Resíduos sólidos rurais

Arthur Nanni1, Cassandra Pulceno2, Krieger Leopoldo2, Marcelo Venturi1

1 – Núcleo de Estudos em Permacultura / UFSC

2 – Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina

Introdução

Vivemos em um mundo repleto de “modernidades” e “facilidades” conhecidas como “bens” de consumo, que são constituídos por diferentes composições químicas, muitas vezes inseparáveis e, em muitos casos, irreconhecíveis para a natureza.

Muito se fala sobre gestão de resíduos sólidos, especialmente no que tange a velhos hábitos e valores estigmatizados pela gestão centralizada, que sempre buscou enviá-los para longe do cidadão, criando a falsa ideia de que o problema foi resolvido. Essa obsoleta estratégia consola aqueles que não questionam o destino dos resíduos por si produzidos e, nos coloca na condição de meros espectadores de um show de mágica do desaparecimento, cuja coreografia em nada tem de bonita.

Nas zonas rurais dos nossos municípios brasileiros essa realidade consegue ser pior. Muitas vezes a gestão pública não atende plenamente a população do campo, que se vê obrigada a gerir os resíduos através de iniciativas individuais e/ou comunitárias, buscando atenuar os problemas gerados pelo consumo e descarte errôneo dessas matérias-primas.

O entendimento de resíduos como um problema afeta a todos e não permite que encontremos boas indicações de consumo, bem como, nos deixa de fora do processo de cuidar dos resíduos, sejam eles líquidos ou sólidos. Focado nisso, permacultores do Núcleo de Estudos em Permacultura da UFSC e da EPAGRI/SC, trazem essa nota técnica que busca repensar nossa relação com os resíduos sólidos rurais.

Acreditamos que é preciso estimular o senso crítico de cada cidadão da zona rural para o seu papel como responsável individual e coletivo nos processos que envolvem o consumo, uso, aproveitamento e destinação dos resíduos sólidos.

No Brasil a maior parte dos municípios adota a gestão centralizada de resíduos, sejam eles líquidos ou sólidos, perpetuando uma prática em que a disputa de poder e a má resolução dos serviços sanitários, coloca em risco toda a população. Essa forma de gerenciar os resíduos afasta o cidadão do processo de corresponsabilidade social, o que neutraliza ações descentralizadas.

Assim, buscando a participação cidadã, é importante que a gestão de resíduos sólidos rurais seja pensada a partir da escala de percepção do indivíduo, da sua unidade rural ou mesmo, da comunidade que o abriga, permitindo que o mesmo possa entender como se dá o processo de gerenciamento, bem como, possa estabelecer estratégias de resoluções efetivas para a gestão.

Essa nota técnica pretende mostrar a necessidade de mudarmos nossos hábitos de consumo para os diferentes tipos de materiais, usualmente consumidos em unidades rurais. Assim, uma sinalização semafórica foi adotada. Nela, o verde nos traz a importância de pensar resíduos como recursos, onde o importante é recusar/ repensar e, se for possível, aproveitar. O amarelo nos mostra que, como recurso, todo o resíduo pode e deve ser reciclado ou transformado. Por fim, o vermelho nos coloca que devemos evitar certos produtos que são problemáticos em nosso planeta.

A TERRA e suas possibilidades

Tradicionalmente a educação ambiental é abordada através da lógica dos 3Rs: reduzir, reciclar e reutilizar. Porém, essa abordagem não estimula o “não consumo”, o recusar – e tão pouco nos aponta o repensar de nossas escolhas e atitudes. Assim, considerar pelo menos esses 2Rs a mais se torna algo emergencial, pois nosso planeta é uma ilha da qual não temos como sair, ou seja, não temos onde “descartar” coisas que não queremos ou não gostamos.Dessa forma, sugerimos pegar uma “cola” no nome do planeta que nos abriga e, a partir de suas letras, estabelecer formas de trabalhar os resíduos sólidos dentro de uma compreensão de recurso e não de problema.

Transformar

Considera a reutilização de um determinado resíduo como recurso para outra finalidade dentro da unidade rural e, que não venha a causar dano ambiental, pois será incorporado na paisagem.

Encaminhar

Compreende aqueles resíduos cuja reinserção na unidade rural não é possível e, assim, exige seu encaminhamento para unidades de disposição final de resíduos sólidos.

Recusar ou Repensar

Aqueles insumos que podem ser substituídos. Assim, é preciso repensar o consumo desses insumos, bem como adotar alternativas de fácil reinserção na unidade rural, com reciclagem ou reutilização em ciclo curto.

Reciclar

Aqueles resíduos que não podem ser diretamente reinseridos na unidade rural e necessitam ser encaminhados para centros de triagem, visando sua posterior utilização como matérias-primas por outros processos de produção.

Aproveitar

Todo aquele resíduo que pode ser reutilizado em outro processo dentro da unidade rural, prolongando sua vida útil, mas que em algum momento terá de ser encaminhado para a reciclagem, ou mesmo, ser descartado.

Atitudes de baixo impacto a partir da permacultura

A permacultura é pensada sobre princípios éticos e de planejamento que buscam conversar com a natureza e, desta forma, facilitar nossa relação com os ambientes que nos abrigam. Assim, precisamos pensar que para cada uma das ações envolvidas na TERRA, temos um princípio da permacultura que rege sua escolha.

T – Transformar – converter resíduos internos em adubos orgânicos e inorgânicos. Traz o princípio “não produza desperdícios” como guia.

E – Encaminhar – resíduos mistos e de difícil reinserção em processos produtivos, mesmo em ciclos longos ou que intoxicam o ambiente. Traz o princípio “use soluções pequenas e lentas”, porque via de regra, resíduos dessa natureza serão fruto de decisões imediatistas.

R – Recusar ou repensar – ao evitar insumos de fora da unidade rural você reconhece que possui o recurso internamente. Nos remete ao princípio “use e valorize os recursos naturais renováveis”.

R – Reciclar – é necessário considerar os resíduos como recurso e resolver a gestão em nível individual ou comunitário, priorizando ciclos curtos e evitando uso de energia em demasia. Nos mostra a necessidade de interagir com a comunidade para “integrar ao invés de segregar” no intuito de buscar soluçõs locais.

A – Aproveitar – aumentar a vida útil de materiais tidos como resíduos antes de encaminhar para fora da unidade rural. Nos traz a lógica do princípio “use a criatividade e reaja às mudanças” para que pensemos em reúsos antes de descartar matérias-primas.

Zonas energéticas dos resíduos sólidos

Ainda dentro da lógica de interagir com o ambiente e de produzir o menor impacto possível, a permacultura nos traz o conceito de zonas energéticas. Para os resíduos sólidos, essas zonas de consumo de energia ou “de gasto energético das reciclagens”, podem ser relacionadas ao tamanho do ciclo envolvido para que um determinado recurso retorne a unidade rural. Assim, respeitando a mesma lógica semafórica, temos:

  • Ciclo curto – desejável: produzido e aproveitado dentro da unidade rural (você).
  • Ciclo médio externo – repensável: aquilo que provém ou é destinado dentro do município (você + comunidade) e, no máximo, ao estado, com maior consumo de energia.
  • Ciclo longo externo – indesejável: é tudo aquilo que demanda muita energia do início ao fim do ciclo da matéria-prima, por vir de longe e/ou passar por muitos processos produtivos e de destinação, tornando-se, portanto, recusável.
Zonas energéticas para resíduos sólidos rurais.

Nesse cenário, uma unidade rural típica no Brasil produz basicamente três tipos de resíduos: os transformáveis, os recicláveis e os rejeitáveis. Os resíduos transformáveis compreendem todos aqueles que podem ser incorporados à unidade rural sem prejuízo ambiental. Já os resíduos recicláveis, compreendem aqueles que devem ser reutilizados quantas vezes puder e onde for possível, antes de serem enviados para fora da unidade rural, sendo então, encaminhados a unidades de triagem e posterior destinação conforme forem separados. Os resíduos rejeitáveis envolvem aqueles que não se enquadram nas condições anteriores, ou seja, não podem ser incorporados à unidade rural e são impossíveis de serem usados como matéria-prima em processos de reciclagem.

A unidade rural e os fluxos de destino para diferentes tipos de resíduos sólidos. Fonte: (Inspirada/modificada em FUNASA, 2019).

Considerando toda a gama de produtos que são consumidos em uma unidade rural, seja ela convencional, orgânica ou agroecológica, a equipe de permacultores que discutiu a presença dos resíduos sólidos em ambiente rural, optou por lidar com todos eles, seguindo também, a lógica semafórica. Dessa forma, um mapa conceitual foi trabalhado para esquematizar de forma sistêmica, como pode ser conduzida a gestão dos resíduos considerando as seguintes perguntas:

  • Quais resíduos são transformáveis e no que podem ser transformados?
  • Quais resíduos são recicláveis e quais são as alternativas em substituí-los?
  • Quais resíduos são rejeitáveis e quais são as alternativas os rejeitarmos?

O mapa conceitual apresenta uma categorização das matérias-primas mais consumidas em unidades rurais, a saber:

Estruturado em diferentes níveis, o mapa conceitual apresenta um 1º nível, representado por retângulos, que dão acesso a explicações pertinentes a cada tipo de resíduo e as suas ramificações de 2º nível (elipses), onde temos as terminações de cada categoria de resíduo e, nos 4º níveis, temos as relações de entrada/saída desses, na unidade rural.

Ilustração do mapa mental que organiza a lógica de gestão de resíduos na unidade rural.

Contaminantes

Resíduos que apresentam compostos perigosos que promovem contaminação ambiental, incluindo óleos minerais e vegetais, graxas, madeiras tratadas (em autoclave por exemplo), resíduos de saúde, embalagens de agrotóxicos, eletroeletrônicos, pilhas e baterias.

As embalagens de agrotóxicos devem ser esvaziadas para o uso e tríplice lavagem, e então encaminhadas de volta para quem vendeu ou forneceu os produtos, ou no local indicado na nota fiscal do mesmo, seguindo o ciclo da logística reversa em que esta embalagem será devolvida para a indústria para ser reciclada (Resolução Conama nº 465/2014). Saiba mais junto ao Ministério do Meio Ambiente.

Transformar

O papel higiênico do banheiro pode ser compostado se separado de eventuais plásticos presentes em embalagens de sabonetes e absorventes.

Óleos vegetais usados, após filtrados, podem ser utilizados de forma diluída em água (1/10) na aplicação foliar em árvores que apresentam fungos em sua superfície.

O início do fogo no fogão à lenha pode receber um pouco de óleo vegetal usado. Isso auxilia na queima inicial e melhora a estabilização das chamas e fumaça.

Encaminhar

Resíduos de saúde, como remédios vencidos e seringas devem ser entregues no posto de saúde ou em farmácias. Por se tratarem de resíduos perigosos, esses estabelecimentos são obrigados a encaminhar os mesmos para destinação final como lixo hospitalar, que por sua vez, deverá ser incinerado.

Madeiras “tratadas” devem ser enviadas para o aterro de resíduos industriais perigosos, pois poluem tanto quanto o agrotóxico. O mesmo deve ser considerado para pilhas e baterias, caso não possam ser recicladas. Nesse caso, devem ser entregues em pontos de coleta como estabelecimentos que comercializam itens dessa natureza.

Recusar/repensar

Algumas estratégias para evitar o uso de absorventes íntimos que contenham materiais sintéticos podem ser adotadas. Nisso, calcinhas e cuecas absorventes podem ser grandes aliadas. Ainda existe o copinho reutilizável para o ciclo menstrual como alternativa para não geração de resíduos plásticos no lixo do banheiro. As fraldas descartáveis podem ser trocadas por fraldas de pano feitas com tecidos de fibra natural.

As madeiras “tratadas” por processo de autoclave devem ser recusadas em virtude da carga poluidora dos compostos que são utilizados. Uma solução para moirões/palanques seria a utilização de moirões vivos, pois o tempo de vida útil das árvores é muito maior. Outras alternativas ao uso de madeiras tratadas, seria utilizar as maneiras mais duras, ou ainda, fazer uma solução a base de óleo queimado ou o uso de de solução a base de óleos vegetais como linhaça, própolis e cera.

Pilhas devem ser recusadas e, caso não seja possível, podem ser substituídas por baterias recarregáveis.

Reciclar

Resíduos eletroeletrônicos devem ser entregues em pontos de coleta específicos. Isso permitirá seu encaminhamento para serem desagregados e terem seus constituintes separados e aproveitados como matéria-prima pela indústria.

Aproveitar

Em pequenas quantidades, os óleos vegetais podem ser utilizados para iniciar o fogo em fogões à lenha. Quando incorporados a papéis-toalha ou guardanapos, os mesmos podem ser incinerados com o resíduo de banheiro, ou ainda, compostados apenas em procesos termofílicos.

Os óleos e graxas minerais, se não utilizados no tratamento de madeiras, devem ser entregues em estabelecimentos como oficinas mecânicas e postos de abastecimento, que possuem protocolo para destinação desses resíduos. Usando essa via, os mesmos poderão ser transformados em outros produtos com retorno no ciclo longo de reciclagem.

Insumos

São aqueles produtos utilizados como fontes de energia ou matérias-primas na unidade rural, tais como: sementes, mudas, agrotóxicos, pós de rocha como o calcário e o fosfato natural, cinza de lenha, farinha de ossos, vísceras e outros.

Transformar

A utilização de cinzas da queima de madeiras não-tratadas e papéis pode atender usos para pequenas áreas e evitar a aquisição de pó de rocha. Sua aplicação pode se dar como fertilização mineral e auxiliar na diminuição da acidez de solos com pH ácido.

Uma das melhores formas de conservar sementes é trocando-as. Sim! A troca compartilhada de sementes com vizinhos pode salvar você de uma eventual falta de sementes, caso os métodos de conservação que você utiliza não funcionem a contento.

A utilização do esterco animal (fezes + urina) é uma maneira sustentável e econômica de aproveitamento dos resíduos sólidos da pequena unidade rural, evitando assim, descarte de dejetos no ambiente e sua utilização como fertilizante do solo. A urina de vacas é um dos fertilizantes mais populares em pequenas unidades rurais. O local de ordenha pode contar com piso impermeável e sistema de caneleta que direcionam para bombonas, a serem utilizadas no transporte para áreas que necessecitem de fertilização.

Encaminhar

Numa unidade rural que se utiliza insumos internos, não haverão resíduos a serem encaminhados, a não ser os excedentes que podem servir como moeda de troca na comunidade, atendendo assim, a necessidade de vizinhos.

Recusar/Repensar

Os agrotóxicos adotados em unidades rurais com produção convencional de alimentos serão incorporados à unidade rural, trazendo prejuízos à saúde humana, ao meio ambiente aos cultivos. Assim, recusá-los passa a ser uma meta de boa gestão rural, que pode ser amplificada com a migração para sistemas produtivos agroecológicos.

As sementes e mudas se constituem em um importante recurso de sucessão das atividades produtivas na unidade rural. Em tempos de sementes que se acabam (terminator) ou perdem seu vigor (híbridas): o cultivo próprio de mudas, a preservação e seleção natural de sementes em nível local, são uma ótima opção para se manter a unidade rural sempre bem servida de plantas adaptadas ao ambiente em que se desenvolveram.

É importante lembrar que as minhocas produzem húmus, que são excelentes corretoras do pH dos solos e ajudam a corrigir também sua estrutura para as raízes das plantas. Assim, agriculturas de clima tropical e subtropical, que compreendem quase a totalidade do Brasil, devem considerar o aporte e manutenção de matéria orgânica nos solos para garantir a retenção de minerais essenciais ao crescimento das plantas. Nesse sentido, todo e qualquer processo de compostagem é bem-vindo, sobretudo se for feito diretamente no local de plantio.

Reciclar

Todos os insumos são matérias-primas que serão incorporadas na unidade rural, evitando assim, a necessidade de reciclagem. Assim, a escolha certa de quais insumos serão usados é fundamental para que se mantenha a saúde ambiental da unidade rural.

Aproveitar

O uso do esterco produzido na unidade rural deve ser priorizado e reforçado por adubação verde. O esterco é um material de baixo custo, alto teor em nutrientes e eficiente na promoção da vida no solo e na adubação das plantas. Além dos macronutrientes, os estercos fornecem também cerca de mais 13 micronutrientes, que são indispensáveis às plantas e à microbiota do solo. Galinhas podem incrementar a produção de esterco e, nas regiões de pomar, realizar o trabalho de adubação por restos de poda e, assim, acelerar o crescimento das culturas.

Processos de fermentação dos estercos promovem a inativação dos microrganismos patogênicos, causadores de doenças. A esterqueira é um dispositivo acessível que auxilia nesse processo de transformação do chorume, permitindo que o mesmo seja tratado no próprio local e não vá para o solo e corpos d’água. Os líquidos da esterqueiras, depois de maturado, poderão ser usados como adubo líquido, diluído na proporção de 1/10 (1 parte de chorume para 10 partes de água) com excelentes resultados no desenvolvimento das plantas.

O processo de maturação do esterco é lento e depende das condições climáticas. Para se acelerar  processo, recomenda-se a agregação de materiais como palha, folhas, serragem, etc, que irão favorecer a aeração da pilha de compostagem. Uma vez curtido, o esterco pode ser utilizado como adubo orgânico na agricultura, hortas, pomares, vasos e jardins, como ingrediente na elaboração de compostos orgânicos e na criação de minhocas (vermicompostagem), dependendo de seu estado de maturação.

Se a unidade rual possuir açude/tanque é possível bombear a água com a lama (lodo) concentrada no fundo, estabelecendo um processo de fertirrigação.

Metais

Os metais compreendem todos aqueles materiais constituídos por ferro, alumínio, cobre, zinco, aço, enfim, ligas metálicas em geral. Na unidade rural esse tipo de matéria-prima está geralmente presente em cercas, ferramentas, utensílios, peças de automóveis e tratores e embalagens de consumo.

Transformar

Pregos de ferro usados podem ser descartados junto a touceiras de bananeira e, enferrujados, imersos em vinagre para compor uma solução de tingimento para ser utilizado em madeiras. Depois de serem utilizados como tingidores, os mesmos podem ser destinados às touceiras de bananeiras.

Encaminhar

Tampas de metal de potes de geléias e conservas, os enlatados em geral e demais peças metálicas, devem ser encaminhados à coleta seletiva do seu município ou serem entregues em pontos e postos que recebem esse tipo de matéria-prima.

Recusar/repensar

Além do uso de cercas metálicas, outras possibilidades de isolamento de áreas são viáveis utilizando-se cercas vivas com bambus, gravatás, azaleias e outras diversas espécies vegetais. Outra opção são os mourões vivos ligados por treliças de bambus ou de outras madeiras flexíveis, conforme a finalidade do cercamento.

Por fazerem parte de uma cadeia de ciclo longo, proveniente da mineração, os metais em geral devem ser repensados e, na eminência não poderem ser substituídos, sua vida útil deve ser prolongada na unidade rural.

Reciclar

Os itens e as peças de origem metálica necessitam de processos industriais para a sua reciclagem, exigindo que esse tipo de matéria-prima seja retornada dentro de um ciclo longo.

Aproveitar

Antes de descartar arames e cercas, outros usos podem ser feitos, como: galinheiros móveis (tratores de galinhas), parreirais, composteiras de cerca e adornos (artesanato e decoração) no turismo rural. Após a serventia desses materiais nessas diferentes aplicações os mesmos deverão ser encaminhados para a reciclagem.

Mistos

Resíduos constituídos por materiais diversos e indissociáveis tais como embalagens de tetrapack, calçados, pneus e botas que não podem ser reutilizados ou mesmo reciclados.

Transformar

Entulhos como restos de telhas de barro e tijolos podem ser usados no preenchimento de buracos em acessos e estradas. Com o tempo esses materiais serão incorporados ao meio ambiente, dando resistência ao pavimento. Pedaços de azulejo não devem ser utilizados em acessos, pois podem cortar penus. Para entulhos que contenham materiais cortantes uma saida é o seu uso no nivelamento de contra-pisos, como comentado a seguir em “Aproveitar”.

Encaminhar

A destinação mais indicada é o envio para o lixo comum.

Recusar/repensar

É importante recusar embalagens mistas e priorizar aquelas constituídas por materiais únicos e retornáveis.

A bioconstrução pode ser uma boa opção para se evitar a produção de entulhos da contrução civil convencional. Edificações bioconstruídas apresentam menor impacto ambiental, pois se utiliza em boa parte, de materiais locais e que poderão ser reutilizados/descartados na própria unidade rual.

Reciclar

Em alguns locais existem centrais de recebimento de restos da construção civil, para serem utilizados como matéria-prima na confecção de novos materiais a serem aplicados no mesmo setor. procure saber se na sua cidade/região há esse tipo de recebimento.

Aproveitar

Resíduos como entulho/caliça, a depender da composição, é aconselhável que sejam utilizados como material de preenchimento em leitos de pisos que serão, posteriormente, cobertos por cimento. Seria uma espécie de sepultamento desse material que é considerado um resíduo inerte.

Restos de telhas, tijolos, azulejos, geralmente produzidos na construção de edificações podem ser utilizados no final da obra como camada de preenchimento em sistemas de tratamento de águas contaminadas (vaso sanitário do banheiro), como a bacia de evapotranspiração (BET) ou tanque de evapotranspiração. Na mesma linha pneus de carro podem ser utilizados na estruturação da câmara séptica da BET ou mesmo como forma de sapata em fundações de edificações. Não utilize pneus para conformar canteiros ou mesmo proteger árvores, pois estarão expostos ao sol, permitindo sua degradação e soltura de componentes químicos ao meio ambiente.

Bacia de evapotranspiração com uso de pneus velhos e entulhos. Fonte: IPESA (2012).

Se selecionados, tijolos e telhas podem ser utilizados para a conformação de leitos de caminhos para carros e circulação de pessoas.

Orgânicos e papel

Resíduos sólidos orgânicos são todos os que vem da natureza e podem ser reabsorvidos pela mesma, como cascas de frutas, folhas de árvores, papéis, embalagens de folhas, cestas de palha, tecidos de algodão, linha, seda, lã.

Transformar

Os papéis usados no banheiro podem ser compostados separadamente, e após serem transformados em matéria orgânica e, então, utilizados para adubação de árvores no pomar ou sistema agroflorestal.

Cascas e folhas podem ser utilizadas como cobertura morta em canteiros. Isso inibirá a proliferação de ervas danadinhas e de brinde você estará fazendo a compostagem desses materiais nos próprios canteiros e cedendo a energia diretamente às culturas.

Encaminhar

Caso não tenha espaço para compostar, o que é difícil em ambiente rural, é possível separar os resíduos orgânicos dos demais e ceder a algum vizinho que queira compostá-los. Eu não sendo possível e, mesmo que vá para a coleta comum e depois para o aterro, o fato de estar separado facilitará a separação pelos catadores e isso ajudará no tempo de decomposição destes orgânicos.

Recusar/repensar

Descasque mais e desembale menos! É importante valorizar alimentos produzidos na unidade rural e/ou localmente, bem como, recusar aqueles que venham de fora e embalados em plásticos, metais ou em composições mistas como o tetrapack.

Reciclar

Utilize composteiras ou vermicompostagem para a reciclagem dos orgânicos em sua própria casa. Outra forma de reciclar orgânicos é através da utilização em biodigestores, resultando na produção de biogás para uso doméstico e biofertilizantes.

Aproveitar

Utilizar cascas e sementes em receitas alimentares, porque elas são fontes de nutrientes importantes.

É indicado aproveitar o composto que você mesmo fez na sua composteira. Desse processo de compostagem, o chorume produzido pode ser usado de forma pura em cima das plantas que você não quer no seu canteiro, pois a sua acidez irá matar estas plantas. Se quiser utilizar o chorume como biofertilizante na fertirrigação, dilua-o em 10 partes de água e aplique no solo entre as plantas. Isso melhorará a biota do solo disponibilizando nutrientes para as plantas no curto prazo.

Plásticos

Os plásticos compreendem aquelas matérias-primas oriundas de petróleo, que apresentam embutido um grande consumo de energia e alto impacto ambiental, devido à sua cadeia produtiva longa. O plástico está muito difundido nos dias atuais, mas nossos pais e avós viviam tranquilamente sem eles.

Apresentando inúmeras composições, os plásticos causam muita confusão, quando o quesito é a sua destinação para a reciclagem, por essa razão foram elencados como resíduos rejeitáveis.

Transformar

Devido à diversidade de formas e constituintes de recursos oriundos do plástico, sua transformação não é possível na unidade rural, exigindo que o mesmo seja inserido no ciclo externo longo.

Encaminhar

Os resíduos plásticos gerados dentro da unidade rural após serem usados como lonas, potes e outros, devem ser encaminhados para a reciclagem, onde catadores separarão por tipo visando direcionar o recurso ao processo de reciclagem e serem usados como matéria-prima processos industriais.

Para a reciclagem devemos lavar as embalagens antes de colocá-las no lixo reciclável, pois a umidade e a sujeira dificultam a reciclagem e provocam o descarte do produto, perdendo o valor de venda ou inutilizando os produtos para quem vai fazer a reciclagem. Essa lavação pode ser feita com água cinza proveniente da máquina de lavar roupas. Para tal, você pode armazenar essa água em bombonas ou caixas d’água a cada lavação de roupa. Essa água ainda poderá ser usada na irrigação, caso não tenha contaminantes. Caso haja muita água cinza proveniente das lavações, essa pode ser também utilizada para lavar pisos, máquinas agrícolas, carros entre outros.

Recusar/Repensar

É necessária uma mudança de hábitos e atitudes que repensem os materiais que podemos utilizar. Assim, se formos utilizar plásticos, que os mesmos sejam constituídos de matérias-primas biodegradáveis.

É possível substituir as embalagens plásticas utilizadas para a comercialização de produtos da unidade rural, por uma série de folhas e fibras vegetais. Dentre eles podemos destacar: Bananeira, açafrão, palmeira, milho, bambu, helicônias, folhosas como couve e repolho, piaçava e taioba.

Ao invés de usar lonas plásticas como cobertura de canteiros (mulching sintético), pode-se optar por coberturas mortas e vivas. O sistema de plantio direto na palhada também é uma boa saída. Nele, as plantas que restaram do plantio anterior, servirão de cobertura e fonte de nutrientes para a próxima cultura, mantendo o solo protegido e com uma microbiota excelente para as plantas, diminuindo o trabalho de capina.

Na cobertura da silagem podem ser utilizadas paredes permanentes como nas trincheiras de concreto ou de madeira, cobertas com madeira e/ou argila, bem como o seu armazenamento em barris.

Reciclar

Os itens plásticos necessitam de processos industriais para a sua reciclagem, exigindo que esse tipo de matéria-prima seja retornada dentro de um ciclo longo.

Aproveitar

Os plásticos utilizados na unidade rural podem ser reutilizados, aumentando sua vida útil antes de serem encaminhados à reciclagem.

É possível aumentar a vida útil de uma embalagem dentro de um ciclo curto de comercialização estimulando-se o retorno da mesma por parte dos clientes em feiras, por exemplo. Sugere-se também a adoção de embalagens retornáveis, como vidros para mel, pastas e geleias. Para essas embalagens, também funciona a lógica de retorno em ciclo curto, através de algum incentivo financeiro ao cliente, como um desconto na compra de um novo produto da mesma linha, ou mesmo um crédito para ser abatido na compra total, quando o cliente trouxer a embalagem vazia para troca.

A venda de porções, como por exemplo de tomate cereja, morango ou fisalis, pode ser feita com caixas de papelão usadas no reverso ou papelão encerado, solicitando também, que o cliente traga na próxima feira.

Tecidos

Os tecidos de fibras naturais estão geralmente presentes em nas malhas de algodão, lã, seda, bambu e bananeira. As fibras sintéticas são encontradas nas malhas de PET, tecidos tecnológicos, náilon, elastano e licra. Os tecidos de fibras mistas estão geralmente presentes em EPIs como luvas e aventais.

Transformar

Os tecidos de fibras naturais podem ser utilizados tanto na composteira, como nos canteiros para abafar plantas espontâneas ou mesmo serem incinerados para posterior utilização da cinza como fertilizante mineral.

Encaminhar

Encaminhe os tecidos sintéticos junto com plásticos para a coleta seletiva do seu município ou entrega em pontos e postos de coleta.

Recusar

É importante recusar fibras sintéticas em virtude do longo ciclo que as mesmas possuem para serem transformadas e, no contraponto, deve-se priorizar a adoção de fibras naturais, por serem de fácil transformação em recursos para serem reutilizados na unidade rural.

Reciclar

Caso seja inevitável o consumo de fibras sintéticas, escolha aqueles que você conhece a composição e sabe como destinar à reciclagem.

Aproveitar

Antes de descartar roupas que não tenham mais funcionalidade, pense em usos secundários como na confecção de outras roupas, tapete de banheiro, pano de chão, pano de limpeza, artesanato, etc. Caso estejam em boas condições de uso, repasse a assistência social de seu município.

Vidros

O vidro é um dos materiais que mais podemos reutilizar até retornar ao cliclo longo da reciclagem industrial. É um material durável e esterilizável que podemos reutilizar várias vezes aumentando sua vida útil e a de alimentos na unidade rural.

Transformar

Os vidros de conservas e doces podem ser reutilizados como potes na sua casa ou, ainda, serem devolvidos ao fornecedor do produto para ser reutilizado, evitando novas aquisições de embalagens dessa natureza e, que seja necessário mais matéria-prima e gasto de energia para fabricação de novos vidros.

Encaminhar

Quando for encaminhar vidros quebrados para o lixo (resíduo sólido) reciclável lembre-se de embalar bem e escrever na embalagem “vidro quebrado”, para que a pessoa que recolhe o nosso lixo não se machuque. Para embalar os vidros quebrados você pode usar um papelão ou vários papéis, garrafas PET ou ainda tecidos que não podem mais ser aproveitados.

Recusar/Repensar

Devemos recusar embalagens descartáveis ou que não possam ser reutilizadas várias vezes. É importante também evitar consumir produtos de empresas que não tem logística reversa, que é a possibilidade de devolução dos produtos ou suas embalagens para o vendedor que os fornece.

Reciclar

Os itens de vidro necessitam de processos industriais para a sua reciclagem, exigindo que esse tipo de matéria-prima seja retornada à indústria através de catadores.

Aproveitar

Aproveitar e reaproveitar o máximo de vezes dentro da unidade rural, usar potes para compotas e doces, copos como unidades de medida, garrafas e vidros lisos em construções como tijolos de vidros em paredes ou como janelas, ou então doando a vizinhos que podem utilizar destas ou outras formas. Esse ciclo curto para o vidro só serve para reutilização, pois depois de quebrados, os mesmos preciusarão ser encaminhados à reciclagem.

Referências

Brasil. Programa Nacional de Saneamento Rural / Ministério da Saúde, Fundação Nacional de Saúde. – Brasília : Funasa, 2019. 260 p.

IPESA. Manejo apropriado da água. 2012. Disponível em: https://ipesa.org.br/materiais-download/. Acesso em: 27/12/2020.

IPESA. Do lixo à cidadania – Guia para a Formação de Cooperativas de Catadores de Materiais Recicláveis. JULIO RUFFIN PINHEL (Org.). Editora Peirópolis. Disponível em: https://www.ipesa.org.br/arquivos/DOLIXOACIDADANIA.pdf. Acesso em: 6 out 2020.

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Como citar essa nota técnica?

REDE NEPERMA BRASIL. Resíduos sólidos rurais. Nota técnica. Brasil: Rede Brasileira de Núcleos e Estudos em Permacultura, 2020. Disponível em: <https://redepermacultura.ufsc.br/residuos-solidos-rurais/>. Acesso em: [DATA].

Última revisão em 27 de dezembro de 2020.