Atualizado em
Marcelo Venturi
Arthur Nanni
Processos de regeneração dos solos envolvem um manejo ecológico constante com diversidade de espécies, tanto animal, quanto vegetal, perfazendo uma verdadeira mímica de processos naturais com a aplicação do princípio de valorizar a diversidade e captar e armazenar energias.
Regenerar solos no semiárido
A ideia do princípio “Capte e armazena energia” originalmente pensada para as condições de clima subtropical e temperado da Austrália, traz em seu provérbio “produza feno enquanto faz sol”.
Essa ideia de que devemos aproveitar os períodos do ano em que há fartura de águas (chuvas) e sol para realizar a fotossíntese e, com isso, gerar muita biomassa que ficará armazenada e disponível para consumo no período de estiagem.
A mesma lógica vale também para a região do semiárido brasileiro. Pois apesar de contar com boa insolação o ano todo para realização da fotossíntese, carece de águas para o crescimento das plantas na maior parte do tempo, restando apenas uma janela de poucos meses de chuvas para que tudo possa acontecer.
Assim, apesar de não se produzir feno de trigo ou alfafa nessa região, o manejo em movimento de animais herbívoros no semiárido, para recuperar a fertilidade de solos, mostra a importância desse elemento móvel na paisagem desse contexto, pois faz uma mímica da natureza no que tange a regeneração de pastagens por onde circulam os animais.
Características
Um elemento animal consorciado com plantas utilizado em um contexto de déficit hídrico, fruto de longos períodos de estiagem com ventos persistentes, aliado a um curto tempo de rebrote das pastagens, normalmente aplicado entre as zonas 3 e 4 do planejamento.
Necessidades
Esta técnica necessita que ocorra o fechamento de ciclo germinativo das plantas por meio da quebra de dormência de sementes para haver a renovação das pastagens. Necessita, também, da diminuição dos ventos para evitar a desidratação severa e da presença de sombras para o bem-estar animal e manutenção da umidade na paisagem.
Para início do sistema é necessário plantar gramíneas (capins) comestíveis pelos animais, árvores para sombras dos animais e cuidar das existentes, e implantar barreiras de vento, cruciais para evitar a desidratação do ambiente.
Para manutenção deste sistema é necessário manter a dinâmica de rotação dos animais em piquetes, garantindo que só retornem ao mesmo depois da vegetação ter se regenerado colocando-os sempre no piquete que estiver com a melhor vegetação. Certificar-se diariamente da disponibilidade de água para os animais, revisar semanalmente as condições de cercas e porteiras, observar o estado de saúde dos animais e outras questões que julgar necessárias.
Funções
- Incremento de matéria orgânica e criação de solo;
- Completar ciclos;
- Alimento: carne e/ou leite e outros subprodutos animais;
- Estruturação de condições para multiplicação de macro e microbiota;
- Dispersão de sementes;
- Redução de patógenos nos animais devido ao tempo de rotação.
A técnica em detalhe
A técnica de regeneração de solos no semiárido segue a regra de manejo integrado da paisagem, amplamente utilizado na permacultura. Assim, nas palavras da permacultora Marsha Hanzi, temos o casamento de três estratégias simples: o manejo dos capins/pastagens, a inserção de árvores e a quebra de velocidade dos ventos.
O manejo das pastagens é realizado por meio do pastoreio migratório ou rotativo ou [racional] – em movimento – de animais como bovinos e cabras, o que permite enriquecer o banco de sementes nos solos e favorece a renovação das gramíneas dentro do ciclo das águas no semiárido. O enriquecimento das pastagens conta com a diversificação das espécies consorciadas, como, por exemplo, a palma-forrageira (Opuntia sp.), feijão-de-corda (ou feijão-caupi, Vigna unguiculata), a babosa (Aloe sp.), o sisal (Agave sisalana), milhos crioulos, outras gramíneas além das espécies espontâneas nativas do local.


É importante manter a movimentação dos animais muito bem ajustada no espaço, no intuito de evitar que haja pastoreio excessivo que possam comprometer áreas de rebrote fresco, pois a partir de dois a quatro dias os rebrotes das plantas começam a surgir e os animais tendem a preferir comer estes rebrotes em vez das folhas maduras, e isso enfraquecerá a vegetação.
Ao se movimentarem de forma racional, alternando os locais de pastoreio e permitindo o descanso dos locais recém pastoreados, os animais deixam uma maior concentração de esterco em cada local. Essa concentração é o que favorece a biocenose do solo, ou seja, a recuperação da vida.
Se os animais ficassem espalhados em uma área maior esse esterco também ficaria espalhado, o que atrapalharia o trabalho de fungos, minhocas, insetos e outros decompositores. Assim a “compostagem” desse material ocorre de forma mais uniforme.
Por outro lado, também ao demorarem um tempo para voltarem a pastorear no mesmo local, os parasitas desses animais, que deixam ovos e larvas nas plantas e solos, não conseguem fechar seu ciclo de vida pela ausência do animal por perto. Isso melhora a sanidade dos animais. Esse tempo de descanso também deve favorecer a regeneração das plantas que servirão de alimento futuramente a esses animais.
A inserção de árvores é pensada priorizando espécies silvestres daquele bioma, por apresentarem maiores chances de prosperarem e ultrapassarem ciclos de baixa energia hídrica. Há também a aposta em outras espécies exóticas de crescimento rápido como a algarobeira (Prosopis juliflora), uma espécie arbórea exótica, leguminosa e pioneira, que se adapta muito bem aos períodos secos, proporcionando além de sombra, alimento para os herbívoros.
E aqui vale uma ressalva, a inserção e manejo de árvores exóticas deve contemplar áreas pequenas, que permitam ao permacultor, manter sua população controlada na condição de bomba de água, nutrientes e biomassa apenas, evitando a disseminação natural dessas espécies para fora da área cultivada.
Os [quebra-ventos] são largamente difundidos pela permacultura de base australiana. Sua presença nos espaços planejados desenvolvidos no contexto do semiárido, é fundamental para amenizar os efeitos do déficit hídrico e manter hidratadas por mais tempo as paisagens.


No vídeo Revertendo a desertificação a própria Marsha explica o processo de regeneração de solos.
Verificação de aplicação
A técnica casada de pastoreio racional que envolve consórcios de animais, árvores e quebra-ventos para a regeneração de solos degradados e a reversão dos processos de desertificação, está sendo desenvolvidos há mais de 15 anos nos Jardins Marizá em Tucano/BA, pelas sábias observações da permacultora Marsha Hanzi e seu parceiro de experimentação Luís Carlos Miranda.
Referências de suporte
Savory, A. (2013). Como recuperar os desertos e reverter as mudanças climáticas. https://www.ted.com/talks/allan_savory_how_to_fight_desertification_and_reverse_climate_change?utm_campaign=tedspread&utm_medium=referral&utm_source=tedcomshare