informações aqui descritas foram retiradas do trabalho de conclusão de curso em biologia de Júlia Sfredo, intitulado “Eficiência de um sistema wetland construído em espiral no tratamento de águas cinzas ”, publicado em 2013.
Bibliografia
Sfredo, J. B. (2013). Eficiência de um sistema wetland construído em espiral no tratamento de águas cinzas [Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Ciências Biológicas]. https://repositorio.ufsc.br/xmlui/handle/123456789/132672
Tanque/Bacia de evapotranspiração
Adriana Galbiati e Arthur Nanni
👆🏼Entenda os Contextos fitoecológicos onde a técnica é adequada
O tanque (TEvap) ou bacia (BET) de evapotranspiração é um sistema destinado exclusivamente ao tratamento de efluentes provenientes da bacia sanitária. Seu objetivo é tratar o efluente como um recurso e promover o aproveitamento da água e seus nutrientes, evitando seu lançamento em mananciais superficiais ou subterrâneos, a eutrofização e o comprometimento da biota aquática.
O desenvolvimento desta tecnologia aconteceu no movimento de permacultores do Brasil, a partir de sistemas similares, como o Watson Wick, praticados nos EUA. Um modelo mais próximo do que é descrito neste texto, foi idealizado por um grupo de permacultores em um encontro realizado no Instituto de Permacultura e Ecovila dos Pampas, em Bagé/RS, em 2000, conforme relata o permacultor Jorge Timmermann:
[…] numa aula de ecovilas, e chegando na concretização do conceito de “Emissão zero”, Scott Pittman narrou o fato de ter na sua casa um sistema de tratamento integral das “águas servidas”. […] este sistema de “Emissão zero” garantia o tratamento dos efluentes e a eliminação da água por evapotranspiração e […] estava instalado dentro da casa de Scott no Novo México/EUA.
[…] Todos saímos deste evento com muitas ideias novas e práticas mobilizadoras. Cada um imaginou como materializar este sistema em suas casas. Era uma forma muito legal de resolver o tratamento das águas servidas e responder ao imperativo de “Emissão Zero”, descrito como um sistema que digeria os resíduos sólidos e, evapotranspirava os líquidos.
[…] Eu me lembro do IPEC instalando um sistema onde a câmara inferior, para a fase séptica, era feita com blocos de cerâmica… outros a faziam com calhas de concreto furadas. A dimensão descrita era de 2m2 por pessoa.
O TEVap/BET é comumente aplicado em contextos rurais e periurbanos, mas pode ser usado em áreas urbanas, onde haja espaço suficiente para sua implantação.
Características
Tanques (TEvap) ou bacias (BET) de evapotranspiração são sistemas vivos e descentralizados de tratamento de efluentes domésticos, constituídos por reservatórios estanques utilizados no tratamento de águas da bacia sanitária, cujo destino (sumidouro) dos poluentes (nutrientes) é a biomassa das plantas e, das águas, a atmosfera por meio da evapotranspiração.
A eficiência do sistema está diretamente relacionada à capacidade de evapotranspiração das plantas, às condições climáticas e ao desenho escolhido para o sistema. Quando corretamente dimensionado e manejado, o sistema tende à estabilidade operacional, sem necessidade de remoção periódica de lodo.
Necessidades
Quando dimensionada para uso em um domicílio familiar, a tecnologia exige pouco espaço físico. Para uma família média de 4 pessoas no contexto do bioma floresta atlântica, por exemplo, a área de terreno necessária é de 8m2 de estrutura e mais uma faixa de 1m em volta para permitir seu manejo, totalizando 24m2. Lembrando que teremos ainda outra tecnologia de tratamento para o restante dos efluentes da casa (água cinza), tal como o círculo de bananeiras, que exigirá algo entre 8 e 16m2 de área adicional.
O funcionamento adequado do sistema requer a separação entre água da bacia sanitária e água cinza, sendo o TEvap/BET destinado apenas ao efluente da bacia sanitária.
Para fins da implantação a profundidade do lençol freático deve oscilar abaixo da cota de fundo do tanque.
Por se tratar de um sistema vivo de tratamento de águas residuais, é necessário o manejo das plantas para obter-se a contínua evapotranspiração. Ao cortá-las, as plantas podem ser direcionadas para outros fins, como a adubação de canteiros da Zona 1 ou árvores frutíferas na Zona 2 ou em sistemas agroflorestais (SAF), geralmente presentes na Zona 3. Saiba mais sobre zonas energéticas no planejamento.
Por precaução, ao manejar os solos do leito de plantio deve-se sempre considerar que estes estão contaminados. Assim, é recomendado o uso de EPI, como luvas, botas, bem como uma boa higienização posterior das ferramentas.
A partir da observação de sistemas ao longo de 3 décadas, pode-se afirmar que o TEvap/BET dispensa a remoção periódica de lodo. Mesmo assim, é necessário haver um tubo de inspeção para controle e eventual sucção, caso o sistema apresente problemas de funcionamento.
Na limpeza do vaso sanitário deve ser evitado o uso de desinfetantes clorados, pois o cloro, por ser bactericida, poderá comprometer a efetividade da decomposição da carga orgânica por parte das bactérias. Ao invés do cloro, use vinagre e bicarbonato para higienizar o vaso sanitário.
Funções
A função primordial do TEvap/BET é o tratamento das águas contaminadas com patógenos, agregando-se a produção de alimentos como a banana, a geração de biomassa para adubação e, claro, evitar a contaminação das águas de mananciais superficiais e subterrâneos, uma vez que o sumidouro passa a ser a biomassa das plantas e a atmosfera. Ainda pode-se agregar como funções, a melhoria no paisagismo e no microclima.
A tecnologia em detalhe
O TEvap/BET é implantado a partir de uma escavação com dimensões previamente estabelecidas e posteriormente impermeabilizada. Essa impermeabilização pode ser feita com lona plástica de alta resistência, podendo ser utilizada lona de 500 micra ou múltiplas camadas com menor espessura. Outra opção é a utilização de alvenaria ou ferro-cimento, o que torna o projeto mais oneroso e exige um cuidado extra na estrutura, com uso de concreto na base e na cinta de amarração, além do uso de impermeabilizantes na massa de cimento e no revestimento. Ainda há, sistemas modulares que usam reservatórios plásticos estanques interconectados.
A partir da saída do tubo de 100mm do vaso sanitário, a tubulação direcionada ao TEvap/BET deve apresentar declividade mínima de 2%, e a área de instalação deve ser preferencialmente plana e as bordas do tanque precisam ser niveladas.
O tanque é preenchido de baixo para cima com materiais que irão fazer uma mímica da natureza, buscando incentivar os processos de decomposição, filtração, capilaridade, fertilização das plantas e evapotranspiração.
Na base do tanque é formada uma câmara séptica ou de recepção do efluente com pneus justapostos e preenchimento com entulho cerâmico, criando espaços para armazenamento e circulação do efluente. Sobre essa camada há diferentes estruturações possíveis, uma é a colocação de uma manta geotêxtil sobreposta pela terra local oriunda da escavação, buscando-se replicar a estrutura original dos solos, geralmente os horizontes A e B. Outra é substituir a manta geotêxtil por camadas finas de brita 4, seguida da brita ¾, pedrisco, areia e, por último, o solo que foi removido na ocasião da escavação. Esse último, constituirá a base para o plantio das plantas evapotranspirantes e, indica-se que esta apresente leve elevação central, como um grande canteiro de plantio.
O sistema promove a retenção e digestão da matéria orgânica na sua porção inferior, que permanece constantemente submersa em água, onde ocorre a atuação de microrganismos anaeróbios. O entulho cerâmico funciona como meio suporte para o biofilme de bactérias, servindo como filtro biológico. A camada de solo acima da manta geotêxtil, exerce a função de filtração física e permite a decomposição aeróbia e anaeróbia da matéria orgânica, em função da flutuação do nível d’água interno ao tanque. Os nutrientes liberados no processo de decomposição são absorvidos pelas plantas, enquanto a água é removida principalmente por evaporação e transpiração vegetal (evapotranspiração).
Assim como o sistema convencional de tratamento de esgotos fossa-filtro-sumidouro, o TEvap/BET apresenta 3 estágios: câmara séptica ou de recepção, o filtro e o sumidouro. Assim, a seguir trazemos uma descrição dos estágios de tratamento dos efluentes, fazendo-se uma analogia com o sistema convencional, no intuito de facilitar a compreensão do funcionamento da tecnologia social.
Câmara séptica ou de recepção
A câmara séptica ou de recepção deve ser disposta no eixo mais alongado do sistema e pode ser construída com diferentes materiais. Através de um corredor de pneus, manilhas de concreto ou, ainda, por meio de um túnel de alvenaria. Comumente usam-se pneus velhos justapostos, conferindo-se uma utilidade a mais a esse resíduo não tão inerte, em conformidade com o princípio não produza desperdícios. Quando feita de alvenaria ou com manilhas de concreto, o sistema se torna mais oneroso em virtude dos materiais e mão-de-obra.
A câmara de recepção conformada em um túnel visa aumentar a capacidade de movimentação de sólidos que adentram o sistema, evitando o entupimento do entulho cerâmico. Essa camada de entulho pode ser constituída de rachão ou outros resíduos inertes. Indica-se o uso de entulhos cerâmicos por se confirmarem como um grande problema ambiental e apresentar porosidade elevada, o que aumenta a superfície para deposição de biofilme.
Na câmara de recepção e no nível de entulho cerâmico alagado ocorrerá a fermentação (digestão anaeróbia) da matéria orgânica promovida pelas bactérias presentes, da mesma forma que ocorre em uma fossa ou tanque séptico.

Filtro
O estágio de filtragem é ascendente e inicia-se já no nível dos entulhos cerâmicos (inertes), onde se estabelece o biofilme de bactérias que funciona como filtro biológico.
Esse preenchimento é seguido de materiais de granulometria cada vez mais fina até tapar os pneus da câmara séptica. Deste nível para cima, o preenchimento dependerá do tipo de TEvap/BET que será construído, usando-se simplesmente manta geotêxtil separando a camada de entulho do solo local ou pelo empilhamento de camadas constituídas por brita de tamanho “3/4”, depois pedrisco, areia e, finalmente, o solo local escavado, sem necessidade da manta geotêxtil. Em ambos os tipos a finalização será feita por um canteiro abaulado onde serão introduzidas as plantas.
A partir da camada de solo, que apresenta maior superfície específica entre os grãos, além da subida do nível da água pela entrada de efluente, acontece também a ascensão da água por capilaridade através do solo, chegando às raízes das plantas e também até a superfície.
Sumidouro
Em sistemas convencionais do tipo fossa-filtro-sumidouro, esta última etapa do tratamento prevê a infiltração do efluente residual das duas etapas anteriores nos solos ou, quando estes têm pouca capacidade de infiltração, geralmente o efluente é lançado diretamente em mananciais, causando poluição. Visto que a eficiência do sistema convencional varia bastante, o mais certo é atribuir que estaremos contaminando as águas, tanto subterrâneas, quanto superficiais.
Nesse sentido, por se tratar de um sistema ecológico de tratamento, o TEvap/BET é estanque, com abertura apenas para a atmosfera onde as plantas atuarão como sumidouro, eliminando os efluentes tanto pela evapotranspiração como pela incorporação de nutrientes na biomassa das plantas. Em alguns casos, eventuais excedentes de efluentes podem ser direcionados para valas de infiltração para efetivar o processo de tratamento em nível subsuperficial de solos (horizonte A), que são mais aerados e contam com uma biota mais diversa e ativa para realizar esse processo.
Desta forma, para que a etapa de evapotranspiração seja efetiva, são indicadas plantas de folha larga, com crescimento rápido e grande consumo de água, por apresentarem maior eficiência no processo. Podem ser utilizadas inúmeras outras espécies, de acordo com as condições bioclimáticas locais. Assim, recomenda-se pesquisar para escolher plantas melhor adaptadas em sua região para cumprirem a função de “sumir com as águas”.
Comumente, usam-se bananeiras para esse serviço, visto que possuem capacidade de evapotranspiração oscilando entre 27 e 36L/dia por indivíduo, o que permite atender à demanda familiar de acionamento de ciclos da descarga do banheiro, estimada em 5 vezes/pessoa/dia em média, totalizando 60 litros/dia por pessoa. Porém, a depender de onde se esteja, outras culturas podem e devem ser usadas, na busca da eficiência da tecnologia, como é o caso do TEvap/BET da Mora Ekoa em SC, onde buscou-se usar plantas de porte menor visando não sombrear a edificação ao lado.

Para atender uma das necessidades desse elemento na paisagem planejada, o manejo das plantas deve considerar os restos de podas como insumo de algum outro elemento. No Sítio Igatu em Santa Catarina, a biomassa de bananeiras e folhas de inhame são comumente utilizados como substrato dos canteiros, pois tanto esses, quanto o TEvap/BET estão lado-a-lado na Zona 1, o que facilita o manejo.

Agregando-se mais uma função ao TEvap/BET, podemos integrar outros cultivos, como tomate, milho, mamão e abóbora. Seu consumo é estimulado pois não terão contato com o solo. O consumo de tubérculos de inhame e outras raízes é desaconselhado, por haver o contato direto com o solo interno do sistema, que devem ser considerados como contaminados, por precaução.
O uso do capim vetiver como elemento de evapotranspiração vem sendo testado em TEvap/BET propostas pelo Laboratório de Design e Meio Ambiente da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) em Santa Catarina. Nesse caso, o sistema ainda mistura águas da bacia sanitária com a água cinza. Esta adaptação da tecnologia foi adotada no município de Indaial/SC para o tratamento de efluentes em áreas rurais, transformando o TEvap/BET em uma política pública.

Tipos de TEvap/BET
Com muretas laterais
Este tipo de TEvap/BET é geralmente construído de alvenaria e conta com uma mureta ao redor do tanque, que ultrapassa o nível da superfície do terreno. Essa mureta busca evitar a entrada lateral das águas de escoamento superficial do terreno, mas ao mesmo tempo pode impedir a saída da água da chuva que cai na porção interna do sistema. Por essa razão o canteiro interno deve ser abaulado buscando-se estimular o escoamento para as laterais do tanque.
Caso haja muita chuva ou uso intenso do TEvap/BET acima da sua capacidade, para drenar volumes excedentes, o sistema deverá contar com um dreno lateral instalado abaixo do nível da entrada do efluente no tanque, visando encaminhar esses eventuais efluentes excedentes para uma vala de infiltração ou para um círculo de bananeiras.

As instruções detalhadas de como construir este modelo de TEvap/BET podem ser encontradas na cartilha “Fossa ecológica – TEvap” da Emater/MG, no capítulo “Fossa verde” do livro Tratamento de esgotos domésticos em comunidades isoladas e, ainda, na cartilha Tratamento de esgoto na zona rural: fossa verde e círculo de bananeiras. Esses materiais ilustram o processo construtivo, porém há detalhes que não estão incluídos, como o tubo de drenagem, que deve ser instalado em um nível abaixo do nível do tubo de entrada de efluentes.
Enterrada
No modelo “TEvap/BET enterrada”, o canteiro de plantio é integrado ao terreno adjacente, estendendo-se aproximadamente 50 cm além dos limites do tanque. Essa configuração evita que, em eventos de elevada pluviosidade, o efluente entre em contato com a superfície do solo. Nesses casos, o extravasamento de efluente ocorre logo abaixo da superfície e, devido à saturação do solo, o escoamento superficial das águas pluviais será direcionado para as valetas laterais.

O canteiro de plantio deve ser abaulado e contar com uma altura na parte central em torno de 20 a 30 cm acima do nível do terreno, finalizando em uma depressão que circunda todo o tanque (valeta suave), evitando o acúmulo das águas das chuvas.

Em casos onde onde a taxa de infiltração dos solos locais for baixa, deve-se construir uma vala de infiltração beirando a lona ou alvenaria enterrada, do lado de fora do tanque, abaixo das extremidades do leito de plantio. Desta forma, dispensa-se o uso de tubo drenante, permitindo que o efluente infiltre ao longo das bordas, dispersando-se suavemente pelo solo ao redor, sem se concentrar em um só ponto. Esse cuidado elimina o risco de contaminação do lençol freático.

A Apostila de Saneamento Ecológico da prefeitura de Araçoiaba da Serra e o CATALOSAN: Catálogo de soluções sustentáveis de saneamento mostram como construir este tipo de sistema.
Para usos zootécnicos
O TEvap/BET tem sido utilizado para o tratamento de efluentes de outros animais, como na produção suinícola, como descrito no relato “Canteiro Bioséptico (TEVAP – Tanque de evapotranspiração) para tratamento de resíduos na suinocultura caipiras” com aplicação para pequenas e médias criações.
Modular
O TEvap/BET modular pode ser construído usando-se reservatórios plásticos comerciais ou mesmo conformando-os com lonas. Estes reservatórios são ligados em série para atender a eventuais aumentos de demanda de tratamento.
Este tipo de sistema permite a expansão da capacidade de tratamento em casos de aumento do número de usuários. É também indicado para casos específicos onde o leito é constituído de solos muito permeáveis e condição de alta vulnerabilidade de aquíferos, como no caso da Ecovila Piracanga em Maraú/BA. [Aguarde! Descrição em desenvolvimento]
Elevada
Em locais suscetíveis a inundações, é necessário construir o sistema elevado em relação ao nível do terreno, buscando-se isolar o mesmo das águas de escoamento superficial em eventos de enchente.

Contextos fitoecológicos e suas influências
O contexto fitoecológico influenciará no funcionamento do sistema e, adequações são necessárias para que haja seu bom funcionamento. Desta forma, é importante atentar para o dimensionamento e espécies de plantas a serem usadas.
Considerando a observação de operação de diversos sistemas por longo período, para contextos onde as chuvas são mais intensas e frequentes, tais como a Florestas Ombrófilas Densa, Aberta e Mista. Florestas Estacionais Semidecidual e Decidual, Campinarana, Savana, Formações Pioneiras e Estepe, bem como as Áreas de Tensão Ecológica entre estas, o dimensionamento deve considerar aproximadamente 2 m² por pessoa. A implantação deve ocorrer em local com alta incidência solar, condição diretamente relacionada à eficiência da evapotranspiração.
Em contextos bioclimáticos mais áridos, mas com disponibilidade de águas para o transporte de dejetos, como em alguns locais na Savana Estépica (Caatinga) o dimensionamento indicado é de 1 m2 por pessoa. Ainda referente a Savana Estépica, caso não haja disponibilidade de águas para serem usadas como transportadoras de dejetos, recomenda-se a adoção de sanitário compostável. Esta estratégia foi adotada no Sítio Nós na Teia, em Brasília, mesmo estando na Savana (cerrado) e contando com maior volume de chuvas anual. A razão dessa adoção está na fonte de águas de abastecimento ser exclusivamente das chuvas.
Em relação às espécies vegetais a serem usadas no processo de evapotranspiração, em locais onde ocorrem geadas, como no sul e nas terras altas da região sudeste, a exemplo do TEvap/BET operante no Sítio Natureza Sagrada no Rio Grande do Sul, indica-se a adoção de diferentes estratos de plantas visando a não interrupção da evapotranspiração em períodos muito frios, quando as plantas de estrato mais baixo seguirão evapotranspirando, quando as de estrato mais elevado sofrerem com a queima das folhas pelo frio, evidenciando o princípio Use e valorize a diversidade.

Em regiões com elevada pluviosidade como ao longo da Serra do Mar, pode ser necessária a previsão de drenagem encaminhando o excedente do efluente para valas de infiltração ou um círculo de bananeiras dedicado, como no caso do Sítio Igatu em Santa Catarina, onde as chuvas ocorrem durante todos os meses do ano e a pluviometria média anual oscila em torno de 1800 mm.

Cuidados com o manejo
Durante o manejo ou qualquer contato com o leito de plantio, deve-se ter em mente que o solo pode estar contaminado, sendo necessário o uso de EPI (botas, luvas) e a correta lavagem das mãos e das ferramentas após o trabalho.
As frutas e partes aéreas das plantas podem ser consumidas sem problemas. Como elementos na paisagem, ao cortar plantas do sumidouro, estas devem ser direcionadas para outros fins no ambiente planejado, exercendo mais funções e aproveitamento da energia da biomassa.
Verificação de aplicação
Esta tecnologia está amplamente difundida e poderiam ser destacados inúmeros locais onde a mesma segue em operação. Para destacar alguns, em virtude das adaptações, verificamos sua adoção no Ecosítio Natureza Sagrada em Rolante/RS, no Sítio Igatu em São Pedro de Alcântara/SC, Morada Ekoa em Imbituba/SC, Sítio Maravilha em Araçuaí/MG, Sítio Nós na Teia em Brasília e em contextos urbanos da cidade de Campo Grande e no Parque da Fonte, na cidade de São Paulo.
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