{"id":92,"date":"2023-10-14T17:52:31","date_gmt":"2023-10-14T20:52:31","guid":{"rendered":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/?post_type=article&#038;p=92"},"modified":"2025-01-31T10:24:28","modified_gmt":"2025-01-31T13:24:28","slug":"e11202301","status":"publish","type":"article","link":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/article\/e11202301\/","title":{"rendered":"A primeira Agrofloresta P\u00fablica de S\u00e3o Paulo"},"content":{"rendered":"<p align=\"right\">Perma \u2013 Rev. Perma \u2013 Perma jour., v. 1, n. 1, e11202301, primavera de 2023<\/p>\n<p align=\"right\"><i><b>The First S\u00e3o Paulo\u2019s Public Agroforestry<\/b><\/i><\/p>\n<p align=\"right\"><a href=\"https:\/\/orcid.org\/0009-0008-3177-3838\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-61\" src=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/ORCIDiD_icon24x24.png\" alt=\"\" width=\"24\" height=\"24\" \/><\/a> D\u2019ANGELIS, Gilberto Machel Veiga<sup><a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/article\/a-primeira-agrofloresta-publica-de-sao-paulo\/#sdfootnote1sym\" name=\"sdfootnote1anc\">1<\/a><\/sup><\/p>\n<p align=\"right\"><span style=\"font-size: small\"><i>Submetido em 15dez2022, Aceito em 31ago2023<\/i><\/span><\/p>\n<p align=\"right\"><span style=\"font-size: small\"><i>Avaliado por Arthur Nanni e Carlos Cardoso<\/i><\/span><\/p>\n<p align=\"right\"><em>DOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.5281\/zenodo.14749003\">https:\/\/doi.org\/10.5281\/zenodo.14749003<\/a><\/em><\/p>\n<p><b>Resumo: <\/b>Este texto relata a experi\u00eancia ocorrida na ic\u00f4nica Vila Itoror\u00f3, em S\u00e3o Paulo, no ano de 2015, a partir de uma Oficina de Agrofloresta ministrada pelo autor, que resultou na implanta\u00e7\u00e3o da Primeira Agrofloresta P\u00fablica de S\u00e3o Paulo. A oficina fez parte de um experimento sociocultural complexo e in\u00e9dito na cidade, o Projeto Vila Itoror\u00f3 \u2013 Canteiro Aberto, que visava questionar a destina\u00e7\u00e3o e uso dos espa\u00e7os p\u00fablicos urbanos, dando \u00e0 popula\u00e7\u00e3o a possibilidade de intervir e propor novos usos para o futuro Centro Cultural, em paralelo e simult\u00e2neo ao andamento dos projetos de restauro e arquitet\u00f4nico final.<\/p>\n<p><b>Palavras-chave:<\/b> Agrofloresta Urbana; Sistemas Agroflorestais; Floresta Urbana de Alimentos; Permacultura Urbana; Agroecologia Urbana.<\/p>\n<p lang=\"en-US\"><b>Abstract<\/b>: This text reports the experience of an Agroforestry Workshop taught in 2015 by the author in the iconic Vila Itoror\u00f3 in S\u00e3o Paulo (Brazil). The workshop was included in the Project \u201cVila Itoror\u00f3 \u2013 Canteiro Aberto\u201d, and resulted in the implementation of the first S\u00e3o Paulo\u2019s Public Agroforestry. The experience was part of a complex, unprecedented socialcultural experiment in the city, which aimed to question the destination and use of urban public spaces, providing the population with the possibility to intervene and propose new uses for the future Cultural Center, parallel with the progress of the final architectural and restoration projects.<\/p>\n<p lang=\"en-US\"><b>Keywords:<\/b> Urban Agroforestry; Agroforestry Systems; Urban Food Forestry; Urban Permaculture; Urban Agroecology.<\/p>\n<h1><span style=\"color: #111111;font-size: 2.5rem;letter-spacing: -0.01em\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/span><\/h1>\n<p>O curso sobre Sistemas Agroflorestais que resultou na implanta\u00e7\u00e3o da agrofloresta urbana da Vila Itoror\u00f3, em 2015, na cidade de S\u00e3o Paulo, integrou o primeiro grupo de oficinas culturais que aconteceram logo no in\u00edcio do Projeto \u201cVila Itoror\u00f3 \u2013 Canteiro Aberto\u201d.<br \/>\nA proposta de curadoria desse novo centro cultural em forma\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o (a Vila Itoror\u00f3) previa que as atividades abertas ao p\u00fablico acontecessem ao mesmo tempo em que se dava o processo de reforma estrutural e restaura\u00e7\u00e3o da infraestrutura f\u00edsica do espa\u00e7o. Ao contr\u00e1rio do que normalmente ocorre, que seria restaurar e realizar todas as obras de infraestrutura primeiro, e s\u00f3 ent\u00e3o entregar o \u201cpr\u00e9dio\u201d ou o espa\u00e7o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o para que pudessem usufruir do mesmo.<br \/>\nAssim, a experi\u00eancia do \u201cCanteiro Aberto\u201d constituiu-se de fato como um experimento social e cultural na escala da cidade, onde o pr\u00f3prio uso e ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o pela popula\u00e7\u00e3o &#8211; fossem usos espont\u00e2neos ou planejados previamente na forma de oficinas &#8211; poderiam trazer implica\u00e7\u00f5es para o projeto cultural em constru\u00e7\u00e3o, assim como para o desenho e usos futuros do espa\u00e7o f\u00edsico, enquanto este ainda estava sendo pensado e projetado pelas equipes de arquitetura e engenharia.<\/p>\n<h2>Contexto<\/h2>\n<p>A Oficina de Agrofloresta Urbana foi totalmente gratuita para a popula\u00e7\u00e3o, uma vez que se tratava de uma forma\u00e7\u00e3o promovida em um equipamento p\u00fablico, sob os ausp\u00edcios da Secretaria Municipal de Cultura, e foi o primeiro curso dessa natureza na hist\u00f3ria da cidade. Tamb\u00e9m foi uma das oficinas de maior dura\u00e7\u00e3o de todo o projeto do \u201cCanteiro Aberto\u201d, tendo sido inicialmente prevista para ocorrer ao longo de tr\u00eas meses, com dois encontros semanais de quatro horas. No fim, devido \u00e0 extrema complexidade do contexto, mas tamb\u00e9m ao grande envolvimento e engajamento que o curso oportunizou aos participantes, a oficina teve uma dura\u00e7\u00e3o total de quatro meses e meio, entre agosto e dezembro de 2015, totalizando mais de 150 horas de forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pr\u00e1tica em Sistemas Agroflorestais Sucessionais (SAFS), baseados nos princ\u00edpios da agricultura sintr\u00f3pica de Ernst G\u00f6tsch<a href=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/article\/a-primeira-agrofloresta-publica-de-sao-paulo\/#sdfootnote2sym\"><sup>2<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>O interesse da comunidade e a demanda surgida foi t\u00e3o grande que, embora o tema fosse ainda extremamente novo e largamente desconhecido \u00e0 \u00e9poca, foi necess\u00e1rio criar uma lista de espera, pois o curso lotou, com a participa\u00e7\u00e3o de aproximadamente vinte pessoas ao longo de todo o processo. Dessas, em torno de quinze atuaram de forma bastante ativa e constante, decisivas para a constru\u00e7\u00e3o coletiva do projeto.<\/p>\n<p>Embora o curso fosse aberto a pessoas de qualquer idade e perfil &#8211; e tenha-se buscado incentivar a inscri\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o local e da antiga comunidade que vivia na Vila &#8211; a maioria dos que se inscreveram eram pessoas com forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria (quase todas mulheres), o que talvez ajude a explicar o interesse por um tema ainda t\u00e3o novo e desconhecido na sociedade em geral. Por outro lado, esse perfil de alta qualifica\u00e7\u00e3o das participantes trouxe muita seguran\u00e7a ao nosso trabalho, uma vez que somaram-se aos conhecimentos e experi\u00eancia em permacultura e agrofloresta do grupo, forma\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e acad\u00eamicas como: arquitetura, engenharia ambiental, engenharia florestal, biologia, bioqu\u00edmica, veterin\u00e1ria, artes em geral (m\u00fasica, artes gr\u00e1ficas\/pl\u00e1sticas), antropologia, al\u00e9m de experi\u00eancias no setor do funcionalismo p\u00fablico da cidade, entre outras.<br \/>\nO objetivo principal da experi\u00eancia, para al\u00e9m de propor uma nova forma de ocupa\u00e7\u00e3o e uso do espa\u00e7o p\u00fablico, e da forma\u00e7\u00e3o p\u00fablica, gratuita e aberta \u00e0 popula\u00e7\u00e3o sobre Sistemas Agroflorestais em meio urbano, era criar uma horta agroflorestal que pudesse suprir ao menos em parte a necessidade e demanda da cozinha local (que tamb\u00e9m era um experimento em constru\u00e7\u00e3o); al\u00e9m disso, como parte central e mais pol\u00eamica da interven\u00e7\u00e3o, a proposta pretendia permitir o desenvolvimento de uma \u201cfloresta urbana p\u00fablica\u201d<sup><a href=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/article\/a-primeira-agrofloresta-publica-de-sao-paulo\/#sdfootnote3sym\">3<\/a><\/sup> no cora\u00e7\u00e3o da cidade, numa \u00e1rea extremamente restrita e cheia de conflitos e obst\u00e1culos \u201curban\u00edsticos\u201d.A Vila Itoror\u00f3 \u00e9 uma antiga vila residencial que existiu como tal at\u00e9 o in\u00edcio da d\u00e9cada de 2010, e recebeu esse nome por ter sido constru\u00edda no entorno de uma fonte de \u00e1gua (uma das nascentes do Rio de mesmo nome), cuja estrutura de prote\u00e7\u00e3o foi inaugurada em 1822. Hoje, 200 anos depois, a fonte ainda est\u00e1 l\u00e1, numa regi\u00e3o central e altamente urbanizada da cidade, a duas quadras da Esta\u00e7\u00e3o de Metr\u00f4 S\u00e3o Joaquim, perto de redes de <i>fast-food<\/i>, de um posto de gasolina, e ao lado de uma das maiores vias da cidade, a Avenida 23 de Maio, sob a qual ainda \u201cvive\u201d o Rio Itoror\u00f3. Assim, a Vila resiste ao tempo e \u00e0s mudan\u00e7as, de dentro e de fora, para seguir contando a sua hist\u00f3ria como um dos principais <i>locus<\/i> de produ\u00e7\u00e3o e transgress\u00e3o da cultura paulistana.<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote4sym\" name=\"sdfootnote4anc\"><sup>4<\/sup><\/a><\/p>\n<h1>A experi\u00eancia<\/h1>\n<p>Desde o in\u00edcio da concep\u00e7\u00e3o da Oficina de Agrofloresta no contexto do Projeto do \u201cCanteiro Aberto\u201d, a ideia n\u00e3o era simplesmente ensinar como planejar e implementar um sistema agroflorestal em \u00e1rea urbana &#8211; o que j\u00e1 n\u00e3o seria simples de nenhuma maneira &#8211; mas discutir, no fundo, o \u201cdireito \u00e0 cidade\u201d e, para al\u00e9m disso, as distintas concep\u00e7\u00f5es do que \u00e9 \u201ccultura\u201d, \u201cpatrim\u00f4nio\u201d e do quanto a sociedade pode ou n\u00e3o intervir e agregar com os seus conhecimentos \u00e0 constru\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Assim, a \u201cOficina de Agrofloresta\u201d na realidade contemplou uma enorme gama de reflex\u00f5es te\u00f3ricas e t\u00e9cnicas dos mais diversos campos, e teve os princ\u00edpios \u00e9ticos e de planejamento da permacultura como uma das suas principais ferramentas e bases metodol\u00f3gicas, de maneira impl\u00edcita e expl\u00edcita.<\/p>\n<p>Um dos primeiros e mais b\u00e1sicos princ\u00edpios apresentados e colocados em pr\u00e1tica desde o in\u00edcio da oficina foi justamente o primeiro princ\u00edpio de planejamento proposto por David Holmgren, em 2002 &#8211; o \u201cObservar e Interagir\u201d (Holmgren, 2013). A parte te\u00f3rica do curso durou cerca de um m\u00eas e meio e contou com 12 encontros, o que correspondeu a cerca de um ter\u00e7o do total do curso. Durante esse per\u00edodo n\u00f3s estudamos n\u00e3o apenas o campo tem\u00e1tico espec\u00edfico, com a exposi\u00e7\u00e3o e discuss\u00e3o aprofundadas sobre os princ\u00edpios te\u00f3ricos e das t\u00e9cnicas da agricultura sintr\u00f3pica e dos sistemas agroflorestais, mas tamb\u00e9m o contexto hist\u00f3rico e geogr\u00e1fico da Vila, suas transforma\u00e7\u00f5es ao longo do tempo, a hidrografia local e a hist\u00f3ria do encobrimento dos rios de S\u00e3o Paulo, em especial o Rio Itoror\u00f3. Este trabalho de \u201cobserva\u00e7\u00e3o\u201d pr\u00e9vio, que significa mais propriamente um estudo minucioso do local (em seu contexto micro e macro), incluiu tamb\u00e9m diversas incurs\u00f5es ao \u201cp\u00e1tio das casas\u201d da Vila, onde seria o local de nossa interven\u00e7\u00e3o, com visitas a campo para mapeamento, identifica\u00e7\u00e3o e [re]conhecimento do espa\u00e7o.<br \/>\nNessa primeira etapa de levantamentos em campo, utilizamos os cl\u00e1ssicos esquemas e metodologias da permacultura como a \u201cleitura da paisagem\u201d, em seu sentido mais amplo, que inclui a paisagem social e cultural, al\u00e9m da ambiental, e o mapeamento dos \u201csetores de influ\u00eancia\u201d, adaptados \u00e0 realidade de uma \u00e1rea extremamente urbanizada e central da cidade, incluindo a interpreta\u00e7\u00e3o dos ventos, chuvas, insola\u00e7\u00e3o\/ilumina\u00e7\u00e3o, umidade, relevo, contamina\u00e7\u00e3o dos solos e \u00e1guas, vizinhan\u00e7a, estruturas constru\u00eddas presentes, entre outras influ\u00eancias pertinentes.<br \/>\nA partir da\u00ed, come\u00e7amos a entender o tamanho da complexidade e dos obst\u00e1culos, f\u00edsicos e t\u00e9cnicos, que ter\u00edamos que transpor para prosseguir com o nosso trabalho. Um dos primeiros e principais desafios que encontramos foram as caixas de inspe\u00e7\u00e3o e tubula\u00e7\u00f5es dos antigos esgotos da Vila. N\u00e3o havia um mapeamento completo ou satisfat\u00f3rio realizado anteriormente pelas equipes de engenharia e arquitetura, de modo que ningu\u00e9m sabia ao certo o que esperar encontrar ali. Por isso, nos vimos obrigados a realizar n\u00f3s mesmos tal mapeamento, sob pena de interromper indefinidamente nosso processo de trabalho. Assim, um levantamento completo de todas as tubula\u00e7\u00f5es, caixas de inspe\u00e7\u00e3o e das \u00e1guas que passam pelo local foi realizado, incluindo a an\u00e1lise das duas fontes de \u00e1gua existentes que n\u00e3o s\u00e3o provenientes de esgotos. As an\u00e1lises resultaram \u00e1guas n\u00e3o contaminadas, e a nascente do \u201cItoror\u00f3 Mirim\u201d, um dos afluentes do Rio Itoror\u00f3, que nasce dentro da Vila, embora canalizada, mostrou-se uma \u00e1gua de excelente qualidade, da qual inclusive nos servimos muitas vezes para nos refrescarmos depois de longas horas de trabalho com a terra.<\/p>\n<p>Com os levantamentos, descobrimos que havia um vazamento antigo de um esgoto de \u00e1guas cinzas provenientes da lavanderia de um vizinho, que eram indevidamente lan\u00e7adas para dentro da Vila, e como as tubula\u00e7\u00f5es estavam rachadas, o vazamento para o solo da Vila era constante. Esse processo estava acontecendo h\u00e1 pelo menos 2 anos ou mais<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote5sym\" name=\"sdfootnote5anc\"><sup>5<\/sup><\/a>. Para corrigir o problema de forma imediata e razoavelmente satisfat\u00f3ria, propusemos e implementamos um \u201cc\u00edrculo de bananeiras\u201d, um sistema biol\u00f3gico que funciona como um \u201cfiltro\u201d para as \u00e1guas cinzas<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote6sym\" name=\"sdfootnote6anc\"><sup>6<\/sup><\/a>. Posteriormente, a equipe de engenharia respons\u00e1vel pelas obras da Vila poderia, a qualquer tempo, simplesmente desviar a tubula\u00e7\u00e3o irregular que o vizinho mantinha, canalizando essas \u00e1guas de um modo adequado para a rede p\u00fablica local, sem preju\u00edzo para nenhuma das partes envolvidas, e sem que isso afetasse significativamente a agrofloresta. Assim, tivemos o aval da equipe de arquitetura para prosseguir com o nosso trabalho e resolver os problemas de saneamento ambiental locais, de modo a dar sequ\u00eancia \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o da agrofloresta, sem causar danos colaterais ao ambiente.<br \/>\nUm segundo filtro biol\u00f3gico, desta vez com plantas aqu\u00e1ticas (macr\u00f3fitas), foi tamb\u00e9m implementado numa das caixas de inspe\u00e7\u00e3o, que recebia ainda \u00e1guas residuais de uma das tubula\u00e7\u00f5es antigas de dentro da pr\u00f3pria Vila, de modo a fitorremediar essa \u00faltima fonte de \u201ccontamina\u00e7\u00e3o\u201d por \u00e1guas cinzas que ainda passavam pela \u00e1rea. A solu\u00e7\u00e3o encontrada tamb\u00e9m serviu para integrar esse \u201cobst\u00e1culo\u201d f\u00edsico (a caixa de cimento) como mais um elemento do sistema vivo total, agregando ainda um componente est\u00e9tico e de paisagismo funcional \u00e0 agrofloresta, o que nos lembra do princ\u00edpio \u201ccada elemento executa muitas fun\u00e7\u00f5es\u201d (Mollison, 1988).<br \/>\nUma vez que hav\u00edamos resolvido o problema do esgoto irregular na \u00e1rea &#8211; que era o mais urgente e complexo &#8211; tivemos finalmente a oportunidade de come\u00e7ar o trabalho com a terra. Essa primeira etapa em campo n\u00e3o foi nada f\u00e1cil porque havia no local, al\u00e9m de tudo, uma quantidade imensa de entulho e lixo com aproximadamente 5m\u00b3 de materiais acumulados por d\u00e9cadas de descarte irregular e mau uso do solo e dos recursos locais, motivados por uma s\u00e9rie de fatores socioecon\u00f4micos, pol\u00edticos e ambientais. Retiramos cuidadosa e sistematicamente pilhas imensas de concreto, tijolos e telhas, al\u00e9m de todo tipo de pl\u00e1stico, vidro e metal que encontramos. Apenas depois disso \u00e9 que pudemos, ent\u00e3o, iniciar o planejamento dos plantios.<br \/>\nT\u00ednhamos em m\u00e3os os nossos antigos esquemas te\u00f3ricos sobre como poder\u00edamos ou gostar\u00edamos de [re]criar a paisagem no local. No entanto, depois de remexer a terra, desenterrar seu passado e criar solu\u00e7\u00f5es efetivas para os problemas que ali havia, o design \u201cideal\u201d parecia brotar da pr\u00f3pria paisagem. Nesse ponto do processo, foi interessante notar que esse design n\u00e3o surgiu das nossas cabe\u00e7as e projetos abstratos, mas efetivamente do trabalho concreto e constante com a \u201cpaisagem\u201d real, pisando e nos sujando de terra, \u00e1gua e vida. O trabalho de \u201crevelar\u201d ou \u201cdesvelar\u201d o desenho mais pr\u00f3ximo de um design \u201cideal\u201d da paisagem concreta \u00e9 muito mais um trabalho de sensibiliza\u00e7\u00e3o do olhar coletivo, m\u00e3os na terra e envolvimento com a realidade, do que um planejamento te\u00f3rico sa\u00eddo de mentes \u201cbrilhantes\u201d de um ou outro permacultor individualmente.<br \/>\nO que foi se tornando claro para n\u00f3s a partir de ent\u00e3o, foi que o c\u00edrculo de bananeiras, embora estivesse na borda, em um dos extremos da \u00e1rea, era o \u201ccentro\u201d de onde deveria partir o nosso plantio, uma vez que era de fato dele que \u201cirradiava\u201d a \u00e1gua, energia e biomassa do futuro sistema. Tudo come\u00e7ou ali, com um problema de esgoto irregular e mal tratado, transformado em muita vida biol\u00f3gica, adubo, plantas, folhas, frutos e umidade que era dispersa por todo o ambiente. Aqui vimos na pr\u00e1tica a \u201cm\u00e1xima\u201d de Bill Mollison se tornando evidente: \u201co problema \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o\u201d (Mollison &amp; Slay, 1998). N\u00e3o apenas n\u00e3o era poss\u00edvel prever quais problemas encontrar\u00edamos no espa\u00e7o, como \u2013 a rigor \u2013 n\u00e3o seria nossa responsabilidade corrigi-los, pois do ponto de vista estritamente profissional, eu n\u00e3o havia sido contratado para tal. Mas lidar com esse problema da paisagem na qual pretend\u00edamos intervir nos deu a grande oportunidade de encontrar a solu\u00e7\u00e3o mais adequada e potente para o desenho do nosso sistema.<br \/>\nCome\u00e7amos ent\u00e3o a \u201cdesenhar\u201d os canteiros \u2013 dessa vez no solo \u2013 que pareciam espontaneamente irradiar a partir do c\u00edrculo, preenchendo toda a \u00e1rea. Havia tamb\u00e9m um pequeno declive do c\u00edrculo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s extremidades dos \u201craios\u201d, de modo que a energia e a \u00e1gua tendiam a escoar no sentido dos canteiros. Delineamos e levantamos os canteiros todos, seguindo esta l\u00f3gica e respeitando tamb\u00e9m todos os outros obst\u00e1culos do local, como as muitas caixas de inspe\u00e7\u00e3o (de cimento), o po\u00e7o de \u00e1gua suja, por\u00e9m n\u00e3o contaminada, e um p\u00e9 de manga j\u00e1 bem grande que sombreava boa parte da \u00e1rea.<\/p>\n<p>Conforme os participantes iam se apropriando das t\u00e9cnicas e princ\u00edpios apresentados ao longo do curso, come\u00e7avam a trazer suas pr\u00f3prias sugest\u00f5es, diferentes propostas e iniciativas para complementar e ampliar o escopo do projeto, abarcando outras dimens\u00f5es, l\u00fadicas e sociais, que nossa interven\u00e7\u00e3o poderia agregar ao lugar. A experi\u00eancia tornou-se cada vez mais uma constru\u00e7\u00e3o coletiva e aut\u00f4noma, embora sempre sob uma coordena\u00e7\u00e3o. Mas ficou muito claro nesse processo, que mesmo pessoas sem nenhuma experi\u00eancia pr\u00e9via em uma \u00e1rea considerada por todos t\u00e3o dif\u00edcil e complexa como a agricultura natural, podem se envolver, aprender, se apaixonar e se apropriar do manejo da vida e do espa\u00e7o p\u00fablico para o bem coletivo e produzindo abund\u00e2ncia para o \u201cpr\u00f3ximo\u201d, sem medo, sem ego\u00edsmo e sem avareza.<\/p>\n<p>Diversas ideias e \u201csubprojetos\u201d foram desenvolvidos, liderados pelos pr\u00f3prios alunos, a exemplo de uma engenhoca de puxar \u00e1gua do po\u00e7o para servir \u00e0 irriga\u00e7\u00e3o do plantio, como ferramenta l\u00fadica para crian\u00e7as e como equipamento did\u00e1tico agregado \u00e0 agrofloresta. Outra ideia para utilizar a \u00e1gua de forma l\u00fadica e prazerosa &#8211; nesse caso com a \u00e1gua limpa e refrescante da fonte &#8211; foi a de construir um deck onde se pudesse sentar e bombear a \u00e1gua para tomar uma \u201cducha natural\u201d ali mesmo. Com a necessidade de proteger os canteiros e melhor delimit\u00e1-los aos visitantes, sugeriu-se uma parceria com a marcenaria da Vila (outra oficina simult\u00e2nea), e come\u00e7amos a delimit\u00e1-los com pequenas ripas de madeira (Figura 1), o que gerou um acabamento est\u00e9tico muito mais bonito e did\u00e1tico para o local. Uma das alunas que trabalhava com costura resolveu fazer uma esp\u00e9cie de \u201cestandarte\u201d para a agrofloresta, em refer\u00eancia a uma estatueta de um \u201cmago\u201d encontrada num dos po\u00e7os que limpamos na Vila. Outra aluna come\u00e7ou a organizar o material antigo encontrado enterrado no solo, como moedas, brinquedos e objetos dos moradores, numa esp\u00e9cie de altar da \u201carqueologia\u201d local. Enfim, as ideias foram surgindo e a agrofloresta da Vila Itoror\u00f3 foi se tornando algo muito maior do que um simples projeto de plantio. Dessa forma, para cada novo problema ou obst\u00e1culo que encontr\u00e1vamos, uma solu\u00e7\u00e3o bastante criativa aparecia, e com muita alegria e disposi\u00e7\u00e3o todos co-laboravam para torn\u00e1-la realidade.<\/p>\n<div id=\"attachment_58\" style=\"width: 710px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura01.png\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-58\" class=\"wp-image-58 size-large\" src=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura01-700x933.png\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"933\" srcset=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura01-700x933.png 700w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura01-225x300.png 225w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura01-768x1024.png 768w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura01-800x1066.png 800w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura01.png 1076w\" sizes=\"(max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-58\" class=\"wp-caption-text\">Figura 1: Detalhe dos canteiros delimitados com ripas de madeira.<\/p><\/div>\n<p>Finalmente, ap\u00f3s todo o trabalho de prepara\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito, da mente, do solo e das m\u00e3os, havia chegado a hora de plantar propriamente! Escolhemos as esp\u00e9cies, juntamos as boas sementes de que disp\u00fanhamos, fomos em busca das mudas de \u00e1rvores (principalmente as nativas) e come\u00e7amos a sistematizar o plantio. Fomos plantando aos poucos, de modo organizado e sistem\u00e1tico. Conseguimos com a Prefeitura, por uma colabora\u00e7\u00e3o totalmente gratuita, o material para a cobertura dos canteiros, oriundo de podas j\u00e1 trituradas das \u00e1rvores da cidade, assim como um material extremamente precioso para a cobertura dos caminhos, constitu\u00eddo de tocos e galhos de \u00e1rvores da cidade &#8211; nesse caso, de Ficus e Cedro. Fizemos um trabalho minucioso e com muita dedica\u00e7\u00e3o para o <i>design<\/i> destes caminhos de tocos para que ficassem o mais bem cobertos poss\u00edvel (Figura 2).<\/p>\n<div id=\"attachment_59\" style=\"width: 710px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura02.png\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-59\" class=\"size-large wp-image-59\" src=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura02-700x702.png\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"702\" srcset=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura02-700x702.png 700w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura02-300x300.png 300w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura02-150x150.png 150w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura02-768x770.png 768w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura02-800x802.png 800w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura02.png 805w\" sizes=\"(max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-59\" class=\"wp-caption-text\">Figura 2 : Detalhe dos caminhos cobertos por tocos.<\/p><\/div>\n<p><span id=\"Quadro2\" dir=\"ltr\"><\/span>As fun\u00e7\u00f5es desses acabamentos para o sistema s\u00e3o muitas: a est\u00e9tica, porque um caminho com troncos de cedro, que seriam provavelmente descartados em aterros da cidade, \u00e9 como um \u201ctapete vermelho\u201d para a agrofloresta e, al\u00e9m disso, oferece um destino muito mais nobre para estes res\u00edduos florestais urbanos. A did\u00e1tica de uma a\u00e7\u00e3o como essa \u00e9 poder ajudar as pessoas a entenderem melhor a fun\u00e7\u00e3o e utilidade que podemos dar \u00e0s \u00e1rvores e madeira em geral, pois esta solu\u00e7\u00e3o \u00e9 muito melhor que um caminho de asfalto ou cimento, que s\u00e3o imperme\u00e1veis, tanto quanto \u00e9 melhor do que se fosse apenas terra batida e exposta, gerando um lama\u00e7al e compactando cada vez mais o solo. A madeira no caminho e nos canteiros ajuda a absorver o excesso de \u00e1gua das chuvas e tamb\u00e9m \u00e9 uma reserva de \u00e1gua para os tempos de seca, de valor incalcul\u00e1vel para o ecossistema. Al\u00e9m disso, \u00e0 medida que a madeira vai apodrecendo, torna-se um excelente adubo para a cria\u00e7\u00e3o de solos mais f\u00e9rteis, porque favorece a prolifera\u00e7\u00e3o de fungos, bact\u00e9rias decompositoras, insetos e uma enorme rede de rela\u00e7\u00f5es bi\u00f3ticas extremamente ben\u00e9ficas para o aumento da resili\u00eancia dos sistemas vivos e da sa\u00fade do solo.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil para a maioria das pessoas<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote7sym\" name=\"sdfootnote7anc\"><sup>7<\/sup><\/a> compreender ou mesmo acreditar nisso &#8211; o quanto \u00e9 poss\u00edvel produzir de vida em apenas 100 metros quadrados como foi o nosso caso. Ainda com tantas adversidades pesando contra, como o fato de estarmos no centro da maior metr\u00f3pole do continente e estarmos passando, \u00e0quela \u00e9poca, pela maior \u201ccrise h\u00eddrica\u201d da hist\u00f3ria da cidade e da regi\u00e3o sudeste do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas o fato \u00e9 que ali, em um contexto t\u00e3o adverso e restrito, plantamos in\u00fameras mudas de \u00e1rvores nativas da mata atl\u00e2ntica, quase 30 mudas de bananeiras, taiobas, inhames; incont\u00e1veis sementes de mam\u00e3o, feij\u00e3o, milho, mandioca, quiabo, berinjela, repolho roxo, couve, br\u00f3colis, almeir\u00e3o, alface e outras hortali\u00e7as; plantas aliment\u00edcias n\u00e3o-convencionais (PANC) como capuchinha, peixinho e diversas plantas espont\u00e2neas como serralha, caruru, plantas medicinais (babosa, pariparoba, boldos, capim-cidreira, etc.); aduba\u00e7\u00f5es verdes como o amendoim, amendoim bravo, aveia preta, crotal\u00e1ria, feij\u00e3o guandu, gergelim, girassol, feij\u00e3o lab lab, tabaco, e muitas flores silvestres. Enfim, implementamos um sistema extremamente biodiverso com ao menos 60 esp\u00e9cies distintas e muitos indiv\u00edduos de cada esp\u00e9cie, que ofertaram colheitas iniciais em pouqu\u00edssimo tempo, e muitas outras ainda viriam.<\/p>\n<p>Tivemos ainda uma r\u00e1pida minioficina dentro do curso de agrofloresta sobre abelhas nativas sem ferr\u00e3o (mel\u00edponas) e introduzimos uma colmeia de Jata\u00ed em uma caixa did\u00e1tica, para os futuros visitantes da Vila poderem aprender mais sobre as esp\u00e9cies nativas e sua import\u00e2ncia para a poliniza\u00e7\u00e3o de todas as esp\u00e9cies de plantas dos biomas brasileiros. Al\u00e9m desta, havia ainda outra colmeia da mesma esp\u00e9cie, espontaneamente alojada numa das paredes ao lado da agrofloresta; e tamb\u00e9m instalamos mais algumas \u201ciscas\u201d com intuito de aumentar a quantidade de moradoras mel\u00edponas no local, fortalecendo assim o sistema agroflorestal e aumentando a sintropia<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote8sym\" name=\"sdfootnote8anc\"><sup>8<\/sup><\/a> e resili\u00eancia da vegeta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNossa oficina iniciou-se em agosto de 2015, mas os plantios efetivamente s\u00f3 se iniciaram por volta do meio ou final de outubro. Conclu\u00edmos o curso, entregando a agrofloresta \u00e0 cidade, em meados de dezembro, apenas dois meses ap\u00f3s o in\u00edcio dos plantios. Isso, do ponto de vista da agricultura convencional, \u00e9 um tempo extremamente curto, praticamente desprez\u00edvel em termos de produ\u00e7\u00e3o ou desenvolvimento do sistema. Nos dois meses que se seguiram, em janeiro e fevereiro de 2016, o sistema ficou praticamente \u201cabandonado\u201d, sem manejo ou mesmo visita\u00e7\u00f5es da nossa parte, uma vez que o curso oficialmente j\u00e1 havia acabado.<\/p>\n<p>Apesar da \u201ccrise h\u00eddrica\u201d que se passava em S\u00e3o Paulo, choveu intensamente nesse per\u00edodo, e gra\u00e7as a um planejamento e implementa\u00e7\u00e3o criteriosos por parte do grupo &#8211; e especialmente do trabalho de cobertura do solo sistematicamente bem-acabado, o sistema n\u00e3o apenas suportou a carga torrencial das \u00e1guas, drenando e absorvendo os excessos e evitando a eros\u00e3o do solo, como se desenvolveu incrivelmente neste per\u00edodo, de modo totalmente autossuficiente. Estivemos uma \u00fanica vez no final de janeiro para ver como as coisas estavam, fizemos muitas colheitas e manejamos alguma coisa emergencial, como as aduba\u00e7\u00f5es verdes que j\u00e1 estavam subindo sobre outras plantas. No final de fevereiro fui chamado pela equipe de ativa\u00e7\u00e3o cultural para comparecer com urg\u00eancia e acompanhar um processo na Vila que poderia gerar grande interfer\u00eancia na agrofloresta. Quando cheguei l\u00e1, as plantas estavam lindas e a floresta de apenas quatro meses j\u00e1 estava incrivelmente exuberante! Tudo estava crescendo muito r\u00e1pido e saud\u00e1vel, sem adubos, sem corre\u00e7\u00e3o de solo, sem venenos, sem irriga\u00e7\u00e3o artificial (Figura 3).<\/p>\n<div id=\"attachment_60\" style=\"width: 710px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura03.jpg\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-60\" class=\"size-large wp-image-60\" src=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura03-700x393.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"393\" srcset=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura03-700x393.jpg 700w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura03-300x169.jpg 300w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura03-768x431.jpg 768w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura03-800x449.jpg 800w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/114055_figura03.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-60\" class=\"wp-caption-text\">Figura 3: Configura\u00e7\u00e3o final da agrofloresta.<\/p><\/div>\n<p>No entanto, um incidente causado pelo excesso de chuvas e pelo p\u00e9ssimo estado de conserva\u00e7\u00e3o das edifica\u00e7\u00f5es, obrigou os arquitetos a interditarem completamente o edif\u00edcio conhecido como \u201cPalacete\u201d, o mais emblem\u00e1tico da hist\u00f3ria arquitet\u00f4nica da Vila Itoror\u00f3. O problema maior foi que justamente o lado do palacete que fazia limite com a agrofloresta, n\u00e3o teve seu \u201clevantamento arquitet\u00f4nico\u201d realizado previamente pelas equipes de arquitetura, ao contr\u00e1rio das demais fachadas do edif\u00edcio, que tinham tido o levantamento realizado anteriormente ao in\u00edcio dos trabalhos da agrofloresta. Portanto, uma s\u00e9rie de infelizes coincid\u00eancias obrigou a equipe de arquitetura a realizar este levantamento de forma emergencial, pois avaliaram que poderia haver risco de desabamento de partes do edif\u00edcio naquele momento. Por\u00e9m, como agora n\u00e3o poderiam mais entrar nele para realizarem as medi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, seria preciso passar com uma m\u00e1quina (grua) sobre a \u00e1rea da agrofloresta para fazer algumas medi\u00e7\u00f5es externas.<br \/>\nDurante uma semana acompanhei atentamente esse processo. Conversamos diversas vezes e tentamos de todas as maneiras evitar a remo\u00e7\u00e3o completa do sistema florestal. Inicialmente disseram que talvez fosse poss\u00edvel. Mas dois dias depois conclu\u00edram que n\u00e3o, e fui obrigado, junto \u00e0 equipe de funcion\u00e1rios da empreiteira, a \u201cdesmontar\u201d todo o sistema. Retiramos todas as ripas de madeira do entorno dos canteiros. Desenterramos literalmente um sem n\u00famero de plantas num solo que, embora incrivelmente f\u00e9rtil e j\u00e1 bastante estruturado, estava agora tamb\u00e9m bastante encharcado, pois havia chovido muito nos dias anteriores, e com o in\u00edcio do \u201cpisoteio\u201d da m\u00e1quina no local, a camada de prote\u00e7\u00e3o do solo havia sido destru\u00edda. Ent\u00e3o, trabalhamos muito em meio a um lama\u00e7al cada vez maior, desmontando e destruindo um trabalho t\u00e3o bonito e que tanta vida havia trazido de volta \u00e0 Vila em t\u00e3o pouco tempo. Foi dif\u00edcil, cansativo, doloroso e triste.<br \/>\nN\u00f3s sab\u00edamos que possivelmente a agrofloresta teria que ser removida um dia, afinal as obras estavam em andamento e tudo poderia acontecer. Mas n\u00e3o sab\u00edamos que seria t\u00e3o r\u00e1pido. A agrofloresta n\u00e3o completou seu primeiro ano de vida, sequer chegou aos seis meses. No final de dezembro de 2015, em parceria com uma das participantes da turma, elaboramos um \u201cPlano de Manejo\u201d para deixar como um guia \u00e0 popula\u00e7\u00e3o da cidade, aos frequentadores da Vila e a quem quisesse fazer parte do cuidado daquele espa\u00e7o coletivo, para o bem comum. Era um material in\u00e9dito e simultaneamente did\u00e1tico, pedag\u00f3gico e l\u00fadico. Uma cartilha para entender e adentrar ao universo m\u00e1gico de nossa agrofloresta. N\u00e3o chegou a ser publicada! Quando est\u00e1vamos acertando detalhes de revis\u00e3o e diagrama\u00e7\u00e3o para uma poss\u00edvel impress\u00e3o a ser disponibilizada dentro do pr\u00f3prio Espa\u00e7o Cultural da Vila, chegou a not\u00edcia do fim.<br \/>\nMas a agrofloresta n\u00e3o cansa de nos ensinar que \u201ca vida \u00e9 um fluxo e n\u00e3o uma conserva\u201d, como diria Ernst. A despeito de qualquer coisa, n\u00f3s criamos um precedente para se pensar a possibilidade de produzir alimentos saud\u00e1veis (org\u00e2nicos); a reintrodu\u00e7\u00e3o da flora e consequentemente da fauna original do bioma no qual se localiza a cidade; a cria\u00e7\u00e3o efetiva de microclimas desej\u00e1veis, ben\u00e9ficos e agrad\u00e1veis \u00e0 popula\u00e7\u00e3o; e, principalmente, a possibilidade de que tudo isso pudesse acontecer em espa\u00e7os p\u00fablicos da cidade.<br \/>\nDe fato, projetamos e implementamos a primeira agrofloresta &#8220;p\u00fablica&#8221; de S\u00e3o Paulo, o que na pr\u00e1tica significava que ter\u00edamos que aprender coletivamente &#8211; n\u00f3s todos\/as, frequentadores e usu\u00e1rios da cidade &#8211; como gerir e como nos beneficiar deste espa\u00e7o. Mas o que \u00e9 certo \u00e9 que todos\/as poderiam se beneficiar dele e, em alguma medida, isso j\u00e1 estava acontecendo. Segundo as estimativas do pr\u00f3prio Instituto Pedra, entre 2015 e 2018 cerca de 50 mil pessoas visitaram o espa\u00e7o e, durante alguns meses, puderam tamb\u00e9m conhecer e se envolver com a agrofloresta.<\/p>\n<h1 class=\"western\">Agradecimentos<\/h1>\n<p>Agrade\u00e7o a todas as agrofloresteiras e agrofloresteiros da Vila Itoror\u00f3, que se tornaram grandes amigos\/as de caminhada e parceiras\/os na constru\u00e7\u00e3o desse outro mundo poss\u00edvel, muitas das quais s\u00e3o hoje refer\u00eancias em diversas \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o permaculturais. Agrade\u00e7o tamb\u00e9m \u00e0 toda a equipe de Ativa\u00e7\u00e3o Cultural do Instituto Pedra que, ao me convidar para este trabalho, corajosamente abriu as portas do Centro Cultural em forma\u00e7\u00e3o para abra\u00e7ar uma das experi\u00eancias mais desafiadoras e inovadoras para imaginar uma cidade do futuro poss\u00edvel.<\/p>\n<h1 class=\"western\">Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/h1>\n<div id=\"ZOTERO_BIBL {&quot;uncited&quot;:[],&quot;omitted&quot;:[],&quot;custom&quot;:[]} CSL_BIBLIOGRAPHY RNDin1h5XEBxj\" dir=\"ltr\"><span style=\"font-size: small\">Andrade, D., &amp; Pasini, F. (2022). <i>Vida em Sintropia: Agricultura sintr\u00f3pica de Ernst G\u00f6tsch explicada<\/i> (1\u2013256). Labrador.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small\">Clark, K. H., &amp; Nicholas, K. A. (2013). Introducing urban food forestry: A multifunctional approach to increase food security and provide ecosystem services. <i>Landscape Ecology<\/i>, <i>28<\/i>(9), 1649\u20131669. <a class=\"western\" href=\"https:\/\/doi.org\/10.1007\/s10980-013-9903-z\">https:\/\/doi.org\/10.1007\/s10980-013-9903-z<\/a> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small\">Holmgren, D. (2013). <i>Permacultura: Princ\u00edpios e caminhos al\u00e9m da sustentabilidade<\/i>. Via Sapiens.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small\">IPESA. (2012). <i>Manejo Apropriado da \u00c1gua (Cartilha)<\/i>. FEHIDRO. <a class=\"western\" href=\"http:\/\/fluxus.eco.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Manejo-apropiado-da-agua-IPESA-v1.pdf\">http:\/\/fluxus.eco.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Manejo-apropiado-da-agua-IPESA-v1.pdf<\/a> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small\">Mollison, B. (1988). <i>Permaculture: A Designers\u2019 Manual<\/i> (8<sup>o<\/sup> ed). Tagari Publication.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small\">Mollison, B., &amp; Slay, R. M. (1998). <i>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Permacultura. Tradu\u00e7\u00e3o de Andr\u00e9 Soares<\/i>. MA\/SDR\/PNFC. <a class=\"western\" href=\"https:\/\/repositorio.ufsc.br\/handle\/123456789\/199851\">https:\/\/repositorio.ufsc.br\/handle\/123456789\/199851<\/a> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small\">Pasini, F. dos S. (2017). <i>A Agricultura Sintr\u00f3pica de Ernst G\u00f6tsch: Hist\u00f3ria, fundamentos e seu nicho no universo da Agricultura Sustent\u00e1vel<\/i>. <a class=\"western\" href=\"https:\/\/ppgciac.macae.ufrj.br\/images\/Disserta%C3%A7%C3%B5es\/FELIPE_DOS_SANTOS_PASINI_ok.pdf\">https:\/\/ppgciac.macae.ufrj.br\/images\/Disserta%C3%A7%C3%B5es\/FELIPE_DOS_SANTOS_PASINI_ok.pdf<\/a> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small\">Peneireiro, F. M. (1999). <i>Sistemas agroflorestais dirigidos pela sucess\u00e3o natural: Um estudo de caso<\/i> [Text, Universidade de S\u00e3o Paulo]. <a class=\"western\" href=\"https:\/\/doi.org\/10.11606\/D.11.1999.tde-20220207-205206\">https:\/\/doi.org\/10.11606\/D.11.1999.tde-20220207-205206<\/a> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small\">Vannozzi Brito, V., &amp; Borelli, S. (2020). Urban food forestry and its role to increase food security: A Brazilian overview and its potentialities. <i>Urban Forestry &amp; Urban Greening<\/i>, <i>56<\/i>, 126835. <a class=\"western\" href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.ufug.2020.126835\">https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.ufug.2020.126835<\/a> <\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small\">Yeomans, A. Y. (1971). <i>The City Forest: The Keyline Plan for the Human Environment<\/i>. Keyline Pub. Pty.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small\">Young, K. J. (2017). Mimicking Nature: A Review of Successional Agroforestry Systems as an Analogue to Natural Regeneration of Secondary Forest Stands. Em F. Montagnini (Org.), <i>Integrating Landscapes: Agroforestry for Biodiversity Conservation and Food Sovereignty<\/i> (p. 179\u2013209). Springer International Publishing. <a class=\"western\" href=\"https:\/\/doi.org\/10.1007\/978-3-319-69371-2_8\">https:\/\/doi.org\/10.1007\/978-3-319-69371-2_8<\/a> <\/span><\/div>\n<p>&#8212;<\/p>\n<div id=\"sdfootnote1\">\n<p class=\"sdfootnote-western\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote1anc\" name=\"sdfootnote1sym\">1<\/a> &#8211; Mestrando do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Agroecologia e Desenvolvimento Rural, PPGADR-UFSCAR, campus Araras (Centro de Ci\u00eancias Agr\u00e1rias), <a href=\"mailto:gdangelis@estudante.ufscar.br\">gdangelis@estudante.ufscar.br<\/a><\/p>\n<div id=\"sdfootnote2\">\n<p><a href=\"#sdfootnote2anc\" name=\"sdfootnote2sym\">2<\/a>\u00a0<span lang=\"pt-BR\">&#8211; Ver <\/span> &#8211; (Andrade &amp; Pasini, 2022; Pasini, 2017; Peneireiro, 1999; Young, 2017)<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote3\">\n<p><a href=\"#sdfootnote3anc\" name=\"sdfootnote3sym\">3<\/a> &#8211; A exemplo do que foi proposto por P. A. Yeomans em \u201cThe City Forest\u201d (Yeomans, 1971), ou de propostas bem mais recentes como as Florestas Urbanas de Alimento (Clark &amp; Nicholas, 2013; Vannozzi Brito &amp; Borelli, 2020) e outras propostas semelhantes.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote4\">\n<p><a href=\"#sdfootnote4anc\" name=\"sdfootnote4sym\">4<\/a> &#8211; Uma vis\u00e3o mais detalhada e documentada sobre a hist\u00f3ria da Vila, assim como sobre todo o Projeto do Canteiro Aberto pode ser encontrada no site do Instituto Pedra, respons\u00e1vel pelo projeto de restauro, curadoria e ativa\u00e7\u00e3o cultural (o Projeto \u201cVila Itoror\u00f3 &#8211; Canteiro Aberto\u201d) e gestora do espa\u00e7o durante os primeiros 3 anos do Centro Cultural (2015 a 2018), <a href=\"https:\/\/institutopedra.org.br\/projetos\/vila-itororo\/\">https:\/\/institutopedra.org.br\/projetos\/vila-itororo\/<\/a>.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote5\">\n<p><a href=\"#sdfootnote5anc\" name=\"sdfootnote5sym\">5<\/a> &#8211; Tempo transcorrido desde que os \u00faltimos moradores da Vila foram removidos, at\u00e9 a nossa descoberta.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote6\">\n<p><a href=\"#sdfootnote6anc\" name=\"sdfootnote6sym\">6<\/a> &#8211; Para uma compreens\u00e3o e visualiza\u00e7\u00e3o mais clara deste e outros sistemas de saneamento ecol\u00f3gico, ver a cartilha do IPESA sobre Manejo Apropriado da \u00c1gua (IPESA, 2012), onde estes sistemas s\u00e3o bem detalhados, com ilustra\u00e7\u00f5es bastante did\u00e1ticas.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote7\">\n<p><a href=\"#sdfootnote7anc\" name=\"sdfootnote7sym\">7<\/a> &#8211; Incluindo muitos engenheiros agr\u00f4nomos e agricultores.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote8\">\n<p><a href=\"#sdfootnote8anc\" name=\"sdfootnote8sym\">8<\/a> &#8211; Entendida aqui como o n\u00edvel de complexidade, intera\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00e3o interna do sistema.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto relata a experi\u00eancia ocorrida na ic\u00f4nica Vila Itoror\u00f3, em S\u00e3o Paulo, no ano de 2015, a partir de uma Oficina de Agrofloresta ministrada pelo autor, que resultou na implanta\u00e7\u00e3o da Primeira Agrofloresta P\u00fablica de S\u00e3o Paulo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"menu_order":1,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"issuem_issue":[7],"issuem_issue_categories":[5],"issuem_issue_tags":[],"coauthors":[2],"class_list":["post-92","article","type-article","status-publish","format-standard","hentry","issuem_issue-primavera-2023","issuem_issue_categories-relato-experiencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/article\/92","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/article"}],"about":[{"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/types\/article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=92"}],"version-history":[{"count":23,"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/article\/92\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":350,"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/article\/92\/revisions\/350"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=92"}],"wp:term":[{"taxonomy":"issuem_issue","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/issuem_issue?post=92"},{"taxonomy":"issuem_issue_categories","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/issuem_issue_categories?post=92"},{"taxonomy":"issuem_issue_tags","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/issuem_issue_tags?post=92"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=92"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}