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Atualizado em

Antonio Augusto Pereira
Arthur Nanni
Marcelo Venturi

As águas de abastecimento compreendem aquelas que entram no espaço planejado, tais como às das chuvas, rios, subsuperficiais e subterrâneas. Essas águas serão captadas, conduzidas e armazenadas para serem aproveitadas para os mais diversos fins.

Quando pensada de forma sistêmica, a captação de águas fica um pouco mais complexa, o que exige dos permacultores uma boa leitura da paisagem, para entender não só onde estão as águas, mas também, sobre como conduzi-las e armazená-las na paisagem.

Isso coloca-nos o desafio de reconhecer que nem sempre os locais mais óbvios para captar, conduzir e armazenar águas, são aqueles onde as águas estão diretamente visíveis. A paisagem se constitui de muitas possibilidades.

Em alguns contextos onde não há águas em mananciais disponíveis, seja pela distância desses, ou mesmo, pelas condições climáticas, é necessário que criemos condições para as águas permaneçam por mais tempo na paisagem, para podermos utilizá-la, também de forma lenta, atendendo o princípio de planejamento que nos sugere usar soluções pequenas e lentas.

Aqui são apresentadas técnicas e tecnologias de abastecimento incluindo:

  • Plantar águas na paisagem
  • Barraginhas
  • Roda d’água
  • Carneiro hidráulico
  • Cacimbas urbanas
  • Captações solidárias
  • Rede de valas de infiltração
  • Caça-chuvas

Plantar águas na paisagem

 👆🏼Entenda os Contextos fitoecológicos onde a técnica é adequada

A técnica inclui o uso conjugado de valas de infiltração, caixas-secas e caixas-cheias, que propiciam a captação, condução e armazenamento de águas em encostas. Elas foram pensadas para garantir a presença de águas em períodos secos prolongados.

O sistema de armazenamento dinâmico de águas no subsolo, capaz de reter volumes expressivos de águas nos períodos das chuvas e liberá-las, em movimento lento por entre as partículas dos solos ao longo do ano, permitindo que nos períodos secos, as terras mais baixas possam contar com a hidratação necessária para manutenção de culturas.

Características

As valas de infiltração envolvem escavações rasas e lineares em nível na encosta. Podem ser implantadas a partir de escavação com pás ou microescavadeiras.

As caixas-secas envolvem escavações pontuais profundas com cerca de 2 a 3 m dispostas de forma espaçada ao longo de estradas de circulação. Essas escavações são interligadas num ângulo de 45º a valetas longitudinais à estrada e operam como se fossem bueiros cegos. Um espaçamento entre cada caixa-seca deve ser mantido no intuito de evitar colapso da encosta. Assim, não é indicado fazer caixas longas na forma de trincheiras, pois o horizonte C dos solos é geralmente mais permeável e mais friável e suscetível a erosões.

As caixas-cheias são pequenos entaipamentos que visam a desaceleração das águas ao longo dos talvegues, baixios e brejos, permitindo o cultivo de plantas que exigem maior quantidade de água. Em alguns casos, onde as vazões são perenes e de bom volume ao longo do ano, pode-se criar peixes. Se pensadas para esse fim, há necessidade de aprofundar o perfil das taipas.

Necessidades

A técnica necessita de topografia ondulada a declivosa, solos espessos e permeáveis e, alternância entre períodos chuvosos e secos, comuns em regiões de mar de morros da região sudeste, por exemplo.

As vales de infiltração precisam estar em nível ou ter inclinação suave de 2 a 5% para direcionar fluxos para as caixas-secas. Precisa de manutenção de limpeza sempre que houver obstrução da mesma, o que ocorre com frequência logo após a implantação, visto que os solos estarão descobertos. Com o tempo a vegetação começa a se desenvolver, diminuindo os volumes de solos erodidos.

As caixas-secas aprisionam águas e sedimentos durante o período das chuvas. Isso exigirá a limpeza das mesmas durante os períodos secos. O material retirado dessas caixas pode/deve ser utilizado para a manutenção dos acessos, geralmente danificados ao longo do período das chuvas.

Já as caixas-cheias, por estarem em um patamar inferior na topografia, necessitarão de manejo de desassoreamento, apenas em uma fase inicial onde a cobertura vegetal ainda é rala. Com o tempo a manutenção de desassoreamento nas caixas-cheias diminui e até cessa. Nesse estágio em diante o manejo fica praticamente restrito às culturas.

Funções

  • Reduzir as enxurradas e a erosão dos solos;
  • Reduzir o assoreamento dos cursos d’água;
  • Irrigação lenta por gravidade;
  • Ascender a linha de umidade em encostas;
  • Armazenar águas nos solos;
  • Reduzir a erosão das estradas;
  • Diminuir a frequência de manutenção de estradas e acessos;
  • Armazenar materiais de reposição para manutenção de estradas.

A técnica em detalhes

Vala de infiltração é uma técnica bastante conhecida na permacultura. Largamente aplicada na Austrália, os swales podem e devem ser implantados com o intuito de reter águas por mais tempo e hidratar as paisagens.

Valas de infiltração em nível –  vista lateral. Foto de Arthur Nanni.
Valas de infiltração em nível – vista superior. Foto de Marcelo Venturi.

As caixas-secas fazem a captação por meio de escavações espaçadas ao longo de acessos como estradas. Essas escavações atingem o horizonte C dos argissolos da região, que é bem mais permeável que o horizonte B. O acesso das águas superficiais conduzidas por valetas até o horizonte C via caixas-secas, permite que as águas que passem a permear esse horizonte por meses, operando como um grande reservatório dinâmico, permitindo a lenta liberação das águas no período de estiagem (abril a setembro), perenizando em alguns casos, cursos de água que parariam nesse período.

Detalhe da caixa-seca escavada ao lado da estrada. Ilustração de Bruno Urata.

 

Caixa-seca e horizontes de solo. Foto de Arthur Nanni.

Já as caixas-cheias, situam-se na porção mais inferior do terreno, promovendo a manutenção das culturas ali implantadas, permitindo até mesmo o plantio de espécies que necessitam alagamento, como o arroz.

Caixas-cheias ao longo do talvegue. Foto de Marcelo Venturi.

O melhor arranjo é operar sempre com ambas na paisagem, buscando hidratar encostas e permitindo diferentes usos e a diversificação de espécies, o que traz mais benefício no que tange a estabilidade dos sistemas produtivos agroecológicos.

Esquema das valas de infiltração na encosta. Horizontes de solo e flutuação do nível freáticos das águas subsuperficiais. Ilustração de Bruno Urata.

 

Esquema visto em planta para a implantação conjunta das técnicas. Ilustração de Bruno Urata.

É indicado nas porções de terreno superiores à caixa-seca, a implantação de terraços para potencializar ainda mais a quebra de velocidade das águas de escoamento superficial e estimular sua infiltração nos solos.

Essas técnicas são indicadas para locais com clima onde há alternância de estações secas e chuvosas e possuam fortes inclinações. Os contextos fitoecológicos das Florestas ombrófilas densas e abertas, estacionais semidecíduas e deciduais e Áreas de Tensão Ecológica.

Verificação de aplicação

Essas técnicas, desenvolvidas pelo Sítio Jaqueira, foram verificadas em agosto de 2022 no Município de Alegre/ES, na região do Caparaó Capixaba. Elas foram bem difundidas na região através de oficinas de sensibilização e implantação, realizadas por ações do Grupo de Agricultura Ecológica Kapi’xawa em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alegre/ES e, desenvolvidas no âmbito do projeto Plantadores de Água.

Referências de suporte

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