EDITORIAL – Primavera de 2024

Um número delas

Seja bem-vindo ao segundo número da Revista Perma, que se destaca a expressiva contribuição de permacultoras brasileiras, que trazem uma perspectiva única e valiosa para a construção de sistemas sustentáveis atuando como educadoras, pesquisadoras, mães, agricultoras e ativistas, inspirando e transformando comunidades. Esta edição apresenta, na forma de artigo científico, relatos de experiência e traduções e resenhas, projetos de permacultura liderados por mulheres que promovem a autonomia alimentar e ajudam a construir comunidades mais resilientes. São experiências de luta pela defesa da permanência por meio da agroecologia e da justiça social, construindo com seu protagonismo, políticas públicas de “baixo para cima”, alimentando a transição para um modelo autogestionado de envolvimento comunitário.

Existe um movimento mundial buscando valorizar a presença das mulheres na Permacultura. Iniciativas como Permaculture Women Magazine procuram elevar as vozes das mulheres na permacultura hospedando a própria revista online para dar espaço à “Guilda” das mulheres na permacultura. Di Biasio11, em seu artigo “Women in Permaculture: Why an all-women-led PDC?” argumenta a favor de PDC (Permaculture Design Certificate – do inglês) pensados e voltados especificamente para mulheres; comenta que as mulheres iniciaram, criaram e administraram negócios éticos, propriedades rurais, centros comunitários, PDC e outros empreendimentos semelhantes quase desde que a permacultura viu a luz, no início dos anos 80. No entanto, foram muitas vezes excluídas, ignoradas, silenciadas ou tiveram suas vozes minimizadas por atitudes e atos de homens e até mesmo de outras mulheres.

Para Djalma Nery2,

“o que parece estar se anunciando nas discussões cada vez mais presentes no interior da ‘comunidade permacultural’ brasileira e mundial, é a proposta de um novo salto, onde, reconhecidos os limites da atuação local e individualizada, parte-se agora para uma articulação regional e global, na busca da ação e da prática comum balizada pelos princípios éticos da permacultura, pois o coletivo é sempre mais forte que o indivíduo”.

No Brasil, a luta pela preservação da agrobiodiversidade conta com muitas mulheres na linha de frente. As indígenas, quilombolas, ribeirinhas, caiçaras e agricultoras familiares, dentre outras, têm uma contribuição histórica na agricultura e na defesa do meio ambiente. Torres e Camargo (2024)3 destacam a centralidade da ação de mulheres como Maíra Silva, especialista em Agroecologia e Educação do Campo, e quilombola da comunidade Ivaporunduva, no Vale do Ribeira (SP), que ressalta a importância de falar de feminismos que reconheçam e valorizem as experiências de mulheres indígenas, negras e de comunidades tradicionais: “Todos esses povos ajudaram na manutenção da biodiversidade, produzindo junto com a floresta. É fundamental reconceituar a tecnologia e compreendê-la como uma construção, uma concepção e uma execução do fazer”.

Compreende-se que a permacultura é muito mais do que ação, visto que há necessidade de observação e escuta (da paisagem, do ecossistema, da comunidade) antes que os projetos sejam implementados. Mulheres tendem a ter uma melhor compreensão do aspecto holístico, algo que pode beneficiar as iniciativas permaculturais como um todo.

Tenha uma boa leitura!

  1. DI BIASIO, S. Women in Permaculture: Why an all-women-led PDC? PermacultureWomen, 2018. ↩︎
  2. Por uma Permacultura morena e ecossocialista. OutrasPalavras, 2016. ↩︎
  3. TORRES, L. e CAMARGO, L. Quem são as mulheres que pesquisam e constroem a agroecologia no Brasil. Brasil de fato, 2024. https://www.brasildefato.com.br/2024/08/19/quem-sao-as-mulheres-que-pesquisam-e-constroem-a-agroecologia-no-brasil ↩︎

Aterrar na permacultura em favor de outros mundos possíveis na era do antropoceno

Grounding in Permaculture for other possible worlds in the Anthropocene Age

SANTOS, Francisca Fanka Pereira dos1

Submetido em 26jun2024. Aceito em 11dez2024.

Revisão por Letícia Magalhães Fernandes e Priscila Silva de FIgueiredo

DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.14751274 

Resumo

Este artigo tem como objetivo apresentar uma leitura da permacultura a partir dos estudos críticos da Virada Ontológica da Antropologia e Filosofia da Ciência na Era do Antropoceno. Parte da hipótese de ficção política apresentada por Bruno Latour e da afirmação de um Novo Regime Climático, que avançou de um contexto de “crise” ambiental de fins do século XX, para o de “mutações”, contemporaneamente. Esta realidade, entretanto, apesar de todas as evidências e dados sobre o aquecimento global e suas consequências, vem sendo negada por uma elite neoliberal – desde a década de 1980 – resultando em um movimento internacional negacionista do clima, entre outros. É nessa conjuntura de passagem da “crise” às “mutações” ocorridas no social, na política e na biosfera da Terra, que a permacultura aparece como uma grande “ideia para adiar o fim do mundo”, na expressão de Ailton Krenak, ou como resistência para a Grande Virada, conforme Joanna Macy e Chris Johnstone, exigindo que entremos em ação e atualizemos nossa forma de pensar, agir e organizar nessa nova conjuntura de catástrofes e ruínas.

Palavras-chave: permacultura; antropoceno; novo regime climático.

Abstract

This article aims to present an interpretation of Permaculture from the perspective of critical studies within the ontological turn in Anthropology and Philosophy of Science, in the Anthropocene Age. This article is based on the hypothesis of political fiction presented by Bruno Latour and the assertion of a New Climatic Regime that has evolved from an “environmental crisis” context, characteristic of the late 20th century, to one of “mutations” in the Contemporary Age. Despite overwhelming evidence and data on global warming and its consequences, this reality has been systematically denied by a neoliberal elite —since the 80s— leading to an international climate denialist movement, among other challenges. It is within this context —of the shift from “crisis” to “mutations” occurring in the social, political, and biospheric dimensions of the Earth —that Permaculture emerges as a significant “idea to postpone the end of the world,” as expressed by Ailton Krenak, or as a form of resistance to the “Great Turning” according to Macy and Johnstone – demanding that we must take action and update our ways of thinking, acting, and composing in this new context of catastrophes and ruins.

Keywords: permaculture; anthropocene age; new climatic regime.

Da crise à mutação

A década de 1970 é uma época paradigmática. Ela revela e nos informa que algo de novo estava se bulindo, se contorcendo, se esgarçando na cena planetária, permitindo a emergência de importantes movimentos de protestos e rupturas contra um modo de vida ocidental, marcado por uma modernidade industrial, baseada em combustíveis fósseis, exploração, consumo e degeneração de ecossistemas. Contra uma crise que era tanto ambiental como cultural, mundos outros emergiram, com destaque para as lutas feministas em uma segunda grande onda de mobilizações, denunciando a violência contra as mulheres e a natureza, além da ampliação das lutas antirracistas pelos direitos civis, nos EUA, já lideradas por Luther King, Rosa Parks, Malcon X e os Panteras Negras. Inicia-se ali, o que hoje é o movimento LGBTQIAPN+2 a partir dos conflitos entre policiais, gays e lésbicas, em 28 de junho de 1969, que passou a ser historicamente reconhecida como o dia do orgulho relacionada à sigla acima citada. Podemos ainda falar da presença transgressora de uma geração punk, bem como manifestações contra a guerra no Vietnã (1975) e outras favoráveis às revoluções, como a dos cravos em Portugal (1974) e a iraniana (1979), entre outros acontecimentos. A lista de movimentos de resistência é enorme.

Do lado ambiental, surgem os ativismos ecológicos, em que se destacam a criação do Greenpeace, em 1971; o primeiro Partido Verde, na Austrália (1972) e Inglaterra; a pauta antinuclear, o movimento Chipko na Índia, liderado por mulheres em favor das florestas, assim como a luta em defesa do lago Pedder e do rio Franklin, na Austrália, que foi um dos movimentos ambientais de maior relevância internacional. É desse período, também, o início da criação de Tamera (1978), um biótopo de cura e paz da terra, atualmente localizado em Portugal, bem como o surgimento de importantes reflexões e publicações como o livro Libertação Animal (Singer, 1990), que foi um marco político nesse período, sobretudo com a Declaração Universal dos Direitos dos Animais, no final dos anos setenta (UNESCO, 1978). Esta década revela ainda, o que todos já pressupunham, mas que até então não havia sido tecnicamente mensurado: o relatório produzido pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts – MIT, publicado em 1972 pela cientista Donella Meadows3, que expõe a limitação do modelo de gestão do capitalismo e o crescimento econômico sem limites.

É nessa época revolucionária de importantes retomadas – como os movimentos citados e ainda, os da agroecologia, agricultura natural e biodinâmica, que a permacultura nasce, a partir das propostas de Bill Mollison e David Holmgren. Ela emerge “inicalmente como uma alternativa à agricultura insustentável e impermanente da Revolução Verde” (Ferreira-Neto, 2018), e em seguida, se torna uma ciência de planejamento de assentamentos humanos que permite recuperar ecossistemas alterados em sua biogeoquímica pelas ações antrópicas. A permacultura, segundo (Holmgren, 2013, p. 30), aparece como “uma das alternativas ambientais que surgiram a partir da primeira grande onda da moderna conscientização ambiental”, logo após os dados sobre os limites ao crescimento econômico, feitos a pedido do Clube de Roma, e a crise do petróleo, respectivamente em 1972 e 1975.

Nas últimas cinco décadas, conforme podemos verificar em sua historiografia, a permacultura – essa ciência sistêmica para permanência humana e não humana na Terra – vem sendo praticada mundialmente, sistematizando e disseminando um conjunto de tecnologias nas áreas de saneamento básico, recursos hídricos, energéticos, sistemas alimentares, entre outros. Do ponto de vista de sua organização, promoveu encontros nacionais e internacionais, capacitações e cursos de design em permacultura (PDC do inglês), consolidando-se como uma importante ferramenta de recuperação de ecossistemas. Esta ferramenta chega no século XXI como um destacado aporte prático e teórico para contribuir com o enfrentamento à atual crise climática, sobretudo porque constatamos, quase de forma desesperada, que os estudos, o alerta e as denúncias realizadas até hoje para mitigar o avanço das catástrofes ambientais e culturais, não foram suficientemente levados em consideração, revelando o quanto o capitalismo, filho da colonização e neto do patriarcado, continua devastando, dizimando e colonizando impiedosamente o planeta.

Cinco décadas após o surgimento da permacultura, não estamos mais na “crise” descrita da década de 1970, mas sim, dramaticamente, no centro de uma “mutação” (Latour, 2020, p. 23) planetária, causada pelo aceleramento radical do crescimento econômico sem limites. Podemos exemplificar as bases dessa mutação, com dados que explicam essa tragédia. Segundo (Figueiró, 2020, p. 19), registra-se no cenário planetário de “cem a mil vezes mais perda de espécies por unidade de tempo do que a dinâmica material de extinção ao longo das eras geológicas”, o que sugere Ellis e Ramankutty apud Figueiró (2020, p. 18) “propor a substituição do termo biomas por ‘antromas’, devido ao alto nível de destruição ambiental pela interferência humana”. Esses e outros dados das mutações, tais como a degeneração dos biomas, as pandemias, o aumento da concentração de CO2 na atmosfera, entre outros riscos ambientais, nos conduzem, segundo (Macy & Johnstone, 2020), a um “grande desmoronamento” que é, entre outros, o esgotamento de sistemas naturais, ou segundo a cosmologia Yanomami, “a queda do céu” (Kopenawa & Albert, 2015). Para este povo, o céu, que é sustentado pelas forças espirituais que garantem ordem e o equilíbrio do mundo, está prestes a despencar. Assim, como para os Yanomami, há um mito dos indígenas Cariris sobre a “pedra da Batateira” (Cariry, 2019) sustentada ancestralmente pela cauda de uma grande baleia. Este ser que sustenta a pedra é quem impede as águas subterrâneas de invadir o vale do Cariri cearense. Tanto o desabar dessa ‘pedra’, convergente com o mito sobre o desabar do teto do céu, que é sustentado, suspenso e considerado aos pedaços pelos xamãs Yanomami, revelam caminhos, palavras e visões diferentes, mas é perceptível que apontam para uma mesma situação catastrófica! Com o aumento da temperatura e as consequências da degeneração dos ecossistemas no mundo inteiro, anunciadas pelos estudos científicos do clima e pela própria realidade dos desastres ambientais – a exemplo da COVID-19, inundações, queimadas, entre outros – tudo vem caindo sobre nossas cabeças ditas civilizadas: o céu, a pedra, o véu e finalmente a ficha! Não que essa ficha já não tenha caído antes para muitos povos de Abya Yala4, desde o massacre da colonização de um povo originário que se fez caboclo, nordestino – peregrinos e retirantes da seca.

Nesse sentido, os dados e as informações que vêm apresentando essa mutação, explicam o debate científico em torno do que passamos a chamar, a partir do ano 2000, de acordo com os meteorologistas Paul Crutzen e Eugene Stoermer, de uma nova era geológica – o antropoceno5. Trata-se de “um período histórico no qual os humanos se tornaram a principal força produtora de mudanças na Terra” (Freyesleben, 2023, p. 2), no qual, do ponto de vista paradigmático, na ciência e na história, começamos a nos entender como agentes geológicos implicados com uma autoridade fundamental: a intrusão de gaia, na acepção de (Stengers, 2018); um novo regime climático, de acordo com Latour (2020); uma era do Negroceno, conforme (Ferdinand, 2022); o Chthuluceno, segundo (Haraway, 2022), entre outras designações e interpretações como Capitaloceno, Plantatioceno e Euroceno6.

Tais designações para ler esta Era do antropoceno, são concomitantes a outro mundo que nasce tão forte quanto foram as retomadas das lutas e contestações da década de 1970: a emergência de uma extrema-direita neoliberal, fascista e negacionista que se alastra pelo mundo inteiro e que nega, arrogantemente e covardemente, as mudanças climáticas e todas as consequências ambientais que o planeta está passando, incluindo, agora, o questionamento da permanência da própria espécie humana na Terra. Não que alguns da nossa própria espécie já não tenham sido extintos, como podemos constatar com a dizimação de muitas etnias pela violência colonial! Só para termos uma ideia, somente no “Brasil”, segundo (Pappiani, 2009, p. 8), havia antes da invasão europeia, por exemplo, cinco milhões de pessoas indígenas de mais de mil etnias diferentes. Se na atualidade só existem 305 diferentes etnias (IBGE, 2023), é porque com a colonização, houve um genocídio. Essa dizimação em território colonizado se deu, entretanto, não devido a uma crise ecológica, mas devido a múltiplos e contínuos genocídios patrocinados pela cultura ocidental.

Na atualidade, as mutações (Latour, 2020) reais e já amplamente documentadas pelo Painel Intergovernamental sobre mudanças climáticas – IPCC7, e outros órgãos científicos, são a nova versão planetária da qual precisamos nos fazer entender para situarmos nossas pautas. Se já constatamos que nada de grande e fundamental se fez para reverter a atual agenda do modo de operação capitalista, então, como a permacultura poderá nos conduzir diante das aceleradas degenerações? Precisamos indagar: por que embora as análises científicas estejam disponíveis e amplamente divulgadas, elas não conseguem mobilizar as pessoas para a necessária “grande virada”, mesmo comunicando a iminente tragédia encenada pelo humano? A hipótese de ficção política de Bruno Latour poderá nos ajudar a entender, conforme veremos adiante.

Por outro lado, esta nova realidade das mutações climáticas nos exige, agora mais do que nunca, que façamos das lutas ecológicas o ambiente para o encontro com as lutas decoloniais, tanto as macro como as micropolíticas e, sobretudo, como iremos criar mundos em comum no contexto de uma crescente deterioração das condições de vida na Terra. O desafio de encarar a passagem de uma etapa, que antes era de crise, para outra, de mutações, nos impõe novas bússolas para nos orientarmos em diferentes jornadas e estratégias. Precisamos de novas percepções e modos de ver o mundo, uma vez que a atual realidade estremece e estraçalha antigas convicções e verdades que julgávamos como certas há meio século. Estamos sendo convidados e convidadas a refletir e revisar antigos valores de velhas oposições, tais como natureza e cultura, sujeito-objeto, humanos e não-humanos, sustentabilidade e regeneração, fratura colonial e ambiental, entre outras dicotomias que desabam com a emergência do aquecimento global. Nesta nova conjuntura – política, cultural e ambiental – necessitamos, portanto, olhar para o mundo com outras lentes, soltar os antigos pressupostos e suas certezas para usar diferentes ontologias e abordagens críticas, a exemplo do relativismo natural e/ou multinaturalismo, da visão multiespécie, da perspectiva da ecologia decolonial, do redesign de culturas regenerativas, do ecofeminismo, da esperança ativa, da micropolítica, entre outras cosmovisões e perspectivas do pensamento contemporâneo8.

Estas e outras formas de abordagens que anunciam outras maneiras possíveis de viver nesse planeta, são parte das grandes ideias para adiar o fim do mundo – para usar um termo de Ailton Krenak – aos quais a permacultura se soma para realizar seus diálogos e composições nesse século XXI. Isso nos permitirá acionar novas bússolas orientadoras para repensar este mundo em mutação, um mundo que tomba, seja de cima para baixo, do céu para terra, como de baixo para cima, vindo do mar subterrâneo, onde dorme a serpente que represa com sua cauda a grande pedra que segura as águas da Chapada do Araripe, segundo a cosmologia Cariri. Tudo isso tomba, cai ou rola, pela imprudência de um sistema equivocado que despreza a vida e as naturezas!

Outras ontologias – Naturezasculturas

No contexto dos estudos antropológicos clássicos, aprendemos que cultura é algo exclusivamente humano – práticas, costumes, símbolos, hábitos e comportamentos de pessoas vivendo em sociedades, comunidades, tribos, coletivos, entre outros. Nesse campo social os atores e atrizes são diferentes, atuando com variadas línguas, artes, crenças, ritos e mitos, enquanto a “natureza” é justamente seu oposto, se comportando homogeneamente como paisagens fixas – montanhas, rios, cachoeiras e outros (Latour, 2020). No jogo das denominações da ciência moderna, construídas pelas ideias de filósofos como René Descartes, do físico Isaac Newton, desde o século XVII (Capra & Luisi, 2014), cultura e natureza tornaram-se campos que informaram a partir de métodos reducionistas, abstratos e deterministas, que os elementos de um sistema não só estariam isolados no universo, mas também, independentes, entre si, separados. Separando cultura e natureza, separaram corpo e mente, matéria e energia, mito e realidade, humanos e não humanos, entre outros dualismos. O desafio será sair desse padrão dicotômico, posto que outras pesquisas e a própria realidade mostram não existir, no nível mais básico da vida, qualquer dualidade, como cultura e não cultura, natureza e não natureza. (Morin, 2011), um dos grandes pesquisadores do pensamento complexo, se contrapõe ao dualismo, realçando em “Os sete saberes necessários à educação do futuro”, o quanto somos 100% cultura e 100% natureza.

O que estamos aprendendo agora com a visão de saberes não antropocêntricos, é que esta antiga separação dicotômica entre coisas ditas “naturais” e “culturais” está sendo profundamente problematizada, o que permite emergir outro tipo de relativismo – o relativismo natural (Latour, 2020), que declara que assim como existem várias culturas, também são diversas aquelas coisas que consideramos apenas uma “natureza”. Latour nos explica que:

[…] a antropologia moderna em seu tratamento etnográfico, tomada por uma boa-intenção nas suas relações com culturas não-modernas, mas inescapavelmente fundada na dicotomia essencial Natureza/Cultura, lança mão do relativismo cultural, um multiculturalismo cujo oposto fundacional é a unicidade da natureza (Soares, p.221, 2020).

Esta outra noção do relativismo natural questiona a postura etnocêntrica do relativismo cultural que diz que a cultura alheia é uma “outra em relação à nossa, mas a natureza do outro é tal qual a nossa (mesmo que estes discordem” (Soares, 2020, p. 221). Essa versão etnocêntrica da cultura, segundo Latour, faz parte de uma “crença de um mundo natural único” – um pensamento proveniente da ciência, ou melhor, de uma definição errônea das ciências ocidentais que nega a ideia de pluriverso9 (Latour, 2018, p. 435–436).

Na crítica indígena o pensamento dos povos originários tem desafiado estas noções ocidentais dicotômicas acima mencionadas, com outros sistemas de saberes ontológicos que retratam diferentes versões da(s) natureza(s), conforme podemos verificar nos grandes livros de Davi Kopenawa A queda do céu e O espírito da floresta, obras publicadas em parceria com o antropólogo francês, Bruce Albert. Estas cosmovisões explicam um tipo de ecologia ancestral e espiritual a partir dos espíritos da floresta, os xapiri pe, e a sua comunicação entre o que é humano e não-humano. Kopenawa ressalta, sobre a civilização dos brancos:

O que vocês chamam de ‘natureza’ na nossa língua é urihi a, a terra-floresta e também sua imagem vista pelos xamãs Urihinari a. É porque essa imagem existe que as árvores estão vivas. O que chamamos Urinarihi a é o espírito da floresta: os espíritos das árvores huutihiri pe, das folhas yaahanari pe e dos cipós thoothoxiri pe (Kopenawa & Albert, 2023, p. 32).

A citação de Ailton Krenak no trecho do seu livro Futuro ancestral (Krenak, 2022) nos mostra como a cosmovisão do seu povo apresenta outra ideia sobre a vida, a natureza, a cultura, o tempo e a ancestralidade:

Os rios, esses seres que sempre habitaram os mundos em diferentes formas, são quem me sugerem que, se há futuro a ser cogitado, esse futuro é ancestral, porque já estava aqui. Gosto de pensar que todos aqueles que somos capazes de invocar como devir, são nossos companheiros de jornada, mesmo que imemoráveis, já que a passagem do tempo acaba se tornando um ruído em nossa observação sensível do planeta. Mas estamos na Pacha Mama, que não tem fronteiras, então não importa se estamos acima ou abaixo do rio Grande; estamos em todos os lugares, pois em tudo estão os nossos ancestrais, os rios-montanhas, e compartilho com vocês a riqueza incontida que é viver esses presentes (Krenak, 2022, p. 11–12).

Segundo Latour, o que nos impede de ver o multinaturalismo da “natureza” é o fato de que ainda a concebemos como um lugar de recurso, lugar de uso, homogêneo, fruto, claro, da nossa maneira ocidental de pensar e construir mundos dicotômicos. Trata-se, segundo este autor, de uma visão herdada da percepção política moderna, que explica a “natureza” como uma materialidade inerte, um pressuposto nascido no século XVII, que embora vigore ainda hoje, sobretudo no ocidente, não quer dizer que seja a única versão da natureza. Essa versão entra em choque quando passamos a compreender que a natureza, que julgávamos um mero cenário, subiu ao palco reivindicando seu papel de co-protagonista na trama” (Costa, 2021, p. 3), nos fazendo ver que ela também tem agência e que precisamos compreender natureza e cultura sem dicotomias.

Existe uma grande diversidade de cosmovisões de povos que a veem não só como diversa, mas como “parente”, ou mãe – a Pachamama, sempre viva, atuante, farta e abundante – ou como nos termos de Latour e outros autores, como agente político. Mas a versão não foi sempre essa; antes, até o século XVI, a natureza se definia como um conceito que:

[…] ainda podia abarcar uma cadeia de movimentos; esse é o sentido etimológico da natura latina ou da phusis grega, que se poderia traduzir por origem, geração, processo, curso das coisas. Todavia, a partir do século seguinte, o uso da palavra ‘natural’ passou a estar cada vez mais reservada à investigação de um único tipo de movimento considerado do exterior (Latour, 2020, p. 85).

No contexto atual, entretanto, “nesta nova época e sob este novo regime, a natureza não pode mais ser pensada como fonte de recursos a explorar ou espaço a proteger” (Costa, 2021, p. 3), uma vez que ela já mostrou seu protagonismo e suas agências. Essa versão de recurso, apenas mantém a velha dicotomia cultura-natureza, que nos impede de ver, segundo a crítica latouriana, as redes internas – os pluriversos- se agenciando, se movimentando… É essa mentalidade separacionista que coloca a natureza como desvinculada das redes de conexão, que está sendo profundamente questionada, uma vez que esta natureza tem agência e não é algo pré-existente, como uma mera paisagem que o capitalismo explora e disponibiliza como mero produto.

Assim, quando se fala em relacionar os dois campos – natureza e cultura – para apresentar uma visão mais simbiótica da vida, é necessário também, decolonizar esses dois conceitos modernos e desentendificá-los de uma gramática que é escriptocêntrica, moderna, patriarcal, entre outras. Será preciso integrá-las, sem dicotomia, no sentido dado por Donna Haraway de culturasnaturezas10 (Oliveira, 2022). No prefácio da tradução brasileira do livro O cogumelo no fim do mundo, de Anna Tsing, reforça que:

Romper com esse dualismo, por sua vez, implica corroer nossa pressuposição de que a espécie humana é excepcional, pois a única dotada de cultura. Mundos são sempre mais que humanos, e é preciso atentar para as relações entre espécies; outras formas de vida podem nos ensinar algo, e os fungos parecem ser bons aliados para lidar com um mundo que se despedaça (Oliveira, 2022, p. 10).

Apesar de todo um investimento em promover uma cultura e ciência dicotômicas, que vigorou e que ainda vigora na educação oficial, já chegamos a um nível de problematização e compreensão que permite a promoção de outras abordagens que tratam de uma ciência não antropocêntrica (Domanska, 2013). Já podemos aceitar o fato de que não são somente os humanos que podem ter uma historiografia, mas todos aqueles que antes denominamos genericamente como “natureza”. Gaia, como geohistória, não é só a história dos humanos, mas também dos não-humanos. Estamos falando de uma “era da nova questão geo-social”, diz Latour (2020, p. 78).

Nessa nova compreensão em que consideramos novas bússolas, a crítica à “dupla fratura colonial e ambiental” trazida por Malcom Ferdinand (2022), é algo importante para nós permacultores. Essa fenda diz respeito à “distância entre os movimentos ambientais e ecologistas, de um lado, e os movimentos pós-coloniais e anti racistas, de outro, os quais se manifestam nas ruas e nas universidades sem se comunicar” (Ferdinand, 2022, p. 23). Essa falta de comunicação entre as duas esferas, segundo Latour (2020) dá-se justamente devido à maneira pela qual estes dois movimentos conceberam “à ‘natureza’, vista sem agência, sem ação alguma” Para o autor:

Toda vez que precisamos contar com a potência de agir de atores não humanos, encontramos a mesma objeção: ‘Nem pensem nisso, trata-se de meros objetos; eles não podem reagir’, tal como dizia Descartes a respeito dos animais, alegando que eles não poderiam sofrer (Latour, 2020, p. 81).

Na sua crítica decolonial, Malcon Ferdinand (2022, p. 47-53) denuncia a colonização européia das “Américas” como um habitar colonial que se efetivou pela propriedade privada da terra, o estabelecimento das plantations e a superexploração massiva humana. Ele aponta, inclusive, a obra Primavera silenciosa, de Rachel Carson, como sendo aquela que, “a despeito de todas as qualidades literárias e políticas” deste que é o “livro fundador” do ambientalismo nos Estados Unidos, notadamente, “os perigos da poluição química causada pelo uso compulsivo de pesticidas, estão totalmente desconectados das lutas dos pretos estadunidenses pelos direitos civis em curso no momento de sua publicação” (Ferdinand, 2022, p. 145). Bruno Latour reforça a existência dessa fenda, ressaltando que os dois campos – cultural e ambiental – atuaram como “conjuntos distintos”, apesar de ambos estarem seguindo “um mesmo e único vetor – o da modernização e o da emancipação” (Latour, 2020, p. 71).

Não pode haver diálogo quando existem esferas excluídas, em competição ou negação. Nesse sentido, uma ecologia decolonial, política ou multinaturalista, é tanto uma tentativa de não separar campos historicamente separados, como permite revisar os significados discursivos desses campos – como cultura e natureza, com fins de esvaziar suas esferas de limitações, preconceitos e violências. Se não decolonizarmos a palavra, a gramática e os sentidos de uma dominação, então, as palavras em si serão apenas uma mera grafia, um tipo de fake news ecológico e cultural. Mudar a percepção das duas esferas é, primeiramente, reconhecer que a cultura tem um papel fundamental nesse jogo de associações e oposições e é ela quem exerce um poder que atualmente ainda é tanto colonial-racista, patriarcal, como especista, moderno e antropocêntrico, narcisista.

Uma hipótese de ficção política

Como uma das bússolas a nos guiar nessa nova conjuntura de “mutações”, apresento aqui a hipótese de ficção política, publicada no livro Onde aterrar?, de Bruno Latour (2020, p. 10-11), que explica alguns acontecimentos políticos como sintomas de um mesmo processo histórico: o Brexit – que foi a saída da Grã-Bretanha da União Europeia-, a eleição de Donald Trump, em 2016, nos Estados Unidos, a explosão das migrações e o acordo de Paris, na COP21-, (Latour, 2020, p. 10). Além disso: a “desregulamentação”11 da economia, a explosão da desigualdade social e a negação climática, tudo isso, logo após a queda do muro de Berlim, são acontecimentos que se interligam e fazem parte de uma mesma prática política conduzida por uma elite obscurantista, segundo este autor. Esta elite não está desinformada, ao contrário, ela sabe exatamente da real situação mundial, sobretudo do clima, mas decidiram, no entanto, optar por duas posições radicais: primeiro a de que quem deve pagar essa conta colonial são os já historicamente massacrados- os colonizados-, e em seguida, passaram a negar tudo, o que permite com essa decisão, não promoverem investimentos ambientais e culturais. Eles constataram que a história não conduziria mais a um destino comum “em que ‘todos os homens’ poderiam prosperar igualmente” (Latour 2020, p. 10). Diz ele:

Nossa hipótese de que esses adeptos da globalização estão conscientes da mutação ecológica, e que todos os seus esforços nos últimos 50 anos consistiram em negar a importância das mudanças climáticas e, ao mesmo tempo, em escapar de suas consequências, construindo fortalezas que possam a garantir seus privilégios, bastiões inacessíveis àqueles que terão que ser deixados para trás” (Latour, 2020, p. 129).

Diante desta realidade, Latour conclui que não poderemos entender mais “nada dos posicionamentos políticos dos últimos cinquenta anos, se não reservarmos um lugar central à questão do clima e à sua degeneração”, posto que a questão climática está “no centro de todos os problemas geopolíticosao qual à questão não só ecológica, mais as injustiças e desigualdades sociais estão ligadas. (Latour, 2020 p. 12). Diante dessas constatações é que podemos entender porque os problemas ambientais detectados ainda na crise – no século XX – não foram resolvidos e, ao revés, só se agravaram! Podemos compreender, agora, porque as consequências que atestam desertificações de biomas, acidificação de mares, destruição de ecossistemas, mas também, desigualdades sociais, migrações, guerras, entre outras mazelas, só aumentaram!

Se no início dos anos 80, o ambientalismo oficial pregava um “futuro comum”12 anunciado pelo relatório Brundtland, este “futuro” passa a ser totalmente ignorado pelos obscurantistas, que sequer fingem seu desinteresse pelas questões climáticas, como pudemos constatar, no lamentável episódio dos EUA, que em 2017, por meio do seu presidente Donald Trump,

se desresponsabilizou das suas emissões de gases de efeito estufa, uma das mais altas do planeta, cerca de 13%13 (Latour, 2020), saindo do acordo de Paris. Nesse sentido, esta bússola que nos guia – a hipótese – revela, pelo menos dois fenômenos combinados mais desiguais: a mutação climática por um lado, e por outro, o negacionismo, e embora ocorram de forma simultânea, são fenômenos diferentes na medida em que um anuncia um caos, e o outro, ao negar taxativamente este anunciado científico, sugere, um tempo de catástrofes, para usar um termo de Isabelle Stengers (2015). Caos e catástrofe passam a ser dois lados de uma mesma moeda.

Diante desse contexto de ficção política, Latour pergunta: “devemos continuar alimentando grandes sonhos de evasão ou começamos a buscar um território que seja habitável para nós e nossos filhos?” (Latour, 2020 p. 14-15). O que iremos nós – aqueles que verdadeiramente não são os responsáveis por essas destruições climáticas, mas os principais atingidos – fazer? Essa nova realidade, do clima e da negação de sua mutação, vai exigir dos que pretendem permanecer na Terra, traçar suas rotas e começar a indagar: onde aterrar? (Latour, 2020). Se a elite obscurantista não quer conservar “o pertencimento a uma terra, a um lugar, a um solo, a uma comunidade, a um espaço, a um meio, a um modo de vida” (Latour, 2020, p. 25), nós do outro lado do front da modernização, queremos! Se a elite virou as costas, ignora ou nega o fenômeno do novo regime climático, nós, os permacultores, temos algumas das soluções para compor com diferentes líderes, ativistas, ecologistas, povos tradicionais, humanos e não-humanos nossa permanência na Terra.

Não ficaremos quietos, esperando que tudo acabe bem no final, sem nos movermos, apenas fechados em nossos sítios, alheios a esta realidade mutante. Iremos precisar nos reinventar, buscar o ativismo político, as políticas públicas, as composições diversas para ampliar o raio de penetração das práticas ecológicas nas escolas, nas praças, clubes, universidades, bibliotecas… em cada canto desse planeta com fins de mitigar o novo regime climático e resistir à contrarrevolução neocolonial e negacionista da era do antropoceno.

Redesign permacultural

Destacar a visão de uma ecologia que é política, multinaturalista, decolonial e etnográfica, é importante, nesse século XXI. No antropoceno é urgente mudarmos nossa narrativa cultural, posto que, apesar da permacultura, segundo David Holmgren, ter nascido já como um ambientalismo de oposição, com seu ativismo baseado em uma ecologia profunda, as transformações nos tempos atuais irão exigir mudanças na percepção da própria permacultura. A citação de Bill Mollison sobre o sistema político é bem emblemática para falarmos de fratura colonial e ambiental na permacultura, quando ele diz:

O que chamamos sistemas políticos e econômicos está ou desemboca em nossa habilidade de conservar o ambiente natural (…) Eu não consigo pensar em uma única decisão política que seja tão importante como a decisão de tais homens (sic) em restaurar o solo, pois são os produtos deste solo que permitem aos políticos sobreviverem” (Mollison, 1979 como citado em Ferreira-Neto, 2018, p. 269).

A percepção de Bill Mollison é contextual e temporal, claro! Se insere na perspectiva de um conservacionismo ambiental próprio do seu tempo que se resume, nessa fala, à defesa dos solos como principal bandeira – um tema evidentemente importante – porém, sem se deter nas lutas sociais como integrantes da esfera ambiental. Ainda que a permacultura se caracterize por atuar em sete grandes áreas (Figura 1) – o que já demonstra uma percepção mais abrangente e sistêmica da vida – notadamente, os temas relacionados às questões de classe, raça, gênero, geração, especismo e outros, ainda são esferas a serem integradas, ampliadas, dialogadas e sistematizadas.

Nas referências da permacultura, ainda permanecem, por exemplo, pressupostos ecológicos que tomaram “forma no século XVIII em reação às destruições ambientais nas colônias sem se preocupar com as injustiças constitutivas do mundo colonial” (Ferdinand, 2022, p. 137). Superar essa percepção se torna um importante passo naquilo que deve ser ressignificado nesta ferramenta na era do antropoceno, posto que está provado como “a poluição, as perdas de biodiversidade e o aquecimento global são os vestígios materiais desse habitar colonial na Terra, compreendendo desigualdades sociais globais, discriminações de gênero e de raça” (Ferdinand, 2022, p. 201).

Figura 1: Flor da permacultura. Imagem de Holmgren, D. (2013). Permacultura: Princípios e caminhos além da sustentabilidade. Via Sapiens.

Com as mutações, teremos que fazer mudanças em nossas narrativas “através de conversas culturalmente criativas que são provocadas ao fazermos perguntas mais profundas” (Wahl, 2020, p. 28), que nos ajudem a problematizar o ambientalismo de oposição, para usar o termo de Holmgren. As críticas, epistemologias e ontologias aqui citadas, nos permitem perceber como nossa visão (de pessoas dedicadas à permacultura) do conceito sistêmico, no fundo, se limitou ao atuar apenas no campo da ecologia aplicada. Ficamos presos ao item ambiental. E indo um pouco mais fundo, sem sequer relacionar ou “se preocupar com a causa animal” (Ferdinand, 2022, p. 25), um tema totalmente ausente dos movimentos sociais e ambientais, ainda a ser problematizado na permacultura – sobretudo para re-dimensionarmos sua ética – uma vez que nesse design, estes seres não humanos entram no zoneamento, como elementos, comida ou trabalhadores (serviços gratuitos), não como agentes políticos.

Apesar da percepção sistêmica dos ecossistemas como partes integradas, na permacultura, notadamente, esta ciência em tela, ainda segue vendo a natureza como a ecologia clássica, aqui já mencionada: recurso, ambiente natural, pano de fundo, sistema de produção, entre outros. Embora se reconheça a presença de outros seres integrando e agindo entre os sistemas vivos, os agenciamentos que recuperam ecossistemas, estes não são compreendidos como promovido por existências coletivas humanas e não humanas, em rede, como sistemas simbióticos que atuam, conjuntamente como agentes políticos. Somos sempre nós, os sujeitos sociais – os humanos- que agimos diante de uma “natureza” que está à espera de nossa ajuda fundamental. Essa é mais uma das percepções antropocêntricas pelo qual a permacultura deve ajudar a combater.

Donna Haraway nos lembra que, “as tecnologias não são mediações, algo entre nós e outro pedaço do mundo. (…) as tecnologias são órgãos, parceiros plenos, no que Merleau-Ponty chamou de ‘dobras da carne’ (Haraway, 2022, p. 330). Nesse sentido – e voltando ao tema do perspectivismo antropocêntrico citado – se uma composteira é uma tecnologia social, conforme a permacultura, qual é o lugar que ocupam os seres orgânicos que estão trabalhando-agenciando, no interior desse sistema-técnica de fazer adubo? Além do humano, ali estão micro-seres e insetos, bactérias, oxigênio, minhocas, milhares de fungos e outros organismos vivos multiespécies, todos fazendo as decomposições com água e restos de alimentos, coletivamente, criando a possibilidade de emergir, no mínimo, uma matéria-prima desejada: um húmus nutritivo para enriquecer o solo. Nessa composição, estamos todos juntos – humanos e outras formas de vida – mas temos a impressão cultural de que as tecnologias ditas sociais são agenciamentos puramente ou basicamente humanos. Mas não o são. Por meio da biologia e da própria permacultura como este lugar de observação dos múltiplos agentes e saberes, podemos detectar os exemplos de vidas que agenciam os processos de composição, que atuam como “dobras”, como conversores para ciclos interativos que, em rede, se somam em suas específicas competências para a geração de vidas. São, segundo (Souza, 2020), “tecnologias vivas”, mais do que “tecnologias sociais”, ali se afetando, entre humanos e não humanos.

Nessa reflexão sobre “tecnologias vivas” trago aqui o exemplo de Bill Mollison, que explica, na Figura 2, as funções e características do ser-galinha. Ela, a galinha – e poderia ser uma vaca ou qualquer outro animal – funciona basicamente numa ótica pecuarista, ou seja, como produto, comida, trabalho, e claro, está sempre a serviço dos humanos! Nessa percepção os animais são meros alimentos de um conjunto de possibilidades para usufruto e consumo! E lembrando que, justamente porque na ciência moderna a “natureza” se comporta como objeto, tudo o que não é humano – nessa moralidade vigente milenar – não sofre ou sente dor, e claro, também, não tem direitos, o que é uma versão antropocêntrica desse mundo “civilizado”! Nesse sentido, pode-se dizer que, de fato, a galinha é tudo isso que se disse dela, na Figura 2 , mas há que refletirmos e questionarmos esta versão do estatuto moral humano (civilizado), que imprime a este ser – e a outros – o sentido de mercadoria. Nessa percepção pecuarista a galinha é somente um recurso, parte de uma engrenagem e tem pouco a ver com a vida ou o bem-estar dela e de sua espécie, segundo pode nos valer, nesse diálogo, a ética14 Animal – um campo de debates destacado na década de 1970, com as contribuições científicas de Peter Singer. Embora o conceito de veganismo caiba bem a essa reflexão da galinha, estamos problematizando o campo mais amplo da permacultura, que é o da sua ética: “Cuidar de si e do outro”. E quem é o “outro” na permacultura?

Figura 2: Características, necessidades e produtos de uma galinha para considerar sua inserção em relação aos outros elementos do sistema permacultural. Fonte: (Mollison, B., 1988, p. 18).

Este diálogo nos permite esgarçar o cosmos da permacultura – que ainda se apresenta com uma ética bem-estarista, e, portanto, antropocêntrica – para problematizar seja as existências não-humanas, como as resistências humanas que se dão pelo viés da cultura especista, que é quem naturaliza sistemas alimentares baseados em vidas abatidas. Em uma sociedade – para além de racista e machista – antropocêntrica, os animais continuam a ser escravizados, torturados e assassinados friamente, de forma naturalizada para mero consumo.

Ainda é difícil inserir o direito animal no paradigma antropocêntrico! Em nossas sociedades industriais é ainda alto o uso e a produção para consumo, em alta escala, de proteína animal; dos maus tratos para com estes seres, da poluição dos oceanos pelos excrementos vindos da pecuária, devastação das florestas para pastos e monoculturas, entre outras mazelas das quais a permacultura deve se opor veementemente e enfrentar os desafios provenientes do agronegócio, cuja pecuária se destaca. Devemos trazer para o centro da pétala outras éticas que não sejam de vantagem meramente humana. A questão ética na permacultura ainda é monoculturalizada, quer dizer, centrada só no humano. Mas já existe, desde Pitágoras, o debate da ética animal (Felipe, 2006). É um debate, também, do veganismo e agora, pelo novo regime climático, da ecologia e também da permacultura. Este tema não é em vão no antropoceno, uma vez que a própria ONU apresenta como expectativa para 2050 a diminuição em 50% no consumo de carne, segundo consta no relatório sumário da comissão EAT-Lancet (Willett et al., 2019) que ressalta:

A transformação para dietas saudáveis até 2050 vai exigir mudanças substanciais na dieta. O consumo geral de frutas, vegetais, nozes e legumes terá que duplicar, e o consumo de alimentos como carne vermelha e açúcar terá que ser reduzido em mais de 50%. Uma dieta rica em alimentos à base de plantas e com menos alimentos de origem animal confere benefícios à saúde e ao meio ambiente (Willett et al., 2019, p. 3)

A diminuição de carne na mesa humana, não será pelos mesmos motivos veganos – compaixão – mas pelo viés ambiental uma vez que a pecuária tem sido uma das principais responsáveis pelas estatísticas de danos na camada de ozônio, causadas pelo metano, pelo uso excessivo de água, desmatamento para pastos, entre outros índices que ampliam o aquecimento global. O professor Alexandre Costa, pesquisador do IPCC, realça, em uma entrevista a Unisinos (Santos, 2020), que

A crise climática segue se agravando justamente em função de um modo de vida intensivo em carbono, desde a demanda de energia para produção de bens de consumo, passando pelo transporte, até chegar num sistema de produção alimentar altamente predatório, com desmatamento para expansão da fronteira agrícola e consumo de carne em uma quantidade cada vez mais insustentável. Então as causas, embora não sejam exatamente as mesmas, guardam ligação entre si.

Embora ainda estejamos nesse regime alimentar predatório, a tendência deverá ser diminuir o consumo de produtos animais, aumentar o aporte de vegetais, recuar na pecuária intensiva e avançar nas agroflorestas, na agroecologia, agricultura orgânica e outros sistemas alimentares. Trata-se, portanto, de um passo fundamental da pauta no contexto do novo regime climático que implica em respeito multiespécie e escuta ativa a todos aqueles que propõem, de maneira ampla, distribuída e inovadora, tomar outros seres que não-humanos como “agentes políticos”, e não meros objetos funcionais, como o exemplo da galinha.

Nesse sentido, a permacultura, no entendimento ecológico na era do antropoceno, necessita de outras receitas éticas, sobretudo quando ainda se definem zoneamentos com animais para sistemas de serviços e alimento aos humanos. Os animais devem estar presentes no zoneamento permacultural, mas não como meros objetos. Estamos falando não só de diversidade cultural, agora, entramos na era do respeito à diversidade multiespécie, para usar um termo de Anna Tsing (2022).

O reconhecimento de não-humanos como agentes políticos – e não objetos utilitários, como a ave citada – explica um salto na consciência humana, justo porque ambos, nesse contexto, se equivalem, pois são agentes. Essa visão – ou biovisão – em que determinados seres antes vistos como “coisas”, “objetos”, são chamados ao palco, agora como atores – como o vírus do COVID 19 – e não mais meros desenhos de fundo, é uma nova revolução paradigmática, dialógica e multiespécie, no enfrentamento do novo regime climático. Essa outra percepção da vida e do planeta, nos permite problematizar a exclusividade do homo-sapiens-sapiens, uma vez que são agentes, também, as “rochas, as pedras, gatos…”, na medida em que “todas essas coisas agem e interagem” (Pickering, 2013, p. 79). A perspectiva das agências políticas implode o humano do ego(cêntrico) e tipo de reinado, onde ele era o monarca.

O antropoceno é patriarcal

A centralização do sujeito humano não se dá só como espécie privilegiada, mais no tocante ao gênero masculino, branco, ocidental, como centro da perspectiva moderna, assentada numa posição científica por meio do que se chama de “ciências humanas”, questionada hoje pelas ciências não-antropocêntricas.

Segundo Latour (2022, p. 162) “os organismos fazem seu ambiente, não se adaptam a ele”. O ambiente não é algo dado, simplesmente, ele é constituído por forças de agências coletivas, humanas e não humanas. A Terra está viva, afirma Lovelock & Tickell (2006)15, em sua teoria de Gaia, que trouxe a noção da Terra como um sistema em evolução, com vida autorreguladora. Apesar dessa teoria ter sido formulada na década de 1970,

Os cientistas só reconheceram a Terra como entidade auto-reguladora na Declaração de Amsterdam, em 2001, e muitos ainda agem como se o nosso planeta fosse uma enorme propriedade pública que possuímos e compartilhamos. Eles se aferram à sua visão dos séculos XIX e XX da Terra, ensinada na escola e universidade, de um planeta constituído de rocha inerte e morta, com vida abundante a bordo: passageiros na jornada desse planeta através do espaço e do tempo (Lovelock e Tickell, 2006, p. 18-19).

Importante que se diga que a crítica ao antropocentrismo não é para combater o humano, mas para lembrá-lo, sobretudo, de que não estamos sozinhos no planeta, somos ecossistemas humanos e não-humanos. É para questionar o fato de que alguns dessa espécie se considerem mais merecedores que outros, como os homens, os brancos, ou ocidentais, sujeitos masculinos criadores de Estados-Nações, que oprimem parcelas da sociedade por androcentrismos, racismos e colonialismos. Estes Estados-Nações são patriarcais e as comunidades colonizadas são educadas pelo programa antropo-falo-logocêntrico, para usar um termo da Suely Rolnik (2018), desde as macro e micropolíticas do capitalismo. Há um programinha da cafetinagem rodando pelo status quo. O que precisamos é denunciar essa educação que impõe violências simbólicas, de gênero, raça, especismo, entre outros. É preciso lembrá-los (aos patriarcados), que eles não estão sós, e que todos dependemos dos elementos primordiais da existência: o oxigênio, as plantas, os minerais, a água, a terra, ou seja, tudo aquilo que nos cerca e que, de uma maneira ainda errônea, denominamos apenas como coisas não-humanas.

Segundo Domanska (2013, p. 10), a atitude antropocêntrica “apresenta a espécie humana como o centro do mundo, desfrutando de sua hegemonia sobre os outros seres e funcionando como mestres da natureza que existe para atender às suas necessidades”. O antropocentrismo é uma espécie de monarquia humana entre as outras espécies, um czar entre as naturezas. Por isso, a percepção do conceito de agentes políticos descentra o humano, sobretudo o humano masculino, uma vez que o que foi gerado nessa era industrial de guerras e saques foi uma gestão marcadamente masculina.

O patriarcado é um agenciamento de biopoder – e melhor agora é dizer, geontopoder (Povinelli, 2022), no antropoceno. Notadamente, foram os homens – e não as mulheres – que criaram as corporações, as guerras, os governos e as instituições dos Estados-Nações da modernidade. Como diz os versos da poetisa (Silva, 2005):

Mulheres fazem o mundo

Fazem o globo girar

Fazem tudo num segundo

Fazem a vida durar

Mulheres não fazem guerra

Fazem nascerem na terra

Os frutos do verbo amar

Não podemos deixar de ver na permacultura, ainda, os profundos rastros não só do antropocentrismo, por meio de sua ética, como também dos seus rastros androcêntricos ao constatarmos o quanto sua imagem central é marcadamente masculina, ainda que saibamos da existência e presença feminina no seu interior. Há, ainda, pouco destaque à contribuição das mulheres nesse campo, mas isso ocorre no movimento ambiental de uma maneira geral, apesar de haver mulheres como Maria Thun16, Raquel Carson, Ana Primavesi, Rosemary Morrow, Simin Fadaee, Su Dennet, Starhawk, Lucia Legan, Masha Hanzi, Joanna Macy, Flávia Vivacqua, Vandana Shiva, Nena Alava e tantas outras, assim como eu, que praticam permacultura. Há ainda, essas fraturas no movimento ecológico e na permacultura, consequentemente. Há muitos paradoxos a serem enfrentados nessa época no antropoceno, e um deles é que o humano-homem terá que se abrir para o feminino ou matrístico. Como disse Latour “Noé dos novos tempos, é mulher”! Nesse caso, nosso lugar não é nem na arca, nem no convés de qualquer navio – este lugar de marinheiros, piratas, homens… – é na Terra: que é mãe, prima, tia, avó, neta, filha, sogra… a Pachamama de todas as tribos e clãs, a terra-floresta dos Yanomami, dos Cariris…, mas não a mesma mãe-terra do discurso binário do patriarcado que imagina essa Terra-natureza feminina-frágil ou entidade a ser dominada e explorada.

Algumas conclusões: con(fiando) em novos mundos para a grande virada

Assim como não estamos mais na crise ambiental, e sim nas mutações, segundo Bruno Latour, também já não estamos mais no contexto da sustentabilidade, segundo Daniel Wahl (2019)17, uma fase que já ficou para trás, precisamente porque nada de notável se fez, nada de impactante se processou para reversão das degenerações dos ecossistemas, que só aumentam. O trem passou, velozmente, e sequer a transformação mais importante aconteceu plenamente, que é antes de tudo “fazer um redesign da presença humana na Terra” (Wahl, 2019, p. 25) para

Questionar profundamente a nossa maneira de pensar, a nossa visão de mundo e o nosso sistema de valores. Mudanças nos nossos modelos mentais, crenças básicas e suposições sobre a natureza da realidade (Wahl, 2019, p. 25).

Contudo, e apesar das fraturas ora mencionadas, a permacultura é um desenho ecológico que prima pela percepção sistêmica e mesmo tendo questões a serem problematizadas isso não a invalida, ao contrário, pois a permacultura sempre se reinventou. A atenção redobrada no antropoceno faz parte das exigências desta terceira grande onda tardia da permacultura, que traz para nós a pauta da “grande virada” paradigmática, que deve estar movida e guiada, segundo Joanna Macy e Chris Johnstone, por uma esperança ativa, que é uma visão, segundo ela, que deve ser entendida como uma prática:

Como o tai chi ou a jardinagem, é algo que fazemos em vez de algo que temos. É um processo que podemos aplicar a qualquer situação e envolve três etapas principais. Primeiro, buscamos uma visão clara da realidade; segundo identificamos o que esperamos em termos de qual rumo gostaríamos que as coisas tomassem ou de que valores gostaríamos de ver expressos; e, terceiro, damos passos para nos movermos ou a nossa situação para esta direção (Macy e Johnstone, 2020, p. 13).

Joanna Macy e Johnstone (2020) dizem: o que deve nos mover é a “intenção”. Nós devemos escolher “o que pretendemos provocar, fazer ou expressar. Em vez de mensurar nossas chances e prosseguir apenas quando nos sentimos esperançosos, nos concentramos em nossa intenção e deixamos que ela seja nosso guia” (Joanna Macy e Johnstone, 2020, p. 13). Nesse sentido, situamos a permacultura como essa plataforma de inovação transformadora, agência geossocial, ideia “para adiar o fim do mundo” ou cosmopolítica de relações que se reinventam e redefinem a nós – seus agentes políticos e terrestres – que se dedicam às práticas permaculturais. Quer dizer, uma permacultura que denuncie a dupla fratura, que politize a ecologia, que resgate os mestres e intelectuais orgânicos, locais, como a permacultura dos beatos do cariri; que se oponha ao neoliberalismo, fascismo e negacionismo, que traga o debate entre humanos e não humanos, promova novas ontologias, reconheça que a luta é tanto macro como micropolítica, e que sobretudo, se situe no Novo Regime Climático.

A permacultura é um chamado para re-existências e co-habitações, por isso que necessita neste século XXI, esgarçar alguns aspectos fundamentais da sua cosmovisão para que possa enxergar todas essas mutações para além dos óculos de um biopoder, mas sim do que já se denomina, como um geontopoder – “essa crise da governança da vida e da não-vida”, segundo Elizabeth Povinelli (2023, p. 266). Se há uma guerra de mundos, conforme afirma Bruno Latour (2020), nós, da permacultura temos um lugar, temos saídas e tecnologias sociais, vivas e políticas, que poderão aterrar-nos. Isso exigirá, entretanto, que comecemos a grande tarefa de nos reinventarmos para re-co-ocupar, re-co-habitar e re-co-assentarmos como terrestres18 nossos próprios territórios. Estamos no ponto da “grande virada” (Macy e Johnstone, 2020), pois assim como o tempo é de uma era de catástrofes, também o é de esperanças. O contexto que diz sobre destruições é o mesmo que se pode dizer, também, sobre regenerações (Wahl, 2019), e é dentro do que Latour (2020) chama de “gestos que barrem”, que devemos construir políticas para uma permacultura de urgência na emergência climática.

Referências bibliográficas

Capra, F., & Luisi, P. L. (2014). A visão sistêmica da vida: Uma concepção unificada e suas implicações filosóficas, políticas, sociais e econômicas. Cultrix.

Cariry, R. C. (2019). Dona Ciça: O barro das maravilhas. Interarte.

Castro, E. V. de, & Danowski, D. (2014). Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Florianópolis: Cultura e Barbárie; Instituto Socioambiental.

Costa, A. (2021). As mil faces de Gaia. https://quatrocincoum.com.br/resenhas/divulgacao-cientifica/as-mil-faces-de-gaia/.

Domanska, E. (2013). Para além do antropocentrismo nos estudos históricos. Revista Expedições: Teoria da História e Historiografia (ISSN 2179-6386), 4(1), Artigo 1. https://www.revista.ueg.br/index.php/revista_geth/article/view/1768

Felipe, S. T. (2006). Fundamentação ética dos direitos animais. O legado de Humphry Primatt. Revista Brasileira de Direito Animal, 1(1), Artigo 1. https://doi.org/10.9771/rbda.v1i1.10249

Ferdinand, M. (2022). Uma ecologia decolonial (1o ed). Ubu.

Ferreira-Neto, D. N. (2018). Uma alternativa para a sociedade: Caminhos e perspectivas da permacultura no Brasil.

Figueiró, A. S. (2020). O desafio da educação diante de um cenário de colapso ambiental no antropoceno. Em Educação ambiental—Cenários atuais da saúde ambiental e humana. Seabra, G. Barlavento.

Freyesleben, A. (2023). Os tempos do Antropoceno: Reflexões sobre limites, intensidade e duração. História (São Paulo), 42, e2023038. https://doi.org/10.1590/1980-4369e2023038

Haraway, D. (2022). Quando as espécies se encontram (J. Fausto, Trad.). Ubu Editora.

Holmgren, D. (2013). Permacultura: Princípios e caminhos além da sustentabilidade. Via Sapiens.

IBGE. (2023). Censo Demográfico 2022: Indígenas: Primeiros resultados do universo. (p. 193). IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=2102018

Kopenawa, D., & Albert, B. (with d’Aguiar, R. F.). (2023). O espírito da floresta: A luta pelo nosso futuro. Companhia das Letras.

Kopenawa, D., & Albert, B. (with Perrone-Moisés, B.). (2015). A queda do céu. Companhia das Letras.

Krenak, A. (2022). Futuro Ancestral. Companhia das Letras.

Latour, B. (2018). Qual cosmos, quais cosmopolíticas? Comentário sobre as propostas de paz de Ulrich Beck. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, 69, Artigo 69. https://doi.org/10.11606/issn.2316-901X.v0i69p427-441

Latour, B. (2020). Onde aterrar?: Como se orientar politicamente no antropoceno. Bazar do Tempo Produções e Empreendimentos Culturais LTDA.

Lovelock, J. E., & Tickell, C. (2006). The revenge of Gaia: Earth’s climate crisis and the fate of humanity. Basic Books.

Macy, J., & Johnstone, C. (2020). Esperança ativa: Como encarar o caos em que vivemos sem enlouquecer (1o ed). Bambual.

Mollison, B. (1988). Permaculture: A Designers’ Manual (8o ed). Tagari Publication.

Morel, A. P. M. (2023). “Um mundo onde caibam muitos mundos”: As palavras verdadeiras de educadores zapatistas. Revista de Antropologia, 66, e210610. https://doi.org/10.11606/1678-9857.ra.2022.210610

Morin, E. (2011). Os sete saberes necessários à educação do futuro. Cortez Editora.

Oliveira, J. C. (2022). Prefácio. Um encontro com O cogumelo no fim do mundo. Em O cogumelo no fim do mundo: Sobre a possibilidade de vida nas ruínas do capitalismo. Tsing, A. L. 2022. N-1 Edições.

Pappiani, A. M. (2009). Povo verdadeiro: Os povos indígenas no Brasil (1a edição). IKORĚ.

Pickering, A. (2013). Being in an environment: A performative perspective. Natures Sciences Sociétés, 21(1), Artigo 1. https://doi.org/10.1051/nss/2013067

Porto-Gonçalves, C. W. (2009). Entre América e Abya Yala – tensões de territorialidades. Desenvolvimento e Meio Ambiente, 20. https://doi.org/10.5380/dma.v20i0.16231

Povinelli, E. (2022). Geontologias (M. Ruggieri, Trad.). Ubu Editora.

Rolnik, S. (2021). Esferas da insurreição: Notas para uma vida não cafetinada (2o ed). n-1 edições.

Santos, R. M. (2020). A disputa pelo futuro é hoje. Entrevista especial com Alexandre Araújo Costa. IHU On-Line. https://www.ihu.unisinos.br/categorias/159-entrevistas/598495-a-disputa-pelo-futuro-e-hoje-entrevista-especial-com-alexandre-araujo-costa

Silva, S. M. da S. (2005). Mulheres fazem [Folheto].

Soares, L. M. (2020). Multinaturalismo e equivocidade de mundos em tempos de crise ambiental. Cadernos PET-Filosofia, 18(2). https://doi.org/10.5380/petfilo.v18i2.68084

Souza, G. M. de. (2020). Envolver o que nos envolve: Permacultura e sítios ecológicos em paisagens multiespécies na Serra do Espinhaço. [Tese (Doutorado), Universidade Federal de Minas Gerais – Departamento de Antropologia e Arqueologia – Programa de Pós-Graduação em Antropologia]. https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/45379

Stengers, I. (2018). A proposição cosmopolítica. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, 69, Artigo 69. https://doi.org/10.11606/issn.2316-901X.v0i69p442-464

Tsing, A. (2022). O cogumelo no fim do mundo: Sobre a possibilidade de vida nas ruínas do capitalismo. N-1 Edições.

Wahl, D. C. (2020). Design de culturas regenerativas. Bambual Editora LTDA.

Willett, W., Rockström, J., Loken, B., Springmann, M., Lang, T., & Vermeulen, S. (2019). Food in the Anthropocene: The EAT-Lancet Commission on healthy diets from sustainable food systems. Lancet.

1 – Universidade Federal do Cariri (UFCA) – francisca.fanka@ufca.edu.br

2 – Sigla para identidades: Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros, Queer ou Questionadores, Intersexuais, Assexuais, dentre outros.

3 – Donella Meadows é autora ao lado do seu esposo, Dennis Meadows, Jorgen Randers e Willian W. Behrens III, da pesquisa conhecida como The limits to Growth, encomendada pelo Clube de Roma ao Massachusetts Institute of Technology, em 1972. Sanson, C. (2022). O primeiro relatório sobre os limites do crescimento completa 50 anos [Instituto Humanitas Unisinos].

4 – “Abya Yala, na língua do povo Kuna, significa Terra madura, Terra Viva ou Terra em florescimento e é sinônimo de América (…) Abya Yala vem sendo usado como uma autodesignação dos povos originários do continente em oposição a América, expressão que, embora usada pela primeira vez em 1507 pelo cosmólogo Martin Wakdseemüller, só se consagra a partir de finais do século XVIII e inícios do século XIX, adotada pelas elites crioulas para se afirmarem em contraponto aos conquistadores europeus, no bojo do processo de independência. Muito embora os diferentes povos originários que habitavam o continente atribuíssem nomes próprios às regiões que ocupavam – Tawantinsuyu, Anauhuac, Pindorama –, a expressão Abya Yala vem sendo cada vez mais usada por esses povos, objetivando construir um sentimento de unidade e pertencimento” (Porto-Gonçalves, 2009, p. 29).

5 – Confira esse debate em Conversa sobre o AntropocenoJosé Eli da Veiga.

6 – Para cada um destes conceitos existe uma vasta literatura e os leitores podem acompanhar esse debate rico através destes autores. Tais conceitos apresentados em sequência não indicam que são sinônimos ou correlatos.

8 – Respectivamente informados por (Latour, 2020; Castro & Danowski, 2014; Kopenawa & Albert, 2015; Tsing, 2022; Ferdinand, 2022; Wahl, 2020; Haraway, 2022; Macy & Johnstone, 2020; Rolnik, 2021).

9 – Os organizadores do livro A World of Many Worlds, organizado por Marisol de La Cadena e Mario Blaser (2018) “inspiram-se no convite zapatista e definem o pluriverso como mundos heterogêneos unindo-se como uma ecologia política de práticas, negociando seu difícil estar junto na heterogeneidade. A oportunidade do pluriverso surgiria, paradoxalmente, diante da acentuação do colapso ecológico no Antropoceno” (Morel, 2023, p. 3).

10Haraway, D. (2022). Quando as espécies se encontram. Ubu Editora.

11 – Parte desta análise já foi referida por David Holmgren (2013), quando abordou o que ele chamou de 2ª onda do movimento ambiental e a “subida da revolução Friedmanita” (Holmgren, 2013), responsáveis pelas políticas neoliberais implementadas por Ronald Reagan e Margaret Thatcher.

12 – Comissão Mundial sobre o meio ambiente e desenvolvimento. Nosso futuro comum. Editora Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro-RJ, 1991.

13 – Em 2021 este país retornou ao acordo, a política negacionista permanece crescente no mundo inteiro, mesmo com a COP 28 de 2023, tendo retomado o debate sobre o limite da temperatura.

14– Felipe, S. T. (2009). Antropocentrismo, Sencientismo e Biocentrismo: Perspectivas Éticas Abolicionistas, Bem-Estaristas e Conservadoras e o Estatuto de Animais Não-Humanos. Páginas de Filosofia, 1, 2–30. https://doi.org/10.15603/2175-7747/pf.v1n1p2-30

15 – Teoria criada por James Lovelock e Lynn Margulis.

16 – Introduziu o calendário astrológico da agricultura biodinâmica a partir das ideias de Rudolf Steiner.

17 – Confira o livro Design de culturas regenerativas de Daniel Christian Wahl sobre esse debate entre sustentabilidade e regeneração.

18 – Termo utilizado por Latour para designar aqueles – humanos e não-humanos – que vão resistir ao novo regime climático.

Permacultura periférica: reflexões contracoloniais e feministas para um debate necessário

Peripheral permaculture: counter-colonial and feminist reflections for a necessary debate

 SARNO, Luciana N.1
Submetido em 30abr2024. Aceito em 6nov2024.
Revisão por Adriana Angelita da Conceição e Paulo Eduardo Rolim Campos

DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.14751295

Resumo: O artigo discute a necessidade de uma abordagem permacultural periférica, contracolonial e feminista no Brasil, que valorize os saberes ancestrais e as perspectivas marginalizadas no protagonismo da construção do saber, na semiótica e promova justiça socioeconômica e ambiental. A permacultura hegemônica, muitas vezes, negligenciou a presença, no corpo, no convívio e na linguagem dos indivíduos produtores de saberes ancestrais, o que a permacultura periférica, decolonial e feminista busca superar, propondo uma abordagem mais inclusiva e contextualizada. Existem projetos vinculados às políticas públicas populares, em comunidades periféricas, integrando diversos atores, que valorizam o contexto global e sistêmico e caminham nessa direção. Algumas experiências concretas desta abordagem estão representadas nas ações do Instituto de Permacultura da Bahia.

Palavras-chave: permacultura periférica, contracolonial, decolonialidade, feminismo, saberes ancestrais, pertencimento, justiça socioeconômica e ambiental

 Abstract: The article discusses the need for a peripheral, Counter-Colonial, and feminist permaculture approach in Brazil that values ancestral knowledge and marginalized perspectives in the protagonism of knowledge construction, in semiotics, and promotes socioeconomic and environmental justice. Hegemonic permaculture has often neglected the presence, in the body, in the coexistence, and in the language of individuals who produce ancestral knowledge, which peripheral, decolonial, and feminist permaculture seeks to overcome by proposing a more inclusive and contextualized approach. There are projects linked to popular public policies in peripheral communities, integrating various actors, that value the global and systemic context and move in this direction. Some concrete experiences of this approach are represented in the actions of the Permaculture Institute of Bahia.

Keywords: peripheral permaculture, decoloniality, feminism, ancestral knowledge, belonging, socioeconomic and environmental justice.

Introdução

A permacultura, como abordagem holística para um planejamento sustentável, resiliente, tem raízes profundas na busca por harmonia entre seres humanos, ecossistemas e comunidades, uma construção de coexistência. No entanto, é imperativo que repensemos os conceitos que norteiam as práticas metodológicas de um campo hegemônico da permacultura no Brasil, com a intenção de torná-la mais inclusiva, consciente e pertinente para uma camada numerosa da sociedade que não aceita mais receita pronta, vinda de um saber rígido, narcísico. Neste artigo, exploro reflexivamente a necessidade de refundar a permacultura numa perspectiva política, focando em uma abordagem periférica, decolonial, contracolonial e feminista. Além disso, destaco a importância de resgatar não apenas os saberes ancestrais e promover a resiliência em nossa relação com o meio ambiente, mas abrir espaço para que encontremos a pedagogia de terreiro, de quilombo, de aldeia. É essencial que os sujeitos desses campos específicos apresentem a sua permacultura, a sua práxis, a sua cultura da permanência, sem a interferência imperativa de sujeitos alienígenas, que expropriam saberes e fazeres. Essa reinterpretação da permacultura não apenas valoriza as vozes marginalizadas, apagadas, menosprezadas, mas também reconhece a interconexão entre as práticas sustentáveis e a justiça social, criando um espaço onde todos possam contribuir para um futuro mais equitativo, sustentável e resiliente.

Contexto

A permacultura, muitas vezes, foi ensinada e aplicada de acordo com padrões ocidentais, eurocêntricos, supondo que este modelo de diálogo funcionaria em perfeito encaixe com as bordas sociais do Brasil. Acredito que isso deva-se ao esforço de sistematizar as técnicas, o que é válido e necessário, mas trouxe uma miopia para as observações contextuais nas dinâmicas sociais, humanas e seus fazeres comunitários, a borda da borda.

O decolonialismo nos convida a questionar essa universalidade e reconhecer que o conhecimento não é neutro. A decolonialidade, nesse sentido, é uma proposta que busca resgatar e valorizar saberes e práticas que foram marginalizados, e exige a presença, o corpo, a linguagem desses sujeitos detentores de técnicas vivas e resilientes, evitando que se tornem meras teorias acadêmicas desconectadas da realidade, quase folclorizadas. Devemos descentralizar o discurso e as práticas da permacultura, valorizando as vozes, experiências e presença das culturas marginalizadas, e, com isso, estruturar equidade, acesso e ressignificação.

O feminismo latino-americano surge nessa proposta nos ensinando sobre a importância do cuidado, da interconexão, do acúmulo da aldeia, do local e da reciprocidade. A permacultura deve incorporar esses princípios de forma mais radical, reconhecendo que a sustentabilidade não é apenas uma questão técnica, mas também uma questão de relações humanas, culturais, sociais, relacionais, ambientais e políticas. As mulheres, historicamente responsáveis pelo cuidado da terra e da comunidade, têm muito a contribuir para uma permacultura mais sensível, equitativa, intuitiva e reflexiva para dentro dos sujeitos. A pouca presença imagética dos feitos femininos no campo da permacultura, nas consultorias e nas dinâmicas de poder, principalmente para atividades de valor econômico elevado, é um sintoma revelador de uma imagem ainda muito masculina, branca e de classe média dos fazedores da permacultura no Brasil.

A permacultura, numa perspectiva política, deve ser vista como um fenômeno sociocultural e ambiental que promove a resiliência e a garantia de direitos dos povos, diferente disso, ela é uma expropriadora de saberes ancestrais e periféricos. Nesse sentido, o “com quem” e “para quem” são elementos que precisam de análise e busca por soluções mais aproximadas com o povo periférico e a regionalidade. A permacultura não deve se limitar a técnicas de cultivo ou desenho de jardins e campos produtivos de propriedades particulares, pois também envolve a capacidade de adaptação das periferias diante das mudanças climáticas, sociais e econômicas. Ou seja, a resiliência e a cultura da permanência deve estar, para todos e todas, enraizada na diversidade, na cooperação e na flexibilidade.

A opinião

A permacultura, enquanto movimento coletivo de planejamento de um território sustentável com a presença humana, tem desafiado paradigmas e inspirado ações em prol de um mundo mais equilibrado e regenerativo desde a década de setenta do século passado. No entanto, é fundamental reconhecer que a permacultura convencional, praticada por um campo hegemônico, muitas vezes, negligenciou a presença dos indivíduos produtores de saber ancestral na exposição e no protagonismo de suas contribuições técnicas criativas e seus saberes. Os indivíduos pertencentes às culturas periféricas, distantes da civilidade ocidental, já assinalam essa lacuna na práxis permacultural, principalmente quando seus saberes são submetidos a uma abordagem universalista e ocidental que carece de diversidade e inclusão.

O chamado contemporâneo que reforça a necessidade de decolonização do conhecimento e das ações, convida a repensar essa visão e a valorizar as perspectivas marginalizadas. Não basta reconhecer a importância dos saberes ancestrais, é necessário abrir espaço para que os indivíduos originários sejam protagonistas em corpo, convívio e linguagem própria nos espaços de formação, de atuação profissional e de visibilidade imagética na cena brasileira dessa ciência interdisciplinar. A permacultura periférica, decolonial e feminista surge, ainda acanhada, como uma resposta a esse desafio, propondo uma abordagem com a cara do território que hoje chamamos de Brasil, sendo mais inclusiva, contextualizada e transformadora.

Ao descentralizar o discurso, para que venha de muitos lugares, poderemos ver e ouvir as comunidades periféricas. Assim, não estaremos apenas enriquecendo nosso repertório de práticas sustentáveis, resilientes e integrativas, mas também promovendo a justiça socioeconômica e ambiental. Projetos vinculados às políticas públicas populares ou preferencialmente estabelecidos em comunidades periféricas, podem integrar os diversos atores, estabelecendo valor e lugar à humanidade, valorizando o contexto global e sistêmico, criando e recriando as técnicas. Essa perspectiva é uma chave para a resiliência individual, comunitária e territorial. É um caminho para que a permacultura fortaleça a sua relevância diante das mudanças significativas da contemporaneidade, buscando construir coletivamente, na diversidade de corpos, sotaques, biomas e cidades, promovendo assim, ações que atendam às diversas realidades para a caminhada rumo a uma humanidade mais justa e harmoniosa.

A permacultura periférica, decolonial e feminista não é apenas uma proposta teórica, mas sim um chamamento à ação. Cabe a cada uma, a cada um de nós, enquanto agentes de mudança, adotar uma postura crítica em relação às práticas dominantes e buscar alternativas que promovam a diversidade, a equidade e o cuidado mútuo. Na práxis, é a consciência de caminhar rumo às bordas, atuar nos bastidores quando for necessário e criar clareiras no sistema. A visibilidade e protagonismo dos grupos minorizados leva a que estes revisitem a permacultura com seus olhares, falas, e corpos e, somente aí, juntos, a ressignificaremos numa perspectiva política e libertadora. Sabemos, de modo geral, que a permacultura tem sido um espaço majoritariamente branco, masculino, acadêmico e eurocêntrico. Assim, a partir dessa realidade, percebo que não há outra opção que não seja a do campo dialógico para que seja possível estabelecer diálogos entre os desiguais e com estes, caminhar para uma permacultura brasileira. Somente assim, com generosidade e solidariedade, poderemos construir um futuro no qual a Permacultura seja relevante em escala, alcançando os assentamentos, as periferias populosas, os territórios agrícolas e camponeses, seja diversificada em sua práxis e inclusiva para as gerações presentes e futuras. É a promoção da cultura da permanência sem aspectos metodológicos que replicam aspectos coloniais.

Em um mundo marcado por desigualdades, degradação ambiental, crescimento de ações disruptivas e colonizadoras, a permacultura periférica, decolonial e feminista representa uma filosofia, com método e práxis que permitirá apontar caminhos para a construção de respostas sociais mais resilientes, justas, regenerativas, no tempo e escala que precisamos. É possível aferir ações concretas dessa proposição, em lugares específicos, mas ainda minoritários. A Bahia destaca-se nessa caminhada com a atuação do Instituto de Permacultura da Bahia, fundado em setembro de 1992. Liderado por mulheres desde a sua fundação, executa papel que transcende a aplicação de técnicas agrícolas sustentáveis, técnicas de saneamento ecológico e de construção com barro e/ou bambu, ou a consultoria permacultural. O Instituto se entrelaça com a essência da vida comunitária e prioritariamente caminha na implementação de políticas públicas com a comunidade pela escuta de suas demandas. Atua em rede com várias outras organizações da sociedade civil na construção de políticas públicas relevantes para a população, como a política pública de agroecologia do Estado da Bahia, construção das conferências de meio ambiente no Estado. Atualmente vem construindo uma metodologia de rede, fincada dentro das comunidades periféricas e tradicionais, construindo metodologias e tecnologias sociais com e para elas e estabelecendo aliança na luta pela terra e pelo território. No entanto, também encontra desafios na formação de lideranças que atuem dentro da instituição, diversificando a origem de classe social. É preciso aceitar o desafio de alcançar uma maior diversidade étnica, pois como instituição baiana, é incoerente ser majoritariamente branca. Outra experiência digna de nota é o movimento Permangola idealizado no Kilombo Tenondé2, pelo Mestre Cobra Mansa, em conjunto com Isabel Fróes Modercin, que teve o objetivo de integrar a filosofia da Capoeira Angola com a ética e os princípios da permacultura, visando proporcionar o desenvolvimento humano de forma holística, no qual corpo, mente, espírito e meio natural estão integrados. Ao longo do tempo, o Kilombo Tenondé apresentou inquietações referentes à Permacultura que não dialoga com os saberes tradicionais e que não reflete a periferia do mundo, mas dela tudo copia. Isso afastou o Kilombo Tenondé dessa proposição de junção, processo promovido a partir das reflexões apresentadas pela liderança quilombola Nêgo Bispo, instigando o Kilombo Tenondé a identificar o que tem de chão e de diálogo íntimo com seus sujeitos e territórios. Essa situação trouxe ao Instituto de Permacultura da Bahia uma reflexão profunda e tem fomentado as mudanças políticas e metodológicas rumo à borda e à elaboração de governança contracolonial e defesa de um feminismo decolonial.

Há uma percepção de que é chegada a hora de abraçar essa visão e trabalhar juntas/ juntos na construção dessa perspectiva complexa, múltipla, na qual a diversidade seja celebrada nos espaços de poder da permacultura brasileira para que a interconexão seja reconhecida na prática popular, de modo que a cara da permacultura brasileira seja a cara do Brasil e, principalmente do território onde ela é aplicada, ovacionada e vivida. Que o cuidado com a fonte ancestral do saber seja a base de nossas relações, e que a presença dessa diversidade seja sentida concretamente. Juntas, juntos podemos transformar a práxis permacultural e moldar um futuro mais responsável com os saberes dos povos para que a solidariedade estabeleça relações de trocas justas, populares e o chão da permacultura brasileira, sulamericana, seja um reflexo de Abya Yala.

Consultas

Santos, A. B. dos. (2015). Colonização, Quilombos, Modos e Significações (Vol. 1). INCTI/Universidade de Brasília.

Santos, A. B. dos. (2023). O que a terra dá a terra quer. Ubu Editora.

Queiroz, L. (2020). Decolonialidade e concepções de língua: Uma crítica linguística e educacional. Pontes Editores.

Vergès, F. (2020). Feminismo decolonial. Ubu Editora.

1 – Instituto de Permacultura da Bahia. – lucianasarno@gmail.com

2 – Associação eco educativa e cultural – https://kilombotenonde.net/.

Permacultura para segurança e soberania alimentar

Permaculture for food security and sovereignty

Referência completa da obra que foi traduzida:

HOLMGREN, David. Permaculture for food security and sovereignty. Holmgren Design, Australia, 2014. https://holmgren.com.au/wp-content/uploads/2014/03/food-for-thought.pdf.

MONTEIRO, Yasmin El Kadri1

Submetido em 28abr2024. Aceito em 14jun2024.

Avaliado por Maria Francisca Santos Daussy e Clovis José Fernandes de Oliveira Jr.

DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.14751291

Resumo: O presente artigo é uma tradução ao português do texto original escrito em inglês por David Holmgren. Uma versão resumida desse mesmo texto foi publicada primeiramente na revista PIP Magazine: Australian Permaculture em março de 2014. O autor articula diversos conceitos, ações e consequências que têm impactado a segurança e a soberania alimentar, bem como aponta para a permacultura como um importante sistema de princípios para a organização eficiente da alimentação contemporânea. Enquanto por um lado o sistema alimentar industrial resulta em uma lógica linear em que a produção, o processamento, a distribuição e o consumo de alimentos produzem desperdício material e energético em todas as etapas, o sistema alimentar com base nos princípios da permacultura promove ciclos em que prosperam a biodiversidade, a resiliência às adversidades, o acesso a alimentos orgânicos e o empoderamento de escolher o que plantar, coletar e comer.

Palavras-chave: permacultura; segurança alimentar; soberania alimentar; sistema alimentar.

Abstract: This article is a Portuguese translation of the original text written in English by David Holmgren. An abridged version of this same text was first published in PIP Magazine: Australian Permaculture in March 2014. The author articulates several concepts, actions and consequences that have impacted food security and sovereignty, as well as pointing to permaculture as an important system of principles for the efficient organization of contemporary eating. While on the one hand the industrial food system results in a linear logic in which the production, processing, distribution and consumption of food produces material and energy waste at all stages, the food system based on permaculture principles promotes cycles in which thrive the biodiversity, resilience to adversities, the access to organic food and empowerment of choosing what to plant, collect and eat.

Keywords: permaculture; food security; food sovereignty; food system.

A atual cadeia industrializada de produção/consumo de alimentos é a maior contribuidora para o impacto ambiental, incluindo as emissões de gases de efeito estufa, enquanto a segurança alimentar continua a ser a questão mais crítica para o bem-estar humano e a estabilidade social. A segurança alimentar é uma condição que “existe quando todas as pessoas, em todos os momentos, têm acesso físico e econômico a alimentos seguros, nutritivos e em quantidade, suficientes para satisfazer as suas necessidades nutricionais e preferências alimentares para uma vida ativa e saudável”2.

Ao longo do século XX, o sistema alimentar industrializado aumentou a produção mundial de alimentos e a capacidade de processamento, preservação e distribuição, acelerando a utilização direta e indireta de combustíveis fósseis em esgotamento e de reservas preciosas de rocha fosfática. No processo, degradou o solo e poluiu as águas, incluindo os mares. Os agrotóxicos aumentam as taxas de câncer, acumulam-se em peixes oceânicos e degradam os serviços ecológicos, incluindo a polinização por abelhas e outros insetos. Além das toxinas residuais, as desvantagens do sistema alimentar industrializado para a saúde, têm sido múltiplas. As perdas de vitaminas resultantes do armazenamento e do transporte prolongados e o declínio da densidade mineral resultante das monoculturas anuais, alimentadas por aplicações desequilibradas de fertilizantes em solos degradados, tem reduzido o valor nutricional dos alimentos. O processamento excessivo de alimentos e novos aditivos, como o amido de milho rico em frutose, resultaram numa epidemia de obesidade em muitos países e no aumento de doenças relacionadas com a dieta. O uso generalizado de antibióticos necessários para manter a produção animal intensiva tem contribuído para que bactérias resistentes a antibióticos surgissem em todos os lugares, desde no intestino humano até nos animais selvagens. A perda de antibióticos eficazes pode ser uma das grandes tragédias para a humanidade no século XXI. As tentativas de melhorar a grande ineficiência na alimentação das vacas com grãos e outros alimentos concentrados têm resultado na reciclagem de resíduos de matadouros de volta ao gado, resultando na doença da vaca louca e outras ameaças à saúde humana, à ética e ao bom senso. As recentes introduções de novas genéticas aos cultivos alimentares ameaçam uma nova onda de consequências nutricionais não intencionais, com as consequências ecológicas já estabelecidas.

Estas consequências não intencionais, tornaram-se agora o caminho comprovado para as empresas do agronegócio continuarem a desenvolver novos mercados com produtos que direcionam os problemas que elas já haviam criado. Esta forma de capitalismo de desastre é bem ilustrada pela resposta da multinacional Monsanto à propagação rápida e prevista de ervas daninhas resistentes ao glifosato presente no Roundup3. Os primeiros agricultores a produzir estas ervas daninhas resistentes tornaram-se a fonte involuntária das culturas geneticamente modificadas de Roundup Ready da Monsanto, que permitiram a pulverização direta de herbicidas sobre as culturas alimentares4.

Apesar destas consequências adversas, a capacidade da agricultura industrial produzir grandes excedentes tem sido real e os custos dos alimentos representam uma pequena proporção da renda da classe média global. Contudo, isso não se traduziu numa abundância de alimentos para todos devido às falhas do mercado em alimentar as pessoas em primeiro lugar. A alimentação e engorda do gado para manter e aumentar o consumo excessivo de carne, lacticínios e peixe pela crescente classe média global, engoliu grande parte da produção de cereais, legumes e sementes oleaginosas; um dos aspectos mais obscenos e desumanos do sistema alimentar global. A ascensão dos biocombustíveis, especialmente a partir do milho, adicionou insulto à injúria, com estudos que sugerem que a potencial procura por biocombustíveis para os automóveis da classe média global poderia superar os cerca de 5 bilhões sem acesso a carros, para o seu total abastecimento de alimentos. As culturas de exportação (para pagar as dívidas nacionais) têm ocupado grande parte das melhores terras agrícolas nos países pobres densamente povoados, cultivando culturas de luxo para abastecer os países ricos e as pessoas com mais alimentos e medicamentos do que deveriam consumir, bem como com roupas suficientes para 10 vidas. A degradação dos solos, as alterações climáticas, a guerra e a insegurança tem reduzido enormemente a capacidade das pessoas de se alimentarem de forma confiável. Me lembro de uma história de alguém que viajou pelo Sudão há 20 anos e observou que qualquer pessoa que tivesse dinheiro compraria ovo em pó importado da Europa. Questionados sobre por que não criavam galinhas, responderam que alguém com um fuzil M16 apareceria e diria: “essas são as minhas galinhas perdidas”.

Mais universalmente, a mudança do campo para a cidade por centenas de milhões de pessoas atraídas por melhores oportunidades econômicas (e impulsionadas pelas consequências da degradação da terra, do cerco de terras comuns e dos conflitos), tem aumentado enormemente a dependência ao rendimento monetário e aos subsídios governamentais para comprar alimentos. Dessas e de outras formas, o sistema econômico global não tem conseguido proporcionar segurança alimentar.

A insegurança alimentar também se manifesta nos países ricos de muitas formas surpreendentes. Na Austrália, o declínio da produção de alimentos no quintal desde a década de 1960 e a perda de relações comunitárias, reduziram as oportunidades de troca e seguro social decorrentes de trocas não-monetárias. Nas décadas seguintes, o aumento da vida em apartamentos e os quintais menores reduziram a capacidade de produção familiar de alimentos. Múltiplas gerações de salários, e mesmo de dependência da assistência social, deixaram muitos australianos sem sequer as “competências da pobreza”, incluindo o cultivo alimentar e a preservação da casa. Nas últimas décadas, os elevados níveis de endividamento tem feito com que todos os membros da família se deslocassem para o trabalho ou para a escola, deixando pouco tempo para o cultivo de alimentos, a criação e a preservação dos animais. O declínio do ato de cozinhar e armazenar alimentos em casa tem aumentado a dependência por estabelecimentos comerciais de alimentos que estão abertos 24 horas por dia, 7 dias por semana, tornando esse ato refém dos monopólios comerciais altamente dependente de transportes de longa distância. A busca constante por maior eficiência e lucros por parte das empresas alimentícias fez com que a logística Just In Time substituísse o armazém e o armazenamento nas lojas. As interrupções nas cadeias de abastecimento devido a catástrofes naturais ou econômicas criaram uma instantânea dependência de grandes populações da ajuda emergencial numa escala sem precedentes. Mesmo sem o pico petrolífero e as alterações climáticas, as perspectivas de inúmeras pessoas sofrerem de insegurança alimentar na Austrália aumentam inexoravelmente devido às disfunções da riqueza multigeracional. Eu me pergunto por que as pessoas se sentem tão confortáveis em confiar no Coles5como seu armário pessoal de comida.

A aplicação dos princípios da permacultura à produção de alimentos não muda apenas como produzimos alimentos, mas também as maneiras e os graus em que os armazenamos, preservamos, transportamos, distribuímos, preparamos e consumimos. Para além da mesa de jantar, o planejamento da permacultura reorganiza a cadeia de abastecimento alimentar para garantir que todos os resíduos, incluindo dejetos humanos, sejam reciclados em terras produtoras de alimentos. Estes ciclos fechados são muito mais fáceis e mais eficientes em termos energéticos quando organizados à escala doméstica e local. Ao priorizar a produção de alimentos na economia familiar, a permacultura reintroduz este aspecto frequentemente ignorado do debate sobre segurança alimentar. O cultivo de alimentos em casa aumenta a segurança alimentar de muitas maneiras que se sobrepõem e se autorreforçam.

Em primeiro lugar, é relativamente fácil produzir vegetais perecíveis, frutas e pequenos produtos pecuários utilizando métodos orgânicos que reciclam resíduos domésticos e locais. Estes alimentos podem não ser básicos, mas reduzem a conta alimentar, diversificam a dieta e melhoram a saúde de todos, tanto na produção como no consumo. Eles também requerem mais fertilidade e água do que as culturas básicas. O excedente de fertilidade é um subproduto natural dos assentamentos humanos, enquanto as grandes áreas de telhados e superfícies duras nos assentamentos modernos permitem a captação de água para apoiar a horticultura de alta produtividade. Os alimentos cultivados em casa proporcionam uma sensação de orgulho e suficiência, desenvolvem competências e confiança para serem ampliados se necessário, geram excedentes para preservação que aumentam as reservas alimentares das famílias, enquanto a oferta e a troca aumentam ainda mais o seu crédito com outras pessoas da comunidade. Estes processos ajudam a relançar as economias familiares e comunitárias que outrora eram o pano de fundo, em grande parte dado como certo, da economia monetária. A história nos mostra que sempre que a economia global monetária afunda, as economias familiares e comunitárias crescem rapidamente. Em países há muito tempo ricos como a Austrália, o desafio tem sido como construir as competências e a infraestrutura antes que condições econômicas terríveis exijam uma reconstrução dolorosa das economias familiares e comunitárias a partir de um patamar muito baixo.

Ao longo dos últimos trinta anos, a permacultura tem sido um fator importante nessa reconstrução, contra as tendências dominantes de declínio da produção e da resiliência das famílias. Embora a modernização de quintais suburbanos para a produção de alimentos tenha sido um tema importante da prática, do planejamento e do ativismo da permacultura, estas atividades não têm se limitado ao domínio privado. A permacultura tem sido um importante agente de influência positiva no crescimento de hortas comunitárias e escolares e de fazendas urbanas, nas plantações públicas de árvores alimentícias e na reintrodução de animais pequenos e até de animais maiores em ambientes urbanos para nos reconectar com a natureza, ao mesmo tempo que fornece alternativas às máquinas e aos herbicidas no manejo da vegetação. Os praticantes da permacultura foram pioneiros em muitos destes projetos na onda ambiental do final dos anos 1970, mas depois da cultura “a ganância é boa” do início dos anos 80, a segunda onda do início dos anos 90 estava mais focada na construção energeticamente eficiente e na tecnologia de energia renovável. A biologia ficou em segundo plano, com exceção do reflorestamento indígena. Esse período estabeleceu o padrão para a sustentabilidade dominante que em grande parte ignorou a agricultura, a alimentação e a potencial contribuição da agricultura urbana. Uma menção de dois parágrafos aos alimentos no plano de sustentabilidade urbana de Adelaide no final da década de 19906 foi um sinal de que a longa negligência dominante aos alimentos poderia estar chegando ao fim.

Entretanto, na Austrália rural, a geração pioneira de agricultores biológicos estava finalmente obtendo reconhecimento e preços premium através do mecanismo de certificação biológica que dava segurança de qualidade àqueles que valorizavam a diferença e podiam pagar pelo premium. Embora o marketing orgânico tenha inicialmente estimulado um novo tipo de distribuição de alimentos saudáveis, os supermercados rapidamente entraram em ação, contratando grandes produtores orgânicos, impondo-lhes a mesma produção especializada (monocultura) e logística que aplicam aos produtores convencionais.

Os pequenos produtores e os consumidores orgânicos responderam com feiras de agricultores, esquema de cestas e a sua evolução para a Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA), que melhoraram os retornos para os agricultores, reduziram os preços aos consumidores e construíram conexões que melhoraram a segurança alimentar de todos, incluindo os agricultores que trocaram as sobras da produção com outros produtores no final do dia.

Nos últimos dez anos, a preocupação com a epidemia de obesidade tem tido um forte foco no cultivo, na preparação e no consumo de alimentos nas escolas. A maioria das pessoas empregadas para projetar, organizar e administrar esses jardins foram influenciadas pelo planejamento da permacultura e muitos fizeram Cursos de Design em Permacultura (PDC), que está gradualmente se tornando uma qualificação reconhecida nessa área de trabalho.

Ao mesmo tempo, a profissão de planejador alcançou o interesse público e as hortas comunitárias e a agricultura urbana voltaram à moda. Os “nerds” da política de sustentabilidade percebem agora que a cadeia de abastecimento alimentar, do pasto ao prato e até aos aterros sanitários e ao tratamento de esgoto, é de longe a maior contribuinte para as emissões de gases de efeito estufa, a má utilização da água e a pegada ecológica da sociedade. As prioridades políticas anteriores, que ignoravam o sistema de abastecimento alimentar, foram pensadas olhando-se para setores econômicos como transportes, produção de eletricidade, indústria, agricultura, etc., sem perguntar o que estas atividades econômicas e infraestrutura estariam produzindo.

O último defensor ignorante das contribuições dos combustíveis fósseis e dos alimentos convencionais para moldar a natureza e as vulnerabilidades de toda a economia é a própria economia dominante, em grande parte porque esses fatores de produção têm sido muito baratos.

Entretanto, a reação pública às consequências adversas do sistema alimentar industrial estimulou ainda mais o interesse pela agricultura orgânica, pelas feiras, pelo comércio justo, pela agricultura urbana e jardinagem, WWOOFing7 e pela colheita selvagem e pela coleta de resíduos do sistema alimentar industrial. Para muitas pessoas, a permacultura é o sistema de planejamento e estilo de vida que reúne estes interesses numa abordagem integrada, que vai além do conceito de segurança alimentar para um conceito de “soberania alimentar”, no qual as comunidades têm controle sobre sua produção e seu consumo de alimentos para benefício mútuo de ambos produtores e consumidores. A reconstrução do sistema alimentar a nível familiar é o cerne que gera naturalmente esse conceito mais amplo, porque os produtores e os consumidores estão unidos pelos laços íntimos e pela reciprocidade entre seus familiares.

A soberania alimentar refere-se ao direito de produzir alimentos no seu próprio território. Originou-se da Via Campesina8 nos países de segundo e terceiro mundo em 1996, em resposta à colonização do conceito de segurança alimentar pela agricultura industrial controlada por empresas, entregando os seus excedentes subsidiados publicamente às pessoas famintas em regiões afetadas por crises humanitárias, e através do comércio livre globalizado, destruindo sistemas locais de abastecimento alimentar. A soberania alimentar foi posteriormente assumida por Permacultores australianos e “ativistas da alimentação justa”9 refletindo a aplicação passada do conceito de segurança alimentar no contexto australiano.

A visão da permacultura sobre a segurança e soberania alimentar é a de comunidades cheias de hortas, despensas cheias de conservas e sementes prontas para serem colocadas em canteiros irrigados pela água coletada da chuva e fertilizados pelos resíduos reciclados do disfuncional sistema alimentar industrial, muitas vezes por meio de pássaros que põem ovos e revolvem intensamente serrapilheira e linhas de agrofloresta (semelhantes aos ancestrais das galinhas, as aves selvagens do sudeste asiático). Estende-se às terras públicas com hortas comunitárias, pomares de árvores frutíferas e de castanhas, avenidas e florestas alimentares, rebanhos de cabras manejando ervas daninhas e convertendo o excedente de biomassa de nossos subúrbios frondosos em produtos lácteos, e sistemas rotativos de aves e suínos que cultivam os campos aráveis da agricultura urbana e periurbana.

A permacultura coloniza os espaços urbanos de maior densidade com canteiros que drenam água e jardins nos telhados, sistemas aquapônicos usando uma abundância de tanques, canos e bombas recuperados, e ocupa o espaço escuro e frio dos estacionamentos subterrâneos com contêineres reaproveitados, produzindo o deleite dos fungos que crescem em resíduos de madeira dos subúrbios arborizados. Essa visão da permacultura incorpora facilmente a necessidade de colher a exuberância de plantações passadas de grandes árvores perenes de rápido crescimento, para permitir que a luz solar sustente plantas alimentares mais produtivas, estufas anexas, vidros e painéis solares orientados ao sol. A abundância de madeira se torna material estrutural, combustível e forragem, e substratos fúngicos que sustentam a modernização dos subúrbios e super-subúrbios10 periurbanos na Austrália para atingirem seu potencial de tornar as paisagens agrícolas mais produtivas e bonitas.

Embora uma grande parte da ação continue a ser centrada em ecologias intensivamente cultivadas em jardins e fazendas, a visão da permacultura sempre envolveu a coleta de plantas e animais selvagens das margens dos nossos espaços cultivados e dos bens comuns mais amplos que uma vez foram a fonte de sustento dos povos indígenas e tradicionais. Especialmente em tempos de dificuldades, as espécies marginais, os espaços e os bens comuns têm sido um apoio resiliente que alimentou e curou as pessoas quando as colheitas fracassaram, quando ocorreram catástrofes naturais ou jogos de poder político e conflitos que privaram de direitos e deslocaram pessoas. Tem ocorrido um renascimento do interesse pelos alimentos silvestres, desde a comida do mato dos povos aborígines até os segredos culinários com plantas espontâneas comuns e animais selvagens trazidos pelos nossos antepassados europeus11, bem como aqueles conhecidos e utilizados pelos migrantes mais recentes da Ásia, América Latina e África. Na Austrália, muitos migrantes continuaram a coletar alimentos silvestres, não apenas para complementar o orçamento alimentar, mas também para manter ligações culturais, muito antes do funcho e da “horta” (vegetal grego verde e folhoso) estarem disponíveis nos supermercados. Hoje, os permacultores estão na vanguarda de uma explosão de interesse em coletar e cozinhar plantas espontâneas comestíveis comuns.12

As estratégias da permacultura para aumentar a segurança e soberania alimentar são centradas tanto na mudança dos nossos hábitos de consumo alimentar para o que pode ser facilmente cultivado localmente, abundante e especialmente subvalorizado ou até mesmo desprezado. Plantas espontâneas e animais selvagens muitas vezes têm uma reputação tão ruim, não apenas porque somos os “notórios pirralhos mimados e ricos” que podemos escolher entre as despensas de alimentos do mundo, mas porque os povos tradicionais sobreviveram comendo alimentos comuns e silvestres em tempos de dificuldades, e muitos que vivenciaram essas dificuldades ficaram com lembranças ruins relacionadas à comida que os sustentavam. As crianças da classe média, cuja fonte de proteína era principalmente o coelho durante a Grande Depressão13, fizeram com que a carne de coelho fosse considerada um alimento inferior; um legado que só desapareceu nas últimas décadas, à medida que aquela geração passou.

Em 1994, na costa de Amalfi, no sul de Itália, o meu filho Oliver subia avidamente nas velhas alfarrobeiras para recuperar deliciosas vagens de alfarroba que ninguém usava, porque nos disseram que, durante os tempos difíceis da Segunda Guerra Mundial, as pessoas eram sustentadas pela alfarroba, mas a chegada de tropas estadunidenses marcou o início dos bons tempos com a distribuição (pelas tropas invasoras) de chocolate e cigarros. No Arquipélago Gulag, o autor dissidente russo Alexander Solzhenitsyn, ilustrou as dificuldades do Gulag observando que eles tinham que comer urtigas para sobreviver. Tenho certeza de que Solzhenitsyn estava tendo uma experiência péssima na época, mas a sopa de urtiga é uma fonte deliciosa de nutrição mineral e vitamínica concentrada e, é uma planta espontânea que vale a pena coletar. Considero a abundância de urtigas saudáveis um bom sinal de solo fértil14, e as picadas durante a colheita como parte da experiência gastronômica e um lembrete do equilíbrio entre a dor e o prazer, e do equilíbrio entre a terra e as pessoas.

No Japão, o respeito pelas fontes silvestres de sustento é refletido no jardim, onde as pessoas aproveitam partes de plantas que os ocidentais sempre descartam, como as folhas e os talos das cenouras. Os tempos difíceis no Japão contribuíram, em vez de prejudicar, a visão das plantas espontâneas em tempos de prosperidade. A retenção e agora o ressurgimento do interesse nas coletas tradicionais, tanto nas fazendas como nas florestas do Japão rural, é um dos aspectos positivos num futuro de baixa energética15.

A coleta de alimentos selvagens suscita outra estratégia de segurança alimentar, a da recolha, que inclui coletar restos da produção comercial que um agricultor não pode usar ou vender. Os direitos de recolher fazem parte de uma longa tradição na Europa, que contribuiu para o sistema informal de segurança social através do qual os mais necessitados tinham acesso a alimentos que os mais favorecidos não utilizavam.16 Durante quase três décadas na Austrália, os permacultores têm sido coletores de alimentos, recolhendo frutos caídos que os suburbanos ricos não valorizam. Parte dessa coleta foi feita com permissão e incentivo, outras vezes sem. No processo, construímos uma cultura confiante de sobrevivência e prosperidade sem muito dinheiro, enquanto a maioria das pessoas continuava a dar seu dinheiro aos grandes supermercados. Ocasionalmente, éramos vítimas de tais ações, como um permacultor amigo meu, com uma horta altamente produtiva em Coburg17, no início da década de 1980, que encontrou uma mulher mais velha de origem mediterrânea colhendo todos os seus limões no jardim da frente. Quando ele sugeriu que ela deveria levar apenas alguns, a mulher disse “vocês, Anglos, não os valorizam nem os usam”. Sem dúvida essa era a experiência genérica dela. Hoje, os protocolos sobre a coleta dos excedentes suburbanos tornaram-se mais sofisticados e cooperativos, com grupos como Growing Abundance18 em Castlemaine19 conseguindo distribuir a produção excedente de árvores frutíferas de quintais pela comunidade para um número crescente de pessoas que valorizam e são capazes de processar, preservar e fermentar o excedente. O professor de permacultura e articulador de redes, Ian Lillington diz que a Growing Abundance está combinando os aspectos de desenvolvimento das hortas comunitárias, com as habilidades de horticultura dos produtores orgânicos comerciais e as preocupações com a alimentação justa de grupos como a Associação Australiana de Soberania Alimentar20 para aumentar a utilização e a valorização da produção de alimentos das famílias e comunidades existentes, como um caminho para melhorar a segurança e soberania alimentar.

Mas o fim mais selvagem da recolha da permacultura continua com a explosão do skipping (ou mergulho no lixo), onde o fluxo de resíduos de alimentos perfeitamente bons jogados fora pelo sistema alimentar industrial é interceptado, principalmente sem permissão, por jovens ativistas comprometidos em fazer o bem por obter algo grátis. Em muitos casos, o skipping envolve um jogo de gato e rato com guardas de segurança e expressa um protesto radical contra o sistema alimentar dominado pelas corporações que está destruindo o planeta. Da mesma forma que muitos permacultores na década de 1970 expressaram o seu desdém radical pela cultura de consumo, comprando as suas roupas em bazares, e ao longo da vida poupando dezenas de milhares de dólares, os jovens permacultores de hoje alargaram o boicote à loucura do consumo por meio de uma combinação de skipping, cultivo e fermentação de alimentos, juntamente com compras selecionadas em feiras de agricultores e produtores orgânicos. Em vez de comer junk food21 de graça, a maioria dos que praticam skipping que conheço, restringe sua ingestão a produtos certificados organicamente.

O aspecto chocante dessas ações é o fato de pessoas da classe média, capacitadas e capazes, escolherem agir de forma associada aos mais necessitados. Uma narrativa contada por um amigo estadunidense muito capaz, que vive com US$ 500 por ano, destaca a diferença. Um dia, enquanto trabalhava nas lixeiras em busca de comida, ele conversou com um homem negro que também vasculhava as lixeiras. O que você está procurando? Latas, responde o homem. O que você faz com as latas? Vendo, responde o homem. O que você faz com o dinheiro? Compro comida, responde o homem, enquanto meu amigo recolhe comida perfeitamente boa em embalagens lacradas das lixeiras. A trágica necessidade dos desamparados de manter a dignidade através da participação na economia monetária contrasta com o empoderamento radical dos agentes de mudança que condensaram num único ato a ação contra o sistema, o bem-estar pessoal e a subsistência.

Cada vez mais, o escândalo do desperdício alimentar no sistema industrial, está de certa forma atenuado pelo desvio desse desperdício através da assistência social convencional, o que facilitou o declínio da reputação das empresas do setor alimentício. Esses esquemas parecem ter mais substância e ética do que as campanhas das empresas de alimentos para mostrar como são amigos dos agricultores, uma vez que continuam a reduzir os retornos aos produtores e a dar preferência a grandes produtores empresariais com contratos de fornecimento rigorosos. No entanto, a grande diferença entre o skipping e a redistribuição assistencial é que o primeiro cria uma cultura de responsabilidade pessoal fortalecida, enquanto a segunda simplesmente reforça a cultura de dependência da autoridade, que quando a situação se torna difícil, não conseguirá fornecer os bens e muito menos manter a dignidade humana diante das graves ameaças ao sistema de abastecimento alimentar.

A questão que ocorre a muitos quando consideram esta explosão marginal do cultivo de alimentos nas casas e na economia paralela, sem mencionar a coleta selvagem e o skipping, é: Isso prejudica o mercado para os produtores comerciais sérios, na sua maioria orgânicos, que tentam ganhar a vida fornecendo àqueles na sociedade que não confiam no sistema alimentar industrial dominado pelas corporações? Até certo ponto, estas redes informais competem com os melhores estabelecimentos comerciais pequenos, as feiras de agricultores e as CSA, mas em outros aspectos são complementares e se apoiam mutuamente.

Por exemplo, as pessoas que têm alguma experiência no cultivo dos seus próprios alimentos compreendem que embora os alimentos saiam do solo e das árvores, são necessários planejamento, esforço e boa noção de tempo para ser um produtor eficaz e consistente. Essas pessoas são muitas vezes as melhores clientes para os pequenos produtores orgânicos que vendem nas feiras de agricultores e especialmente aqueles que usam cestas sazonais para atrair os clientes que possuem uma escolha ilimitada no sistema de mercado central, para uma alimentação sazonal que aceita os altos e baixos da abundância, diversidade e qualidade como parte da realidade de um sistema alimentar local e resiliente. Em 1991, argumentei que é provável que uma nação de jardineiros estivesse preparada para pagar um preço justo aos agricultores e apoiar políticas que favoreçam aqueles que produzem alimentos como meio de subsistência. Acredito que foi a desconexão da realidade do trabalho com a natureza que permitiu políticas que apoiam o fornecimento confiável durante todo o ano de junk food padronizado e barato, controlado por grandes empresas.

Na nossa própria experiência ao longo dos últimos dez anos, criando e gerindo um híbrido informal entre o esquema de cestas CSA, a partilha de produtos secos e a redistribuição do excedente familiar, temos visto uma rotatividade de clientes de cestas à medida que alguns se tornam produtores domésticos mais competentes e são substituídos por outros que querem ir além da compra selecionada em mercearias e feiras de agricultores locais. Ao mesmo tempo, compreendemos que os números que chegam às feiras de agricultores e às mercearias locais continuam aumentando, presumivelmente devido aos clientes que estão abandonando o hábito de ir ao Coles ou Woolworths22.

É a diversidade de produtores, mercados e trocas que garante mais resiliência na construção de um sistema paralelo de abastecimento alimentar que possa sobreviver aos rigores de um futuro de baixa energética, incluindo a possibilidade de que a replicação viral das estratégias e dos sistemas mais bem-sucedidos possa um dia substituir um sistema alimentar industrial cada vez mais centralizado e disfuncional. A permacultura oferece poderosos princípios de organização e estratégias que podemos aplicar nos nossos esforços para sobreviver e prosperar, cultivando por nós próprios, intercambiando excedentes, explorando a natureza e os resíduos, e apoiando os produtores às margens da economia formal. Não devemos hesitar em aproveitar os resíduos dos sistemas centralizados controlados pelas empresas e a abundância dos excedentes da natureza, enquanto nos concentramos na importante tarefa de desenvolver as competências dos produtores domésticos e do mercado local.

Agradecimentos

Agradeço à equipe do Holmgren Design e ao próprio David Holmgren por concederem autorização para realizar essa tradução.

1 – Nutricionista, Mestranda no programa de pós-graduação em Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina, yasmin_ekm@hotmail.com.

2 – Definição da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura). Food Security Information for Action Practical Guides: An Introduction to the Basic Concepts of Food Security. 2008. Disponível em: https://www.fao.org/4/al936e/al936e00.pdf.

3 – O glifosato é um agrotóxico herbicida que faz parte dos ingredientes ativos do produto comercialmente conhecido como Roundup. A empresa que o apresentou ao mercado em 1974 foi a Monsanto, que manteve a patente até 2000. Fonte: BBC News Mundo.

4 – Tendo já levado a limites absurdos nos tribunais o conceito de direitos de propriedade intelectual, a Monsanto roubou efetivamente esses genes criados pelos agricultores sem compensação àqueles que fornecem os laboratórios agrícolas gratuitos para o próximo salto estratégico da corporação.

5Coles é uma grande rede de supermercados australiana

6 – Trabalho de um “ativista da permacultura” no departamento de planejamento da Austrália do Sul.

7 – Rede global de trabalhadores dispostos em fazendas orgânicas – WWOOF https://wwoof.net/.

8A Via Campesina ou Movimento Camponês Internacional, com cerca de 150 organizações, “coordena organizações camponesas de pequenos e médios produtores, trabalhadores agrícolas, mulheres rurais e comunidades indígenas da Ásia, África, América e Europa”. http://viacampesina.org/en/.

9Consulte o site da AFSA. Plano alimentar para a população http://www.australianfoodsovereigntyalliance.org/peoples-‐food-‐plan / em resposta ao Plano Alimentar Nacional do governo federal.

10 – Os subúrbios na Austrália tem características bastante distintas do que conhecemos como subúrbio ou periferia no Brasil. Um subúrbio australiano é geralmente estabelecido a partir de uma lógica urbana de ocupação horizontal, com espaçamento entre as casas e áreas verdes, enquanto no Brasil a lógica urbana é vertical, com alta concentração de pessoas e em edifícios com pequenos apartamentos.

11 – Os povos aborígines australianos são descendentes daqueles que habitavam primeiramente o que hoje conhecemos por Austrália, um território que começou a ser colonizado pela Grã-Bretanha em 1788. Atualmente os povos aborígenes representam apenas 3,8% da população australiana. Fonte: AUSTRALIAN INSTITUTE OF HEALTH AND WELFARE. Profile of First Nations people. 2023. Disponível em: https://www.aihw.gov.au/reports/australias-welfare/profile-of-indigenous-australians.

12Veja, por exemplo, “O manual do coletor de ervas daninhas: um guia para ervas daninhas comestíveis e medicinais na Austrália”, de Adam Grubb e Annie Raser Rowland, no site Eat That Weed. http://www.eatthatweed.com/

13 A Grande Depressão, também conhecida como A Crise de 1929, foi uma crise econômica que afetou a economia mundial logo após a quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929. Fonte: Brasil Escola

14 – As urtigas (Stachys arvensis L.) são plantas bioindicadoras de solos com elevado teor de nitrogênio e falta de cobre. Fonte: Embrapa.

15 – O autor, David Holmgren, apresenta uma abordagem integrada para compreender a interação entre as Alterações Climáticas e o Pico Petrolífero na produção de energia, utilizando um modelo de planejamento de cenários, disponível em Future Scenarios.

16 – Para uma exploração fantástica das expressões históricas e modernas da tradição, consulte “Os Gleaners e eu” (Les glaneurs et la glaneuse). Wikipedia.

17 – Coburg é um subúrbio em Melbourne, Victoria, Austrália, 8 km ao norte do Distrito Central de Melbourne.

18Growing Abundance.

19 – Castlemaine é uma cidade no centro-oeste de Victoria, Austrália, na região de Goldfields, a cerca de 120 quilômetros a noroeste por estrada de Melbourne e a cerca de 40 quilômetros do principal centro provincial de Bendigo.

20Australian Food Sovereignty Alliance.

21 – Junk food é uma expressão pejorativa para alimentos com alto teor calórico e baixa qualidade nutricional.

22 – Woolworths é outra grande rede de supermercados australiana