Permaculture as a strategy for the recovery and resurgences of human and non-human landscapes in the age of climate mutations
Francisca Pereira dos Santos1 Submetido em 31mai2025. Aceito em 3dez2025 Revisão por Adriana Angelita Conceição e Arthur Nanni DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17956091
Resumo
Apresento nesse diálogo historiográfico, o contexto, os desdobramentos e as proposições que explicam a emergência da Permacultura. Destaco os processos sobre como ela se constituiu como design ecológico, teorias, tecnologias, sistemas, formas de comunicação, para regeneração de paisagens degradadas, humanas e não humanas. A década de 1970 é o pano de fundo da primeira bússola orientadora a nos guiar neste cenário marcado por movimentos da contracultura e ambientais; novas teorias, epistemes, abordagens e ontologias, questões políticas de classe, raça, gênero, meio ambiente, sexualidade, etc. A segunda bússola explica como se constituiu as bases da ideia de Bill Mollison, fundamentada na recuperação da informação epistemológica e ontológica de povos, da ciência e instituições diversas, com várias disciplinas e saberes em confluência. A terceira bússola traz as formas e as forças da permacultura, baseada em uma ética e princípios, até chegarmos na reflexão de quanto precisamos de novas bússolas, no contexto das mutações. Por fim, na quarta bússola, o objetivo é confirmar a importância da permacultura como “ferramenta” de transformação sociobiocultural, estratégia educativa para educar comunidades prósperas e regeneradas e, em especial, mostrar como ela se reinventa na atualidade ante o Novo Regime Climático.
In this historiographical dialogue, I present the context, developments and propositions aiming to explain the emergence of Permaculture. I highlight the processes that constituted it as ecological design, including theories, technologies, systems, forms of communication, to regenerate human and non-human degraded landscapes. The 1970s is the backdrop for the first compass to guide us in this scenario marked by counterculture and environmental movements; new theories, epistemic, approaches and ontologies, political issues of class, race, gender, environment, sexuality, etc. The second compass explains how the foundations of Bill Mollison’s idea were formed, based on the recovery of epistemological and ontological information from people, science and diverse institutions, with confluence of disciplines and knowledge. The third compass brings the forms and forces of permaculture, based on ethics and principles, until we arrive at the reflection of how much we need new compasses, in the context of mutations. Finally, in the fourth compass, the objective is to confirm the importance of permaculture as a “tool” for sociobiocultural transformation, an educational strategy to educate prosperous and regenerated communities and reveal how updates reinvents itself considering the New Climatic Regime.
Keywords: permaculture, civilization crisis, cultural crisis, climatic mutations
Bússola 1: os contextos da crise cultural e ambiental
A década de 1970 é o pano de fundo da bússola orientadora (Figura 1) a nos guiar nesta análise. Atravessam e se estabelecem nesse cenário vários movimentos, como os aqui elencados: os da contracultura, liderados por movimento de mulheres, negros, punk, indígenas, LGBTQIAPN+ e, os ambientais, que denunciam a degradação dos recursos naturais, desencadeando várias frentes de ativismo e contestação ao status quo; novas teorias, epistemes, abordagens e ontologias vindas da academia e dos movimentos autóctones e, para o tema em tela: as presenças dos agentes políticos Bill Mollison e David Holmgren, nesse contexto. Trata-se de uma década paradigmática em que todas as esferas da sociedade humana foram atravessadas por duas brutais guerras mundiais, destruições em grande escala dos ecossistemas – humanos e não humanos, e implementação, no pós-guerra, de políticas desenvolvimentistas como a “revolução verde”, entre outros.
Esta “revolução” cuja missão seria acabar com a fome, além de não reverter este problema social, criou outros, ao contaminar os sistemas alimentares com uma agricultura de monocultura baseada em pesticidas, erosão dos solos, assoreamento de rios, aumento da perda da biodiversidade, sementes geneticamente modificadas, aumento do êxodo rural, desmatamento para criação de pastos, entre outras mazelas relacionadas ao setor primário da economia.
Mesmo assim, com tantos dados negativos à vida no planeta, ainda teve quem comemorasse e se beneficiasse dessa política “esverdeada”, como o agronegócio, que entre todas as perturbações ambientais já citadas, mantiveram com grande destaque a ampliação e o fortalecimento das monoculturas com o uso de agrotóxicos. O “agro” vai se tornar “uma força internacional, presente em cada rincão do planeta, afetando a vida das pessoas e dos locais onde se estabeleciam seus protocolos e procedimentos” (Ferreira-Neto, 2018, p. 51–52). Trata-se de uma espécie de reinvenção das plantations coloniais, atualizado, com novas tecnologias, que permitem observar processos de recolonização da terra e escravização de tudo que chamamos de natureza. Esta realidade degenerativa da “revolução verde” é amplamente denunciada desde 1962, por Rachel Carson, uma cientista e ecologista estadunidense, que publicou importante pesquisa, intitulada: Primavera Silenciosa (Carson, 2010), que é um marco no movimento ambientalista no mundo ao denunciar o uso de pesticidas como malignos à saúde humana e ao meio ambiente.
Figura 1: Bússola 1 com os contextos da década de 1970.
Movimento verde global: ambientalismos
Embora a Permacultura tenha emergido enquanto conceito ambientalista, no ano de 1978, David Holmgren afirma seu surgimento a partir da “primeira grande onda da moderna conscientização ambiental, após o relatório do Clube de Roma de 1972 e as crises do petróleo de 1973 e 1975” (Holmgren, 2013, p. 30). Este documento-relatório, publicado em 1972 pela cientista Donella Meadows (Sanson, 2022) , foi um marco paradigmático que explicou a emergência, naquele contexto, de que estávamos já imersos em uma “crise ambiental”. As conclusões desta pesquisa:
[…] teve o efeito de uma bomba. Pela primeira vez anunciou-se ao mundo os limites físicos do crescimento econômico. Sua conclusão é clara: a persistência do atual modelo de sociedade e o consequente esgotamento de recursos levaria inevitavelmente o mundo no século XXI a um dramático “crash”. No entanto, 50 anos depois, nada parece ter mudado (Sanson, 2022).
Segundo (Souza, 2020, p. 24), este relatório foi fundamental como uma das principais fontes “de referência que impulsionaram a formulação das diretivas da Permacultura”, bem como embasar politicamente e cientificamente os movimentos ambientais nesse cenário, a exemplo das lutas em defesa dos rios, Serpentine, Hoon, a bacia natural do Lago Pedder, rios Gordon e Franklin2, na Austrália. Esta pauta dos “recursos” hídricos ficou conhecida “como um dos maiores protestos cívicos da história da Austrália” (SOUZA, 2020, p. 22), com muitos desdobramentos nesse país, que vão desde as lutas políticas dos Aborígenes, até a criação do Greenpeace, Partido Verde, ONGs ambientais e a própria Permacultura. Segundo (Holmgren, 2017, p. 6):
Desde o final dos anos 60, o ambientalismo de oposição estava crescendo nos países afluentes. A inundação do Lago Pedder na Tasmania em 1972 é agora reconhecida como um dos marcos principais na emergência do movimento verde global.
David Holmgren diferencia duas maneiras de se fazer política na esfera chamada de “meio ambiente”: O “ambientalismo mainstream” e o “ambientalismo de oposição”. O primeiro se constitui e age no sentido do que passou a se chamar de “desenvolvimento sustentável”, defensor de um capitalismo verde dentro dos marcos do crescimento, e o segundo, por propor uma “ecologia profunda”, ou “ecologia política”, que implica(va) não em se desenvolver no sentido do “crescimento” já denunciado pelo relatório Meadows, mas em “descrescimento energético” e consumo consciente, o caso da Permacultura.
O ambientalismo mainstream se destaca nesse contexto com a promoção de eventos importantes como a Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, em 1972, criando o programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e a agenda ambiental global3. Eventos como a Comissão sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD), em 1983, permitiram o surgimento de novos conceitos como o de desenvolvimento sustentável a partir dos dados da Comissão Brundtland, cujo relatório mais conhecido é intitulado “Nosso Futuro Comum”. Até aqui, por volta dos anos 80, parece ainda haver um interesse de governos e elite globalizada em falar de um mundo onde todos possam respirar. Trata-se de uma “onda de ambientalismo moderno (que) respondeu ao consenso científico sobre o aquecimento global com conceitos de sustentabilidade mainstream” (Holmgren, 2017, p. 4) que, segundo Holmgren,
[…] estavam sendo plantadas, focando em um futuro de “tecno estabilidade” para a humanidade refletindo o doce cenário final que o modelamento do Limits to Growth sugere ser possível através de políticas globais coordenadas com o objetivo de reduzir o crescimento do gasto de energia e recursos, poluição e população ao mesmo tempo que se aproveitam ao máximo da tecnologia para fazer a transição.
A Permacultura emerge nessa fase, na outra ponta, como ambientalismo de oposição, afetada por acontecimentos e lutas que já antecediam essa década, envolvendo degradações de ecossistemas e aumento das exclusões sociais e culturais, crises visíveis denunciadas pelo ativista Bill Mollison. Por volta de 1974, este australiano desenvolve pesquisas sobre agricultura sustentável com base “na policultura de árvores perenes, arbustos, ervas, vegetais, fungos e tubérculos” (Mollison & Slay, 1998), produzindo um programa ambiental, ainda marcadamente voltado para o manejo da terra, mas que aos poucos irá se ampliar para inserir outras áreas e se tornar uma cosmovisão sistêmica com inclusão de várias áreas do conhecimento como solução para as apresentadas “crises” daquele contexto.
Contudo, se esta primeira onda ambiental, que fez emergir a Permacultura em 1978, era uma onda revolucionária, a segunda onda, vem logo após o “crescimento econômico da revolução Reagan-Thatcher nas nações ricas durante os anos 1980” (Holmgren, 2013, p. 30) através do surgimento do neoliberalismo. Este, é liderado pela ideia de livre mercado com intervenção mínima, e será defendida pelo que Holmgren chama de “Revolução Friedmanita”, orientada pelo economista Milton Friedman, conselheiro econômico de Ronald Reagan (presidente dos EUA de 1981 a 1989).
Segundo Holmgren, segue-se aí, a subida do neoliberalismo e as desregulamentações dos sindicatos, da economia do bem-estar social, redução de políticas públicas e um conjunto de perdas sociais que ficaram conhecidas como “terapia de choque”, que nem mesmo as sementes “tecno-estabilidade” do ambientalismo mainstrean relatadas acima por ele, tiveram vez. Afirma Holmgren (2017, p.4):
Tanto as perspectivas futuras da Tecno-Estabilidade quanto do Decrescimento Energético foram deixadas de lado durante a Revolução Friedmanita, que incluiu desregulamentação de mercados, privatizações, saques de recursos baratos em uma nova onda de neocolonialismo, e mais importante, uma expansão de crédito para incentivar o futuro “tecno-explosivo” de crescimento perpétuo.
A existência de um movimento mainstream, na primeira onda, parecia demonstrar uma certa preocupação com a questão ambiental e do já anunciado aquecimento global. Contudo, esse outro movimento, contrário a qualquer defesa da ecologia, da sustentabilidade e das reivindicações sociais, definiu a cena: os neoliberais negacionistas neocoloniais, não interessados na regeneração do planeta. Segundo Suely Rolnik esta nova realidade, é um tipo de versão contemporânea colonial-capitalístico, financeirizada, que
começa a se formar já na virada do século XIX para o século XX e intensifica-se após a Primeira Guerra Mundial, quando se internacionalizam os capitais; mas é a partir de meados dos anos 1970 que atinge seu pleno poder, afirmando-se contundentemente – e não por acaso após os movimentos micropolíticos que sacudiram o planeta nos anos 1960 e 1970. (Rolnik, 2021, p. 29).
Alexandre Costa, em sua aula nº 1 do curso de extensão em emergência climática4, cita as empresas petroleiras Exxon, Shell e Texaco, como aquelas que iniciam no ano de 1989 o negacionismo climático, que inclusive construiu um plano de ação contra a ciência do clima, no ano de 1998. Bruno Latour confirma que “desde os anos 1980, as classes dirigentes não pretendem mais liderar, mas se refugiar fora do mundo” (Latour, 2020, p. 10). Essa elite obscurantista, como ele chama, ignora e vai destruir, como diz Holmgren, os sonhos de uma tecno-estabilidade e o “desenvolvimento sustentável” do ambientalismo mainstream que acreditava que poderia conduzir uma política desenvolvimentista de crescimento, com o aval de todos, usando apenas paliativos de uma sustentabilidade que, no fundo, não se sustenta.
Pelo lado do “ambientalismo de oposição”, também houve “a doce ilusão que suas condições sociopolíticas de acesso e suas ciências permaneceriam fora da fratura colonial”, como ressalta (Ferdinand, 2022, p. 26). A fratura que este autor fala é a divisão entre os movimentos sociais, culturais e ambientais, que causou o que ele chama de “dupla fenda” colonial e ambiental e que
se destaca pela distância entre os movimentos ambientais e ecologistas, de um lado, e os movimentos pós-coloniais e antirracistas, de outro, os quais se manifestam nas ruas e nas universidades sem se comunicar (Ferdinand, 2022, p.23).
Em sua crítica decolonial, Malcon Ferdinand diz sobre “primavera silenciosa” que “a despeito de todas as qualidades literárias e políticas”, deste que é o “livro fundador” do ambientalismo nos Estados Unidos, notadamente “os perigos da poluição química causada pelo uso compulsivo de pesticidas estão totalmente desconectados das lutas dos Pretos estadunidenses pelos direitos civis em curso no momento de sua publicação” (Ferdinand, 2022, p. 145). Bruno Latour reforça essa fenda ressaltando que os dois campos – cultural e ambiental – atuaram como dois “conjuntos distintos” (Latour, 2020, p. 71).
Embora não fosse pauta dos movimentos sociais, o “meio ambiente”, segundo Malcolm Ferdinand, no Brasil a luta dos povos indígenas pelo território sempre representou essa relação com as lutas socioambientais. A fratura no discurso acadêmico e até entre os movimentos sociais, entretanto, existe e diz respeito a uma antiga separação (moderna) entre Natureza e Cultura, que “tomou forma no século XVIII em reação às destruições ambientais nas colônias sem se preocupar com as injustiças constitutivas do mundo colonial” (Ferdinand, 2022 p. 137). Superar essa fenda colonialista que dividiu cultura/natureza é uma das principais ações contemporâneas que a permacultura deve encarar como necessidade dessa Era Climática.
Bill Mollison e David Holmgren: agentes políticos
Gostaria de frisar nesse tópico, a importância das presenças dos principais agentes políticos na constituição da Permacultura: Bill Mollison e David Holmgren, como criadores e aglutinadores, movidos por seus ativismos. A Permacultura não foi algo que surgiu do acaso. Ela é tanto produto dos acontecimentos políticos – que envolve movimentos, relatórios, encontros, conferências, mas também, das verdades pragmáticas de um professor em sua percepção das transformações das paisagens do seu território e, do seu aluno, atento e ativo.
Bill Mollison relata sua trajetória como esse ator político integrado à sua geografia, vivendo uma vida na infância e juventude de “sonho” em que, aos poucos, ele vê transformar-se negativamente. Ele diz no prefácio:
Eu cresci em uma pequena vila na Tasmânia. Tudo do que precisávamos, fazíamos. Fazíamos nossas próprias botas, nossos artefatos de metal. Nós pescávamos nosso próprio peixe, produzíamos a comida e fazia pão. Eu não conhecia ninguém vivendo lá que tivesse só um trabalho, ou qualquer coisa que pudesse ser definida como emprego. Todos trabalhavam em várias coisas. Até aos 28 anos de idade, eu vivia uma espécie de sonho. Passava a maior parte do tempo no mato ou no mar. Pescava e caçava para ganhar a vida. Nos anos 50 eu comecei a perceber que grande parte dos sistemas naturais, dos quais eu vivia, estavam desaparecendo. Cardumes estavam diminuindo. As algas que cobriam a praia começavam a desaparecer. Grandes áreas de florestas estavam morrendo. Até então, eu não tinha me apercebido que esta natureza me era muito querida, que eu estava apaixonado por minha terra. (Mollison & Slay, 1998)
Mollison percebe, para além da destruição das formas de vida daquela sociedade, o quanto poderíamos estar aprendendo biomimeticamente com a “Natureza”. Diz ele em uma entrevista concedida a um dos seus alunos, Toby Hemenway5,
[…] que a ideia original da permacultura lhe ocorreu em 1959, enquanto observava marsupiais pastando nas florestas tropicais da Tasmânia, porque ele estava ‘inspirado e maravilhado com a abundância vivificante e a rica interconexão deste ecossistema’. Naquele momento, Mollison anotou as seguintes palavras em seu diário: ‘Acredito que poderíamos construir sistemas que funcionassem tão bem como este.’ (Hemenway, 2009, p. 5)6.
Como um indivíduo inter-relacionado com os membros de sua comunidade, um “homem”, branco, falando de dentro de sua “Cultura” local, Bill Mollison construiu suas ideias desde a observação do seu entorno, marcado por uma egrégora de luta e resistência dos aborígenes, no seu corpo-território. Ele estava presente na luta “para salvar o Lago Pedder”, destaca Holmgren, e “foi um dos protagonistas da campanha (…) e de outras campanhas ambientais quando eu o encontrei em 1974” (Holmgren, 2017, p. 3).
No auge do florescimento dessa tomada coletiva de consciência ambiental e de proteção das paisagens naturais, Bill Mollison (…) ocupava posição de professor de biogeografia na Universidade da Tasmânia, em Hobart. Contudo, seu interesse pela vida selvagem e pela agricultura natural, como o próprio relata em entrevistas, remete não à sua tardia formação acadêmica em biologia, mas à sua trajetória pessoal como habitante de uma pequena vila do noroeste da Tasmânia. A vila foi o lugar onde Mollison viveu grande parte de sua vida, como muitos de seus conterrâneos, realizando atividades sazonais, atuando com pesca marinha durante o verão e extração de madeira e caça durante o inverno”. (SOUZA, 2020, p. 23).
Foram os movimentos políticos ambientais e a referência em sua cultura, que nutriram Bill Mollison para constituir sua proposta com seu aluno, David Holmgren, que escreveria o trabalho de conclusão da Escola de Design Ecológico e lançariam, juntos, em 1978, a primeira obra intitulada Permaculture One. Muito tempo à frente, Stuart B. Hill, da Universidade de Western, Sydney NSW, Austrália, no prefácio da edição australiana do livro “Permacultura, princípios e caminhos além da sustentabilidade” (2013), de David Holmgren, realça os principais fatores que contribuíram para o desenvolvimento da Permacultura como design: “a sincronicidade e a colaboração” (Holmgren, 2013, p. 14) entre Bill Mollison e David Holmgren, que estabeleceram uma
visão da permacultura como um movimento internacional; o requisito de que instrutores tenham treinamento extenso e experiência de campo e que mantenham uma prática contínua para dar cursos; e a integração de princípios éticos e de design em todos os aspectos da teoria e da prática” (Holmgren, 2013, p.14).
No entanto, houve um afastamento entre os dois autores “que optaram por caminhos distintos e aparentemente não cultivaram mais uma relação de proximidade após a publicação do primeiro livro juntos, em 1978” (Ferreira-Neto, 2018, p. 136). Esse fato, no entanto, não respingou na Permacultura, não sendo este afastamento observado como algo negativo, uma vez que ambos permaneceram com a mesma pauta, divulgando, cada um ao seu modo, a permacultura.
Bússola 2 – Recuperando e ressignificando epistemologias e ontologias: montando o design
Como parte dessa bússola que nos guia nessa jornada, destaco um conjunto de epistemes, teorias e abordagens que a Permacultura acessa, recupera e ressignifica para montar o seu design. São práticas ecológicas e sistêmicas que já existiam na Escola de Design Ecológico na Tasmânia, outras espalhadas em universidades estrangeiras, com pesquisas em áreas da educação, economia, saúde, arquitetura, etc., bem como ontologias extra-acadêmicas, a exemplo dos aborígenes australianos, os nativos ancestrais, habitantes de um lugar pelo qual Bill Mollison era tão “apaixonado”. Sobre estes primeiros povos australianos o antropólogo Philipe Descola (Descola, 2016, p. 19–20) descreve-os da seguinte maneira:
embora estejam divididos em centenas de tribos que falam línguas diferentes, todos os aborígenes australianos têm em comum o fato de organizar segundo um mesmo sistema de grupos totêmicos cujas regras de composição são idênticas em toda parte. (…) A despeito da diferença de forma, eles possuem as mesmas características que derivariam do totem – habitualmente representado por um animal que dá nome ao grupo totêmico. Mas o totem não é de fato um ancestral, ele é antes um protótipo. Mas, afinal, o que vem a ser um protótipo? É um molde que serve para fazer cópias idênticas, só que, nesse caso, não se trata de um molde que reproduz formas exatas como faria uma fôrma de bolo, mas sim um molde que reproduz qualidades, um pouco à maneira do código genético que transmite características físicas de pais para filhos.
Na representação que simboliza a Permacultura, a flor com sete grandes áreas do conhecimento, modula as tecnologias como se fossem a representação desta flor, um grupo totêmico. A Figura 2 representada é quem dá existência aos agrupamentos de saberes, como um molde que embora pareça que é igual, na verdade, é a diferença de cada experiência. Na constituição do seu totem, a Permacultura dialoga com vários movimentos, tecnologias, ferramentas, metodologias, processos e conceitos, recuperando e dando visibilidade a muitas pesquisas e projetos sustentáveis – como os da agricultura biodinâmica de Rudolf Steiner, e a Escola Waldorf-, e os novos projetos, pensamentos e experimentos contemporâneos que se propõem a serem ecossistêmicos. Holmgren relata algo muito interessante, quando ele ainda nem tinha encontrado Mollison, em 1972, e ele depara-se com a Escola de Design Ambiental, fundada pelo arquiteto de Hobart Barry McNeil no Tasmanian College of Advanced Education (Faculdade da Tasmânia de Educação Avançada)”. Este autor nos informa que:
Environmental Design atraía todos os radicais e dissidentes das faculdades de arquitetura, planejamento e design pela Austrália. Energia renovável, materiais naturais, autoconstrução, design participativo, transporte público, ecologia e biodiversidade eram parte do que eu acredito ter sido o experimento mais radical de educação superior na Austrália (Holmgren, 2017, p.2).
Segundo ainda este autor, “na estrutura do Curso de Design de Permacultura desenvolvido mais tarde por Bill, o foco estava firmemente direcionado as soluções de design ecológico” (Holmgren, 2017, p.3) e parte deste programa era: “agricultura orgânica, energia alternativa, autossuficiência, comunidades intencionais e localismo cooperativo foram parte da mistura da qual surgiu a permacultura”, estas pautas, como já vimos, sendo objetos dessa Escola de Design Ambiental radical.
Em Hobart, na Austrália, convivem na mesma cena, além de Bill Mollison e David Holmgren, outros importantes ativistas e designers como o arquiteto, Barry McNeil, bem como outros criadores ecológicos como Percival Alfred Yeomans,
um inventor australiano e engenheiro de mineração. Em suas atividades se especializou-se em hidrologia e design de equipamentos, e ficou famoso por seu conceito de ‘keyline’, ou linha mestra, onde buscava os pontos principais para lidar com as águas de uma propriedade a partir do seu relevo. Ele se notabilizou como escritor, tendo escrito quatro livros sobre suas ideias e influenciado toda uma geração de agricultores e fazendeiros de todo mundo, entre eles, Bill Mollison e DavidHolmgren. (Ferreira Neto, 2018, p.75).
Nesse aspecto das influências e conexões, acho importante frisar o depoimento de Holmgren no seu discurso de doutorado honoris causa sobre as bases acadêmicas da Permacultura:
No nível conceitual, EF Schumacher (Small is Beautiful
[O Negócio é Ser Pequeno],1973) e Edward Goldsmith (Ecologist Magazine), Ian McHarg e Christopher Alexander, combinados com visionários do movimento da agricultura orgânica como FH King, Russel Smith, Albert Howard e outros. Mais importante, de acordo com a minha perspectiva, a primeira referência em Permaculture One foi ao Livro de Howard Odum, Power, Environment and Society (Energia, Ambiente e Sociedade) de 1971 (Holmgren, 2017, p. 3).
E havia, também, outras “influências como a agricultura natural de Fukuoka” (Ferreira-Neto, 2018, p. 74–75)
um microbiólogo e agricultor japonês, famoso por seus métodos de cultivo chamados de agricultura natural, selvagem ou ‘método Fukuoka”, onde a observação e a relação com a natureza constituem-se como pilares centrais. Autor, entre vários livros, das obras ‘A Revolução de uma palha’ e ‘A Senda Natural do Cultivo’, neles apresenta suas propostas para uma forma de ‘plantio direto’ como sua forma particular de agricultura voltada às relações harmoniosas com a natureza”(Ferreira-Neto, 2018, p. 74–75).
Outra grande referência foi
Joseph Russel Smith, nascido nos Estados Unidos em 1874, em Virginia, foi um professor de geografia e precursor das chamadas agroflorestas, que são sistemas de produção alimentar que mimetizam ambientes florestais, mesclando preservação e produção, preservação de solos com cultivo de alimentos. Em 1929 publicou o livro ‘Tree Crops: a permanent agriculture’, cujo conceito de agricultura permanente teria inspirado David Holmgren e Bill Mollison durante suas pesquisas em busca de uma forma sustentável de agricultura. Infelizmente o livro, ainda hoje, não conta com tradução para o português, mesmo sendo um referencial antológico de todo o movimento ambientalista e da agricultura natural mundial”(Ferreira-Neto, 2018, p. 74–75).
A ecologia é a principal base científica da Permacultura, uma disciplina que nasce do intenso debate dos biólogos organísmicos, da teoria geral dos sistemas e cibernética, ao lado do design. Ambos os campos – ecologia e design-, constituem os principais pilares desse desenho no qual, segundo o próprio Holmgren, teria “uma dívida clara e especial para com o trabalho publicado pelo ecólogo americano Howard Odum” (Holmgren, 2013, p.28). Além da ecologia de Odum, sobressai-se nesse campo, a ecologia, “profunda”, uma abordagem concomitante à Permacultura formulada pelo filósofo Arne Naes, o qual segundo Capra destaca, é um conceito fundamental pois
não separa os seres humanos- nem separa qualquer outra coisa- do seu ambiente natural. Ela não reconhece o mundo como uma coleção de objetos isolados, mas como uma rede de fenômenos que são fundamentalmente interconectados e interdependentes. A ecologia profunda reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os seres humanos apenas como um fio particular da teia da vida. (Capra & Luisi, 2014, p. 37).
Figura 2: Bússola 2 – conjunto de epistemes, teorias e abordagens que a Permacultura acessa.
A hipótese, e depois, teoria de Gaia, de James Lovelock e Lynn Margulis, é uma visão difundida na Permacultura, que apresenta, nessa perspectiva, uma Terra viva, que se autorregula e tem agência. Lovelock ressalta que,
Essa visão analítica da Terra como um sistema único, um sistema a que chamo de Gaia, é essencialmente fisiológica. Ela tem a ver com o funcionamento de todo o sistema, e não das partes separadas de um planeta arbitrariamente dividido em biosfera, atmosfera, litosfera e hidrosfera. Essas não são divisões reais da Terra, são esferas de influência habitadas por cientistas acadêmicos(J. Lovelock, 2006, p. 12).
Segundo (Latour, 2020, p. 162) “os organismos fazem seu ambiente, não se adaptam a ele”. O ambiente não é algo dado, simplesmente, ele é constituído por forças de agências coletivas, humanas e não humanas. A Terra está viva, afirmam (J. E. Lovelock & Tickell, 2006), em sua teoria de Gaia7, que trouxe a noção da Terra como um sistema em evolução, com vida autorreguladora. Apesar dessa teoria ter sido formulada na década de 1970,
Os cientistas só reconheceram a Terra como entidadeautorreguladora na Declaração de Amsterdam, em 2001, e muitos ainda agem como se o nosso planeta fosse uma enorme propriedade pública que possuímos e compartilhamos. Eles se aferram à sua visão dos séculos XIX e XX da Terra, ensinada na escola e universidade, de um planeta constituído de rocha inerte e morta, com vida abundante a bordo: passageiros na jornada desse planeta através do espaço e do tempo (Lovelock e Tickell, 2006, p. 18-19).
Notadamente, a teoria de Gaia fez uma reviravolta na forma como a ciência ocidental via o planeta Terra e de como ela hoje inspira importantes versões para novas epistemologias, assim como, diálogo com epistemologias que já apresentavam a Terra como um ser vivo em evolução.
Bússola 3 – formas e forças da permacultura
Para além das teorias, ontologias, abordagens, em que a Permacultura se relacionou para elaborar e sistematizar sua proposta, essa bússola (Figura 3) reforça sua contribuição, promove um diálogo multilateral com diversas áreas do conhecimento acadêmico para formalizar seu design. Nesse sentido são seus elementos formais: sua ética (cuidar de si, do outro e partilha justa), 4 eixos (água, energia, habitação e alimentação), tripé (ecologia, ética e design), princípios (observar e interagir, capte e armazene energia, obtenha um rendimento, aplique a autorregulação e aceite feedback, use e valorize recursos e serviços renováveis, evite o desperdício, planeje dos padrões aos detalhes, integre em vez de segregar, use soluções pequenas e lentas, use e valorize a diversidade, use os limites e valorize o marginal, use e responda à mudança com criatividade), regras, flor com 7 pétalas (manejo da terra e da natureza, espaço construído, ferramentas e tecnologias, educação e cultura, saúde e bem-estar espiritual, economia e finanças, posse da terra e governança comunitária), zonas (de 0 a 5) e setorizações como a energia externa, chuvas, ventos, poluição.
Esse conjunto de formas e forças esboça uma estrutura que organiza a ideia Permacultura, e as quais foram sendo divulgadas através de vários processos de comunicação, como criação de Institutos que se iniciaram em 1979; Cursos de Design em Permacultura (PDC), desde 1981; Convergências internacionais, desde 1984 (Souza, 2020, p. 28), e nacionais; Redes e publicações que permitiram promover a Permacultura como um movimento internacional, estilo de vida, resposta à crise ambiental que viu nascer na década de 70, entre outros. Ao estudarmos essa historiografia da Permacultura, vemos como a década de 1980 também foi intensa e um período de sistematizações e divulgação deste desenho ecológico/cultural, com formações através de cursos, editoração, documentários e entrevistas em TV, rádios, fundamentais para divulgarem as pesquisas sobre decrescimento energético, sistemas de partilha justa, economias circulares e solidárias, planejamento para assentamentos humanos, entre outros.
Figura 3: Bússola 3 – a contribuição da permacultura e seu diálogo multilateral.
Do outro lado da fratura ambiental, na macropolítica, no Brasil, é a década da redemocratização, fortalecimento e expansão do Movimento indígena organizado, pós-constituinte, avanço do movimento quilombola, maior atuação política do Movimento Negro. Destaca-se nessa década, a criação do Partido dos Trabalhadores (PT) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), do Movimento dos Trabalhadores Sem-terra na luta pela reforma agrária e, o surgimento da aliança dos Povos da Floresta liderado pelo filho de nordestinos, Chico Mendes, em parceria com o indígena Ailton Krenak e comunidades originárias. É desse contexto a existência da ativista Marina Silva, que ao lado de Chico Mendes, no Acre, vem liderando e participando desse embate político – o que fez de Marina Silva uma liderança feminina no campo ambiental e cultural brasileiro.
Prelúdios da terceira onda
Em 1988, tem-se a criação do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC em inglês), instituído pelas Nações Unidas e Organização Meteorológica Mundial, com o objetivo de produzir relatórios sobre os impactos do clima. Este Painel tem publicado dados que deveriam deixar toda população de “cabelo em pé”, em total alerta, uma vez que estas informações comprovam e reafirmam o aumento da temperatura planetária. Além do próprio IPCC, outras ações resultaram importantes nessa área, como a criação de protocolos-, como os de Kioto, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), todos com vistas a limitar o aquecimento global em 1,5º C. Um dos integrantes do IPCC, o professor brasileiro, Alexandre Costa8 diz que,
Nós temos hoje uma quantidade de dióxido de carbono (CO2)na atmosfera que está acima de 400 ppm (partes por milhão), na faixa dos 415, 420 ppm, isso é equivalente a quase 50% do valor pré-industrial, do clima, daatmosfera pré-industrial. É um valor que, da última vez, que a Terra viu uma concentração tão alta de dióxido de carbono foi há cerca de 3,2 bilhões de anos, no momento que a gente chama de período quente do Plioceno médio. (…) Nós também podemos afirmar com alta dose de certeza que nós estamos marchando muito fortemente para ultrapassar o que seria o nível administrável de alteração climática, que é o patamar de 1,5° C.
Segundo Holmgren (2013, p.30), nos anos 90 “enquanto a nova tecnologia e a economia global dividiram a atenção, houve outra fase de consolidação”, da Permacultura. Ela segue fazendo seu trabalho de divulgação com as Conferências Internacionais em Permacultura- IPC, na Austrália (1990), nos EUA e Nova Zelândia (Souza, 2020), Nepal (1991), e Europa. Na América Latina, o Brasil é o primeiro a receber esse tipo de Conferência, em 2007 (IPC8). Do outro lado do ambientalismo governamental, apesar dos horrores da globalização e das políticas neoliberais, seguiram-se eventos como a Cúpula da Terra (Eco-92), as Conferências das Nações Unidas sobre as questões climáticas, que se iniciam em Berlim em 1995, entre outros processos que coloca em pauta o aquecimento global, sobretudo.
No mundo inteiro, veremos a criação dos Institutos de Permacultura, por volta dos anos 19979, os quais garantiram que uma primeira geração de permacultores se capacitasse10 através dos PDC. No Brasil, destacou-se, a integração da Permacultura em um programa governamental, no governo de FHC11, que investiu nos Institutos de Permacultura como política pública. Esse contexto foi rico nas reflexões críticas, sendo possível criar uma revista, em 1998 e, principalmente, uma articulação em rede, no ano 2000, e mais tarde, em 2003, uma rede de permacultores. Esse período permitiu maior popularização deste design no ciberespaço por volta de 2005.
Eventos importantes sucederam no campo da ecologia, como a constituição da Carta da Terra, em 2000, diversos encontros de Permacultura na África, no Oriente Médio e Cuba (2013 – IPC11), Argentina e muitas outras ações importantes que colocavam esse design na pauta. Holmgren ressalta que “por volta de 1999 estava tudo pronto para uma terceira onda de ambientalismo” (Holmgren, 2013, p.30), época em que ele esperava “que o interesse público” se voltasse “para a corrente dominante de muitas inovações da segunda onda” (idem), e nessa expectativa, ele publica, “Permacultura princípios e caminhos além da sustentabilidade” como um contributo para o que ele chamou de terceira onda do interesse público pelas questões ambientais e pela Permacultura.
Bússola 4 – a permacultura no contexto das mutações
Nesse século XXI tudo está mudando velozmente. Estamos vivendo a sociedade da informação, uma terceira revolução industrial, que concorre, entretanto, com o aumento da desigualdade social e o aceleramento dos processos climáticos. Os movimentos anticoloniais e decoloniais12, muitos deles liderados pelos povos indígenas, disparam, em um momento colonial grave, ao tempo que reemerge na cena uma extrema-direita negacionista que vira as costas para a realidade social impondo regimes neofascistas.
Por outro lado, muitos questionamentos vindos da própria academia, que problematiza a ciência moderna cartesiana e antropocêntrica, implicando revisar verdades absolutas, como o antropocentrismo, a razão, e outros valores que predominam em nossa cultura. Tudo isso nos impõe uma quarta bússola (Figura 4), que nos auxilie a olhar esse novo tempo por diferentes ângulos, relocalizar temas, epistemes, processo e perspectivas para a Permacultura. No novo contexto impõe-se uma revisão dos antigos valores das velhas oposições culturais, tais como, Natureza e Cultura, Sujeito-Objeto, Humanos e Não Humanos, Sustentabilidade e Regeneração, Fratura Colonial e Ambiental, entre outras dicotomias que desabam com a emergência do aquecimento global.
Figura 4: A bússola cosmopolítica em um mundo em mutação.
Então, se a década de 1970 impôs o debate sobre a crise ambiental e civilizatória, já não podemos falar da mesma, no contexto do século XXI. Segundo Bruno Latour,
infelizmente, falar de ‘crise’ seria ainda outro modo de nos tranquilizar, dizendo ‘isso vai passar’, a crise ‘logo estará superada’. Se fosse apenas uma crise! Se tivesse sido apenas uma crise! De acordo com os especialistas, melhor seria falar de uma ‘mutação (Latour, 2020, p.23).
Diante do grave quadro ambiental, sobretudo dos últimos 60 anos, foi possível, nos anos 1990, “o consenso científico a respeito das transformações em curso do regime termodinâmico do planeta” (Castro & Danowski, 2014, p. 15). Isso culmina na declaração de Paul Crutzen e Eugene Stoermer, no ano 2000, sobre a emergência da entrada em cena, desde a revolução industrial, de uma nova era geológica, chamada de Antropoceno. O Antropoceno13, segundo Bruno Latour é o “Novo Regime Climático”, e ele trata de uma época “em que os seres humanos se tornaram agentes geológicos e a Natureza, que julgávamos um mero cenário, subiu ao palco reivindicando seu papel de co-protagonista na trama, diz a filósofa Alyne Costa (Costa, 2021, p. 3). Importa dizer, entretanto, que o conceito de antropoceno é controverso e ainda não oficial pelo campo da geologia.
Trazer a Permacultura para a cena pública nesse Novo Regime Climático, é um desafio emergencial. A cena pública são as escolas, praças, clubes, universidades, bibliotecas, etc., em que esta possa ser aplicada e vivenciada. Aterrar na Permacultura como possibilidade e movimento geossocial, como agência de sustentação em modelos benevolentes de modos de existência pela vida, é preciso.
Conclusão
A caracterização da emergência da Permacultura, foi aqui contextualizada não somente pelo momento contracultural e do ambientalismo de oposição que emerge nos anos 1970, senão, como movimento inter-relacionado aos reflexos da contraofensiva contemporânea financeirizada e neoliberal do sistema capitalista, que tem justamente nessa década, o marco temporal para reafirmar seu novo regime. Se esta década foi emblemática em relação aos protestos e lutas contra as desigualdades em todos os âmbitos, foi também, o início de uma contra-reação reacionária e contra-revolucionária que teve maior magnitude e visibilidade na década de 1980-1990 a partir dos governos neoliberais de Reagan e Thatcher no “grande Norte”.
A Permacultura é um desses importantes movimentos reativos à “tomada de poder mundial pelo atual regime” (Rolnik, 2018, p.30). Apesar de que, como ambientalismo, sofreu e sofre, como a maioria dos movimentos da época, da fratura colonial e ambiental que a crítica decolonial explica pela separação dos dois maiores fronte da luta anticapitalista: o movimento ambiental e cultural. Nosso objetivo será romper com essa fratura uma vez que o Novo Regime Climático nos forçará a atravessar essas fronteiras no objetivo maior que será de combater essa onda catastrófica em que o planeta atravessa e que em menos de um século deslocou o que antes era uma crise ambiental-cultural para uma mutação climática. Precisamos de uma nova reação, bem maior do que a década de 60 e 70, e este desafio é gigante, seja devido ao negacionismo (climático, da ciência, etc.), pelo avanço do neoliberalismo e extrema-direita, como por estarmos vivendo em uma nova era, da informação, que permite, pelo uso do ciberespaço, compartilharmos a melhor informação, como também, fake news como estratégias de dominação. A permacultura, então, apresenta-se com um programa capaz de contribuir com este novo momento climático, trazendo para a cena as várias tecnologias sociais e ambientais, novas ontologias e movimentos sociais, como demonstra a experiência do Centro de pesquisa pela paz de Tamera, em Portugal, que tive a oportunidade de conhecer em 2011.
Referências
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4 – COSTA, A. (2021) Live de Boas vindas – Curso de Extensão em Emergência Climática. Universidade Estadual do Ceará. Disponível no link: https://www.youtube.com/live/jKlA16-VDtw
5 – Toby Hemenway escreveu os livros: Gaia’s Garden: A Guide to Home-Scale Permaculture e The Permaculture City: Regenerative Design for Urban, Suburban, and Town Resilience.
11 – Programa novas fronteiras da cooperação para o desenvolvimento sustentável.
12 – “o anticolonialismo do Pós-Segunda Guerra Mundial é o primeiro polo que propõe uma abordagem soberanista e estatutária da decolonização”, segundo Malcon Ferdinand (2022, p. 198). No tocante à decolonialidade, o mesmo autor, ressalta: “inaugurado pelo sociólogo peruano Aníbal Quijano e por um conjunto de pesquisadores da América Latina no início dos anos 1990, o pensamento decolonial constitui um terceiro polo que propõe uma crítica epistêmica da fratura colonial, ou seja, uma crítica das categorias de pensamento do mundo que foram impostas pela colonização das Américas” (Ferdinand, 2022, p. 199).
13 – O conceito de Antropoceno, contudo, não é um consenso, nem formalizado pela geologia. Outras nomenclaturas como Plantitioceno, Capitaloceno, Chthuluceno, Euroceno, entre outros, circulam, para apontar uma crítica ao mundo do Novo Regime Climático. Veja também “Um bilhão de antropocenos negros ou nenhum” Kathryn Yusoff (bazar do tempo, 2025).
Texto teórico reflexivo sobre as interfaces entre Permacultura, Promoção da Saúde e Saúde Planetária no campo da saúde coletiva, no Brasil, elaborado a partir de experiência acadêmica e atuação territorial. Diante dos desafios locais e globais do século XXI — especialmente aqueles relacionados às emergências climáticas, a degradação dos ecossistemas e os impactos nas condições de vida — considera-se fundamental mobilizar referenciais teóricos e práticos que contribuam para a construção de territórios sustentáveis, resilientes e promotores de saúde. Novas demandas de atenção e cuidado em saúde surgem neste contexto, o que requer novas formas de organização e formação profissional para atender a essas precisões que transcendem as formas atuais de trabalho e agregam complexidades ao setor. Promover práticas sustentáveis se insere paulatinamente nas agendas da saúde e neste pensar discorremos sobre como Permacultura, Promoção da Saúde e Saúde Planetária convergem em diversos aspectos na busca por alinhar as necessidades humanas aos limites dos ecossistemas, promover ambientes saudáveis e fortalecer a autonomia das populações na construção de qualidade de vida, em articulação com a sustentabilidade dos territórios. A Permacultura como campo de conhecimento, inovação e práticas ecológicas apresenta potencial para o fortalecer as políticas e o trabalho em saúde coletiva.
Palavras-chave: Permacultura; Promoção da Saúde; Saúde Planetária; Saúde Coletiva
Abstract
This is a reflective theoretical text on the interfaces between Permaculture, Health Promotion, and Planetary Health in the field of public health in Brazil, developed based on academic experience and local action. Given the local and global challenges of the 21st century—especially those related to climate emergencies, ecosystem degradation, and the impacts on living conditions—it is essential to mobilize theoretical and practical frameworks that contribute to the construction of sustainable, resilient, and health-promoting territories. New demands for health care and attention arise in this context, requiring new forms of organization and professional training to meet these needs, which transcend current work methods and add complexity to the sector. Promoting sustainable practices is gradually becoming a part of health agendas, and in this discussion, we discuss how Permaculture, Health Promotion, and Planetary Health converge in various aspects in the quest to align human needs with the limits of ecosystems, promote healthy environments, and strengthen the autonomy of populations in building a quality of life, in conjunction with the sustainability of territories. Permaculture as a field of knowledge, innovation and ecological practices has the potential to strengthen policies and work in public health.
Keywords: Permaculture; Health Promotion; Planetary Health; Collective Health
Introdução
A Permacultura, idealizada por Bill Mollison e David Holmgren nos anos 70 do séc XX, apresenta uma abordagem ecológica ancorada nos princípios de cuidado com a terra, cuidado com as pessoas e com o futuro e a partilha justa. Propõe um planejamento ambiental e social centrado na construção de territórios autossuficientes e resilientes para a permanência comunitária, composto por sistemas interligados, integrados e inspirados nos padrões naturais (Holmgren, 2013, 2009; Mollison, 1988).
Com uma história construída em narrativas de determinação social da saúde e nos conceitos de cidades saudáveis e sustentáveis, a Promoção da Saúde, por sua vez, estabelece cinco estratégias primordiais que serviram como marco para seus ideais, a saber: construção e implementação de políticas públicas saudáveis; desenvolvimento de habilidades pessoais; criação de ambientes favoráveis à saúde; fortalecimento da ação comunitária; e reorientação dos serviços de saúde (WHO, 1987).
Podemos observar um paralelo histórico e conceitual entre Permacultura e Promoção da Saúde, a partir do período em que emergem, nos anos 70, época do despertar da conscientização sobre os impactos das condições ambientais na saúde coletiva. Nesta época surge, também, o termo “desenvolvimento sustentável” a partir de indicação das Nações Unidas sobre a necessidade de proteger a biodiversidade e buscar novas formas de desenvolvimento (Akerman et al., 2002).
Nesta mesma direção, a Saúde Planetária emerge em 2014 como um campo voltado à abordagem dos complexos e intrínsecos vínculos entre a saúde humana e a saúde dos sistemas naturais da Terra. Considera que as mudanças climáticas representam uma das maiores ameaças à saúde humana e ao planeta. Enfatiza a importância de promover práticas para restaurar e conservar a biodiversidade e mitigar os impactos da degradação ambiental na saúde das populações (Horton et al., 2014; Romanello et al., 2021, 2022; Whitmee et al., 2015).
Novas demandas de atenção e cuidado em saúde surgem no ciclo que enfrentamos no planeta, com as emergências climáticas, degradação dos ecossistemas naturais, destinação e gestão inadequada de resíduos produzidos por humanos, o que corrobora para a insustentabilidade ambiental de cidades, territórios e comunidades. Profissionais de saúde são considerados fundamentais para a mitigação dos efeitos dos problemas ambientais na saúde da população, na redução de riscos e na promoção de comunidades sustentáveis e resilientes. No entanto, a complexidade que os problemas ambientais agregam a esses serviços, transcende as suas formas atuais de organização, formação e atenção, razão pela qual, promover práticas sustentáveis se insere paulatinamente nas agendas da saúde (WHO, 2017, 2021).
No Brasil o conceito ampliado de saúde foi incorporado pela 8ª Conferência Nacional de Saúde em 1986, marco histórico na construção de políticas de saúde participativas e universais e suas indicações foram a base para a criação do Sistema Único de Saúde (SUS). A Conferência trouxe uma mudança de paradigma no conceito de saúde, compreendida até então, como ausência de doença, passando a assumir uma definição mais ampla de saúde como resultado das condições de vida determinadas por multifatores – ambiental, social, político, econômico e cultural – e a necessidade de abordagens integradas para promover qualidade de vida (Brasil, 1988).
Conquista democrática prevista na Constituição Federal de 1988, os artigos 196 a 200 estabelecem o SUS com princípios norteados por universalização, equidade, integralidade, descentralização e participação popular (Brasil, 1988, 1990). Componente essencial do SUS, a Atenção Primária à Saúde (APS), primeiro nível de contato dos indivíduos, famílias e comunidades com os serviços de saúde, desempenha um papel importante na coordenação do cuidado em redes e linhas assistenciais de diferentes complexidades e objetiva reduzir desigualdades e vulnerabilidades decorrentes dos determinantes sociais (Starfield, 2002). Na APS, propôs-se recentemente a adição da Saúde Planetária como atributo derivado, em conjunto com a orientação familiar, comunitária e competência cultural (Barros et al., 2021).
No âmbito comunitário, o modelo de APS no Brasil se concretiza na Estratégia Saúde da Família (ESF), por meio do trabalho interdisciplinar e equipes multiprofissionais que atuam em Unidades Básicas de Saúde (UBS) com territórios adscritos, e representa um campo mobilizador de mudanças e de possibilidades para integrar novas práticas que atendam as necessidades das comunidades e dos cuidados com o ambiente (Brasil, 2017; Floss & Barros, 2019).
Neste contexto, efetivar práticas sustentáveis no âmbito da ESF, tais como implantar hortas agroecológicas, hortos de plantas medicinais e agroflorestas, captação de água da chuva, fortalecer autonomia comunitária, entre outras experiências preconizadas na Permacultura, representa um campo profícuo para a inserção da pauta ambiental no âmbito da APS, uma estratégia inovadora e uma mudança de paradigma, que convida a sair do consultório e das paredes institucionais para integrar o cuidado com as pessoas e com o ambiente natural biodiverso.
Permacultura, Promoção da Saúde e Saúde Planetária convergem em diversos aspectos, como a busca por harmonizar as necessidades humanas com os limites dos ecossistemas, a construção de ambientes saudáveis e resilientes e o alcance de uma autonomia que permita às populações aumentarem o controle sobre a própria vida e saúde, e melhorá-la em consonância com a melhoria das condições ambientais dos territórios.
Apesar do crescente reconhecimento da Permacultura como abordagem de planejamento socioambiental sustentável, ainda inexistem estudos que integrem seus princípios teórico-práticos ao campo da Saúde Coletiva e da Saúde Planetária, especialmente em aplicações na APS no SUS, uma lacuna significativa que este estudo busca evidenciar. Espera-se contribuir para um debate em torno da integração dessas áreas de conhecimento, ao considerar a Permacultura enquanto campo de aprendizado e fonte de inovação para promover saúde individual, coletiva e ambiental.
Este texto com aspecto propositivo qualitativo traz uma reflexão teórica acerca dos elementos dessas aproximações e suas interfaces no contexto da saúde coletiva, observados a partir de experiência com formação acadêmica em Permacultura e atuação territorial com cultivo de hortas agroecológicas enquanto espaço de Promoção de Saúde na ESF. De acordo com Minayo (2021), a pesquisa qualitativa pode assumir a reflexão teórica como estratégia, e nesse sentido constitui-se em um processo interpretativo e compreensivo de discursos a propor articulações conceituais de saberes já produzidos.
Territórios Saudáveis e Sustentáveis
Territórios Saudáveis e Sustentáveis podem surgir como resultado da interação entre Permacultura, Promoção da Saúde e Saúde Planetária?
Territórios Saudáveis e Sustentáveis, segundo Machado et al. (2017, p. 246) são “espaços relacionais e de pertencimento onde a vida saudável é viabilizada, por meio de ações comunitárias e de políticas públicas”, que interagem entre si e contribuem para o “desenvolvimento global, regional e local, em suas dimensões ambientais, culturais, econômicas, políticas e sociais”.
Os princípios de planejamento propostos por Mollison (1988) podem ser adaptados à concepção de territórios saudáveis, a partir de um redesenho do espaço, considerando, por exemplo, os seguintes pontos: planejar a localização relativa dos elementos de uso coletivo no território; posicionar os elementos considerando eficiência energética e logística, criando zonas e setores que facilitem o afluxo das pessoas; cada elemento de uso coletivo deve cumprir várias funções e cada função deve ser apoiada por outros elementos; planejar o uso de resíduos e subprodutos gerados no território como novos recursos; priorizar o uso de recursos biológicos e energéticos naturais, não os fósseis; ciclar resíduos e energia; criar sistemas intensivos e de pequena escala para desenvolver agricultura urbana; acelerar a sucessão e a renovação da vegetação no território e estimular a biodiversidade; estimular a conscientização e a cooperação; e promover ciclos fechados de produtos e serviços dentro do território.
Dahlgren & Whitehead (1992) elaboraram um modelo, no campo da Promoção da Saúde, que permite identificar pontos para intervenções de políticas públicas, no sentido de minimizar os diferenciais de Determinantes Sociais da Saúde (Figura 1) originados pela posição social dos indivíduos e grupos (Buss & Pellegrini Filho, 2007).
Figura 1: Determinantes Sociais – Modelo Dahlgren e Whitehead (1991). Fonte: Buss e Pellegrini Filho, 2007.
No modelo de Dahlgren e Whitehead (1991) podemos identificar os determinantes individualmente, seguidos do comportamento, estilo de vida, a das redes comunitárias e de apoio. Influenciam no próximo nível fatores relacionados às condições de vida, como trabalho, educação, serviços de saneamento e de saúde, entre outros. Na camada externa encontram-se os macrodeterminantes relacionados às condições econômicas, culturais e ambientais da sociedade. Cada nível elencado aponta especificidades para orientar a construção de políticas públicas que atuem sobre os determinantes sociais – micro e macro – para garantir a proteção pessoal, comunitária e ambiental com combate às desigualdades sociais e econômicas. Para Buss e Pellegrini Filho (2007), as condições de vida e saúde das pessoas estão associadas às desigualdades sociais às quais estão expostas.
Os aspectos sociais, éticos, culturais, econômicos e políticos que moldam nossas interações e a maneira como organizamos nossas comunidades, são referidos por Holmgren (2009) na Permacultura como as “Estruturas Invisíveis” representada na Flor da Permacultura. Entre essas estruturas estão as tradições, os sistemas de governança, as redes de suporte social, a participação comunitária, a educação e modos de vida, a economia solidária, o comércio justo e os sistemas de trocas, além da governança local e a defesa das causas.
As aproximações entre Permacultura, Promoção da Saúde e Saúde Planetária revelam-se também nos conceitos colocados na Flor da Permacultura, onde cada pétala representa uma dimensão específica, e juntas formam um modelo integrado para construir uma vida autossustentável e garantir que o desempenho do sistema seja mantido. Na Flor da Permacultura, apresentada na Figura 2, podemos encontrar projetado o conceito ampliado de saúde e seus determinantes. Na figura foram distribuídos os diversos temas que se relacionam com cada domínio.
Figura 2: A Flor da Permacultura. Fonte: Holmgren, 2013, p. 34.
A orientação para a criação de ambientes humanos sustentáveis e produtivos em equilíbrio e harmonia com a natureza representa uma possibilidade de aplicar o conhecimento advindo da Permacultura na Saúde Coletiva. Neste sentido, os modelos, Flor da Permacultura (Holmgren, 2009) e dos Determinantes Sociais (Dahlgren e Whitehead, 1991) confluem para a compreensão das interconexões necessárias na construção de Territórios Saudáveis e Sustentáveis com proteção ambiental, redução de desigualdades e promoção do envolvimento individual, comunitário e institucional, ressaltando a responsabilização mútua sobre as condições de saúde.
Caminhos para a Promoção da Saúde
Em 1974 a publicação do Relatório Lalonde no Canadá provocou uma mudança significativa no campo da saúde coletiva com o entendimento da influência dos determinantes da saúde nas condições de vida da população e no desenvolvimento de estratégias para promover a saúde. O relatório foi pioneiro ao incluir a Promoção da Saúde como política pública em documento oficial e ampliar o conceito de saúde influenciada por um conjunto de fatores além dos cuidados médicos, como a biologia humana, meio ambiente, social e cultural, políticas públicas, fatores econômicos, estilo de vida e organização dos serviços de saúde (Lalonde, 1974).
A 1ª Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde, realizada em Ottawa, Canadá, em 1986, estabeleceu o conceito ampliado de saúde como um processo contínuo que capacita as pessoas a aumentarem o controle sobre sua própria saúde e melhorá-la. Considera como pré-requisitos para a saúde, a paz, a habitação, a educação, a alimentação, a renda, o ecossistema estável, os recursos sustentáveis, a justiça social e a equidade (WHO, 1987).
A iniciativa das Cidades Saudáveis, proposta pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na década de 1980, destaca a importância de políticas que integrem saúde pública, planejamento urbano e desenvolvimento sustentável e criem e melhorem continuamente ambientes físicos e sociais, expandindo os recursos comunitários para suportar a vida em todas as suas complexidades.
As aproximações entre saúde ambiental e saúde coletiva se fortaleceram nos anos 90 a partir de dois eventos internacionais: a III Conferência Internacional de Promoção da Saúde e a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO 1992).
A III Conferência Internacional de Promoção da Saúde, ocorrida em Sundsvall na Suécia (WHO, 1991) no ano que antecedeu a ECO92, ancorou o debate sobre a relação entre condições ambientais e saúde humana. Representantes de vários países reconheceram o equilíbrio e interdependência de todos os seres vivos como indispensável à promoção de territórios favoráveis à saúde e conclamaram as interlocuções e parcerias intersetoriais para a Promoção da Saúde. A ECO 92 foi um marco na mobilização de setores públicos e sociedade civil na defesa e fortalecimento de práticas sustentáveis e ecológicas e de esforços para reverter a degradação ambiental, apesar das fortes resistências colocadas pelos setores produtivos e econômicos.
Em continuação, foram agregadas cada vez mais as questões ambientais a essas recomendações, o que se evidencia na 9ª Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde, realizada em Shanghai, em 2016, quando representantes de governos assinaram o tratado que orienta a articulação de três pilares para a Promoção da Saúde: cidades saudáveis, boa governança e conhecimento sobre saúde, reiterando que promover saúde é promover o desenvolvimento sustentável (WHO, 2017).
A 10ª Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde, realizada em Genebra, no ano de 2021 apresentou a urgência de promover o Bem Viver e ampliar os processos baseados em cooperação e solidariedade, intersetorialidade e interdisciplinaridade, como caminhos para reduzir desigualdades, preservar o ambiente natural, assim como cuidar do futuro para a saúde das próximas gerações (WHO, 2021).
A ideia de Bem Viver tem como marco a publicação do livro “Bem Viver: uma oportunidade de imaginar outros mundos”, de Alberto Acosta. Segundo Acosta (2016), o Bem Viver se contrapõe à hegemonia das análises econômicas para avaliar qualidade de vida, contribuindo para pensar novas formas de organizar os modos de viver no mundo, a partir de referenciais de povos tradicionais que se organizam de forma comunitária e possuem vínculos harmônicos e sustentáveis com os territórios em que habitam, obtendo sua autossuficiência.
Ações intersetoriais para qualificar a atenção à saúde no cuidado pessoal, comunitário e ambiental igualmente tiveram destaque na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, com inclusão de metas específicas para proteger, restaurar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres e aquáticos. As mudanças climáticas exacerbam os riscos para a saúde, incluindo a desnutrição, doenças transmitidas pela água e pelo ar, e desastres naturais. O desenvolvimento de tecnologias de baixo carbono e regenerativas, como agroflorestas e agricultura orgânica, é essencial para enfrentar esses desafios (United Nations, 2023). Essa concepção, ainda que pouco absorvida em sua essência pelo setor da saúde, conclama a uma visão ampliada da profunda interdependência entre saúde humana e ambiental, concebida de forma visceral para a maioria dos povos tradicionais (Albuquerque & Fleuri, 2020).
No Brasil, a Política Nacional de Promoção da Saúde, instituída em 2006 e revista em 2014, segue as orientações provenientes das discussões internacionais e nacionais sobre o tema (Brasil, 2014). Para Merhy et al. (2023), a Promoção da Saúde traz um discurso ético-político de defesa de igualdade e equidade, com proposições teóricas e práticas que representam um importante reforço na defesa da saúde e do SUS. Dentre as proposições da Promoção da Saúde há um chamado para ações concretas que incidam sobre a realidade e as estratégias fundamentais, que incluem a defesa do SUS, capacitação do pessoal da saúde, articulação de saberes técnicos e populares, mediação, intersetorialidade e mobilização de recursos institucionais e comunitários.
Cumpre ressaltar que apesar das inúmeras recomendações contidas nestes documentos, ainda é comum, segundo Tesser et al. (2011), que atividades de Promoção da Saúde sejam confundidas, em alguns cenários, com atividades preventivas com foco em mudanças prescritivas de comportamentos e hábitos, sem considerar a importância das mobilizações comunitárias para a melhoria das condições de vida nos territórios.
Tempo da Saúde Planetária
Problemas ambientais transcendem fronteiras e os perigos da degradação dos ecossistemas, incluindo a poluição do ar, da água e do solo, bem como as mudanças climáticas, representam ameaças significativas à saúde pública, exigindo uma ação local e global coordenada e eficaz para mitigar seus impactos (WHO, 2017, 2021).
Para Floss & Barros (2019), eventos climáticos extremos, como tempestades, inundações, secas e ondas de calor estão se tornando mais frequentes e intensos devido às ameaças antropogênicas, sendo considerados os principais determinantes de saúde do século XXI.
A Saúde Planetária se consolida como campo de estudo transdisciplinar que incorpora as relações entre seres vivos e os limites ecológicos do planeta e compartilha a compreensão da produção da saúde em ambientes ecologicamente conservados e soluções intersetoriais, sustentáveis e baseadas na equidade (Romanello et al., 2021). Reconhece a influência de fatores sociais, econômicos e a grave crise ambiental na determinação da saúde das populações e pondera que as atividades humanas, no sistema de produção capitalista, estão degradando os sistemas naturais que suportam a vida, tornando necessário um esforço coordenado frente a esses impactos deletérios (Frumkin et al., 2017; Whitmee et al., 2015).
Relatórios anuais publicados pela Lancet Countdown, resultado da colaboração de vários especialistas, centros acadêmicos e organizações que fazem parte das Nações Unidas sobre o impacto das mudanças climáticas na saúde global, enfatizam a urgência de ações imediatas e abrangentes para enfrentar os efeitos devastadores que já estão comprometendo a saúde das populações ao redor do mundo. Há um apelo à ação urgente e coordenada de medidas a serem tomadas para proteger a saúde global, tais como transição para energias renováveis com redução da poluição do ar e das emissões de gases de efeito estufa, restaurar e conservar os ecossistemas e o fortalecimento dos sistemas de saúde, de modo a responder eficazmente às consequências na saúde da população (Romanello et al., 2021, 2022).
Neste contexto, WHO (2017), traz o conceito de Saúde Única (One Health) onde aborda a interdependência entre a saúde humana, a saúde animal e a saúde dos ecossistemas, considerando que todas as formas de vida estão interligadas. Compreende que os fenômenos sociais, biológicos e ecológicos são interconectados e que prevenir, mitigar e responder a riscos provenientes da degradação ambiental requer abordagens integradas e colaborativas entre diversos setores da sociedade.
Permacultura e caminhos para fortalecer o SUS em tempos de mudanças
A Permacultura oferece soluções concretas para restauração e regeneração ecológica, por meio da concepção de um planejamento orientado à construção e permanência de ambientes sustentáveis. Integra conhecimentos de diversas áreas científicas, considerada atualmente uma “ciência socioambiental de planejamento de assentamentos humanos autossustentáveis, que evoluem naturalmente em relacionamentos dinâmicos e renováveis com o ambiente ao seu redor e congrega o saber científico com o tradicional popular” (NEPerma UFSC, 2024).
Diversas práticas de cuidado na APS, podem ser beneficiadas e orientadas pelos conceitos integrantes da Flor da Permacultura, como as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde, cultivo de plantas medicinais, hortas comunitárias, a participação social, técnicas de territorialização, educação ambiental, entre outras. A APS igualmente se apresenta como um espaço facilitador para a inserção dos princípios da Permacultura nos territórios comunitários e institucionais do SUS.
Esta compreensão pode beneficiar a integração de práticas permaculturais com a Saúde Planetária e a Promoção da Saúde, criando uma abordagem que potencialize intervenções e influencie os determinantes de saúde individual e coletiva e também colabore para o cuidado ambiental no território.
As aproximações entre Permacultura, Promoção da Saúde e Saúde Planetária fortalecem alguns conceitos e caminhos que colaboram para a construção de Territórios Saudáveis e Sustentáveis. Apesar das interfaces, esses campos de conhecimento pouco interagem nas suas práticas e reflexões e a Permacultura, enquanto ciência socioambiental e intersetorial, não consta nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS); no entanto, oferece conhecimento e métodos que podem contribuir para fortalecer ações concretas nos territórios para proteção da saúde humana, da biosociodiversidade e o alcance da sustentabilidade.
Conclusões
A integração dos princípios e das práticas da Permacultura aos serviços da Atenção Primária à Saúde se configura como uma estratégia inovadora e transformadora, capaz de qualificar os processos de cuidado, promover saúde e responder aos desafios colocados na Saúde Planetária e na agenda 2030 da ONU. Equilibrar as condições econômicas, sociais e ambientais para o desenvolvimento sustentável solicita incorporar fundamentos ecológicos e a Permacultura oferece uma abordagem colaborativa e regenerativa que fortalece práticas de cuidado, tanto com as pessoas, quanto com os ecossistemas, além de potencializar o engajamento e o trabalho das equipes da Estratégia de Saúde da Família nas questões socioambientais dos territórios.
A adoção desses princípios e práticas nos processos formativos dos profissionais de saúde, assim como em programas de educação permanente, amplia as possibilidades de atuação da Atenção Primária à Saúde, ao estimular práticas como a criação de espaços verdes terapêuticos, hortas comunitárias e hortos medicinais. Tais ações não apenas promovem o fortalecimento dos vínculos comunitários e a valorização dos saberes tradicionais, mas também induzem mudanças culturais significativas, com a incorporação de práticas interdisciplinares e ecocêntricas no modelo de atenção à saúde. Portanto, mostra-se essencial investir em novos conhecimentos para garantir que profissionais de saúde estejam aptos a implementar e manter práticas sustentáveis.
Atividades que promovam a sustentabilidade nas instituições de saúde também contribuem para a efetivação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) e da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF), no SUS (Brasil, 2006).
Políticas públicas saudáveis, para enfrentar os determinantes sociais, ambientais e econômicos da saúde, exige uma governança intersetorial pautada no compartilhamento de gestão, visão, objetivos, programas e ações integradas nos territórios (WHO, 2017; 2021).
Permacultura, Promoção da Saúde e Saúde Planetária partilham uma visão integradora e sistêmica, que reconhece a saúde e o bem-estar como expressões da harmonia entre os seres humanos e os sistemas naturais. Assim, incorporar os princípios da Permacultura às práticas e políticas de saúde coletiva representa uma oportunidade concreta de construir territórios mais saudáveis, sustentáveis, resilientes e socialmente justos, capazes de enfrentar as crises sanitárias, ambientais e climáticas que marcam o século XXI, contribuindo para o bem viver das gerações atuais e futuras.
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Maria Francisca dos Santos Daussy elaborou o artigo a partir do Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito para obtenção do título de Especialista em Permacultura pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em 2024, sendo responsável pela concepção, desenvolvimento do conteúdo, redação inicial e revisão textual do texto. Antônio Augusto Alves Pereira orientou o Trabalho de Conclusão de Curso da primeira autora no curso de Especialização em Permacultura (UFSC, 2023-2024), contribuiu com a concepção metodológica, acompanhamento do desenvolvimento do trabalho, revisão crítica e orientação na redação do texto final do artigo. Já Luiz Henrique Chad Pellon, colaborou na organização da estrutura do artigo, na sistematização das ideias, na análise crítica dos conteúdos e na revisão textual. Mayara Floss colaborou na organização da estrutura do artigo, na sistematização das ideias, na análise crítica dos conteúdos e na revisão textual.
Resumo: A pesquisa buscou congruências pragmáticas e metodológicas entre Permacultura e Ecoformação. O objetivo foi identificar fatores na escola que promovam projetos de Permacultura aliados à Ecoformação, e despertam uma educação a partir da vida e para a vida. A pesquisa aconteceu na Escola Reunida Professora Targina Boaventura da Costa, Secretaria Municipal de Paulo Lopes, localizada na borda de relevantes áreas de proteção ambiental em Santa Catarina e foi baseada na experiência de educadoras e estudantes envolvendo a criatividade, a colaboração, a capacidade de resiliência, a experiência de interconexão e a noção de interdependência. As práticas propostas sensibilizaram e transformaram pessoas e espaços. Palavras-chave: Ecoformação. Permacultura. Projeto Criativo Ecoformador
Abstract: The research sought pragmatic and methodological congruences between Permaculture and Ecoformation. The objective was to identify factors in the school that promote Permaculture projects combined with Ecoformation, and awaken an education from life and for life. The research took place at the Escola Reunida Professora Targina Boaventura da Costa, in Paulo Lopes, located on the edge of important environmental protection areas in Santa Catarina and was based on the experience of educators and students involving creativity, collaboration, resilience, the experience of interconnection and the notion of interdependence. The proposal provided an opportunity to raise awareness and transform people and spaces. Keywords: Ecoformation, Permaculture, Creative Ecoformative Project
Introdução
A escola exerce muitas funções no cotidiano das comunidades e culturas do mundo todo. Entre elas, um lugar seguro para que crianças, jovens e demais participantes possam, em coletivo, conviver, conhecer, exercitar direitos e deveres. Além disso, é lugar de ampliar visões a partir da diversidade na relação consigo, com o outro e com o ambiente (Brasil, 2018). A articulação das relações de aprendizagem na escola é complexa e depende de uma rede de profissionais multifacetados, capazes de exercer funções pedagógicas e administrativas concomitantemente. Assim, a escola tem um importante papel na transformação das pessoas, pois é um campo aberto ao protagonismo e à criatividade.
Na perspectiva da ecoformação, interagindo com o meio onde vivem, os estudantes se constituem e também constituem conhecimentos. Nesse sentido, a Ecoformação, aborda o envolvimento de estudantes e mediadores educacionais por meio de Projetos Criativos Ecoformadores (PCE). Torre & Zwierewicz (2009) afirmam que o trabalho com projetos ecoformadores é uma proposta de ensino baseada nos interesses dos estudantes e educadores. Sendo assim, a contextualização é fundamental para elencar o ponto de partida de interação entre teoria e prática. Elaborar o painel de interesses para apresentar os ambientes ecoformadores; realizar a leitura da natureza para entender onde vivemos; percorrer os caminhos da escola para expandir horizontes; compreender onde estamos; e finalmente, construir o mapa da escola para pertencer; são exemplos de epítome, o ponto de partida do PCE.
O trabalho por meio do PCE oportuniza a ampliação da visão crítica da realidade, já que em todos os espaços da vida cotidiana encontram-se desafios a serem superados. Para começar, é importante “observar e interagir” (Holmgren, 2013), ou seja, fazer um bom diagnóstico sobre quais ações podem ser realizadas com o objetivo de auxiliar na interação sistêmica, a partir das necessidades do eu, do outro e do ambiente.
Os Projetos Criativos Ecoformadores têm como pressupostos teóricos o pensamento complexo, a transdisciplinaridade e a ecoformação (Torre & Zwierewicz, 2009). Desse modo a criatividade é uma das capacidades requisitadas para que, a partir do epítome, vários conteúdos sejam consultados pelos estudantes na construção dos trabalhos. É importante que o planejamento das metas esteja vinculado às perguntas provenientes do interesse dos estudantes, e que essas sejam condutoras na solução das dificuldades por eles enfrentadas no decorrer do processo.
Dessa forma, a complexidade pode ser entendida, de forma simplificada, como o pensamento que integra as partes que compõem o todo (Morin, Edgar, 2005) Assim, ao considerar o contexto ambiental e cultural no qual está inserida a escola, surgem inúmeras oportunidades para sensibilizar, provocar e conduzir. Portanto, o sentimento de prazer pode ser estimulado. Dessa forma, a aplicação de projetos contextualizados ao meio natural e às necessidades escolares serve ao exercício dos princípios da ecoformação que são: autoformação, heteroformação e ecoformação (Zwierewicz et al., 2019).
No Glossário de Terminologia Curricular apresentado pela (UNESCO, 2016), p.9) o termo abordagem transdisciplinar é definido como “Abordagem à integração curricular que dissolve os limites entre as disciplinas convencionais e organiza o ensino e a aprendizagem em torno da construção do significado no contexto de temas ou problemas do mundo real”. Portanto, uma educação com abordagem transdisciplinar procura oportunizar uma aprendizagem relacionada aos problemas do mundo atual, enfatizando o contexto e buscando por processos mais dinâmicos e integradores. Desse modo, as disciplinas se apresentam conectadas, oportunizando uma educação além do ensino disciplinar e fragmentado.
A ecoformação considera a transdisciplinaridade como ponto importante na formação de estudantes criativos e autônomos, pois “é uma maneira sintética, integradora e sustentável de entender a ação formativa, sempre em relação ao sujeito, à sociedade e à natureza.” (Torre et al., 2008, p. 21).
Já a Permacultura é a cultura de permanência humana no habitat, como traz a Rede NEPerma Brasil (2022), que apresenta uma perspectiva ecológica a partir do planejamento pautado em princípios éticos onde se busca elaborar sistemas energeticamente sustentáveis e eficientes por meio de conexões funcionais. Dessa forma, dentro da paisagem, para cada elemento inserido no sistema planejado se faz uma análise quanto suas características, necessidades e funções para entender a dinâmica e ligação com outros elementos.
Fazendo um paralelo com a Ecoformação se observa, também na Permacultura, uma abordagem ecossistêmica que tem como ponto de partida a contextualização. Além disso, a Permacultura igualmente apresenta três premissas éticas do cuidado da Terra, cuidado das pessoas e a partilha justa, bem como doze princípios de planejamento (Holmgren, 2013). Apesar da Permacultura ter sido assim nomeada e sistematizada por Mollison e Holmgren, sabe-se que ela reúne princípios e práticas de conhecimento ancestral. Desse modo, no Curso de Planejamento em Permacultura (CPP) se utiliza métodos de abordagem diversos, a partir do currículo voltado à alfabetização ecológica por meio de três estágios: [re]conexão com a natureza; manejo da natureza; humanos na paisagem (Nanni et al., 2019).
Sendo assim, realizamos a pesquisa, baseada na relação entre Permacultura e Ecoformação no espaço escolar, no que tange aos princípios éticos e às congruências epistemológicas de complexidade e transdisciplinaridade. A contextualização, como um caminho para superar os desafios de ensino e aprendizagem na elaboração de espaços relacionais entre o eu, o outro e o ambiente e apoiados em conceitos e conteúdos que são trazidos por ambos métodos de abordagem.
Dessa forma, buscamos entender como o Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola pesquisada, justifica e conduz o processo experimentado entre seus participantes na educação básica e pública. Para tal, o objetivo geral foi identificar fatores na Escola que promovem projetos de Permacultura aliados à Ecoformação, e despertem uma educação a partir da vida e para a vida. Os objetivos específicos foram (1) elaborar um diagnóstico sobre o conhecimento que os professores da Escola Reunida Professora Targina Boaventura da Costa tem do PPP, no que tange aos aspectos metodológicos, bem como ao conhecimento da Certificação de Escola Criativa (Vasques, 2024); e (2) Identificar no Projeto Político Pedagógico (PPP) da Escola Reunida Professora Targina Boaventura da Costa, elementos que evidenciem uma educação em Permacultura e Ecoformação.
A questão condutora da pesquisa envolveu o seguinte problema: Como a visão ecossistêmica compartilhada entre Permacultura e Ecoformação pode contribuir para uma educação significativa relacionada com as necessidades da vida?
Escola ecoformadora e criativa
A Escola Reunida Professora Targina Boaventura da Costa situa-se na área rual do município de Paulo Lopes–SC, como mostra a Figura 1. É mantida pela Secretaria Municipal de Educação de Paulo Lopes, então trata-se de uma Escola de educação básica municipal. A Escola Targina é localizada pelas coordenadas geográficas com latitude 27°57’06“S e longitude 48°38’42”W e, está na borda da Unidade de Conservação do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, especificamente entre a Lagoa do Coração e a Área de Preservação Ambiental (APA) da Baleia Franca. Configura uma área relevante de amortecimento de águas e biodiversidade da flora e fauna, com vegetação da floresta ombrófila densa, mangues e restinga (FATMA, 2009).
Figura 1: Localização da escola no município de Paulo Lopes. Fonte: OpenStreetMap.
A instituição atende atualmente 168 estudantes, matriculados na Educação Básica Anos Iniciais, e conta com 22 docentes, 3 gestoras e 3 auxiliares. Além disso, a Escola nutre relação com um grupo de pessoas comprometidas com a preservação do meio ambiente, que em grupo têm colaborado na construção dos espaços relacionais de aprendizagem e na sua manutenção. Com área aproximada de 7.000 m², o espaço da Escola oferece desafios de planejamento conforme a Figura 2.
Figura 2: Contexto – área da escola, comunidade e seu entorno.
Ao mesmo tempo que há possibilidade da ocupação desse território por meio de iniciativas inovadoras e sustentáveis, é preciso colaborar para a apropriação dos conteúdos curriculares e favorecer uma formação comprometida com o bem-estar individual, social e ambiental. Participaram da pesquisa, mais especificamente no fornecimento de informações por meio de um questionário, dezessete (17) profissionais, entre eles professores e equipe gestora, no ano de 2024.
No período de 2017 a 2021, a Secretaria Municipal de Educação de Paulo Lopes aderiu ao Programa de Formação-Ação em Escolas Criativas. A elaboração dos projetos, nas escolas da rede municipal de educação, teve como pensamento organizador a promoção de escolas criativas para uma cidade sustentável (Zwierewicz et al., 2019). Desse modo, a metodologia de Projeto Criativo Ecoformador (PCE), passou a ser implementada na Rede Municipal, oportunizando a elaboração de trabalhos por projetos a partir da visão ecossistêmica. As práticas sustentáveis passaram a ser valorizadas como meio de sensibilização e forma de buscar o desenvolvimento de competências e habilidades curriculares previstas pela Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2018).
Até 2019, os espaços relacionais ou ambientes ecoformadores (horta pedagógica, composteira, minhocário, pomar, casa das abelhas, sabão de ervas boa’ventura, círculo de bananeiras, árvore palavreira) foram sendo criados e construídos pautados na curiosidade sobre como solucionar problemas da própria ocupação e, também, na criatividade sobre como transformar por meio do protagonismo dos estudantes e da participação das famílias e comunidade.
Em 2020, iniciamos o ano letivo entre docentes e gestores da rede municipal, com a Ecoformação de professores, sob orientação da Professora Dra. Marlene Zwierewicz. Estruturamos o objetivo principal e metas dando continuidade aos PCE nas escolas. Porém, em meados de março de 2020 ocorreu o evento extremo da pandemia por COVID. Assim, houve um período de pausa para reestruturação de um novo modo de interação entre Escola, famílias e comunidade na tentativa de manter o processo de ensino e aprendizagem. Frente ao desafio da necessária reclusão, foi preciso interagir por meio de apostilas e encontros virtuais, fazendo com que objetivo e metas traçadas para a continuidade do PCE ficassem em segundo plano. Em todas as unidades escolares os PCE perderam força e na maioria delas, não foram retomados.
No início do ciclo seguinte, em 2021, aconteceu a última Ecoformação de professores, com a professora Marlene Zwierewicz pela Secretaria Municipal de Educação (SME). A Escola Targina conseguiu retomar o PCE por conta disso e também da base sólida construída anteriormente, em função da produção de legitimação teórica, da atuação de professora articuladora e pela comprovação do protagonismo dos estudantes, frente ao envolvimento com os ambientes ecoformadores. Foi um período de reformulações e superação das dificuldades pelo tempo longe do ambiente escolar. A conexão com os preceitos metodológicos precisou ser refeita e os ambientes ecoformadores ressignificados.
Através desse esforço em dezembro de 2022, no XI Fórum Internacional de Inovação e Criatividade (XI INCREA), a Escola recebeu o Certificado de Escola Criativa pela Rede Internacional de Escolas Criativas-RIEC com o reconhecimento de Marlene Zwierewicz, membro da RIEC, que acompanhou a pesquisa utilizando como instrumento o VADECRIE (Instrumento para valorizar o desenvolvimento criativo das instituições de ensino) e, que durante vários anos coordenou o processo de formação continuada na Rede Municipal de Ensino de Paulo Lopes, coletando evidências da metamorfose, identificando-a como Instituição Criativa.
Por meio da relação com a RIEC, a escola participou de inúmeros eventos como seminários onde pode fazer trocas de saberes e experiências com outras instituições e seus projetos. A interação com educadores e educadoras das escolas de Santa Catarina, os membros da RIEC, em especial o professor Saturnino de La Torre e a orientação da professora Marlene Zwierewcz, foram condições imprescindíveis no pertencimento como Rede, em um movimento contínuo de alinhamento de ideias, renovação, motivação e inspiração.
Permacultura e ecoformação na escola
Ao promover um diálogo entre as possíveis formas de ocupar a escola de educação básica, ressaltar as relações existentes entre a Permacultura e a Ecoformação pode auxiliar no fortalecimento de práticas metodológicas nas quais estudantes sejam os protagonistas. Pode auxiliar, também, na busca do entendimento sobre como princípios, conceitos e conteúdos da Permacultura podem alicerçar práticas contextualizadas promovendo, conjuntamente à Ecoformação e uma educação da vida e para a vida, pois encontramos similaridades pragmáticas e sistemáticas entre ambas.
Na prática pedagógica na escola, sob orientação e acompanhamento de professores, o brincar na natureza oferece um campo real de observação, interação, pesquisa e processamento de textos de muitos tipos. Esse processo potencializa uma experiência sensível e cognitiva na aprendizagem, promovendo o pensar científico e a “transformação da cultura científica em consciência pessoal” (Rocha et al., 2024). Na educação é preciso retomar a relação intrínseca entre o eu, o outro e o ambiente, junto à compreensão de unidade e interdependência.
Por meio da obra “Ensinando Permacultura”, organizada por (Nanni et al., 2019), conhecemos as formas de ensinar permacultura, com o currículo baseado na proposta de Bill Mollison. Assim como na Ecoformação, todas as propostas em ensino de Permacultura apresentadas podem facilmente permear um Projeto Criativo Ecoformador. Pois, o conjunto de princípios éticos e conceitos epistemológicos que as estruturam são similares. O mapa mental da Figura 3 apresenta as relações causadas pelo ensino de permacultura na educação básica.
Figura 3: Relações no ensino de Permacultura na Escola (Vasques, 2024).
A abordagem pelo contexto, conceito e conteúdo, na prática, transdisciplinar e criativa, caracteriza a metodologia como ativa. E justamente por oportunizar o pertencimento, o protagonismo, a reconexão com o ambiente imbuída de princípios, acaba por buscar uma educação a partir da vida e para a vida. Assim como a Ecoformação, a Permacultura também busca alcançar a formação integral das pessoas por meio de uma pedagogia que parte de três princípios éticos que são: cuidar da Terra, cuidar das pessoas e partilha justa (Holmgren, 2013).
Apesar da Permacultura ter sido sistematizada na década de 1970 por Bill Mollison com o intuito de promover uma alternativa ecológica para a ocupação humana, preocupada com os cultivos e demandas energéticas, evidencia a importância de inúmeras outras questões fundamentais de permanência na paisagem. O cultivo é uma das disciplinas fundamentais na Permacultura, pois trata da subsistência e soberania alimentar de comunidades. No entanto, não é vista como isolada. A horta infere um pensamento sistêmico que vai desde o planejamento, baseado em princípios, passa pela setorização e zoneamento e vai até um conjunto de técnicas para a sua implementação.
Na Escola Targina houve a aplicação prática sob a perspectiva da Permacultura e Ecoformação com a construção de uma horta pedagógica que contou com pesquisa e articulação feita entre instituições como Rede Ecovida de agroecologia, Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (CEPAGRO), Prefeitura Municipal de Paulo Lopes, etc.
Mantida por meio dos mutirões familiares e voluntariado, a horta tornou-se um ambiente ecoformador, na medida em que estudantes puderam interagir para criar, construindo uma aprendizagem mais significativa orientada por princípios. Assim, ao mesmo tempo que são solicitados aos estudantes, leituras, produção de textos e pinturas com tintas naturais, também são promovidos o contato com a terra e a oportunidade de vivenciar entre colegas, amigos e famílias.
Buscando complexificar e diversificar o sistema e as oportunidades de fruição e pesquisa, foi implementada, junto à horta, uma linha de bananeiras, com o objetivo de proteger do vento, sombrear, fazer solo, reter água e obter rendimentos para compartilhar. Essas conexões, entre elementos e suas funções, como a horta (pedagógica, produção de alimentos, inspiração) e as bananeiras (barreira, biomassa, produção de frutas) são analisadas e utilizadas como preceitos no desenho de planejamento em permacultura. A Figura 4 mostra o desenho de zoneamento energético da escola a partir da zona 0, onde ficam concentradas as interações humanas. Sob a perspectiva da eficiência energética do sistema, o desenho se expande para a zona 1 e assim por diante.
A Escola Targina tem espaço privilegiado pelo contexto comunitário e ambiental, especialmente pelo amplo jardim, que oportuniza a construção de ambientes ecoformadores baseados nos princípios de planejamento da Permacultura. Além do território oportuno, a Escola conta com o PPP, que contém informações e diretrizes, onde encontramos as orientações pedagógicas voltadas para o “plano de ação que estimule o educando a ser ativo, reflexivo e dinâmico” (Paulo Lopes, 2022, p. 36). Com o objetivo de alcançar todos os estudantes, o PPP enumera métodos pedagógicos, entre eles os “projetos escolares e temas geradores: Projeto Ecoformador (PCE)” (Paulo Lopes, 2022, p. 37).
Figura 4: Desenho de planejamento: zoneamento e ambientes ecoformadores (Vasques, 2024).
No PPP, ainda no capítulo que trata da organização do ensino, especificamente sobre o PCE, em coordenadas temporais, notamos o planejamento pautado nas diretrizes do Currículo Base da Educação Infantil e do Ensino Fundamental do Território Catarinense (2019). Versa sobre os princípios da educação ambiental, que por sua vez funciona como tema integrador, e cita, inclusive, a possibilidade da permacultura contribuir com os componentes curriculares (Santa Catarina, 2019, p. 38). Desse modo, Paulo Lopes (2022, p. 41) busca justificar o uso do PCE como metodologia inovadora na formação de sociedades sustentáveis (Santa Catarina, 2019, p. 33) e, na conquista do reconhecimento de Escola Criativa pela Rede Internacional de Escolas Criativas (RIEC).
Notamos que no ato da construção do PPP, em 2022, existia a intenção e um plano de ação para que todos os professores adotassem o PCE. Visto a flexibilidade de adaptação ao contexto da escola e aos conceitos de criatividade e transdisciplinaridade, a resiliência e continuidade do PCE, foram requisitos fundamentais para a conquista do Certificado. Os critérios pelos quais a Escola foi certificada, reúnem ações executadas no período entre 2017 e 2022. A última atualização do PPP da Escola foi realizada justamente em 2022 e, por esse motivo, não traz a narrativa deste feito. No entanto, a descrição dos critérios, no próprio certificado, aponta o caminho para a continuidade do trabalho, também justificado pelo PPP.
Todavia, ambos os documentos conferem aos professores e equipe gestora da Escola responsabilidades quanto às práticas veiculadas por meio de planejamentos e atividades. Conforme aponta o certificado, “o compromisso assumido de se transformar enquanto também colabora para a transformação do seu entorno. Seu potencial de metamorfose criativa e polinizadora fez que em sua trajetória a instituição passasse a se destacar pelo planejamento transdisciplinar e por práticas pedagógicas ecoformadoras” (Vasques, 2024). Desse modo fica evidente que o certificado apresenta orientações sobre quais procedimentos e ações podem contribuir para a realização de práticas inovadoras, apontando inclusive as técnicas de permacultura aplicadas na escola.
Na Escola Targina os PCE foram executados a partir do diagnóstico sobre as necessidades da escola e dos estudantes, tendo em vista as potencialidades do ambiente e os saberes da comunidade. Conforme o desenho do zoneamento apresentado na figura 4 foram dispostas as técnicas em suas respectivas zonas.
Durante o PCE Recicle Plante e Crie:é uma Boaventura, realizado em 2017, nas zonas 0 e 1 foi desenvolvido o PCE Sabão de Ervas Boaventura. Houve a sensibilização ambiental coletiva, causando mudanças de hábitos dos participantes enquanto formava multiplicadores de informação sobre o reaproveitamento de materiais, tendo a presença da comunidade de modo ativo.
No PCE Sementes da Liberdade: regar para colher amor, realizado em 2018, na zona 1 foi instalada a composteira termofílica e o círculo de bananeiras para tratamento das águas cinzas. Na zona 2, a revitalização da horta pedagógica e do pomar, sendo a zona 5 resguardada como área de preservação. Nesse PCE foi adotado o regime de mutirões com a participação direta da comunidade que contribuiu nas respectivas zonas 0, 1 e 2.
O PCE Integrar Saberes no Jardim da Vida, realizado em 2019 alcançou número bastante relevante de ações e participantes. Na zona 1 houve a instalação do minhocário, do observatório de pássaros, do galinheiro e da árvore palavreira com bancos e uma bancada na sombra da árvore figueira como espaço de leitura e experiências. Na zona 3 foi instalada uma caixa de abelhas-sem-ferrão mirim-guaçu. Na zona 4 foi criada a célula de biomassa. Todos os ambientes ecoformadores foram organizados pela equipe escolar e os estudantes, tendo a participação da comunidade escolar por meio dos seis mutirões realizados no decorrer do ciclo.
Já no PCE Saber Aprender para Bem Viver, realizado entre 2011 e 2022, nas zonas 1, 2, 3, 4 e 5 houve a revitalização dos espaços por meio da repetição constante no manejo com a natureza, por meio do trabalho com estudantes e voluntários. Houve pausa nos mutirões devido ao isolamento da pandemia de COVID.
O PCE Reciclar, Plantar e Aprender é uma Boaventura realizado em 2023, teve a construção da casa jardineira para o depósito de materiais de manejo dos espaços com acesso aos estudantes na zona 2. Enquanto na zona 3, o galinheiro passou a funcionar como o hotel dos animais. Já a zona 5 sofreu intervenção humana, se transfigurando em área de recuperação.
Por fim, no PCE Leituras no JardimBoaventura realizado em 2024, houve a continuidade das ações promovidas anteriormente, com a interação dos estudantes por meio da elaboração do Jornal Escolar Folha Boaventura permeando as zonas 0, 1, 2 e 3, a implantação dos círculos de ervas e jardim de girassóis na zona 1 (Figura 5).
Desse modo, as interações nas zonas aconteceram por meio dos preceitos da permacultura, incluindo as conexões funcionais onde os elementos se conectaram por meio de suas funções na paisagem. Sempre estiveram presentes as éticas do cuidar da Terra, das pessoas e do futuro, além dos doze princípios de planejamento (Holmgren, 2013), passando pela aplicação do pensamento sistêmico, que entende que tudo é interdependente e, pela presença dos princípios da educação ambiental pela promoção de comportamentos sustentáveis (Santa Catarina, 2019).
Ao organizar os ambientes ecoformadores por meio do zoneamento proposto pela permacultura, percebemos que foi considerado o contexto social e ambiental no qual a escola está inserida. Enquanto as atividades foram conectadas de modo transdisciplinar, acessando o currículo, foi oportunizado aos estudantes o protagonismo, o pertencimento e a experiência de convívio saudável através dos conceitos e conteúdos.
No desenvolvimento dos PCE foi possível observar alguns princípios de planejamento da permacultura. A participação ativa dos estudantes em todas as fases trouxe o princípio “use e valorize a diversidade”; já o envolvimento das demais turmas da escola, alicerçou no princípio “observe e interaja”; a participação de professores regentes, equipe gestora e auxiliares gerais, destaca o “integrar ao invés de segregar”; a participação das famílias e comunidade na gestão do óleo usado e banca do sabão no PCE Sabão de Ervas Boa’ventura, traz o “use e valorize os serviços e recursos renováveis”, “pratique a autorregulação e aceite retornos”, “obtenha rendimento”; o desenvolvimento da criatividade e do pensamento ecossistêmico trazem o “use soluções pequenas e lentas”; a criação, revitalização e manutenção dos ambientes ecoformadores por meio dos mutirões o “não produza desperdícios”, “use e valorize os serviços e recursos renováveis” e, a “área de preservação x área de regeneração” trabalhou o “seja criativo e responda às mudanças”.
Dentre tantos PCE, o Sabão de Ervas Boaventura (Figura 6) se destaca por permear todos os outros e por ser o pioneiro. Realizado na Escola Targina de 2017 até 2024, promoveu o reaproveitamento do óleo usado de cozinha advindo da comunidade (Figura 7). A prática foi identificada como um interesse das pessoas e durante o desenvolvimento do projeto, com o uso do sabão na Escola, os estudantes questionaram sobre a destinação das águas da cozinha. Por isso, projetaram e executaram o círculo de bananeiras para o tratamento das águas cinzas (Figura 8). Os estudantes realizaram muitas experiências, integrando saberes e tocando em questões emergentes locais, regionais e mundiais, promovendo ações práticas descentralizadas, sustentáveis e de fácil aplicabilidade.
Figura 5: Construção do círculo de ervas e leitura da bandeira do PCE Sabão de Ervas Boa’ventura. Figura 6: Produção do sabão, registro livre das etapas no caderno e rotulagem, embalagem do sabão. Figura 7: Pesagem para informação no produto final e vendas na banca do sabão para a comunidade. Figura 8: Construção do círculo de bananeiras e a banca do sabão na árvore palavreira durante o mutirão na escola.
Considerações finais
A pesquisa identificou muitos elementos que promovem projetos de Permacultura aliados à Ecoformação na Escola Targina. Percebemos a Escola como um rico campo de interações sociais e lugar de experiências coletivas práticas, para viver e entender a vida, refletir sobre ela e ampliar as perspectivas sobre a realidade.
Diagnosticamos que os professores da Escola Targina possuem um conhecimento razoável do Projeto Político Pedagógico, no que tange à compreensão metodológica, e o conhecimento do Certificado de Escola Criativa (Vasques, 2024). Já que os PCE acontecem com constância, consideramos que o número médio de professores que convergem atuações, acabam por promover a continuidade dos projetos. Também pudemos identificar no PPP, elementos que evidenciam uma educação em Permacultura e Ecoformação por meio da metodologia dos Projetos Criativos Ecoformadores.
Verificamos que a escola apresentou excelentes metodologias sistematizadas, oferecendo facilidades na aplicação dos planejamentos pelos professores e, a articulação desenvolvida de uma professora efetiva, foi um diferencial no desenvolvimento dos PCE. Junto a isso, o conhecimento de parte dos professores da escola dos referenciais teóricos, bem como do PPP, trouxe mais significado à prática pedagógica.
Esse relato de experiência apresentou mais do que técnicas, demonstrou “soluções pequenas e lentas”, que se tornam grandes em tempo e espaço pela repetição firme e constante. Nisso, os princípios éticos compartilhados entre Permacultura e Ecoformação colocados em prática por meio dos PCE, conferiram uma maior resiliência dos participantes e ações.
Motivar pessoas para que mais escolas de educação básica sejam criativas e vejam na transdisciplinaridade, proposta pela Permacultura e Ecoformação, um jeito de transformar e gerar impactos positivos na vida de todos, é o propósito deste relato. Tudo está interconectado, tudo é interdependente.
Na educação é preciso resgatar conceitos que fortalecem as práticas que evidenciam a intenção de interagir com o meio e educar ecologicamente por meio de ações sustentáveis e regenerativas. Conhecimentos que podem ser transferidos para os demais setores do cotidiano, e nesse sentido a Permacultura e a Ecoformação têm muito a oferecer.
Referências
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Zwierewicz, M., Simão, V. L., & Silva e Souza, Ve. L. (Org.). (2019). Ecoformação de professores com polinização de Escolas Criativas. UNIARP.
Contribuições
Marjorie Vasques realizou a pesquisa e relatou a experiência. Jeane Pitz Pukall orientou a pesquisa e o relato de experiência.
Resumo: Este artigo revisita a obra “The Water Wizard”, do naturalista austríaco Viktor Schauberger, e discute suas reflexões sobre a água, que antecipam princípios contemporâneos da ecologia e da permacultura. Suas observações descrevem a água não apenas como uma substância química, mas como um sistema vivo, dotado de “alma” e “caráter”. Para tanto, relaciona suas teorias com achados científicos sobre estrutura molecular da água, condutividade e ressonância, evidenciando a máxima vitalidade da água em seu fluxo natural nos rios, seu movimento natural em vórtices e seus gradientes de temperatura.
Palavras-chave: Viktor Schauberger; vitalidade da água; movimento da água; permacultura; ecologia sistêmica; ética ambiental
Abstract: This article revisits The Water Wizard by Austrian naturalist Viktor Schauberger and discusses his reflections on water, which anticipated contemporary principles of ecology and permaculture. His observations describe water not merely as a chemical substance, but as a living system endowed with “soul” and “character.” By relating his theories to scientific findings on the molecular structure of water, conductivity, and resonance, he highlights the water’s highest vitality in its natural river flow, its vortex motion, and its temperature gradients.
Keywords: Viktor Schauberger; water vitality; permaculture; systemic ecology; environmental ethics.
Introdução
O livro “The Water Wizard” (Schauberger, 1999) me foi apresentado em 2018, quando recebi a visita do Tita, fundador da ONG Nascentes, em uma propriedade rural onde desenvolvia um projeto de agrofloresta e recuperação de nascentes. O livro, ao mesmo tempo que desconstruiu a minha formação em Engenharia Ambiental e também minha compreensão sobre o manejo e a dinâmica das águas na natureza, formulou um desejo intuitivo e profundo de descobrir a visão de Viktor Schauberger sobre a inteligência natural da água em moldar a vida.
Como ocorreu com muitas pessoas, a pandemia trouxe um novo insight e uniu esse desejo à tradução, profissão na qual atuo há 10 anos. Adquiri os direitos autorais do livro para o português do Brasil em 2021 e, nessa caminhada, descobri diversas pessoas que também foram inspiradas por Viktor Schauberger. Desde então, o projeto de publicação do livro conta com uma equipe editorial completa, na qual sou o tradutor e coordenador, cinco apoiadores institucionais do campo das águas e da ecologia, apoio e prefácio do estimado Professor Dr. Demétrios Christofidis, um patrocínio master e uma grande rede de apoio e novos amigos que desejam mudar a atual concepção de manejo das águas aplicado pelo poder público e privado no Brasil e no mundo. Em breve, o lançamento e publicação do livro em português, datada para março de 2026, será divulgada nas mídias com muita alegria e um belo caminho de união percorrido.
Em meio ao nosso crescente contato com as consequências das crises hídricas e do colapso de sistemas ecológicos, junto à crescente perda da referência ética na interação com a natureza, emergem figuras como o austríaco Viktor Schauberger (1885–1958). Sua obra propõe, além de soluções práticas, uma profunda reconexão entre ciência, natureza e espiritualidade. Em seu livro The Water Wizard, suas observações sobre a água, considerada um organismo vivo e em constante transformação, lançam luz sobre práticas regenerativas alinhadas ao que hoje conhecemos como permacultura.
A permacultura é uma ciência sistêmica e de cunho socioambiental que congrega os saberes científicos com os saberes tradicionais populares no planejamento de ambientes humanos permanentes e em equilíbrio dinâmico com a natureza, dentro de uma ética que, hoje em dia, deve buscar novas criações para os princípios do cuidado com a terra, pessoas e os limites de consumo. Tais princípios devem aceitar a intensidade e a escala em que as condições energéticas atuais se manifestam nos contextos ecológico, social, econômico e cultural. As condições para a ocorrência da conexão entre o equilíbrio dinâmico, holístico e sistêmico são justamente o ponto de encontro entre os caminhos de Schauberger e da permacultura.
A água, por Viktor Schauberger
Viktor Schauberger defendia que a água, em seu estado natural, ou seja, nascida em fontes frescas, geralmente próxima a 4 °C, em movimento orgânico e em equilíbrio com o ambiente, é mais do que um líquido: é uma substância viva, dotada de alma, caráter e função vital. Embora românticas, as palavras “alma” e “caráter” tem fundamento científico e sistêmico. Na época de Schauberger, em plena Segunda Guerra Mundial, cuja ciência mecanicista era a voz condutora da tecnologia, houve muita resistência às suas ideias e teorias.
O “caráter da água” citado por Schauberger nada mais é do que seu processo de maturação e transformação, que varia dependendo do ambiente na qual ela permeia. Sim, a água, como qualquer ser vivo, emerge em uma “nascente” e, como nós, tem seu caráter influenciado pelo ambiente de criação na parte primária da vida. Dependendo do seu ciclo de desenvolvimento, ou seja, sua interação com as camadas mais profundas da terra, em um lento processo de transformação geotérmica, energética e estrutural – em sua reação com pH, pressão, temperatura, contorno e interação com minerais e oligoelementos – a água nasce com determinadas características vivas. Se captada no subsolo prematuramente, antes de seu processo total de maturação, a “água juvenil”, como descreve o autor, apresenta-se estéril, ou seja, pobre em sais e microrganismos, biologicamente imatura, já que ainda não carrega a microbiota e os minerais que a tornam nutritiva, além de dotar alta capacidade de absorção de elementos do meio, da mesma forma que um bebê no útero. Segundo o autor, essa característica pode ser extremamente prejudicial a quem a consome, pois tende a retirar minerais do organismo em vez de repô-los.
Quando, em sua pesquisa, Viktor Schauberger cita a “alma da água”, ele se refere à capacidade de sustentar a vida através de sua organização funcional em seu regime natural. Hoje, a ciência também poderia atribuir essa capacidade e organização à estrutura molecular, condutividade e ressonância. Em outras palavras, o autor classificava a organização funcional da água como o estado dinâmico onde ela conserva e renova seus processos vitais, relacionados a seus gradientes de temperatura e sua autorrefrigeração, conectada a seu movimento em vórtices em seu fluxo natural. Também são parte de sua organização funcional, o contato da água com os minerais, raízes e microvida do leito vivo do rio, a exposição à radiação em seu percurso e a condensação de energia em seu movimento, ou seja, sua capacidade de organização e equilíbrio sistêmico através de seu movimento natural.
Autores como Sokhan et al. (2015), Brini et al. (2017) e Sieroka et al. (2024), trazem em seus estudos conceitos sobre a estrutura molecular da água, capacidade térmica, densidade anômala e outros fatores que convergem com as teorias de Viktor Schauberger. Sabemos que a estrutura molecular, sustentada pelas dinâmicas das pontes de hidrogênio, regulam gradientes e estabilidade térmica da água. A condutividade está relacionada às trocas iônicas proporcionadas pelo contato com sais, gases e organismos dissolvidos na água. Por fim, a ressonância, expressa nos movimentos helicoidais e hidrodinâmicos, organizam a energia em padrões vibratórios. Essas dimensões reforçam a visão de que a água é um sistema vivo, capaz de conservar e renovar sua vitalidade em interação com o ambiente que percorre. Podemos dizer que, segundo Viktor Schauberger, a água está longe de ser um composto “neutro”, pelo contrário: ela muda conforme o ambiente e sua história.
Agora, usando os achados atuais da ciência, vamos entender outro ponto fundamental das teorias do autor sobre a relação sistêmica da água com o mundo. A água é uma substância anômala por excelência e, ao contrário de outros líquidos, sua maior densidade ocorre a +4 °C, e não em seu ponto de congelamento. Esse comportamento singular é crucial para o equilíbrio térmico da natureza e da vida. Viktor Schauberger destacava que o calor específico da água – sua capacidade de resistir a mudanças rápidas de temperatura – é extremamente alto e, seu ponto mais baixo, está apenas 0,5 °C acima da temperatura normal do sangue humano, de +37 °C., ou seja, quando está a +36,5 °C, a água apresenta sua maior resistência a mudanças de temperatura! Isso nos revela que o próprio corpo humano, composto em torno de 60-62% de água em um indivíduo adulto (Lu et al., 2023), se ancora nesse comportamento anômalo para manter a vida estável mesmo diante de intensas variações climáticas. A água, portanto, não é apenas um solvente, é o mediador térmico e vital do organismo.
Não menos importante, o autor defendia com prioridade o movimento natural da água como algo intrínseco a sua qualidade e vitalidade. Schauberger observou que a natureza opera com movimentos centrípetos, espirais, vórtices e ritmos, movimentos estes opostos às formas de linha reta e angular propostos pela engenharia mecanicista. Seus estudos mostram o fluxo da água nos rios em camadas concêntricas espiraladas, com o centro do fluxo sendo mais frio, veloz e denso. Esse fluxo em vórtices cria uma auto-organização que regula a temperatura, oxigena o sistema, transporta nutrientes e impede o acúmulo patogênico.
Quando o rio flui de forma espiralada, ou quando ocorre o fluxo helicoidal de seu núcleo central, ele modela suas margens com inteligência: a curva externa é aprofundada, a interna suavizada, e os sedimentos são distribuídos de acordo com seu peso específico. Esse equilíbrio dinâmico não apenas preserva a estrutura do leito como também fertiliza as margens, permitindo que a vegetação ribeirinha cresça com vigor, criando um ciclo onde o rio alimenta a terra, e a terra, por sua vez, protege o rio com sua vegetação.
Nesse sentido, Schauberger afirmava que, em um rio, o movimento helicoidal que ocorre na parte interna de cada meandro, a chamada “curva dentro da curva”, constitui o órgão sexual da água, já que nesse ponto de inflexão a corrente se regenera, fertiliza e multiplica sua vitalidade. O autor explica que o movimento espiralado longitudinal da água dentro do meandro do rio, uma espécie de vórtice interno que faz a corrente ascender pela margem côncava e retornar pelo fundo, cria zonas de sucção e compressão que lhe permitem absorver oxigênio e nutrientes do subsolo, misturando-os ao fluxo vivo do rio. Essa concepção foi posteriormente aprofundada por John Wilkes, criador das Flow Forms, que demonstrou como o movimento em espiral e o ritmo pulsante da água promovem processos de autodepuração e revitalização do fluxo. Logo, tanto em Schauberger quanto em Wilkes, a forma e o movimento da água revelam um princípio morfogenético essencial à regeneração dos ecossistemas aquáticos (Wilkes, 2003).
Portanto, segundo Schauberger, cada curva do rio não é apenas uma mudança de direção, mas um ato de reprodução contínua da energia e da fertilidade da água. Tal concepção traduz a ideia de que o rio, ao moldar-se em curvas sucessivas, perpetua seu caráter formador e materno, sustentando tanto a si quanto a vida em suas margens. Nessa dinâmica, o oxigênio absorvido nas curvas atua como substância fertilizante, reanimando a corrente com energia vital e enriquecendo o fluxo com elementos capazes de sustentar a fertilidade do solo e a saúde dos organismos que dele dependem, conforme ilustrado na Figura 1.
Figura 1: Imagem da página 32 do livro, concebida por Viktor e traduzida ao português. Seus traços mostram a complexidade do fluxo da água nos rios, seus movimentos vitais e geradores de vida e sua interação com atmosfera, radiação e oxigênio.
Segundo Schauberger, a radiação direta do sol sobre a água desnuda provoca sua degeneração. Embora a água em movimento e com carga orgânica diluída possa resistir melhor ao impacto solar, (Häder et al., 2011) afirmam que a radiação solar provoca formação de espécies reativas ao oxigênio, quebra de matéria orgânica dissolvida e alteração da rede trófica. Viktor Schauberger defendia que a água aquecida perde sua estrutura interna, oxigênio e capacidade vital, tornando-se estagnada e suscetível à proliferação de patógenos. O desmatamento rompe essa proteção natural e agrava o problema: sem sombra, os rios aquecem, seus vórtices se rompem, os sedimentos se acumulam de forma desordenada e o leito se eleva. Isso reduz a infiltração e provoca o desequilíbrio entre superfície e aquíferos, gerando as chamadas “enchentes encadeadas”, fenômeno corriqueiro no Brasil e no mundo, quando uma cheia leva à próxima, em rápida sucessão, pela ausência de recarga subterrânea e perda da capacidade de retenção da paisagem.
Paralelos com a permacultura
Agora que vimos alguns conceitos importantes sobre as teorias do autor em relação ao fluxo natural da água, encontramos paralelos diretos nas técnicas de manejo hídrico da permacultura, como os swales2, os canais curvos de infiltração e os sistemas de captação de água de chuva que respeitam os contornos do terreno e armazenamento de água nos solos. Na permacultura, desenhar com a água é entender que ela busca caminhos harmoniosos, nunca retos, e que seu fluxo saudável regenera a vida ao seu redor.
Ainda sobre a relação de Schauberger com a permacultura, entre tantas virtuosidades como cientista visionário, físico, naturalista e matemático, ele sempre foi lembrado principalmente pelo seu dom como observador. É muito comum vermos o princípio de planejamento “observe e interaja” no meio da permacultura. Schauberger, em contato com a floresta intocada, teve sua consciência tocada pela vitalidade dos movimentos naturais da água na natureza.
De forma romântica e, por vezes, revoltada, o autor escreveu suas teorias enfatizando como a sociedade caminhava em direções totalmente opostas à dinâmica dos movimentos e ciclos vitais da natureza, citando como exemplo a canalização de rios em linha reta, condução da água por tubos lineares, uso de turbinas centrífugas para bombeamento da água, enquanto na natureza, o movimento e a energia são gerados por gradientes de temperatura muito menores. O autor cita e critica tais práticas da sociedade a fim de comparar o comportamento da água na natureza com o da sociedade, que habita o mesmo ambiente. Tal como a água, que ao perder seu leito vital se torna turbulenta e destrutiva, também a sociedade, se mal orientada, degenera em agressividade e desordem.
As práticas citadas acima não se tratam apenas do manejo inadequado: elas alteram algumas características importantes da água vital. Como exemplo, Viktor afirmava que a composição e o “comportamento” do oxigênio na água se alteram, tornando-o “agressivo”, tema que vale a pena percorrermos brevemente. De forma simples, podemos dizer que o conceito de “oxigênio agressivo” proposto por Schauberger dialoga com os ciclos biogeoquímicos na agricultura regenerativa. A oxidação em excesso, seja no corpo humano ou no solo, degenera a vida. Já o equilíbrio entre oxigênio, carbono e umidade promove saúde. A água viva que Schauberger propõe é, de fato, o elo condutor dos processos de respiração do solo e das plantas.
O “oxigênio agressivo”, então, é um estado em que esse composto, intensamente ativado pelo calor ou agitação mecânica, deixa de construir e passa a destruir. Nesse contexto, o oxigênio sofre um aumento em seu potencial redox, tornando-se altamente reativo e manifestando-se, bioquimicamente, na forma de oxidação descontrolada.
Esse processo rompe cadeias moleculares, acelera a decomposição da matéria orgânica e quebra os vínculos sutis que mantêm a estrutura viva da água. No solo, isso se traduz na perda de húmus, na morte de microrganismos benéficos e na proliferação de patógenos. Nos corpos de animais e humanos, o excesso de oxidação gera estresse metabólico, inflamações e enfraquecimento sistêmico. Mais profundamente, Viktor Schauberger afirmava que esse desequilíbrio atinge também o caráter e a alma das pessoas, pois desestrutura os ritmos naturais internos, impedindo o ser de viver em harmonia com os ciclos da vida.
Em sua obra, entre tantas indagações como esta última, Viktor Schauberger também questionava o uso de tubulações de ferro, material utilizado na época, para condução da água, sugerindo inclusive o uso da madeira para o fluxo sistêmico. Criticou fortemente os processos de desinfecção da água com o uso do cloro, associando tal prática ao aumento da incidência de câncer na sociedade. Até o uso de ferramentas de ferro na agricultura, dando preferência ao cobre por questões de oxidação do solo, menciona o autor.
Isso nos revela como um cientista fantástico, visionário e romântico, atuou em meio ao conturbado cenário da Europa Central entre as décadas de 1930 e 1950, período em que a Áustria foi anexada pela Alemanha nazista e subjugada por interesses militares e mecanicistas. Viktor Schauberger, com sua sensibilidade incomum e observações profundas dos ritmos naturais, entrou em confronto direto com a visão científica dominante. Enquanto a ciência ortodoxa se ancorava na Segunda Lei da Termodinâmica e nas tecnologias de explosão, Viktor Schauberger propunha a implosão, a regeneração e a energia viva, conceitos que pareciam místicos demais para seu tempo. Frustrado por não ver suas ideias compreendidas ou aplicadas de forma ética e, após ser forçado a colaborar com projetos militares durante a Segunda Guerra Mundial, o autor morreu desiludido, diante de uma humanidade que insistia em caminhar contra a sincronia viva da natureza. Deixo aqui a máxima de Viktor Schauberger: “Compreenda e copie a natureza!”, tal como propõe a permacultura.
Considerações finais
Considerando as informações até então citadas neste artigo, trago algumas reflexões importantes sobre as ideias de Schauberger, publicadas há quase cem anos, considerando os dias atuais. A população mundial cresceu 112% entre 1950 e 1990 e, 51% entre 1990 e 2022 (World Population Prospects, 2022). O ápice do crescimento populacional está intimamente ligado à sistematização da agricultura (Evenson & Gollin, 2003), a chamada “revolução verde” com os fertilizantes sintéticos, mecanização agrícola com grandes máquinas e sementes de alto rendimento. (Ritchie & Roser, 2018) conecta a expansão da sistematização da irrigação e do tratamento, canalização e distribuição de água “potável” ao aumento populacional. Como dito, Viktor Schauberger associava esse “desenvolvimento” ao aumento da incidência do câncer. Um estudo publicado na revista BMJ Oncology em 2023 revelou um aumento de 79% da doença a partir da década de 1990, justamente os 40 anos de idade da geração dos anos 1950.
Assim, temos uma questão complexa: ao mesmo tempo, em que criticamos as práticas comuns de agricultura e manejo das águas e dos solos, a exploração de matérias-primas, mineração, extração de petróleo e indústria de alimentos, devemos lembrar que nós e nossos ancestrais estamos aqui, frutos de uma imensa população mundial, moldados e inseridos, a partir de certo ponto, nesse exato sistema. Não menos importante, utilizando ao menos alguns de seus recursos todos os dias e também sentindo na pele as consequências de nossos hábitos.
É muito complexo tanto criticar como prover soluções em larga escala e curto prazo para problemas reais num contexto mundial onde as pessoas estão trabalhando, criando seus filhos e buscando uma vida melhor. Assim como Schauberger, o livro “A vida secreta das árvores” (Wohlleben, 2017) também cita como ritmo da natureza é lento em sua criação, defesa e regeneração. Schauberger, em suas previsões quanto ao manejo e interação inadequada com a natureza, bem como sua proposta de copiar a dinâmica natural da água, buscava soluções como a regulação de cursos d’água, armazenamento e manejo e, da mesma forma, a permacultura e seus nichos, como a agrofloresta, buscam antecipar esses processos naturais de regeneração.
Sabemos que a permacultura, antes de qualquer técnica de enxerto ou bioconstrução, apela para soluções do micro ao macro, escala local, mudança no ambiente em que se vive e, daí, faz sentido a expansão para o mundo. Enquanto as políticas públicas permeiam os gabinetes do Congresso e de ministérios por anos e o incentivo público para tais políticas demora, enquanto a fiscalização para leis ambientais quase inexiste e tem oponentes no próprio Congresso, devemos pensar em como reduzir a nossa vida a esse fluxo natural com uma certa urgência.
Reduzir não é apenas consumir menos, é alinhar nossos hábitos ao metabolismo da própria Terra. Como sugere (Capra & Luisi, 2014) em seu livro “A Visão Sistêmica da Vida”, os sistemas vivos operam por ciclos fechados, cooperação, eficiência energética e equilíbrio. Quando reduzimos o desperdício, a velocidade, o ruído e até os excessos nos relacionamentos, começamos a nos mover no ritmo da natureza. Este artigo traz alguns aspectos científicos e filosóficos da obra de Viktor Schauberger e suas relações com a permacultura. Além do caráter científico e informativo, este texto é também um apelo para buscarmos uma sintonia com a escala mínima e inteligente dos sistemas naturais. As consequências aos nossos hábitos, a nós mesmos e ao mundo serão, lentamente, benéficas.
Referências
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2 – Swale é um termo em inglês e pode ser traduzido como uma via de infiltração ou canal de retenção de águas pluviais, geralmente construído ao longo das curvas de nível de um terreno. Essa técnica visa reter e infiltrar a água da chuva, reduzindo a erosão e promovendo a recarga do lençol freático, sendo amplamente utilizada na permacultura e em práticas de manejo da paisagem (Holmgren, 2017).
Submetido em 31mai2025. Aceito em 16out2025. Revisão por Antonio Augusto Alves Pereira e Elias Ribeiro de Arruda Junior https://doi.org/10.5281/zenodo.17408198
Resumo: Em tempos de grande consumo energético, o planejamento e a eficiência energética são essenciais. A permacultura pode colaborar nesse sentido, pois realiza o planejamento eficiente dos espaços rurais ou urbanos, combinando sustentabilidade e eficiência energética por meio de sua abordagem integrada. Nesse contexto, políticas públicas como o Plano Nacional de Eficiência Energética, sugerem a educação e a divulgação científica como estratégias para promover a eficiência energética. Uma das formas populares de se fazer divulgação científica é por meio de podcasts. Este artigo relata a produção do podcast Fótons e Folhas, recurso didático derivado de pesquisa de mestrado que relaciona a eficiência energética e a permacultura, visando ajudar na implementação de políticas de eficiência energética. Para tanto, apresentamos sua organização em três etapas: planejamento e estruturação, elaboração de roteiros e gravação, edição e postagem. Na revisão bibliográfica não identificamos trabalhos sobre como a permacultura pode contribuir com tais políticas, configurando uma lacuna do conhecimento. Foram produzidos três episódios iniciais de uma série de treze: “Você sabe o que é eficiência energética, políticas públicas e permacultura?”, “O que é observe e interaja?” e “O que é captar e armazenar energia?”. Conclui-se que um podcast de permacultura pode contribuir na implementação de políticas de eficiência energética.
Abstract: In times of high energy consumption, measures like planning and energy efficiency are vital. Permaculture can contribute by efficiently designing rural or urban spaces, combining sustainability and energy efficiency through its integrated approach. In this context, public policies such as the National Energy Efficiency Plan suggest education and scientific divulgation as strategies to promote energy efficiency. Podcasts are a popular scientific divulgation tool. This article documents the creation of Fótons e Folhas, a podcast developed during a master’s study to link energy efficiency and permaculture, aiming to assist energy efficiency policy implementation. Production followed three phases: planning/structuring, scriptwriting, and recording/editing. The literature review identified no studies exploring how permaculture can contribute to such policies, highlighting a gap in knowledge. The first three episodes of the podcast (of thirteen planned) address: “Do you know what energy efficiency, public policies, and permaculture are?”, “What does ‘observe and interact’ mean?” and “What does ‘capture and store energy’ mean?”. The study concludes that a permaculture podcast can contribute to the implementation of energy efficiency policies.
Keywords: Energy Efficiency Policies. Education. Scientific Divulgation. Permaculture. Podcast.
Introdução
No mundo atual vivemos em tempos acelerados, com grande consumo de energia e dos elementos retirados da natureza e transformados para usos diversos pelas mãos do ser humano, ou melhor, dos ditos “recursos” naturais. Esse consumo crescente resultou na ampliação das emissões de gases de efeito estufa, contribuindo para as mudanças climáticas. Com isso, produzir mais utilizando menos, e em equilíbrio com a natureza, torna-se uma necessidade. Dito de outro modo, primar pela eficiência energética é importante.
Uma relevante temática que se relaciona com a eficiência energética e com a sustentabilidade, é a permacultura. A permacultura realiza o planejamento eficiente dos espaços, rurais ou urbanos, de formas benéficas tanto para o ser humano quanto para a natureza (NEPerma UFSC, 2024). Além disso, ela relaciona os elementos da paisagem para produção e conservação de energia locais, em harmonia com o meio ambiente (Paiter et al., 2018).
A permacultura traz imbricada em suas práticas a busca pelo melhor uso das energias ao mimetizar o que a natureza faz, visto que, ser eficiente, é questão de sobrevivência para os seres vivos no meio natural. Nesse contexto, quanto mais eficientemente se utilizam as energias, em suas diversas formas, mais se consegue prosperar.
No Brasil, assim como em outros países, temos as políticas públicas de eficiência energética para nos ajudar no fomento ao planejamento energético e no uso racional da energia. Dentre elas, há o “Plano Nacional de Eficiência Energética”. Nele, entre os caminhos apontados para a concretização desses fins, constam a educação e a divulgação científica.
Uma das formas de se fazer divulgação científica, que se popularizou nos últimos anos, é por meio de podcasts. Este artigo objetiva relatar a experiência da produção do podcast Fótons e Folhas, que entrecruza elementos de eficiência energética e permacultura. Tal recurso didático derivou de uma pesquisa de mestrado vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Energia e Sustentabilidade da Universidade Federal de Santa Catarina1.
É pertinente destacar que uma justificativa para o desenvolvimento da referida pesquisa residiu na lacuna do conhecimento identificada durante a realização da revisão bibliográfica sobre permacultura que fez parte da investigação. Isso porque não identificamos trabalhos específicos com enfoque em como a permacultura pode ajudar na implementação de políticas de eficiência energética, e essa busca pela eficiência no uso das energias que a permacultura traz em suas técnicas é algo que consideramos especialmente potente.
A Experiência
A divulgação científica é necessária por inúmeros motivos. Dentre eles, destacamos sua contribuição para o desenvolvimento social e cultural, ao fazer a ponte entre o meio acadêmico e a sociedade. Afinal, seu objetivo é manter a comunicação e democratizar o acesso ao conhecimento científico, a fim de que os sujeitos possam exercer seus direitos com autonomia (Sentanin et al., 2023).
A ideia de criar um podcast para fazer divulgação científica surgiu nas reuniões de orientação de mestrado. Não tínhamos muita experiência com esse formato de divulgação científica, a não ser como ouvintes, mas resolvemos abraçar o desafio por acreditarmos nas potencialidades que ele poderia oferecer. Como de praxe, foi inicialmente realizada a revisão bibliográfica, bem comum a trabalhos acadêmicos, mas, nos aventuramos na produção de um podcast, o que exigiu também outros conhecimentos.
Dessa forma, para termos ideias, pesquisamos o que estava sendo feito nos canais de divulgação científica em diversos formatos, incluindo os podcasts. Encontramos bons canais que realizam divulgação científica e são populares, por exemplo: o “Manual do mundo e o Nunca vi 1 cientista”, no formato em vídeo, e os podcasts “Vinte mil léguas submarinas e Sinapse”, em áudio.
Ademais, buscamos bons profissionais de áreas da comunicação que trabalhassem com podcasts. Nessa busca, encontramos uma oficina que poderia ajudar: a “Oficina de Podcasts e Narrativa em Áudio”, ministrada pelo Jornalista Rodrigo Alves, do podcast “Vida de Jornalista, da Rádio Guarda Chuva”. Como imaginávamos, essa experiência contribuiu bastante em várias etapas da produção do podcast.
Paralelamente, participamos de um grupo interdisciplinar de estudos de divulgação científica, cujo foco é justamente divulgar ciência para aproximá-la do público em geral, o Grupo de Estudos em Educação e Divulgação Científicas (GE²DIC), do Instituto Federal de Santa Catarina – Campus Araranguá. Nas reuniões desse grupo, ocorreram estudos de textos, debates e testes de áudio com sugestões de melhorias, que ajudaram na criação dos roteiros narrativos. Esses momentos de construção coletiva foram muito proveitosos para a elaboração do recurso que estava sendo desenvolvido e resultaram em aprendizado significativo.
O resultado foi o podcast Fótons e Folhas, que recebeu esse nome pensando em dois “parceiros” que parecem improváveis, mas, na verdade, estão interligados: a energia e o que costumamos chamar de natureza. Escolhemos a palavra “fótons” (partículas que compõem a luz), pois ela nos remete à “energia”, à “física”, à “engenharia”. Já a escolha da palavra “folhas” se deu por nos remeter à “natureza”, à “biologia”, à “permacultura”, dando até para imaginar seu farfalhar ao vento. Eles parecem opostos, mas têm muito em comum. As folhas realizam fotossíntese e transformam a energia luminosa em energia química, ou seja, usam a luz para produzir seu alimento e, no processo, liberam oxigênio essencial para diversas formas de vida. Cada etapa está interligada à próxima, como em um sistema, o que lembra o conceito de Emergia de Odum, que, de acordo com (Holmgren, 2020), é trabalhado na permacultura.
O referido podcast foi planejado para ser uma série de treze episódios, com o primeiro sendo a introdução e os outros doze, cada um, focando em um dos doze princípios da permacultura a partir de uma pergunta-guia. Contudo, considerando o tempo da pesquisa de mestrado, optamos por produzir apenas três deles. Os episódios restantes serão realizados num futuro próximo. O formato escolhido foi o narrativo, e não o de entrevistas, como é o mais comum em podcasts. Nesse formato, conta-se uma história e, ao mesmo tempo, intercalam-se as explicações das temáticas abordadas. Fizemos essa escolha, em especial, por concordarmos com (Husein et al., 2019) quando afirmam que a memória humana funciona melhor na forma de narrativa e, por isso, explicar conceitos por meio de um caso em particular ajuda a compreensão, visto que pode causar identificação, gerar compreensão e favorecer engajamento.
No episódio 12 são introduzidas as temáticas que serão abordadas no decorrer de todos os outros doze episódios. Afinal, trata-se da abertura, do começo de tudo. Nele é explicitado o que são políticas públicas, eficiência energética e permacultura, e como essas temáticas se relacionam. Esse episódio foi o mais desafiador, tanto por ser o primeiro quanto pela necessidade de abordar muitos conteúdos, o que precisava ser feito de modo sintético, mas sem perder o sentido correto.
O episódio 23 trata do primeiro dos doze princípios da permacultura: “Observe e Interaja”. Tal qual o princípio, nele é explicado que a observação é o primeiro passo para encontrar soluções, seguido da reflexão e do planejamento, e que, somente após tudo isso, devemos interagir. Nesse episódio foi possível desenvolver sua ideia central, que enfoca o momento inicial, de observação e planejamento, que evita tantos problemas futuros, principalmente quando o impulso é “partir pra ação”.
No episódio 34, que é sobre o segundo princípio da permacultura, aquele que mais diretamente fala sobre as energias: “Capte e Armazene Energias”, abordamos, ao longo da narrativa, as formas de energia, sua captação, armazenamento e consumo racional, enfim, a otimização das energias de um sistema. Como exemplo, foi dado destaque às bioconstruções, reconhecidas por seu isolamento térmico e acústico, por trazerem qualidade de vida, economia financeira e, ao mesmo tempo, por reduzirem o consumo energético. Isso, aliado ao fato de terem baixo impacto ambiental em seu ciclo de vida.
Todos os episódios integram suas temáticas às três éticas da permacultura (Figura 1) — “cuidar da Terra, das pessoas e do futuro” — enquanto enfocam a eficiência energética como eixo transversal que permeia todo o conteúdo.
Figura 1: Éticas e princípios da Permacultura. Fonte: Adaptado de Holmgren, 2013, conforme citado pelo (NEPerma UFSC, 2024).
Cada um dos roteiros dos três episódios segue uma estrutura fixa: apresentação, contextualização e conclusão. Os episódios começam com a apresentação do podcast e o início da história. Em seguida, na contextualização, respondemos à pergunta-guia enquanto avança a narrativa. A conclusão resume a história contada em breves tópicos, seguida da despedida e da apresentação da próxima pergunta-guia em formato de desafio — para instigar a curiosidade e atrair o ouvinte para os próximos episódios — encerrando com os créditos e agradecimentos.
E como foi produzido o podcast? Podemos dividir o processo de produção do podcast Fótons e Folhas também em três momentos: (1) planejamento e estruturação, (2) elaboração de roteiros e gravação e (3) edição e postagem.
A etapa 1 envolveu a realização da revisão da literatura, a elaboração de uma estrutura para cada episódio e a criação da identidade visual do podcast. Foi preciso conhecer o que havia sobre o assunto e pensar em um “esqueleto” para cada episódio. A revisão bibliográfica tomou certo tempo, enquanto a criação da estrutura dos episódios foi mais rápida.
No que tange à revisão, foi feita uma pesquisa bibliográfica em bancos de dados, comoScopus, Periódicos Capes e Scielo, tomando como referência o intervalo entre 2018 e 2024, a partir das seguintes palavras-chave: “políticas públicas de eficiência energética”, “educação”, “divulgação científica”, “permacultura” e “podcast”. Em seguida, foi feita a seleção dos trabalhos que tinham relação com a pesquisa empreendida conforme o cruzamento dos temas, a organização e a análise do material.
A estruturação dos episódios foi pensada inicialmente como um planejamento de aula, com uma organização básica com introdução, desenvolvimento e conclusão (contendo uma recapitulação do que foi tratado).
Contudo, após a realização da oficina de podcasts, a estrutura inicial sofreu algumas alterações. Acrescentamos, por exemplo, o uso de cores para facilitar o planejamento e a visualização no momento de gravação das locuções. Também foram criados três blocos no desenvolvimento, para melhor explicar os conceitos em conjunto com a história que estava sendo contada. E, dessa forma, realizar uma progressão e um clímax, para melhor imersão do ouvinte.
Foi preciso considerar que o que funciona no papel pode não funcionar tão bem no áudio. Em uma aula, temos o retorno do aluno e podemos ajustar elementos para melhor auxiliá-lo em seu aprendizado. Já em um podcast é diferente, não temos retorno imediato e só podemos saber das dificuldades depois do episódio pronto.
Para criar uma identidade visual para o podcast Fótons e Folhas, tivemos a ideia de convidar um artista que também fosse permacultor, Juliano Riciardi. Marcamos um encontro com ele para explicar a proposta do podcast e de cada episódio. Ele achou muito interessante, mostrou alguns de seus trabalhos anteriores e disse que havia começado a trabalhar com uso de Inteligência Artificial. Perguntou se poderia usar essa ferramenta. Aceitamos a proposta e o resultado encontra-se nas imagens da Figura 2.
Da esquerda para a direita, a primeira imagem é do episódio 1 chamado “Você sabe o que é eficiência energética, políticas públicas e permacultura?”, a segunda, ao centro, retrata a logo do podcast, a terceira, à direita e acima, é do episódio 2: “O que é observe e interaja?” e a quarta, à direita e abaixo, é referente ao episódio 3: “O que é captar e armazenar energia?”. As imagens buscam retratar os conteúdos do podcast e do episódio a que pertencem.
Figura 2: Logo do podcast Fótons e Folhas e imagens-capa dos episódios 1, 2 e 3. Fonte: Juliano Riciardi, 2024.
Já na etapa 2, ocorreu a escrita dos roteiros e a gravação das locuções. Notamos que a escrita tomou mais tempo do que a gravação. Aliás, em toda a produção do podcast, a escrita foi a parte que levou mais tempo. Isso faz todo sentido, posto que, ao se fazer divulgação científica, é necessário que cada informação seja bem fundamentada para evitar interpretações equivocadas. Afinal, na divulgação científica, é preciso que a comunicação seja produzida como um instrumento educativo, e que se crie condições para construção de uma visão crítica sobre o assunto (Lorenzetti et al., 2022).
As locuções, atividade seguinte à elaboração dos roteiros, também têm sua relevância. Sobre esse aspecto, destacamos a necessidade de se interpretar as situações ao ler o roteiro para que o ouvinte se sinta dentro da história, visto que isso tende a ajudar na compreensão da mensagem que “o texto” teve tanto cuidado para construir. É preciso lembrar que uma entonação no lugar errado pode gerar mal-entendidos. Como se diz na comunicação, é importante evitar o “ruído”, ou seja, ao passarmos uma mensagem, precisamos pensar em como o ouvinte vai recebê-la.
Por isso, além dos cuidados na escrita, foram gravados trechos do podcast e levados para discussão no GE²DIC, grupo de estudos supracitado, para serem testados e a fim de buscar sugestões. Lembramos que, durante a escrita, houve mais pesquisas por bibliografia para cada episódio em que alguns trechos precisaram ser reescritos e/ou corrigidos, para encontrar o formato ideal.
Com base nesses testes, foram criados alguns parâmetros de como fazer as locuções, o que facilitou a gravação do primeiro episódio. Após encontrar uma forma considerada ideal para cada momento de locução, após alguns erros e regravações, essa forma foi replicada nos outros dois episódios. Com isso, as gravações tiveram um ritmo bom, tornando-se mais fáceis e rápidas ao passar do tempo.
A melhor forma de gravar consistiu em dividir o texto em trechos pequenos e numerados, gravando cada parte em áudios separados, mas completando a gravação do episódio em um único dia. Isso porque os trechos curtos ajudam a manter uma boa interpretação sem cansar o locutor, enquanto a gravação no mesmo dia preserva o padrão de voz ao evitar variações como anasalamento ou rouquidão, que podem ocorrer em gravações em dias diferentes devido a fatores como um resfriado. Fizemos isso por considerarmos que essa abordagem favorece a continuidade na qualidade do áudio e facilita o trabalho de edição, que exigirá menos correções.
As locuções foram gravadas com o aplicativo “Gravador de voz” (Simple Design Ltd.) de gravação de áudio instalado no celular. Nos episódios 1 e 3, as gravações ocorreram diretamente no aparelho, enquanto no episódio 2 foi utilizado um microfone de lapela (adquirido após a gravação do episódio 1 que posteriormente quebrou). Obtivemos boa qualidade de áudio em ambos os métodos, embora exigissem cuidados distintos: as gravações com microfone captavam mais ruídos ambientais, demandando maior isolamento acústico. Para isso, adotamos medidas simples como escolher horários mais silenciosos e ambientes menores com maior quantidade de objetos (evitando o eco de espaços vazios). Já a participação de outros locutores e entrevistados foi captada por meio de áudios enviados via mensageiro instantâneo WhatsApp1.
Por fim, na etapa 3 ocorreu a edição e a postagem dos episódios. Semelhante às etapas anteriores, a edição levou mais tempo que a postagem. Ela exigiu uma pesquisa em bancos de som e músicas gratuitas (para respeitar os direitos autorais). Essa pesquisa ocorreu em momentos diversos, pois na etapa de escrita do roteiro já haviam sido imaginados momentos onde ficaria melhor determinado som ou música para maior imersão do ouvinte. Com base nisso, foram sendo reunidos em uma pasta sons e músicas que poderiam ser usados na edição desde o começo do planejamento.
Para a edição, usamos o programa Audacity2, por ser um dos indicados na bibliografia consultada e na oficina de podcasts. Nele, foram inseridas em faixas separadas as locuções, as músicas e as ilustrações de áudio para serem montados conforme o planejamento prévio nos roteiros. Após realizar a montagem, o arquivo final foi salvo em formato MP33.
A postagem foi realizada após criar uma conta na plataforma Spotify for Creators4. Ela foi relativamente rápida. O que demandou um pouco mais de tempo foi ler alguns tutoriais (do próprio site) de como funciona, mas o momento da postagem foi rápido. Basicamente, foi preciso acessar um site hospedeiro – o Spotify, nesse caso – que normalmente já distribui para alguns locais, e usar o link RSS5 fornecido por ele, para replicar em outras plataformas que ele não distribui sozinho, como o caso da plataforma Youtube. Então, inserimos o arquivo de áudio, as imagens de capa, do podcast e do episódio, e colocamos o título e uma descrição do podcast e de cada episódio.
Iniciamos a distribuição do podcast no Spotify e no YouTube tanto por indicação da bibliografia consultada quanto pela ampla familiaridade do público com essas plataformas. Na Figura 3 apresentamos as imagens da aparência final do podcast Fótons e Folhas, visto pelo celular em ambos os casos.
Figura 3: Aparência dos episódios do podcast Fótons e Folhas visto pelo celular no Spotify e no Youtube.
Cabe ressaltar que optamos por plataformas mais “comerciais” num primeiro momento, mas a intenção é, também, disponibilizar em plataformas como o Peertube1, o Funkwhale2 e o Fediverso3, cuja utilização é importante por proporcionar uma alternativa descentralizada e independente, em que se tem maior controle sobre seus próprios dados (Carvalho Júnior, 2024). Somente optamos por postar o podcast nessas plataformas em um segundo momento devido a atrasos e imprevistos na finalização das etapas da pesquisa.
Considerações finais
A produção de um podcast pode ser desafiadora e estimulante ao mesmo tempo. Levar conhecimento científico de diversas áreas para a sociedade, é importante.
Essa experiência foi muito interessante em vários sentidos. Demandou muita organização: horas de escrita, gravação, edição e postagem, além de uma boa dose de criatividade. Houve momentos divertidos e outros cansativos. Desenvolvemos três episódios com narrativas cuidadosamente elaboradas para entrelaçar conceitos e contexto, sempre buscando clareza e engajamento. Em breve, os outros dez episódios da série virão.
A experiência permitiu produzir um podcast que já mostra resultados promissores, mas ainda pode melhorar. A participação nas reuniões do grupo de pesquisa GE²DIC e na oficina de podcast (com Rodrigo Alves) foi fundamental para refinar esse processo.
Ao concluir essa experiência pudemos refletir sobre diversos aprendizados. Nosso objetivo era disseminar as práticas da permacultura, explicar sobre as éticas que as perpassam e guiam, como a importância de cuidar das pessoas e da natureza ao mesmo tempo, e sempre pensar no futuro de todos nós. Assim, buscamos realizar educação ambiental, fazer divulgação científica, de maneira leve e divertida.
Ao longo da produção de cada episódio, constatamos que a própria experiência nos levou a vivenciar na prática os princípios da permacultura. Um exemplo concreto dessa sinergia ocorreu com o princípio “observe e interaja”. Foi preciso observar – outros podcasts, formatos e abordagens – e interagir com diferentes pessoas envolvidas no processo de planejamento e produção, estabelecendo diálogos com diversos colaboradores. Dessa forma, esse princípio foi materializado tanto na metodologia adotada quanto no conteúdo produzido.
Concluiu-se que um podcast de permacultura pode contribuir na implementação de políticas de eficiência energética.
Entre os próximos passos, destacamos a revisão dos episódios já produzidos, a produção do restante dos episódios e a publicação em plataformas alternativas, como o PeerTube, o Funkwhale e o Fediverso.
Além disso, salientamos que, durante a produção dos próximos episódios, pretendemos realizar uma colaboração com comunidades que tiveram experiências com permacultura, para mostrar exemplos locais reais e abordar demandas específicas. Afinal, essa parceria pode mostrar outras possibilidades de uso racional da energia na permacultura que possam auxiliar a implementação das políticas públicas de eficiência energética.
Agradecimentos
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001, por meio da bolsa de mestrado.
Contribuições
Patrícia Abade Ferreira realizou a pesquisa de mestrado que deu origem a este artigo e contribuiu em sua escrita. Kátia Cilene Rodrigues Madruga atuou como orientadora da pesquisa de mestrado que deu origem a este artigo e contribuiu em sua escrita. Mônica Knöpker atuou como coorientadora da pesquisa de mestrado que deu origem a este artigo e contribuiu em sua escrita.
Husein, S., Saive, R., Jordan, M., & Bertoni, M. I. (2019). Podcasts: An under-utilized form of science communication. 2019 IEEE 46th Photovoltaic Specialists Conference (PVSC), 2464–2466. https://doi.org/10.1109/PVSC40753.2019.8980967
Lorenzetti, C. S., Raicik, A. C., & Damasio, F. (2022). “O Sonho de Mendeleiev” e a construção da tabela periódica: Análise de um material de divulgação científica à luz de aspectos de natureza da ciência. Alexandria: Revista de Educação em Ciência e Tecnologia, 15(2), 209–236. https://doi.org/10.5007/1982-5153.2022.e84228
Paiter, L. L., Santos, L. dos, Venturi, M., & Nanni, A. S. (2018). A qualidade de vida em unidades rurais planejadas pela permacultura avaliada com base no MESMIS. Holos Environment, 18(2), 141–159. https://doi.org/10.14295/holos.v18i2.12268
Sentanin, F. C., Lanza, M. R. V., & Kasseboehmer, A. C. (2023). Chemistry Scientific Dissemination Video: Impact on the Perception of University Students. Journal of Chemical Education, 100(2), 714–721. https://doi.org/10.1021/acs.jchemed.2c01071
Notas:
1 – Peertube é uma plataforma de vídeos sem uma entidade controladora central, desenvolvido pela ONG francesa Framasoft. (s.d.). https://joinpeertube.org/pt_BR/instances.
2 – Plataforma de áudio, de código aberto e descentralizada, mantida pela ONG The Funkwhale Collective. https://www.funkwhale.audio/
3 – Fediverso é uma federação de redes sociais, na qual usuários de diferentes plataformas podem interagir e compartilhar conteúdo. https://jointhefediverse.net/.
2 – Audacity é um software gratuito que permite fazer gravações e edições de áudios e músicas. Audacity ® | Free Audio editor, recorder, music making and more! (s.d.). https://www.audacityteam.org/
4 – O Spotify for Creators é uma plataforma gratuita para criação e hospedagem de podcasts.
5 – Link RSS é o endereço do seu feed RSS (que é um arquivo com todas as informações do seu podcast). Após a hospedagem pode-se usar o link RSS para postar o podcast em outras plataformas, dessa forma ao se atualizar no site hospedeiro todos os outros locais se atualizam automaticamente. Spotify. (s.d.). Suporte.
1 – Referimo-nos à dissertação intitulada Potencialidades e limitações de um podcast sobre permacultura para fomentar a implementação de políticas públicas de eficiência energética.
1 – Programa de Pós-Graduação em Energia e Sustentabilidade (PPGES) – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) – Campus Araranguá, patriciaabade@yahoo.com.br
2 – Programa de Pós-Graduação em Energia e Sustentabilidade (PPGES) – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) – Campus Araranguá, katia.madruga@ufsc.br
3 – Instituto Federal de Santa Catarina – Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) – Campus Araranguá, monica.knopker@ifsc.edu.br
Submetido em 30mai2025. Aceito em 31ago2025 Revisão por Adriana Galbiati e Tamires Radharani Panche Castilho dos Santos DOI – https://doi.org/10.5281/zenodo.17039491
Objetivos
Essa nota permacultural aborda a gestão de resíduos sólidos rurais. Propõe-se o uso da palavra TERRA para guiar sobre a gestão desses, onde cada uma de suas letras indica ações que envolvem sua transformação, seu encaminhamento, a recusa e o repensar, reciclar e aproveitar. Uma sinalização semafórica é proposta nas figuras, onde o verde traz a importância de pensar resíduos como recursos, onde o importante ter em mente que é necessário, ao máximo, tentar aproveitá-los localmente. Já o amarelo, nos traz a necessidade de repensar o consumo de matérias-primas que terão de ser recicladas ou transformadas externamente à escala comunitária. Por fim, o vermelho nos coloca a necessidade de recusar/repensar sobre o consumo de “bens” cujo ciclo de reinserção desses como matérias-primas é demasiadamente longo e envolve poluição e alto consumo energético.
Introdução
Essa nota foi originalmente escrita em 2020 em um formato interativo e publicada junto ao sítio eletrônico da Rede NEPerma Brasil. Após alguns retornos de leitores, sobretudo, extensionistas rurais, foi revisada e atualizada para o formato de artigo e publicado nesta edição da Revista Perma.
Vivemos em um mundo repleto de “modernidades” e “facilidades” conhecidas como “bens” de consumo, constituídos por diferentes composições químicas, muitas vezes inseparáveis e, em muitos casos, irreconhecíveis para a natureza.
Muito se fala sobre gestão de resíduos sólidos, especialmente em relação a velhos hábitos e valores estigmatizados por uma gestão centralizada, que sempre buscou tratá-los como um “problema” e não um recurso, enviando-os para longe do cidadão urbano, criando a falsa ideia de que o “problema” foi resolvido. Essa obsoleta estratégia consola aqueles que não questionam ou não se importam sobre o destino dos resíduos por si produzidos e, nos coloca na condição de meros espectadores de um show de mágica do desaparecimento, cujo resultado possui um alto custo socioambiental.
Nas zonas rurais dos nossos municípios brasileiros, essa realidade consegue ser pior. Muitas vezes, a gestão pública municipal não atende plenamente a população do campo, que se vê obrigada a gerir os resíduos por meio de iniciativas individuais e/ou comunitárias, buscando atenuar os problemas gerados pelo consumo e descarte errôneo dessas matérias-primas.
Segundo a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), “a realização da gestão dos resíduos sólidos gerados nas áreas rurais é dever dos municípios brasileiros”, mas “o deficit no acesso à coleta de resíduos sólidos em comunidades rurais, muitas vezes compele a população do campo a optar por enterrar, queimar ou dispor de modo irregular o lixo produzido no domicílio” (Brasil, 2020).
Há 15 anos, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) (Brasil, 2010), sequer mencionou o ambiente rural. Apenas em 2019, a Fundação Nacional de Saúde (FUNASA, 2019) publicou o Programa Nacional de Saneamento Rural (PNSRural). Neste Programa, o “Volume 2 – Processos participativos”, traz uma discussão para os resíduos sólidos rurais, incluindo na lógica de gestão, a “Redução, reutilização, recuperação e reciclagem de resíduos rurais”. Também apresenta alternativas de gestão, como “a implantação de aterros rurais de pequeno porte”, o que replica a lógica do “resíduo como problema”. Ainda menciona “à criação de cooperativas de catadores de materiais recicláveis, que estimula a autogestão comunitária” (FUNASA, 2019, p. 35).
Ainda nesse volume, o PNSRural apresenta uma discussão sobre soluções coletivas e individuais de gestão dos resíduos sólidos recicláveis, orgânicos e rejeitos, avançando na pauta da gestão, quando coloca a “não geração, redução e reutilização” como guias para resíduos recicláveis, a compostagem para orgânicos e, estações de transbordo coletivas para rejeitos a serem encaminhados ao aterro sanitário (FUNASA, 2019, p. 36).
Em relação ao manejo, o PNSRural ainda foca na gestão centralizada com a responsabilidade do município, mas traz também, itens que estimulam a participação popular, como a implantação de Pontos de Entrega Voluntária (FUNASA, 2019, p. 53), operando como unidades de transbordo comunitárias, fazendo com que as onerosas coletas por parte dos serviços municipais, ocorram com menos frequência, diminuindo os custos ao erário.
O Programa Sustentar da Fundação Nacional de Saúde, coloca o cidadão rural como “sujeito histórico e de direitos que se torna protagonista de sua própria história e assume aquilo que é seu, se envolve na implementação e continuidade das ações” (Brasil, 2018). Esse Programa propõe a participação cidadã por meio do operador domiciliar, orientado pelo orientador local, um técnico “devidamente instruído e apoiado pelo nível municipal de gestão”, que “contribui para a continuidade das ações mesmo frente as constantes mudanças de gestão dos municípios” (Brasil, 2018). Por fim, há o papel do Gestor Municipal, que segue a cartilha do resíduo como “problema”, resolvendo a gestão com o “sumiço” do mesmo.
Em resumo, mesmo que a legislação e a gestão federal estimulem a participação cidadão quanto a gestão dos recursos, a maioria dos municípios ainda adota uma lógica urbana de gestão de resíduos sólidos, onde prevalece o “problema” a centralização como “solução”, perpetuando uma prática em que a disputa de poder e a má resolução dos serviços sanitários, coloca em risco toda a população.
Reforça-se aqui que o entendimento de resíduos sólidos como um problema afeta a todos, pois não permite que encontremos boas indicações de insumos de consumo, bem como, nos deixa de fora do processo de cuidar desses resíduos, sejam eles líquidos ou sólidos. Focado nisso, os permacultores do Núcleo de Estudos em Permacultura da UFSC e da EPAGRI/SC, trazem essa nota técnica que propõe repensar nossa relação com os resíduos sólidos rurais.
Acreditamos que é preciso estimular o senso crítico de cada cidadão da zona rural para o seu papel como responsável, individual e coletivo, nos processos que envolvem o consumo, uso, aproveitamento e destinação dos resíduos sólidos.
Assim, buscando a participação cidadã, é importante que a gestão de resíduos sólidos rurais seja pensada a partir da escala de percepção do indivíduo, da sua unidade rural ou mesmo, da comunidade que o abriga, permitindo que esse possa entender, estabelecer estratégias e resoluções efetivas para a gestão das matérias-primas que compõem os resíduos.
A educação ambiental considerando a TERRA
Em nosso avançado estágio de desconexão com a Terra, a educação ambiental é abordada apenas através da lógica dos 3Rs: Reduzir, Reciclar e Reutilizar. Porém, essa abordagem não estimula, de forma clara, o “não consumo”, o Recusar – e tão pouco nos aponta o Repensar de nossas escolhas e atitudes. Assim, considerar pelo menos esses 2Rs a mais se torna algo emergencial, pois nosso planeta é uma ilha da qual não temos como sair, ou seja, não temos onde “descartar” coisas que não queremos ou não gostamos. Dessa forma, buscando atender todos esses “R” e estar conforme o que estabelece a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Brasil, 2010) – Figura 1), sugerimos pegar uma “cola” no nome do planeta TERRA (Figura 2) e, a partir de suas letras, estabelecer formas de gerenciar os resíduos sólidos numa compreensão de recurso e não de “problema”.
Figura 1: Ordem de prioridade na gestão de resíduos sólidos segundo a PNRS (Brasil, 2010)
O Transformar considera a reutilização de um determinado resíduo como recurso para outra finalidade dentro da unidade rural e, que não cause dano ambiental, pois será incorporado na paisagem. Encaminhar compreende aqueles resíduos cuja reinserção na unidade rural não é possível e, assim, exige seu encaminhamento para unidades de disposição final de resíduos sólidos. Recusar ou Repensar se referem àqueles insumos que podem ser substituídos pela adoção de alternativas de fácil reinserção na unidade rural, com reciclagem ou reutilização em ciclo curto. Reciclar abrange aqueles resíduos que não podem ser diretamente reinseridos na unidade rural e necessitam ser encaminhados para centros de triagem, visando sua posterior utilização como matérias-primas por outros processos de produção. Aproveitar atende todo aquele resíduo que pode ser reutilizado em outro processo dentro da unidade rural, prolongando sua vida útil, mas que em algum momento terá de ser encaminhado para a reciclagem, ou mesmo, ser descartado.
Figura 2: TERRA e as simbologias associadas a cada letra.
A permacultura, por meio da sua ética e princípios de planejamento, busca reconectar-se com a natureza, facilitando nossa relação com os ambientes que nos abrigam. Assim, precisamos pensar que para cada uma das ações envolvidas na TERRA, temos um princípio de planejamento da permacultura que evidencia sua escolha.
Para o Transformar, fica evidente o princípio “Não produza desperdícios”, que nos auxilia a pensar a conversão de resíduos internos ao espaço rural, em adubos orgânicos e inorgânicos.
O Encaminhar, nos coloca a necessidade de reconhecer que a geração de resíduos mistos é, geralmente, fruto de decisões imediatistas e, que esses são de difícil inserção em processos produtivos internos ao espaço rural. Isso exigirá sua destinação para ciclos externos longos, que estão fora do nosso raio de ação. Essa relação nos remete ao princípio “use soluções pequenas e lentas”, na busca por encontrar outras vias de consumo que evitem a geração desse tipo de resíduo.
Ao buscar Recusar ou repensar insumos de fora da unidade rural, você é estimulado a reconhecer recursos internamente, o que nos remete ao princípio “use e valorize os recursos naturais renováveis”.
Reciclar, considerando que resíduos são, na verdade, recursos, possibilita a gestão em nível individual ou comunitário, priorizando ciclos curtos e evitando uso de energia em demasia. Essa ação nos mostra a necessidade de interagir com a comunidade para “integrar ao invés de segregar” no intuito de buscar soluções coletivas locais.
Aproveitar é um estímulo para aumentar a vida útil de materiais tidos como resíduos, antes de encaminhá-los para fora da unidade rural. Essa noção nos traz a lógica do princípio “use a criatividade e reaja às mudanças” para pensarmos em reúsos antes de descartar matérias-primas.
Zonas energéticas para resíduos
Ainda dentro da lógica de interagir com o ambiente e de produzir o menor impacto possível, a permacultura nos traz o conceito de zonas energéticas. Para resíduos sólidos, essas zonas de consumo de energia ou “de gasto energético das reciclagens”, podem ser relacionadas ao tamanho do ciclo envolvido para que um determinado recurso retorne a unidade rural (Figura 3).
Assim, respeitando uma lógica semafórica, para cada ciclo temos:
Ciclo curto – é tido como desejável ou ideal e compreende a produção e a transformação dos resíduos dentro da unidade rural. Nesse contexto, a gestão depende apenas de você.
Ciclo médio externo – é algo que deve ser repensado, pois considera apenas a reciclagem em escalas maiores de gestão, que envolvem você e sua comunidade sob o bojo da administração municipal, que na maior parte das vezes enxerga apenas o perímetro urbano em suas ações de gestão de resíduos, não permitindo a participação direta da população na tomada de decisão.
Ciclo longo externo – precisa ser encarado como algo indesejável, pois compreende uma gestão que demanda muita energia, do início ao fim do ciclo da matéria-prima, por vir de longe e/ou passar por muitos processos de transformação e destinação, tornando-se, portanto, recusável.
Figura 3: Zonas energéticas para resíduos sólidos rurais.
Nesse cenário, uma unidade rural típica no Brasil produz basicamente três tipos de resíduos: os transformáveis, os recicláveis e os rejeitáveis (Figura 4). Os resíduos transformáveis compreendem todos os que podem ser incorporados/mantidos na unidade rural sem prejuízo ambiental. Já os resíduos recicláveis, compreendem aqueles que devem ser reutilizados quantas vezes puder e onde for possível, antes de serem enviados para fora da unidade rural, sendo então, encaminhados a unidades de triagem e posterior destinação conforme forem separados. Os resíduos rejeitáveis envolvem aqueles que não se enquadram nas condições anteriores, ou seja, não podem ser incorporados à unidade rural, pois são impossíveis de serem transformados em matéria-prima e, também, não podem ser usados ou reciclados.
Figura 4: A unidade rural e os fluxos de destino para diferentes tipos de resíduos sólidos. Fonte: (Inspirada/modificada de FUNASA, 2019).
Tomada de decisão
Considerando toda a gama de produtos consumidos em uma unidade rural, seja ela convencional, orgânica ou agroecológica, a equipe de permacultores que discutiu a presença dos resíduos sólidos em ambiente rural, optou por lidar com todos eles, seguindo, também, a lógica semafórica. Desta forma, um mapa conceitual (Figura 5) foi trabalhado para esquematizar, de forma sistêmica, como pode ser conduzida a gestão dos resíduos considerando as seguintes perguntas:
Quais resíduos são transformáveis e no que podem ser transformados?
Quais resíduos são recicláveis e quais são as alternativas em substituí-los?
Quais resíduos são rejeitáveis e quais são as alternativas ao rejeitarmos?
O mapa conceitual apresenta uma categorização das matérias-primas mais consumidas em unidades rurais, incluindo: contaminantes, insumos, metais, mistos, orgânicos e papel, plásticos, tecidos, e vidros.
Estruturado em diferentes níveis, o mapa conceitual apresenta um 1º nível (retângulos), que dão acesso a explicações pertinentes a cada tipo de resíduo e as suas ramificações de 2º nível (elipses). Dessa, partem ramificações em padrão dendrítico para cada categoria de resíduo e, no 3º e 4º níveis, temos as relações de entrada/saída desses, na unidade rural.
Figura 5: Mapa mental (1º e 2º níveis) que organiza a lógica de gestão de resíduos na unidade rural. Clique na figura para ver o mapa completo.
Resíduos contaminantes
Resíduos que apresentam compostos perigosos que promovem contaminação ambiental, incluindo óleos minerais e vegetais, graxas, madeiras “tratadas” (em autoclave, por exemplo), resíduos de saúde, embalagens de agrotóxicos, eletroeletrônicos, pilhas e baterias.
Transformar
O papel higiênico do banheiro pode ser compostado, se separado de eventuais plásticos presentes em embalagens de sabonetes e absorventes. Óleos vegetais usados, após filtrados, podem ser utilizados de forma diluída em água (1/10) na aplicação foliar em árvores que apresentam fungos em sua superfície. O início do fogo no fogão a lenha pode receber um pouco de óleo vegetal usado. Isso auxilia na queima inicial e melhora a estabilização das chamas e fumaça.
Encaminhar
As embalagens de agrotóxicos devem ser esvaziadas para o uso e tríplice lavagem, e então encaminhadas de volta para quem vendeu ou forneceu os produtos, ou no local indicado na nota fiscal do mesmo, seguindo o ciclo da logística reversa em que esta embalagem será devolvida para a indústria para ser reciclada3.
Os resíduos de saúde, como remédios vencidos e seringas devem ser entregues no posto de saúde ou em farmácias. Por se tratarem de resíduos perigosos, esses estabelecimentos são obrigados a encaminhar os mesmos para a logística reversa de medicamentos descartados pelos consumidores4. O mesmo deve ser considerado para pilhas e baterias, que devem ser entregues em pontos de coleta como estabelecimentos que comercializam itens dessa natureza ou em instituições públicas que os recebam. Esses encaminharão para empresas de reciclagem5.
Madeiras “tratadas” devem ser enviadas para o aterro de resíduos industriais perigosos, pois poluem tanto quanto agrotóxicos.
Recusar/repensar
Algumas estratégias para evitar o uso de absorventes íntimos que contenham materiais sintéticos podem ser adotadas. Nisso, calcinhas e cuecas absorventes podem ser grandes aliadas. Ainda existe o coletor ou copinho reutilizável para o ciclo menstrual como alternativa para não geração de resíduos plásticos no lixo do banheiro.
As fraldas descartáveis podem ser trocadas por fraldas de pano feitas com tecidos de fibra natural.
As madeiras “tratadas” por processo de autoclave devem ser recusadas em virtude da carga poluidora dos compostos utilizados no “tratamento”. Uma solução para mourões/palanques seria a utilização de moirões vivos, pois a vida útil de árvores é muito maior. Outras alternativas ao uso de madeiras tratadas, seria utilizar as madeiras mais duras, ou ainda, elaborar uma solução a base de óleo queimado ou o uso de solução a base de óleos vegetais como linhaça, própolis e cera.
Pilhas devem ser recusadas e, caso não seja possível, podem ser substituídas por baterias recarregáveis, o que não excluirá a necessidade de destinação quando perderem sua função, mas, pelo menos, serão úteis por mais tempo.
Reciclar
Resíduos eletroeletrônicos devem ser entregues em pontos de coleta específicos. Isso permitirá seu encaminhamento para serem desagregados e terem seus constituintes separados e reaproveitados como matéria-prima pela indústria.
Aproveitar
Em pequenas quantidades, os óleos vegetais podem ser utilizados para iniciar o fogo em fogões a lenha. Quando incorporados a papéis-toalha ou guardanapos, os mesmos podem ser incinerados com o resíduo de banheiro, ou ainda, compostados apenas em processos termofílicos.
Os óleos e graxas minerais, se não utilizados no tratamento de madeiras, devem ser entregues em estabelecimentos como oficinas mecânicas e postos de abastecimento, que possuem protocolo para destinação desses resíduos. Usando essa via, os mesmos poderão ser transformados em outros produtos com retorno no ciclo longo de reciclagem, tais como óleo para lubrificação de correntes de motosserra.
Resíduos de insumos
São aqueles produtos utilizados como fontes de energia ou matérias-primas na unidade rural, tais como: sementes, mudas, agrotóxicos, pós de rocha como o calcário e o fosfato natural, cinza de lenha, farinha de ossos, vísceras e outros.
Transformar
A utilização de cinzas da queima de madeiras não-tratadas e papéis pode atender usos para pequenas áreas e evitar a aquisição de pó de rocha. Sua aplicação pode se dar como fertilização mineral e auxiliar na diminuição da acidez de solos com pH ácido.
Uma das melhores formas de conservar sementes é trocando-as. Sim! A troca compartilhada de sementes com vizinhos pode salvar você de uma eventual falta de sementes, caso os métodos de conservação que você utiliza não funcionem a contento.
A utilização do esterco animal (fezes + urina) é uma maneira sustentável e econômica de aproveitamento dos resíduos sólidos da pequena unidade rural, evitando assim, descarte de dejetos no ambiente e sua utilização como fertilizante do solo. A urina de vacas é um dos fertilizantes mais populares em pequenas unidades rurais. O local de ordenha pode contar com piso impermeável e sistema de canaleta que direcionam a urina para bombonas, a serem utilizadas no transporte para áreas que necessitem de fertilização.
Encaminhar
Numa unidade rural que se utiliza insumos internos, não haverá resíduos a serem encaminhados para destinos externos, a não ser os excedentes, que podem servir como moeda de troca na comunidade, atendendo assim, a necessidade de vizinhos.
Recusar/Repensar
Os agrotóxicos adotados em unidades rurais com produção convencional de alimentos serão incorporados à paisagem da unidade rural, trazendo prejuízos à saúde humana, ao ambiente e aos cultivos. Assim, recusá-los passa a ser uma meta de boa gestão rural, que pode ser amplificada com a conversão dos sistemas produtivos para agroecológicos.
As sementes e mudas se constituem em um importante recurso de sucessão das atividades produtivas na unidade rural. Em tempos de sementes que se acabam (terminator) ou perdem seu vigor (híbridas): o cultivo próprio de mudas, a preservação e seleção natural de sementes em nível local são ótimas opções para se manter a unidade rural sempre bem servida de plantas adaptadas ao ambiente em que se desenvolveram.
É importante lembrar que as minhocas produzem húmus, que são excelentes corretoras do pH dos solos e da estrutura, que facilitam o desenvolvimento de raízes. Assim, agriculturas de clima tropical e subtropical, que compreendem quase a totalidade do Brasil, devem considerar o aporte e manutenção de matéria orgânica nos solos para garantir a retenção de minerais essenciais ao crescimento das plantas. Nesse sentido, todo e qualquer processo de compostagem é bem-vindo, sobretudo se for feito diretamente no local de plantio.
Reciclar
Todos os insumos são matérias-primas que serão incorporadas na unidade rural, evitando assim, a necessidade de reciclagem. A escolha certa de quais insumos serão usados é fundamental para que se mantenha a saúde ambiental da unidade rural.
Aproveitar
O uso do esterco produzido na unidade rural deve ser priorizado e reforçado por adubação verde. O esterco é um material de baixo custo, alto teor em nutrientes e eficiente na promoção da vida no solo e na adubação das plantas. Além dos macronutrientes, os estercos fornecem também cerca de mais 13 micronutrientes, que são indispensáveis às plantas e à microbiota do solo. Galinhas e outros animais (Figura 6) podem incrementar a produção de esterco e, nas regiões de pomar, realizar o trabalho de adubação por restos de poda e, assim, acelerar o crescimento das culturas.
Figura 6: Criação de galinhas e esterqueira como fonte de energia.
Processos de fermentação dos estercos promovem a inativação dos microrganismos patogênicos, causadores de doenças. A esterqueira (Figura 5) é um dispositivo acessível que auxilia nesse processo de transformação do chorume, permitindo que o mesmo seja tratado no próprio local e não vá para o solo e corpos d’água.
Os líquidos das esterqueiras, após maturados, poderão ser usados como adubo líquido, diluído na proporção de 1/10 (1 parte de chorume para 10 partes de água), com excelentes resultados no desenvolvimento das plantas. O processo de maturação do esterco é lento e depende das condições climáticas. Para se acelerar o processo, recomenda-se a agregação de materiais como palha, folhas, serragem, entre outros, que favorecerão a aeração da pilha de compostagem.
Uma vez curtido, o esterco pode ser utilizado como adubo orgânico na agricultura, hortas, pomares, vasos e jardins, como ingrediente na elaboração de compostos orgânicos e na criação de minhocas (vermicompostagem), dependendo de seu estado de maturação.
Se a unidade rural possuir açude/tanque é possível bombear a água com a lama (lodo) concentrada no fundo, estabelecendo um processo de fertirrigação.
Metais
Os metais compreendem todos aqueles materiais constituídos por ferro, alumínio, cobre, zinco, aço, enfim, ligas metálicas, em geral. Na unidade rural esse tipo de matéria-prima está geralmente presente em cercas, ferramentas, utensílios, peças de automóveis e tratores e embalagens de consumo.
Transformar
Pregos de ferro usados podem ser descartados junto a touceiras de bananeira. Quando enferrujados, podem ser imersos em vinagre para compor uma solução de tingimento para ser utilizado em madeiras. Após serem utilizados como tingidores, os mesmos podem ser destinados às touceiras de bananeiras.
Encaminhar
Tampas de metal de potes de geleias e conservas, os enlatados em geral e demais peças metálicas, devem ser encaminhados à coleta seletiva do seu município ou serem entregues em pontos e postos que recebem esse tipo de matéria-prima.
Recusar/repensar
Por fazerem parte de uma cadeia de ciclo longo, proveniente da mineração, os metais em geral devem ser repensados e, na eminência não poderem ser substituídos, sua vida útil deve ser prolongada na unidade rural.
Além do uso de cercas metálicas, outras possibilidades de isolamento de áreas são viáveis utilizando-se cercas vivas com bambus, gravatás, azaleias e outras diversas espécies vegetais (Figura 7). Outra opção são os mourões vivos ligados por treliças de bambus ou de outras madeiras flexíveis, conforme a finalidade do cercamento.
Figura 7: Opções de cercamento usando-se elementos vivos como limitadores.
Reciclar
Os itens e as peças de origem metálica necessitam de processos industriais para a sua reciclagem, exigindo que esse tipo de matéria-prima seja retornada a um ciclo longo.
Aproveitar
Antes de descartar arames e cercas, outros usos podem ser feitos, como: galinheiros móveis (tratores de galinhas), parreirais, composteiras de cerca e adornos (artesanato e decoração) no turismo rural. Telas soldadas podem ser usadas como ferraria em lajes de concreto e passeios para automóveis. Após a serventia desses materiais nessas diferentes aplicações os mesmos deverão ser encaminhados para a reciclagem.
Mistos
Resíduos constituídos por materiais diversos e indissociáveis tais como embalagens de Tetra Pak®, calçados, pneus e botas que não podem ser reutilizados ou mesmo reciclados.
Transformar
Entulhos como restos de telhas de barro e tijolos podem ser usados no preenchimento de buracos em acessos e estradas. Com o tempo esses materiais serão incorporados ao meio ambiente, dando resistência ao pavimento. Pedaços de azulejo não devem ser utilizados em acessos, pois podem cortar pneus. Para entulhos que contenham materiais cortantes, uma saída é o seu uso no nivelamento de contrapisos, como comentado a seguir em “Aproveitar”.
Encaminhar
A destinação mais indicada é, infelizmente, o envio para o lixo comum.
Recusar/repensar
É importante recusar embalagens mistas e priorizar aquelas constituídas por materiais únicos e retornáveis, dessa forma, prefira o vidro ao invés do Tetra Pak®.
A bioconstrução pode ser uma boa opção para se evitar a produção de entulhos da construção civil convencional. Edificações bioconstruídas apresentam menor impacto ambiental, pois se utilizam, em boa parte, de materiais locais que poderão ser reutilizados/descartados na própria unidade rural.
Reciclar
Em alguns locais existem centrais de recebimento de restos da construção civil, para serem utilizados como matéria-prima na confecção de novos materiais a serem aplicados no mesmo setor. Procure saber se na sua cidade/região há esse tipo de recebimento.
Aproveitar
Resíduos como entulho/caliça, a depender da composição, é aconselhável serem utilizados como material de preenchimento em leitos de pisos que serão, posteriormente, cobertos por cimento. Seria uma espécie de sepultamento desse material que é considerado um resíduo inerte.
Restos de telhas, tijolos, azulejos, geralmente produzidos na construção de edificações podem ser utilizados no final da obra como camada de preenchimento em sistemas de tratamento de águas contaminadas (vaso sanitário do banheiro), como a bacia de evapotranspiração (BET) ou tanque de evapotranspiração (Figura 8).
Na mesma linha, pneus de carro podem ser utilizados na estruturação da câmara séptica da BET ou mesmo como forma de sapata em fundações de edificações. Não utilize pneus para conformar canteiros ou mesmo proteger árvores, pois estarão expostos ao sol, permitindo sua degradação e liberação de componentes químicos nocivos ao meio ambiente.
Figura 8: Bacia de evapotranspiração com uso de pneus velhos e entulhos. Fonte: (Castagna et al., 2019).
Orgânicos e papel
Resíduos sólidos orgânicos e papel são todos os que vêm da natureza e podem ser reabsorvidos pela mesma, como cascas de frutas, folhas de árvores, papéis, embalagens de folhas, cestas de palha, tecidos de algodão, linha, seda, lã.
Transformar
Os papéis usados no banheiro podem ser compostados separadamente (Figura 9), e após serem transformados em matéria orgânica e, então, utilizados para adubação de árvores no pomar ou sistema agroflorestal. Cascas e folhas podem ser utilizadas como cobertura morta em canteiros. Isso inibirá a proliferação de ervas “danadinhas” (espontâneas) e, de brinde, você fará a compostagem desses materiais nos próprios canteiros.
Encaminhar
Caso não tenha espaço para compostar, o que é difícil em ambiente rural, é possível separar os resíduos orgânicos dos demais e ceder a algum vizinho que queira compostá-los. Não sendo possível e, mesmo que vá para a coleta comum e depois para o aterro, o fato de estar separado facilitará a separação pelos catadores e isso ajudará no tempo de decomposição destas matérias orgânicas.
Figura 9: Processos de compostagem na unidade rural (Instituto Souza Cruz, 2004).
Recusar/repensar
Descasque mais e desembale menos! É importante valorizar alimentos produzidos na unidade rural e/ou localmente, bem como, recusar aqueles que venham de fora e embalados em plásticos, metais ou em composições mistas como o Tetra Pak®.
Reciclar
Utilize composteiras ou vermicompostagem para a reciclagem dos orgânicos em sua própria casa. Outra forma de reciclar orgânicos é através da utilização em biodigestores, resultando na produção de biogás para uso doméstico e biofertilizantes.
Aproveitar
Utilize cascas e sementes em receitas alimentares, porque elas são fontes de nutrientes importantes.
É indicado aproveitar o composto que você mesmo fez na sua composteira. Desse processo de compostagem, o chorume produzido pode ser usado de forma pura em cima das plantas que você deseja exterminar. Sob ótica oposta, o chorume pode ser usado como biofertilizante na fertirrigação. Para isso, dilua-o em 10 partes de água e aplique no solo entre as plantas. Isso melhora a biota do solo, disponibilizando nutrientes para as plantas no curto prazo.
Plásticos
Os plásticos compreendem aquelas matérias-primas oriundas do petróleo, que apresentam embutido um grande consumo de energia e alto impacto ambiental, devido à sua cadeia produtiva longa. O plástico está muito difundido atualmente, mas nossos pais e avós viviam tranquilamente sem eles. Apresentando inúmeras composições, os plásticos causam muita confusão, quando o quesito é a sua destinação para a reciclagem, por essa razão são elencados como resíduos rejeitáveis.
Transformar
Devido à diversidade de formas e constituintes de recursos oriundos do plástico, sua transformação não é possível na unidade rural, exigindo que o mesmo seja inserido no ciclo externo longo.
Encaminhar
Os resíduos plásticos gerados dentro da unidade rural, após serem usados como lonas, potes e outros, devem ser encaminhados para a reciclagem, onde catadores os separarão por tipo, visando direcionar o recurso ao processo de reciclagem e serem usados como matéria-prima em novos processos industriais.
Para estarem aptos à reciclagem, as embalagens precisam ser limpas antes de serem descartadas no lixo reciclável. Essa lavagem pode ser feita com água cinza proveniente da máquina de lavar roupas. Para tal, você pode armazenar essa água em bombonas ou caixas d’água a cada lavagem de roupa. Essa água ainda poderá ser usada na irrigação, caso não tenha contaminantes. Caso haja muita água cinza proveniente das lavações, essa pode ser também utilizada para lavar pisos, máquinas agrícolas, carros entre outros.
Recusar/Repensar
É necessária uma mudança de hábitos e atitudes que repensem os materiais que podemos utilizar. Assim, se formos utilizar plásticos, que os mesmos sejam constituídos de matérias-primas biodegradáveis.
É possível substituir as embalagens plásticas utilizadas para a comercialização de produtos da unidade rural, por uma série de folhas e fibras vegetais (Figura 10). Dentre eles podemos destacar: bananeira, açafrão, palmeira, milho, bambu, helicônias, folhosas como couve e repolho, piaçava e taioba.
Figura 10: Fibras vegetais usadas para embalar produtos da unidade rural.
Em vez de usar lonas plásticas como cobertura de canteiros, pode-se optar por coberturas mortas e vivas (Figura 11). O sistema de plantio direto na palhada também é uma boa saída. Nele, as plantas que restaram do plantio anterior, servirão de cobertura e fonte de nutrientes para a próxima cultura, mantendo o solo protegido e com uma microbiota excelente para as plantas, diminuindo o trabalho de capina.
Figura 11: Coberturas vivas e mortas em canteiros, mimetizando a natureza.
Na cobertura da silagem podem ser utilizadas paredes permanentes como nas trincheiras de concreto ou de madeira, cobertas com madeira e/ou argila, bem como, seu armazenamento pode ser feito em barris.
Reciclar
Os itens plásticos necessitam de processos industriais para a sua reciclagem, exigindo que esse tipo de matéria-prima seja retornada em um ciclo longo. Assim, sua destinação é externa à unidade rural, ou mesmo, à comunidade.
Aproveitar
Os plásticos utilizados na unidade rural podem ser reutilizados, aumentando sua vida útil antes de serem encaminhados à reciclagem. É possível aumentar a vida útil de uma embalagem num ciclo curto de comercialização estimulando-se o retorno da mesma por parte dos clientes em feiras, por exemplo.
Sugere-se também a adoção de embalagens retornáveis, como vidros para mel, pastas e geleias. Para essas embalagens, também funciona a lógica de retorno em ciclo curto, com algum incentivo financeiro ao cliente, como um desconto na compra de um novo produto da mesma linha, ou mesmo um crédito para ser abatido na compra total, quando o cliente trouxer a embalagem vazia para troca.
A venda de porções, como, por exemplo, de tomate-cereja, morango ou fisális, pode ser feita com caixas de papelão usadas no reverso ou papelão encerado, solicitando, também, que o cliente traga na próxima feira.
Tecidos
Os tecidos de fibras naturais estão geralmente presentes nas malhas de algodão, lã, seda, bambu e bananeira (Figura 12). As fibras sintéticas são encontradas nas malhas de PET, tecidos tecnológicos, náilon, elastano e licra. Os tecidos de fibras mistas estão geralmente presentes em EPIs como luvas e aventais.
Transformar
Os tecidos de fibras naturais podem ser utilizados tanto na composteira, como nos canteiros para abafar plantas espontâneas (Figura 12), ou mesmo, serem incinerados para posterior utilização da cinza como fertilizante mineral.
Encaminhar
Encaminhe os tecidos sintéticos com plásticos para a coleta seletiva do seu município ou entrega em pontos e postos de coleta.
Recusar
É importante recusar fibras sintéticas em virtude do longo ciclo que as mesmas possuem para serem transformadas e, no contraponto, deve-se priorizar a adoção de fibras naturais, por serem de fácil transformação em recursos para serem reutilizados na unidade rural.
Figura 12: Fibras naturais, substituições e aplicações.
Reciclar
Caso seja inevitável o consumo de fibras sintéticas, escolha aquelas que você conhece a composição e sabe como destinar à reciclagem.
Aproveitar
Antes de descartar roupas que não tenham mais funcionalidade, pense em usos secundários como na confecção de outras roupas, tapete de banheiro, pano de chão, pano de limpeza, artesanato, etc. Caso estejam em boas condições de uso, repasse a assistência social de seu município.
Vidros
O vidro é um dos materiais que mais podemos reutilizar até retornar ao ciclo longo da reciclagem industrial. É um material durável e esterilizável que podemos reutilizar várias vezes aumentando sua vida útil e a de alimentos na unidade rural.
Transformar
Os vidros de conservas e doces podem ser reutilizados como potes na sua casa ou, ainda, serem devolvidos ao fornecedor do produto para ser reutilizado, evitando novas aquisições de embalagens dessa natureza e, que seja necessário mais matéria-prima e gasto de energia para fabricação de novos vidros.
Encaminhar
Quando for encaminhar vidros quebrados para o lixo (resíduo sólido) reciclável, lembre-se de embalar bem e escrever na embalagem “vidro quebrado”, para que a pessoa que recolhe o nosso lixo não se machuque. Para embalar os vidros quebrados você pode usar um papelão ou vários papéis, garrafas PET, ou ainda, tecidos que não podem mais ser aproveitados.
Recusar/Repensar
Devemos recusar embalagens de vidro descartáveis ou que não possam ser reutilizadas várias vezes. É importante, também, evitar consumir produtos de empresas que não tem logística reversa, que é a possibilidade de devolução dos produtos ou suas embalagens para o vendedor que os fornece.
Reciclar
Os itens de vidro necessitam de processos industriais para a sua reciclagem, exigindo que esse tipo de matéria-prima seja retornada à indústria por meio de catadores e empresas que efetivem o destino correto.
Aproveitar
Aproveitar e reaproveitar o máximo de vezes dentro da unidade rural, usar potes para compotas e doces, copos como unidades de medida, garrafas e vidros lisos em construções como tijolos de vidros em paredes ou como janelas, ou então doando a vizinhos que possam utilizar de outras formas. Esse ciclo curto para o vidro só serve para reutilização, pois após quebrados, os mesmos precisarão ser encaminhados à reciclagem.
Resultados
Espera-se com essa nota técnica ofertar uma nova abordagem que inclui um leque de possibilidades de gestão de resíduos sólidos para os cidadãos do campo.
Essa nota contou com uma apresentação em vídeo “Sessão ao vivo – Permacultura e saneamento: resíduos sólidos rurais”6, que traz cada ponto comentado.
Brasil. (2018). Programa SUSTENTAR Saneamento e Sustentabilidade em Áreas Rurais. Fundação Nacional de Saúde.
Brasil. (2020). Caderno didático técnico para curso de gestão de manejo de resíduos sólidos em áreas rurais do Brasil. Fundação Nacional de Saúde – FUNASA. http://www.funasa.gov.br/web/guest/publicacoes