{"id":269,"date":"2024-12-12T11:11:31","date_gmt":"2024-12-12T14:11:31","guid":{"rendered":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/?post_type=article&#038;p=269"},"modified":"2025-02-04T19:12:17","modified_gmt":"2025-02-04T22:12:17","slug":"e21202405","status":"publish","type":"article","link":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/article\/e21202405\/","title":{"rendered":"Aterrar na permacultura em favor de outros mundos poss\u00edveis na era do antropoceno"},"content":{"rendered":"<p><i><b>Grounding in Permaculture for other possible worlds in the Anthropocene Age<\/b><\/i><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/orcid.org\/0000-0003-3564-7288\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-61 size-full\" src=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/09\/ORCIDiD_icon24x24.png\" alt=\"\" width=\"24\" height=\"24\" \/><\/a> SANTOS, Francisca Fanka Pereira dos<sup><span style=\"font-size: medium\"><a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote1sym\" name=\"sdfootnote1anc\">1<\/a><\/span><\/sup><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\"><i>Submetido em 26jun2024. Aceito em 11dez2024.<\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\"><i>Revis\u00e3o por Let\u00edcia Magalh\u00e3es Fernandes e Priscila Silva de FIgueiredo<\/i><\/span><\/p>\n<p><em>DOI: <\/em><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.5281\/zenodo.14751274\"><em>https:\/\/doi.org\/10.5281\/zenodo.14751274\u00a0<\/em><\/a><\/p>\n<p><b>Resumo<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Este artigo tem como objetivo apresentar uma leitura da permacultura a partir dos estudos cr\u00edticos da Virada Ontol\u00f3gica da Antropologia e Filosofia da Ci\u00eancia na Era do Antropoceno. Parte da hip\u00f3tese de fic\u00e7\u00e3o pol\u00edtica apresentada por Bruno Latour e da afirma\u00e7\u00e3o de um Novo Regime Clim\u00e1tico, que avan\u00e7ou de um contexto de \u201ccrise\u201d ambiental de fins do s\u00e9culo XX, para o de \u201cmuta\u00e7\u00f5es\u201d, contemporaneamente. Esta realidade, entretanto, apesar de todas as evid\u00eancias e dados sobre o aquecimento global e suas consequ\u00eancias, vem sendo negada por uma elite neoliberal &#8211; desde a d\u00e9cada de 1980 &#8211; resultando em um movimento internacional negacionista do clima, entre outros. \u00c9 nessa conjuntura de passagem da \u201ccrise\u201d \u00e0s \u201cmuta\u00e7\u00f5es\u201d ocorridas no social, na pol\u00edtica e na biosfera da Terra, que a permacultura aparece como uma grande \u201cideia para adiar o fim do mundo\u201d, na express\u00e3o de Ailton Krenak, ou como resist\u00eancia para a Grande Virada, conforme Joanna Macy e Chris Johnstone, exigindo que entremos em a\u00e7\u00e3o e atualizemos nossa forma de pensar, agir e organizar nessa nova conjuntura de cat\u00e1strofes e ru\u00ednas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Palavras-chave: permacultura; antropoceno; novo regime clim\u00e1tico.<\/span><\/p>\n<p><b>Abstract<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">This article aims to present an interpretation of Permaculture from the perspective of critical studies within the ontological turn in Anthropology and Philosophy of Science, in the Anthropocene Age. This article is based on the hypothesis of political fiction presented by Bruno Latour and the assertion of a New Climatic Regime that has evolved from an &#8220;environmental crisis&#8221; context, characteristic of the late 20th century, to one of &#8220;mutations&#8221; in the Contemporary Age. Despite overwhelming evidence and data on global warming and its consequences, this reality has been systematically denied by a neoliberal elite \u2014since the 80s\u2014 leading to an international climate denialist movement, among other challenges. It is within this context \u2014of the shift from &#8220;crisis&#8221; to &#8220;mutations&#8221; occurring in the social, political, and biospheric dimensions of the Earth \u2014that Permaculture emerges as a significant &#8220;idea to postpone the end of the world,&#8221; as expressed by Ailton Krenak, or as a form of resistance to the &#8220;Great Turning&#8221; according to Macy and Johnstone &#8211; demanding that we must take action and update our ways of thinking, acting, and composing in this new context of catastrophes and ruins.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Keywords: permaculture; anthropocene age; new climatic regime.<\/span><\/p>\n<h1 class=\"western\">Da crise \u00e0 muta\u00e7\u00e3o<\/h1>\n<p>A d\u00e9cada de 1970 \u00e9 uma \u00e9poca paradigm\u00e1tica. Ela revela e nos informa que algo de novo estava se bulindo, se contorcendo, se esgar\u00e7ando na cena planet\u00e1ria, permitindo a emerg\u00eancia de importantes movimentos de protestos e rupturas contra um modo de vida ocidental, marcado por uma modernidade industrial, baseada em combust\u00edveis f\u00f3sseis, explora\u00e7\u00e3o, consumo e degenera\u00e7\u00e3o de ecossistemas. Contra uma crise que era tanto ambiental como cultural, mundos outros emergiram, com destaque para as lutas feministas em uma segunda grande onda de mobiliza\u00e7\u00f5es, denunciando a viol\u00eancia contra as mulheres e a natureza, al\u00e9m da amplia\u00e7\u00e3o das lutas antirracistas pelos direitos civis, nos EUA, j\u00e1 lideradas por Luther King, Rosa Parks, Malcon X e os Panteras Negras. Inicia-se ali, o que hoje \u00e9 o movimento LGBTQIAPN+<sup><a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote2sym\" name=\"sdfootnote2anc\">2<\/a><\/sup> a partir dos conflitos entre policiais, <i>gays<\/i> e l\u00e9sbicas, em 28 de junho de 1969, que passou a ser historicamente reconhecida como o dia do orgulho relacionada \u00e0 sigla acima citada. Podemos ainda falar da presen\u00e7a transgressora de uma gera\u00e7\u00e3o punk, bem como manifesta\u00e7\u00f5es contra a guerra no Vietn\u00e3 (1975) e outras favor\u00e1veis \u00e0s revolu\u00e7\u00f5es, como a dos cravos em Portugal (1974) e a iraniana (1979), entre outros acontecimentos. A lista de movimentos de resist\u00eancia \u00e9 enorme.<\/p>\n<p>Do lado ambiental, surgem os ativismos ecol\u00f3gicos, em que se destacam a cria\u00e7\u00e3o do Greenpeace, em 1971; o primeiro Partido Verde, na Austr\u00e1lia (1972) e Inglaterra; a pauta antinuclear, o movimento Chipko na \u00cdndia, liderado por mulheres em favor das florestas, assim como a luta em defesa do lago Pedder e do rio Franklin, na Austr\u00e1lia, que foi um dos movimentos ambientais de maior relev\u00e2ncia internacional. \u00c9 desse per\u00edodo, tamb\u00e9m, o in\u00edcio da cria\u00e7\u00e3o de Tamera (1978), um bi\u00f3topo de cura e paz da terra, atualmente localizado em Portugal, bem como o surgimento de importantes reflex\u00f5es e publica\u00e7\u00f5es como o livro Liberta\u00e7\u00e3o Animal (Singer, 1990), que foi um marco pol\u00edtico nesse per\u00edodo, sobretudo com a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos dos Animais, no final dos anos setenta (UNESCO, 1978). Esta d\u00e9cada revela ainda, o que todos j\u00e1 pressupunham, mas que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o havia sido tecnicamente mensurado: o relat\u00f3rio produzido pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts &#8211; MIT, publicado em 1972 pela cientista Donella Meadows<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote3sym\" name=\"sdfootnote3anc\"><sup>3<\/sup><\/a>, que exp\u00f5e a limita\u00e7\u00e3o do modelo de gest\u00e3o do capitalismo e o crescimento econ\u00f4mico sem limites.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa \u00e9poca revolucion\u00e1ria de importantes retomadas &#8211; como os movimentos citados e ainda, os da agroecologia, agricultura natural e biodin\u00e2mica, que a permacultura nasce, a partir das propostas de Bill Mollison e David Holmgren. Ela emerge \u201cinicalmente como uma alternativa \u00e0 agricultura insustent\u00e1vel e impermanente da Revolu\u00e7\u00e3o Verde\u201d (Ferreira-Neto, 2018), e em seguida, se torna uma ci\u00eancia de planejamento de assentamentos humanos que permite recuperar ecossistemas alterados em sua biogeoqu\u00edmica pelas a\u00e7\u00f5es antr\u00f3picas. A permacultura, segundo (Holmgren, 2013, p. 30), aparece como \u201cuma das alternativas ambientais que surgiram a partir da primeira grande onda da moderna conscientiza\u00e7\u00e3o ambiental\u201d, logo ap\u00f3s os dados sobre os limites ao crescimento econ\u00f4mico, feitos a pedido do Clube de Roma, e a crise do petr\u00f3leo, respectivamente em 1972 e 1975.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas cinco d\u00e9cadas, conforme podemos verificar em sua historiografia, a permacultura &#8211; essa ci\u00eancia sist\u00eamica para perman\u00eancia humana e n\u00e3o humana na Terra &#8211; vem sendo praticada mundialmente, sistematizando e disseminando um conjunto de tecnologias nas \u00e1reas de saneamento b\u00e1sico, recursos h\u00eddricos, energ\u00e9ticos, sistemas alimentares, entre outros. Do ponto de vista de sua organiza\u00e7\u00e3o, promoveu encontros nacionais e internacionais, capacita\u00e7\u00f5es e cursos de <i>design<\/i> em permacultura (PDC do ingl\u00eas), consolidando-se como uma importante ferramenta de recupera\u00e7\u00e3o de ecossistemas. Esta ferramenta chega no s\u00e9culo XXI como um destacado aporte pr\u00e1tico e te\u00f3rico para contribuir com o enfrentamento \u00e0 atual crise clim\u00e1tica, sobretudo porque constatamos, quase de forma desesperada, que os estudos, o alerta e as den\u00fancias realizadas at\u00e9 hoje para mitigar o avan\u00e7o das cat\u00e1strofes ambientais e culturais, n\u00e3o foram suficientemente levados em considera\u00e7\u00e3o, revelando o quanto o capitalismo, filho da coloniza\u00e7\u00e3o e neto do patriarcado, continua devastando, dizimando e colonizando impiedosamente o planeta.<\/p>\n<p>Cinco d\u00e9cadas ap\u00f3s o surgimento da permacultura, n\u00e3o estamos mais na \u201ccrise\u201d descrita da d\u00e9cada de 1970, mas sim, dramaticamente, no centro de uma \u201cmuta\u00e7\u00e3o\u201d (Latour, 2020, p. 23) planet\u00e1ria, causada pelo aceleramento radical do crescimento econ\u00f4mico sem limites. Podemos exemplificar as bases dessa muta\u00e7\u00e3o, com dados que explicam essa trag\u00e9dia. Segundo (Figueir\u00f3, 2020, p. 19), registra-se no cen\u00e1rio planet\u00e1rio de \u201ccem a mil vezes mais perda de esp\u00e9cies por unidade de tempo do que a din\u00e2mica material de extin\u00e7\u00e3o ao longo das eras geol\u00f3gicas\u201d, o que sugere Ellis e Ramankutty apud Figueir\u00f3 (2020, p. 18) \u201cpropor a substitui\u00e7\u00e3o do termo biomas por \u2018antromas\u2019, devido ao alto n\u00edvel de destrui\u00e7\u00e3o ambiental pela interfer\u00eancia humana\u201d. Esses e outros dados das muta\u00e7\u00f5es, tais como a degenera\u00e7\u00e3o dos biomas, as pandemias, o aumento da concentra\u00e7\u00e3o de CO<sub>2<\/sub> na atmosfera, entre outros riscos ambientais, nos conduzem, segundo (Macy &amp; Johnstone, 2020), a um \u201cgrande desmoronamento\u201d que \u00e9, entre outros, o esgotamento de sistemas naturais, ou segundo a cosmologia Yanomami, \u201ca queda do c\u00e9u\u201d (Kopenawa &amp; Albert, 2015). Para este povo, o c\u00e9u, que \u00e9 sustentado pelas for\u00e7as espirituais que garantem ordem e o equil\u00edbrio do mundo, est\u00e1 prestes a despencar. Assim, como para os Yanomami, h\u00e1 um mito dos ind\u00edgenas Cariris sobre a \u201cpedra da Batateira\u201d (Cariry, 2019) sustentada ancestralmente pela cauda de uma grande baleia. Este ser que sustenta a pedra \u00e9 quem impede as \u00e1guas subterr\u00e2neas de invadir o vale do Cariri cearense. Tanto o desabar dessa \u2018pedra\u2019, convergente com o mito sobre o desabar do teto do c\u00e9u, que \u00e9 sustentado, suspenso e considerado aos peda\u00e7os pelos xam\u00e3s Yanomami, revelam caminhos, palavras e vis\u00f5es diferentes, mas \u00e9 percept\u00edvel que apontam para uma mesma situa\u00e7\u00e3o catastr\u00f3fica! Com o aumento da temperatura e as consequ\u00eancias da degenera\u00e7\u00e3o dos ecossistemas no mundo inteiro, anunciadas pelos estudos cient\u00edficos do clima e pela pr\u00f3pria realidade dos desastres ambientais &#8211; a exemplo da COVID-19, inunda\u00e7\u00f5es, queimadas, entre outros &#8211; tudo vem caindo sobre nossas cabe\u00e7as ditas civilizadas: o c\u00e9u, a pedra, o v\u00e9u e finalmente a ficha! N\u00e3o que essa ficha j\u00e1 n\u00e3o tenha ca\u00eddo antes para muitos povos de Abya Yala<sup><a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote4sym\" name=\"sdfootnote4anc\">4<\/a><\/sup>, desde o massacre da coloniza\u00e7\u00e3o de um povo origin\u00e1rio que se fez caboclo, nordestino &#8211; peregrinos e retirantes da seca.<\/p>\n<p>Nesse sentido, os dados e as informa\u00e7\u00f5es que v\u00eam apresentando essa muta\u00e7\u00e3o, explicam o debate cient\u00edfico em torno do que passamos a chamar, a partir do ano 2000, de acordo com os meteorologistas Paul Crutzen e Eugene Stoermer, de uma nova era geol\u00f3gica &#8211; o antropoceno<sup><span style=\"font-size: medium\"><a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote5sym\" name=\"sdfootnote5anc\">5<\/a><\/span><\/sup>. Trata-se de \u201cum per\u00edodo hist\u00f3rico no qual os humanos se tornaram a principal for\u00e7a produtora de mudan\u00e7as na Terra\u201d (Freyesleben, 2023, p. 2), no qual, do ponto de vista paradigm\u00e1tico, na ci\u00eancia e na hist\u00f3ria, come\u00e7amos a nos entender como agentes geol\u00f3gicos implicados com uma autoridade fundamental: a intrus\u00e3o de gaia, na acep\u00e7\u00e3o de (Stengers, 2018); um novo regime clim\u00e1tico, de acordo com Latour (2020); uma era do Negroceno, conforme (Ferdinand, 2022); o Chthuluceno, segundo (Haraway, 2022), entre outras designa\u00e7\u00f5es e interpreta\u00e7\u00f5es como Capitaloceno, Plantatioceno e Euroceno<sup><a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote6sym\" name=\"sdfootnote6anc\">6<\/a><\/sup>.<\/p>\n<p>Tais designa\u00e7\u00f5es para ler esta Era do antropoceno, s\u00e3o concomitantes a outro mundo que nasce t\u00e3o forte quanto foram as retomadas das lutas e contesta\u00e7\u00f5es da d\u00e9cada de 1970: a emerg\u00eancia de uma extrema-direita neoliberal, fascista e negacionista que se alastra pelo mundo inteiro e que nega, arrogantemente e covardemente, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e todas as consequ\u00eancias ambientais que o planeta est\u00e1 passando, incluindo, agora, o questionamento da perman\u00eancia da pr\u00f3pria esp\u00e9cie humana na Terra. N\u00e3o que alguns da nossa pr\u00f3pria esp\u00e9cie j\u00e1 n\u00e3o tenham sido extintos, como podemos constatar com a dizima\u00e7\u00e3o de muitas etnias pela viol\u00eancia colonial! S\u00f3 para termos uma ideia, somente no \u201cBrasil\u201d, segundo (Pappiani, 2009, p. 8), havia antes da invas\u00e3o europeia, por exemplo, cinco milh\u00f5es de pessoas ind\u00edgenas de mais de mil etnias diferentes. Se na atualidade s\u00f3 existem 305 diferentes etnias (IBGE, 2023), \u00e9 porque com a coloniza\u00e7\u00e3o, houve um genoc\u00eddio. Essa dizima\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rio colonizado se deu, entretanto, n\u00e3o devido a uma crise ecol\u00f3gica, mas devido a m\u00faltiplos e cont\u00ednuos genoc\u00eddios patrocinados pela cultura ocidental.<\/p>\n<p>Na atualidade, as muta\u00e7\u00f5es (Latour, 2020) reais e j\u00e1 amplamente documentadas pelo Painel Intergovernamental sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas &#8211; IPCC<sup><span style=\"font-size: medium\"><a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote7sym\" name=\"sdfootnote7anc\">7<\/a><\/span><\/sup>, e outros \u00f3rg\u00e3os cient\u00edficos, s\u00e3o a nova vers\u00e3o planet\u00e1ria da qual precisamos nos fazer entender para situarmos nossas pautas. Se j\u00e1 constatamos que nada de grande e fundamental se fez para reverter a atual agenda do modo de opera\u00e7\u00e3o capitalista, ent\u00e3o, como a permacultura poder\u00e1 nos conduzir diante das aceleradas degenera\u00e7\u00f5es? Precisamos indagar: por que embora as an\u00e1lises cient\u00edficas estejam dispon\u00edveis e amplamente divulgadas, elas n\u00e3o conseguem mobilizar as pessoas para a necess\u00e1ria \u201cgrande virada\u201d, mesmo comunicando a iminente trag\u00e9dia encenada pelo humano? A hip\u00f3tese de fic\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Bruno Latour poder\u00e1 nos ajudar a entender, conforme veremos adiante.<\/p>\n<p>Por outro lado, esta nova realidade das muta\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas nos exige, agora mais do que nunca, que fa\u00e7amos das lutas ecol\u00f3gicas o ambiente para o encontro com as lutas decoloniais, tanto as macro como as micropol\u00edticas e, sobretudo, como iremos criar mundos em comum no contexto de uma crescente deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida na Terra. O desafio de encarar a passagem de uma etapa, que antes era de crise, para outra, de muta\u00e7\u00f5es, nos imp\u00f5e novas b\u00fassolas para nos orientarmos em diferentes jornadas e estrat\u00e9gias. Precisamos de novas percep\u00e7\u00f5es e modos de ver o mundo, uma vez que a atual realidade estremece e estra\u00e7alha antigas convic\u00e7\u00f5es e verdades que julg\u00e1vamos como certas h\u00e1 meio s\u00e9culo. Estamos sendo convidados e convidadas a refletir e revisar antigos valores de velhas oposi\u00e7\u00f5es, tais como natureza e cultura, sujeito-objeto, humanos e n\u00e3o-humanos, sustentabilidade e regenera\u00e7\u00e3o, fratura colonial e ambiental, entre outras dicotomias que desabam com a emerg\u00eancia do aquecimento global. Nesta nova conjuntura &#8211; pol\u00edtica, cultural e ambiental &#8211; necessitamos, portanto, olhar para o mundo com outras lentes, soltar os antigos pressupostos e suas certezas para usar diferentes ontologias e abordagens cr\u00edticas, a exemplo do relativismo natural e\/ou multinaturalismo, da vis\u00e3o multiesp\u00e9cie, da perspectiva da ecologia decolonial, do redesign de culturas regenerativas, do ecofeminismo, da esperan\u00e7a ativa, da micropol\u00edtica, entre outras cosmovis\u00f5es e perspectivas do pensamento contempor\u00e2neo<a href=\"#sdfootnote8sym\" name=\"sdfootnote8anc\">8<\/a>.<\/p>\n<p>Estas e outras formas de abordagens que anunciam outras maneiras poss\u00edveis de viver nesse planeta, s\u00e3o parte das grandes ideias para adiar o fim do mundo &#8211; para usar um termo de Ailton Krenak &#8211; aos quais a permacultura se soma para realizar seus di\u00e1logos e composi\u00e7\u00f5es nesse s\u00e9culo XXI. Isso nos permitir\u00e1 acionar novas b\u00fassolas orientadoras para repensar este mundo em muta\u00e7\u00e3o, um mundo que tomba, seja de cima para baixo, do c\u00e9u para terra, como de baixo para cima, vindo do mar subterr\u00e2neo, onde dorme a serpente que represa com sua cauda a grande pedra que segura as \u00e1guas da Chapada do Araripe, segundo a cosmologia Cariri. Tudo isso tomba, cai ou rola, pela imprud\u00eancia de um sistema equivocado que despreza a vida e as naturezas!<\/p>\n<h1 class=\"western\">Outras ontologias &#8211; Naturezasculturas<\/h1>\n<p>No contexto dos estudos antropol\u00f3gicos cl\u00e1ssicos, aprendemos que cultura \u00e9 algo exclusivamente humano &#8211; pr\u00e1ticas, costumes, s\u00edmbolos, h\u00e1bitos e comportamentos de pessoas vivendo em sociedades, comunidades, tribos, coletivos, entre outros. Nesse campo social os atores e atrizes s\u00e3o diferentes, atuando com variadas l\u00ednguas, artes, cren\u00e7as, ritos e mitos, enquanto a \u201cnatureza\u201d \u00e9 justamente seu oposto, se comportando homogeneamente como paisagens fixas &#8211; montanhas, rios, cachoeiras e outros (Latour, 2020). No jogo das denomina\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia moderna, constru\u00eddas pelas ideias de fil\u00f3sofos como Ren\u00e9 Descartes, do f\u00edsico Isaac Newton, desde o s\u00e9culo XVII (Capra &amp; Luisi, 2014), cultura e natureza tornaram-se campos que informaram a partir de m\u00e9todos reducionistas, abstratos e deterministas, que os elementos de um sistema n\u00e3o s\u00f3 estariam isolados no universo, mas tamb\u00e9m, independentes, entre si, separados. Separando cultura e natureza, separaram corpo e mente, mat\u00e9ria e energia, mito e realidade, humanos e n\u00e3o humanos, entre outros dualismos. O desafio ser\u00e1 sair desse padr\u00e3o dicot\u00f4mico, posto que outras pesquisas e a pr\u00f3pria realidade mostram n\u00e3o existir, no n\u00edvel mais b\u00e1sico da vida, qualquer dualidade, como cultura e n\u00e3o cultura, natureza e n\u00e3o natureza. (Morin, 2011), um dos grandes pesquisadores do pensamento complexo, se contrap\u00f5e ao dualismo, real\u00e7ando em \u201cOs sete saberes necess\u00e1rios \u00e0 educa\u00e7\u00e3o do futuro\u201d, o quanto somos 100% cultura e 100% natureza.<\/p>\n<p>O que estamos aprendendo agora com a vis\u00e3o de saberes n\u00e3o antropoc\u00eantricos, \u00e9 que esta antiga separa\u00e7\u00e3o dicot\u00f4mica entre coisas ditas \u201cnaturais\u201d e \u201cculturais\u201d est\u00e1 sendo profundamente problematizada, o que permite emergir outro tipo de relativismo &#8211; o relativismo natural (Latour, 2020), que declara que assim como existem v\u00e1rias culturas, tamb\u00e9m s\u00e3o diversas aquelas coisas que consideramos apenas uma \u201cnatureza\u201d. Latour nos explica que:<\/p>\n<blockquote class=\"western\"><p>[&#8230;] a antropologia moderna em seu tratamento etnogr\u00e1fico, tomada por uma boa-inten\u00e7\u00e3o nas suas rela\u00e7\u00f5es com culturas n\u00e3o-modernas, mas inescapavelmente fundada na dicotomia essencial Natureza\/Cultura, lan\u00e7a m\u00e3o do relativismo cultural, um multiculturalismo cujo oposto fundacional \u00e9 a unicidade da natureza (Soares, p.221, 2020).<\/p><\/blockquote>\n<p>Esta outra no\u00e7\u00e3o do relativismo natural questiona a postura etnoc\u00eantrica do relativismo cultural que diz que a cultura alheia \u00e9 uma \u201coutra em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa, mas a natureza do outro \u00e9 tal qual a nossa (mesmo que estes discordem\u201d (Soares, 2020, p. 221). Essa vers\u00e3o etnoc\u00eantrica da cultura, segundo Latour, faz parte de uma \u201ccren\u00e7a de um mundo natural \u00fanico\u201d &#8211; um pensamento proveniente da ci\u00eancia, ou melhor, de uma defini\u00e7\u00e3o err\u00f4nea das ci\u00eancias ocidentais que nega a ideia de pluriverso<sup><a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote9sym\" name=\"sdfootnote9anc\">9<\/a><\/sup> (Latour, 2018, p. 435\u2013436).<\/p>\n<p>Na cr\u00edtica ind\u00edgena o pensamento dos povos origin\u00e1rios tem desafiado estas no\u00e7\u00f5es ocidentais dicot\u00f4micas acima mencionadas, com outros sistemas de saberes ontol\u00f3gicos que retratam diferentes vers\u00f5es da(s) natureza(s), conforme podemos verificar nos grandes livros de Davi Kopenawa <i>A queda do c\u00e9u<\/i> e <i>O esp\u00edrito da floresta<\/i>, obras publicadas em parceria com o antrop\u00f3logo franc\u00eas, Bruce Albert. Estas cosmovis\u00f5es explicam um tipo de ecologia ancestral e espiritual a partir dos esp\u00edritos da floresta, os <i>xapiri pe<\/i>, e a sua comunica\u00e7\u00e3o entre o que \u00e9 humano e n\u00e3o-humano. Kopenawa ressalta, sobre a civiliza\u00e7\u00e3o dos brancos:<\/p>\n<blockquote class=\"western\"><p>O que voc\u00eas chamam de \u2018natureza\u2019 na nossa l\u00edngua \u00e9 <i>urihi<\/i> a, a terra-floresta e tamb\u00e9m sua imagem vista pelos xam\u00e3s <i>Urihinari a<\/i>. \u00c9 porque essa imagem existe que as \u00e1rvores est\u00e3o vivas. O que chamamos <i>Urinarihi a<\/i> \u00e9 o esp\u00edrito da floresta: os esp\u00edritos das \u00e1rvores <i>huutihiri pe<\/i>, das folhas <i>yaahanari pe<\/i> e dos cip\u00f3s <i>thoothoxiri pe<\/i> (Kopenawa &amp; Albert, 2023, p. 32).<\/p><\/blockquote>\n<p>A cita\u00e7\u00e3o de Ailton Krenak no trecho do seu livro <i>Futuro ancestral<\/i> (Krenak, 2022) nos mostra como a cosmovis\u00e3o do seu povo apresenta outra ideia sobre a vida, a natureza, a cultura, o tempo e a ancestralidade:<\/p>\n<blockquote class=\"western\"><p>Os rios, esses seres que sempre habitaram os mundos em diferentes formas, s\u00e3o quem me sugerem que, se h\u00e1 futuro a ser cogitado, esse futuro \u00e9 ancestral, porque j\u00e1 estava aqui. Gosto de pensar que todos aqueles que somos capazes de invocar como devir, s\u00e3o nossos companheiros de jornada, mesmo que imemor\u00e1veis, j\u00e1 que a passagem do tempo acaba se tornando um ru\u00eddo em nossa observa\u00e7\u00e3o sens\u00edvel do planeta. Mas estamos na Pacha Mama, que n\u00e3o tem fronteiras, ent\u00e3o n\u00e3o importa se estamos acima ou abaixo do rio Grande; estamos em todos os lugares, pois em tudo est\u00e3o os nossos ancestrais, os rios-montanhas, e compartilho com voc\u00eas a riqueza incontida que \u00e9 viver esses presentes (Krenak, 2022, p. 11\u201312).<\/p><\/blockquote>\n<p>Segundo Latour, o que nos impede de ver o multinaturalismo da \u201cnatureza\u201d \u00e9 o fato de que ainda a concebemos como um lugar de recurso, lugar de uso, homog\u00eaneo, fruto, claro, da nossa maneira ocidental de pensar e construir mundos dicot\u00f4micos. Trata-se, segundo este autor, de uma vis\u00e3o herdada da percep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica moderna, que explica a \u201cnatureza\u201d como uma materialidade inerte, um pressuposto nascido no s\u00e9culo XVII, que embora vigore ainda hoje, sobretudo no ocidente, n\u00e3o quer dizer que seja a \u00fanica vers\u00e3o da natureza. Essa vers\u00e3o entra em choque quando passamos a compreender que <span style=\"color: #222222\">\u201c<\/span><span style=\"color: #222222\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">a natureza, que julg\u00e1vamos um mero cen\u00e1rio, subiu ao palco reivindicando seu papel de co-protagonista na trama\u201d (Costa, 2021, p. 3), nos fazendo ver que ela tamb\u00e9m tem ag\u00eancia e que precisamos compreender natureza e cultura sem dicotomias.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p>Existe uma grande diversidade de cosmovis\u00f5es de povos que a veem n\u00e3o s\u00f3 como diversa, mas como \u201cparente\u201d, ou m\u00e3e &#8211; a Pachamama, sempre viva, atuante, farta e abundante &#8211; ou como nos termos de Latour e outros autores, como agente pol\u00edtico. Mas a vers\u00e3o n\u00e3o foi sempre essa; antes, at\u00e9 o s\u00e9culo XVI, a natureza se definia como um conceito que:<\/p>\n<blockquote class=\"western\"><p>[&#8230;] ainda podia abarcar uma cadeia de movimentos; esse \u00e9 o sentido etimol\u00f3gico da natura latina ou da phusis grega, que se poderia traduzir por origem, gera\u00e7\u00e3o, processo, curso das coisas. Todavia, a partir do s\u00e9culo seguinte, o uso da palavra \u2018natural\u2019 passou a estar cada vez mais reservada \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o de um \u00fanico tipo de movimento considerado do exterior (Latour, 2020, p. 85).<\/p><\/blockquote>\n<p>No contexto atual, entretanto, \u201cnesta nova \u00e9poca e sob este novo regime, a natureza n\u00e3o pode mais ser pensada como fonte de recursos a explorar ou espa\u00e7o a proteger\u201d (Costa, 2021, p. 3), uma vez que ela j\u00e1 mostrou seu protagonismo e suas ag\u00eancias. Essa vers\u00e3o de recurso, apenas mant\u00e9m a velha dicotomia cultura-natureza, que nos impede de ver, segundo a cr\u00edtica latouriana, as redes internas &#8211; os pluriversos- se agenciando, se movimentando&#8230; \u00c9 essa mentalidade separacionista que coloca a natureza como desvinculada das redes de conex\u00e3o, que est\u00e1 sendo profundamente questionada, uma vez que esta natureza tem ag\u00eancia e n\u00e3o \u00e9 algo pr\u00e9-existente, como uma mera paisagem que o capitalismo explora e disponibiliza como mero produto.<\/p>\n<p>Assim, quando se fala em relacionar os dois campos &#8211; natureza e cultura &#8211; para apresentar uma vis\u00e3o mais simbi\u00f3tica da vida, \u00e9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m, decolonizar esses dois conceitos modernos e desentendific\u00e1-los de uma gram\u00e1tica que \u00e9 escriptoc\u00eantrica, moderna, patriarcal, entre outras. Ser\u00e1 preciso integr\u00e1-las, sem dicotomia, no sentido dado por Donna Haraway de culturasnaturezas<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote10sym\" name=\"sdfootnote10anc\"><sup>10<\/sup><\/a> (Oliveira, 2022). No pref\u00e1cio da tradu\u00e7\u00e3o brasileira do livro <i>O cogumelo no fim do mundo<\/i>, de Anna Tsing, refor\u00e7a que:<\/p>\n<blockquote class=\"western\"><p>Romper com esse dualismo, por sua vez, implica corroer nossa pressuposi\u00e7\u00e3o de que a esp\u00e9cie humana \u00e9 excepcional, pois a \u00fanica dotada de cultura. Mundos s\u00e3o sempre mais que humanos, e \u00e9 preciso atentar para as rela\u00e7\u00f5es entre esp\u00e9cies; outras formas de vida podem nos ensinar algo, e os fungos parecem ser bons aliados para lidar com um mundo que se despeda\u00e7a (Oliveira, 2022, p. 10).<\/p><\/blockquote>\n<p>Apesar de todo um investimento em promover uma cultura e ci\u00eancia dicot\u00f4micas, que vigorou e que ainda vigora na educa\u00e7\u00e3o oficial, j\u00e1 chegamos a um n\u00edvel de problematiza\u00e7\u00e3o e compreens\u00e3o que permite a promo\u00e7\u00e3o de outras abordagens que tratam de uma ci\u00eancia n\u00e3o antropoc\u00eantrica (Domanska, 2013). J\u00e1 podemos aceitar o fato de que n\u00e3o s\u00e3o somente os humanos que podem ter uma historiografia, mas todos aqueles que antes denominamos genericamente como \u201cnatureza\u201d. Gaia, como geohist\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a hist\u00f3ria dos humanos, mas tamb\u00e9m dos n\u00e3o-humanos. Estamos falando de uma \u201cera da nova quest\u00e3o geo-social\u201d, diz Latour (2020, p. 78).<\/p>\n<p>Nessa nova compreens\u00e3o em que consideramos novas b\u00fassolas, a cr\u00edtica \u00e0 \u201cdupla fratura colonial e ambiental\u201d trazida por Malcom Ferdinand (2022), \u00e9 algo importante para n\u00f3s permacultores. Essa fenda diz respeito \u00e0 \u201cdist\u00e2ncia entre os movimentos ambientais e ecologistas, de um lado, e os movimentos p\u00f3s-coloniais e anti racistas, de outro, os quais se manifestam nas ruas e nas universidades sem se comunicar\u201d (Ferdinand, 2022, p. 23). Essa falta de comunica\u00e7\u00e3o entre as duas esferas, segundo Latour (2020) d\u00e1-se justamente devido \u00e0 maneira pela qual estes dois movimentos conceberam \u201c\u00e0 \u2018natureza\u2019, vista sem ag\u00eancia, sem a\u00e7\u00e3o alguma\u201d Para o autor:<\/p>\n<blockquote class=\"western\"><p>Toda vez que precisamos contar com a pot\u00eancia de agir de atores n\u00e3o humanos, encontramos a mesma obje\u00e7\u00e3o: \u2018Nem pensem nisso, trata-se de meros objetos; eles n\u00e3o podem reagir\u2019, tal como dizia Descartes a respeito dos animais, alegando que eles n\u00e3o poderiam sofrer (Latour, 2020, p. 81).<\/p><\/blockquote>\n<p>Na sua cr\u00edtica decolonial, Malcon Ferdinand (2022, p. 47-53) denuncia a coloniza\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia das \u201cAm\u00e9ricas\u201d como um habitar colonial que se efetivou pela propriedade privada da terra, o estabelecimento das <i>plantations <\/i>e a superexplora\u00e7\u00e3o massiva humana. Ele aponta, inclusive, a obra <i>Primavera silenciosa<\/i>, de Rachel Carson, como sendo aquela que, \u201ca despeito de todas as qualidades liter\u00e1rias e pol\u00edticas\u201d deste que \u00e9 o \u201clivro fundador\u201d do ambientalismo nos Estados Unidos, notadamente, \u201cos perigos da polui\u00e7\u00e3o qu\u00edmica causada pelo uso compulsivo de pesticidas, est\u00e3o totalmente desconectados das lutas dos pretos estadunidenses pelos direitos civis em curso no momento de sua publica\u00e7\u00e3o\u201d (Ferdinand, 2022, p. 145). Bruno Latour refor\u00e7a a exist\u00eancia dessa fenda, ressaltando que os dois campos &#8211; cultural e ambiental &#8211; atuaram como \u201cconjuntos distintos\u201d, apesar de ambos estarem seguindo \u201cum mesmo e \u00fanico vetor &#8211; o da moderniza\u00e7\u00e3o e o da emancipa\u00e7\u00e3o\u201d (Latour, 2020, p. 71).<\/p>\n<p>N\u00e3o pode haver di\u00e1logo quando existem esferas exclu\u00eddas, em competi\u00e7\u00e3o ou nega\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, uma ecologia decolonial, pol\u00edtica ou multinaturalista, \u00e9 tanto uma tentativa de n\u00e3o separar campos historicamente separados, como permite revisar os significados discursivos desses campos &#8211; como cultura e natureza, com fins de esvaziar suas esferas de limita\u00e7\u00f5es, preconceitos e viol\u00eancias. Se n\u00e3o decolonizarmos a palavra, a gram\u00e1tica e os sentidos de uma domina\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, as palavras em si ser\u00e3o apenas uma mera grafia, um tipo de <i>fake news<\/i> ecol\u00f3gico e cultural. Mudar a percep\u00e7\u00e3o das duas esferas \u00e9, primeiramente, reconhecer que a cultura tem um papel fundamental nesse jogo de associa\u00e7\u00f5es e oposi\u00e7\u00f5es e \u00e9 ela quem exerce um poder que atualmente ainda \u00e9 tanto colonial-racista, patriarcal, como especista, moderno e antropoc\u00eantrico, narcisista.<\/p>\n<h1 class=\"western\">Uma hip\u00f3tese de fic\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<\/h1>\n<p>Como uma das b\u00fassolas a nos guiar nessa nova conjuntura de \u201cmuta\u00e7\u00f5es\u201d, apresento aqui a hip\u00f3tese de fic\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, publicada no livro <i>Onde <\/i><i>a<\/i><i>terrar?<\/i>, de Bruno Latour (2020, p. 10-11), que explica alguns acontecimentos pol\u00edticos como sintomas de um mesmo processo hist\u00f3rico: o Brexit &#8211; que foi a sa\u00edda da Gr\u00e3-Bretanha da Uni\u00e3o Europeia-, a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump, em 2016, nos Estados Unidos, a explos\u00e3o das migra\u00e7\u00f5es e o acordo de Paris, na COP21-, (Latour, 2020, p. 10). Al\u00e9m disso: a \u201cdesregulamenta\u00e7\u00e3o\u201d<sup><a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote11sym\" name=\"sdfootnote11anc\">11<\/a><\/sup> da economia, a explos\u00e3o da desigualdade social e a nega\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, tudo isso, logo ap\u00f3s a queda do muro de Berlim, s\u00e3o acontecimentos que se interligam e fazem parte de uma mesma pr\u00e1tica pol\u00edtica conduzida por uma elite obscurantista, segundo este autor. Esta elite n\u00e3o est\u00e1 desinformada, ao contr\u00e1rio, ela sabe exatamente da real situa\u00e7\u00e3o mundial, sobretudo do clima, mas decidiram, no entanto, optar por duas posi\u00e7\u00f5es radicais: primeiro a de que quem deve pagar essa conta colonial s\u00e3o os j\u00e1 historicamente massacrados- os colonizados-, e em seguida, passaram a negar tudo, o que permite com essa decis\u00e3o, n\u00e3o promoverem investimentos ambientais e culturais. Eles constataram que a hist\u00f3ria n\u00e3o conduziria mais a um destino comum \u201cem que \u2018todos os homens\u2019 poderiam prosperar igualmente\u201d (Latour 2020, p. 10). Diz ele:<\/p>\n<blockquote class=\"western\"><p>Nossa hip\u00f3tese de que esses adeptos da globaliza\u00e7\u00e3o est\u00e3o conscientes da muta\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, e que todos os seus esfor\u00e7os nos \u00faltimos 50 anos consistiram em negar a import\u00e2ncia das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e, ao mesmo tempo, em escapar de suas consequ\u00eancias, construindo fortalezas que possam a garantir seus privil\u00e9gios, basti\u00f5es inacess\u00edveis \u00e0queles que ter\u00e3o que ser deixados para tr\u00e1s\u201d (Latour, 2020, p. 129).<\/p><\/blockquote>\n<p>Diante desta realidade, Latour conclui que n\u00e3o poderemos entender mais \u201cnada dos posicionamentos pol\u00edticos dos \u00faltimos cinquenta anos, se n\u00e3o reservarmos um lugar central \u00e0 quest\u00e3o do clima e \u00e0 sua degenera\u00e7\u00e3o\u201d, posto que a quest\u00e3o clim\u00e1tica est\u00e1 \u201cno centro de todos os problemas geopol\u00edticos<i>\u201d <\/i>ao qual \u00e0 quest\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 ecol\u00f3gica, mais as injusti\u00e7as e desigualdades sociais est\u00e3o ligadas. (Latour, 2020 p. 12). Diante dessas constata\u00e7\u00f5es \u00e9 que podemos entender porque os problemas ambientais detectados ainda na crise &#8211; no s\u00e9culo XX &#8211; n\u00e3o foram resolvidos e, ao rev\u00e9s, s\u00f3 se agravaram! Podemos compreender, agora, porque as consequ\u00eancias que atestam desertifica\u00e7\u00f5es de biomas, acidifica\u00e7\u00e3o de mares, destrui\u00e7\u00e3o de ecossistemas, mas tamb\u00e9m, desigualdades sociais, migra\u00e7\u00f5es, guerras, entre outras mazelas, s\u00f3 aumentaram!<\/p>\n<p>Se no in\u00edcio dos anos 80, o ambientalismo oficial pregava um \u201cfuturo comum\u201d<sup><a href=\"#sdfootnote12sym\" name=\"sdfootnote12anc\">12<\/a><\/sup> anunciado pelo relat\u00f3rio Brundtland, este \u201cfuturo\u201d passa a ser totalmente ignorado pelos obscurantistas, que sequer fingem seu desinteresse pelas quest\u00f5es clim\u00e1ticas, como pudemos constatar, no lament\u00e1vel epis\u00f3dio dos EUA, que em 2017, por meio do seu presidente Donald Trump,<\/p>\n<p>se desresponsabilizou das suas emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, uma das mais altas do planeta, cerca de 13%<a href=\"#sdfootnote13sym\" name=\"sdfootnote13anc\">13<\/a> (Latour, 2020), saindo do acordo de Paris. Nesse sentido, esta b\u00fassola que nos guia &#8211; a hip\u00f3tese &#8211; revela, pelo menos dois fen\u00f4menos combinados mais desiguais: a muta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica por um lado, e por outro, o negacionismo, e embora ocorram de forma simult\u00e2nea, s\u00e3o fen\u00f4menos diferentes na medida em que um anuncia um caos, e o outro, ao negar taxativamente este anunciado cient\u00edfico, sugere, um tempo de cat\u00e1strofes, para usar um termo de Isabelle Stengers (2015). Caos e cat\u00e1strofe passam a ser dois lados de uma mesma moeda.<\/p>\n<p>Diante desse contexto de fic\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, Latour pergunta: \u201cdevemos continuar alimentando grandes sonhos de evas\u00e3o ou come\u00e7amos a buscar um territ\u00f3rio que seja habit\u00e1vel para n\u00f3s e nossos filhos?\u201d (Latour, 2020 p. 14-15). O que iremos n\u00f3s &#8211; aqueles que verdadeiramente n\u00e3o s\u00e3o os respons\u00e1veis por essas destrui\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, mas os principais atingidos &#8211; fazer? Essa nova realidade, do clima e da nega\u00e7\u00e3o de sua muta\u00e7\u00e3o, vai exigir dos que pretendem permanecer na Terra, tra\u00e7ar suas rotas e come\u00e7ar a indagar: onde aterrar? (Latour, 2020). Se a elite obscurantista n\u00e3o quer conservar \u201co pertencimento a uma terra, a um lugar, a um solo, a uma comunidade, a um espa\u00e7o, a um meio, a um modo de vida\u201d (Latour, 2020, p. 25), n\u00f3s do outro lado do <i>front <\/i>da moderniza\u00e7\u00e3o, queremos! Se a elite virou as costas, ignora ou nega o fen\u00f4meno do novo regime clim\u00e1tico, n\u00f3s, os permacultores, temos algumas das solu\u00e7\u00f5es para compor com diferentes l\u00edderes, ativistas, ecologistas, povos tradicionais, humanos e n\u00e3o-humanos nossa perman\u00eancia na Terra.<\/p>\n<p>N\u00e3o ficaremos quietos, esperando que tudo acabe bem no final, sem nos movermos, apenas fechados em nossos s\u00edtios, alheios a esta realidade mutante. Iremos precisar nos reinventar, buscar o ativismo pol\u00edtico, as pol\u00edticas p\u00fablicas, as composi\u00e7\u00f5es diversas para ampliar o raio de penetra\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas ecol\u00f3gicas nas escolas, nas pra\u00e7as, clubes, universidades, bibliotecas\u2026 em cada canto desse planeta com fins de mitigar o novo regime clim\u00e1tico e resistir \u00e0 contrarrevolu\u00e7\u00e3o neocolonial e negacionista da era do antropoceno.<\/p>\n<h1 class=\"western\">Redesign permacultural<\/h1>\n<p>Destacar a vis\u00e3o de uma ecologia que \u00e9 pol\u00edtica, multinaturalista, decolonial e etnogr\u00e1fica, \u00e9 importante, nesse s\u00e9culo XXI. No antropoceno \u00e9 urgente mudarmos nossa narrativa cultural, posto que, apesar da permacultura, segundo David Holmgren, ter nascido j\u00e1 como um ambientalismo de oposi\u00e7\u00e3o, com seu ativismo baseado em uma ecologia profunda, as transforma\u00e7\u00f5es nos tempos atuais ir\u00e3o exigir mudan\u00e7as na percep\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria permacultura. A cita\u00e7\u00e3o de Bill Mollison sobre o sistema pol\u00edtico \u00e9 bem emblem\u00e1tica para falarmos de fratura colonial e ambiental na permacultura, quando ele diz:<\/p>\n<blockquote class=\"western\"><p>O que chamamos sistemas pol\u00edticos e econ\u00f4micos est\u00e1 ou desemboca em nossa habilidade de conservar o ambiente natural (&#8230;) Eu n\u00e3o consigo pensar em uma \u00fanica decis\u00e3o pol\u00edtica que seja t\u00e3o importante como a decis\u00e3o de tais homens (sic) em restaurar o solo, pois s\u00e3o os produtos deste solo que permitem aos pol\u00edticos sobreviverem\u201d (Mollison, 1979 como citado em Ferreira-Neto, 2018, p. 269).<\/p><\/blockquote>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o de Bill Mollison \u00e9 contextual e temporal, claro! Se insere na perspectiva de um conservacionismo ambiental pr\u00f3prio do seu tempo que se resume, nessa fala, \u00e0 defesa dos solos como principal bandeira &#8211; um tema evidentemente importante &#8211; por\u00e9m, sem se deter nas lutas sociais como integrantes da esfera ambiental. Ainda que a permacultura se caracterize por atuar em sete grandes \u00e1reas (Figura 1) &#8211; o que j\u00e1 demonstra uma percep\u00e7\u00e3o mais abrangente e sist\u00eamica da vida &#8211; notadamente, os temas relacionados \u00e0s quest\u00f5es de classe, ra\u00e7a, g\u00eanero, gera\u00e7\u00e3o, especismo e outros, ainda s\u00e3o esferas a serem integradas, ampliadas, dialogadas e sistematizadas.<\/p>\n<p>Nas refer\u00eancias da permacultura, ainda permanecem, por exemplo, pressupostos ecol\u00f3gicos que tomaram \u201cforma no s\u00e9culo XVIII em rea\u00e7\u00e3o \u00e0s destrui\u00e7\u00f5es ambientais nas col\u00f4nias sem se preocupar com as injusti\u00e7as constitutivas do mundo colonial\u201d (Ferdinand, 2022, p. 137). Superar essa percep\u00e7\u00e3o se torna um importante passo naquilo que deve ser ressignificado nesta ferramenta na era do antropoceno, posto que est\u00e1 provado como \u201ca polui\u00e7\u00e3o, as perdas de biodiversidade e o aquecimento global s\u00e3o os vest\u00edgios materiais desse habitar colonial na Terra, compreendendo desigualdades sociais globais, discrimina\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e de ra\u00e7a\u201d (Ferdinand, 2022, p. 201).<\/p>\n<div id=\"attachment_270\" style=\"width: 815px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2024\/12\/figura1.png\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-270\" class=\"size-full wp-image-270\" src=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2024\/12\/figura1.png\" alt=\"\" width=\"805\" height=\"667\" srcset=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2024\/12\/figura1.png 805w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2024\/12\/figura1-300x249.png 300w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2024\/12\/figura1-700x580.png 700w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2024\/12\/figura1-768x636.png 768w\" sizes=\"(max-width: 805px) 100vw, 805px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-270\" class=\"wp-caption-text\">Figura 1: Flor da permacultura. Imagem de Holmgren, D. (2013). Permacultura: Princ\u00edpios e caminhos al\u00e9m da sustentabilidade. Via Sapiens.<\/p><\/div>\n<p>Com as muta\u00e7\u00f5es, teremos que fazer mudan\u00e7as em nossas narrativas \u201catrav\u00e9s de conversas culturalmente criativas que s\u00e3o provocadas ao fazermos perguntas mais profundas\u201d (Wahl, 2020, p. 28), que nos ajudem a problematizar o ambientalismo de oposi\u00e7\u00e3o, para usar o termo de Holmgren. As cr\u00edticas, epistemologias e ontologias aqui citadas, nos permitem perceber como nossa vis\u00e3o (de pessoas dedicadas \u00e0 permacultura) do conceito sist\u00eamico, no fundo, se limitou ao atuar apenas no campo da ecologia aplicada. Ficamos presos ao item ambiental. E indo um pouco mais fundo, sem sequer relacionar ou \u201cse preocupar com a causa animal\u201d (Ferdinand, 2022, p. 25), um tema totalmente ausente dos movimentos sociais e ambientais, ainda a ser problematizado na permacultura &#8211; sobretudo para re-dimensionarmos sua \u00e9tica &#8211; uma vez que nesse <i>design<\/i>, estes seres n\u00e3o humanos entram no zoneamento, como elementos, comida ou trabalhadores (servi\u00e7os gratuitos), n\u00e3o como agentes pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Apesar da percep\u00e7\u00e3o sist\u00eamica dos ecossistemas como partes integradas, na permacultura, notadamente, esta ci\u00eancia em tela, ainda segue vendo a natureza como a ecologia cl\u00e1ssica, aqui j\u00e1 mencionada: recurso, ambiente natural, pano de fundo, sistema de produ\u00e7\u00e3o, entre outros. Embora se reconhe\u00e7a a presen\u00e7a de outros seres integrando e agindo entre os sistemas vivos, os agenciamentos que recuperam ecossistemas, estes n\u00e3o s\u00e3o compreendidos como promovido por exist\u00eancias coletivas humanas e n\u00e3o humanas, em rede, como sistemas simbi\u00f3ticos que atuam, conjuntamente como agentes pol\u00edticos. Somos sempre n\u00f3s, os sujeitos sociais &#8211; os humanos- que agimos diante de uma \u201cnatureza\u201d que est\u00e1 \u00e0 espera de nossa ajuda fundamental. Essa \u00e9 mais uma das percep\u00e7\u00f5es antropoc\u00eantricas pelo qual a permacultura deve ajudar a combater.<\/p>\n<p>Donna Haraway nos lembra que, \u201cas tecnologias n\u00e3o s\u00e3o media\u00e7\u00f5es, algo entre n\u00f3s e outro peda\u00e7o do mundo. (&#8230;) as tecnologias s\u00e3o \u00f3rg\u00e3os, parceiros plenos, no que Merleau-Ponty chamou de \u2018dobras da carne&#8217; (Haraway, 2022, p. 330). Nesse sentido &#8211; e voltando ao tema do perspectivismo antropoc\u00eantrico citado &#8211; se uma composteira \u00e9 uma tecnologia social, conforme a permacultura, qual \u00e9 o lugar que ocupam os seres org\u00e2nicos que est\u00e3o trabalhando-agenciando, no interior desse sistema-t\u00e9cnica de fazer adubo? Al\u00e9m do humano, ali est\u00e3o micro-seres e insetos, bact\u00e9rias, oxig\u00eanio, minhocas, milhares de fungos e outros organismos vivos multiesp\u00e9cies, todos fazendo as decomposi\u00e7\u00f5es com \u00e1gua e restos de alimentos, coletivamente, criando a possibilidade de emergir, no m\u00ednimo, uma mat\u00e9ria-prima desejada: um h\u00famus nutritivo para enriquecer o solo. Nessa composi\u00e7\u00e3o, estamos todos juntos &#8211; humanos e outras formas de vida &#8211; mas temos a impress\u00e3o cultural de que as tecnologias ditas sociais s\u00e3o agenciamentos puramente ou basicamente humanos. Mas n\u00e3o o s\u00e3o. Por meio da biologia e da pr\u00f3pria permacultura como este lugar de observa\u00e7\u00e3o dos m\u00faltiplos agentes e saberes, podemos detectar os exemplos de vidas que agenciam os processos de composi\u00e7\u00e3o, que atuam como \u201cdobras\u201d, como conversores para ciclos interativos que, em rede, se somam em suas espec\u00edficas compet\u00eancias para a gera\u00e7\u00e3o de vidas. S\u00e3o, segundo (Souza, 2020), \u201ctecnologias vivas\u201d, mais do que \u201ctecnologias sociais\u201d, ali se afetando, entre humanos e n\u00e3o humanos.<\/p>\n<p>Nessa reflex\u00e3o sobre \u201ctecnologias vivas\u201d trago aqui o exemplo de Bill Mollison, que explica, na Figura 2, as fun\u00e7\u00f5es e caracter\u00edsticas do ser-galinha. Ela, a galinha &#8211; e poderia ser uma vaca ou qualquer outro animal &#8211; funciona basicamente numa \u00f3tica pecuarista, ou seja, como produto, comida, trabalho, e claro, est\u00e1 sempre a servi\u00e7o dos humanos! Nessa percep\u00e7\u00e3o os animais s\u00e3o meros alimentos de um conjunto de possibilidades para usufruto e consumo! E lembrando que, justamente porque na ci\u00eancia moderna a \u201cnatureza\u201d se comporta como objeto, tudo o que n\u00e3o \u00e9 humano &#8211; nessa moralidade vigente milenar &#8211; n\u00e3o sofre ou sente dor, e claro, tamb\u00e9m, n\u00e3o tem direitos, o que \u00e9 uma vers\u00e3o antropoc\u00eantrica desse mundo \u201ccivilizado\u201d! Nesse sentido, pode-se dizer que, de fato, a galinha \u00e9 tudo isso que se disse dela, na Figura 2 , mas h\u00e1 que refletirmos e questionarmos esta vers\u00e3o do estatuto moral humano (civilizado), que imprime a este ser &#8211; e a outros &#8211; o sentido de mercadoria. Nessa percep\u00e7\u00e3o pecuarista a galinha \u00e9 somente um recurso, parte de uma engrenagem e tem pouco a ver com a vida ou o bem-estar dela e de sua esp\u00e9cie, segundo pode nos valer, nesse di\u00e1logo, a \u00e9tica<sup><span style=\"font-size: medium\"><a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote14sym\" name=\"sdfootnote14anc\">14<\/a> <\/span><\/sup>Animal &#8211; um campo de debates destacado na d\u00e9cada de 1970, com as contribui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas de Peter Singer. Embora o conceito de veganismo caiba bem a essa reflex\u00e3o da galinha, estamos problematizando o campo mais amplo da permacultura, que \u00e9 o da sua \u00e9tica: \u201cCuidar de si e do outro\u201d. E quem \u00e9 o \u201coutro\u201d na permacultura?<\/p>\n<div id=\"attachment_271\" style=\"width: 1016px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2024\/12\/figura2.png\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-271\" class=\"size-full wp-image-271\" src=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2024\/12\/figura2.png\" alt=\"\" width=\"1006\" height=\"485\" srcset=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2024\/12\/figura2.png 1006w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2024\/12\/figura2-300x145.png 300w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2024\/12\/figura2-700x337.png 700w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2024\/12\/figura2-768x370.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1006px) 100vw, 1006px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-271\" class=\"wp-caption-text\">Figura 2: Caracter\u00edsticas, necessidades e produtos de uma galinha para considerar sua inser\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos outros elementos do sistema permacultural. Fonte: (Mollison, B., 1988, p. 18).<\/p><\/div>\n<p>Este di\u00e1logo nos permite esgar\u00e7ar o cosmos da permacultura &#8211; que ainda se apresenta com uma \u00e9tica bem-estarista, e, portanto, antropoc\u00eantrica &#8211; para problematizar seja as exist\u00eancias n\u00e3o-humanas, como as resist\u00eancias humanas que se d\u00e3o pelo vi\u00e9s da cultura especista, que \u00e9 quem naturaliza sistemas alimentares baseados em vidas abatidas. Em uma sociedade &#8211; para al\u00e9m de racista e machista &#8211; antropoc\u00eantrica, os animais continuam a ser escravizados, torturados e assassinados friamente, de forma naturalizada para mero consumo.<\/p>\n<p>Ainda \u00e9 dif\u00edcil inserir o direito animal no paradigma antropoc\u00eantrico! Em nossas sociedades industriais \u00e9 ainda alto o uso e a produ\u00e7\u00e3o para consumo, em alta escala, de prote\u00edna animal; dos maus tratos para com estes seres, da polui\u00e7\u00e3o dos oceanos pelos excrementos vindos da pecu\u00e1ria, devasta\u00e7\u00e3o das florestas para pastos e monoculturas, entre outras mazelas das quais a permacultura deve se opor veementemente e enfrentar os desafios provenientes do agroneg\u00f3cio, cuja pecu\u00e1ria se destaca. Devemos trazer para o centro da p\u00e9tala outras \u00e9ticas que n\u00e3o sejam de vantagem meramente humana. A quest\u00e3o \u00e9tica na permacultura ainda \u00e9 monoculturalizada, quer dizer, centrada s\u00f3 no humano. Mas j\u00e1 existe, desde Pit\u00e1goras, o debate da \u00e9tica animal (Felipe, 2006). \u00c9 um debate, tamb\u00e9m, do veganismo e agora, pelo novo regime clim\u00e1tico, da ecologia e tamb\u00e9m da permacultura. Este tema n\u00e3o \u00e9 em v\u00e3o no antropoceno, uma vez que a pr\u00f3pria ONU apresenta como expectativa para 2050 a diminui\u00e7\u00e3o em 50% no consumo de carne, segundo consta no relat\u00f3rio sum\u00e1rio da comiss\u00e3o EAT-Lancet (Willett et al., 2019) que ressalta:<\/p>\n<blockquote class=\"western\"><p>A transforma\u00e7\u00e3o para dietas saud\u00e1veis at\u00e9 2050 vai exigir mudan\u00e7as substanciais na dieta. O consumo geral de frutas, vegetais, nozes e legumes ter\u00e1 que duplicar, e o consumo de alimentos como carne vermelha e a\u00e7\u00facar ter\u00e1 que ser reduzido em mais de 50%. Uma dieta rica em alimentos \u00e0 base de plantas e com menos alimentos de origem animal confere benef\u00edcios \u00e0 sa\u00fade e ao meio ambiente (Willett et al., 2019, p. 3)<\/p><\/blockquote>\n<p>A diminui\u00e7\u00e3o de carne na mesa humana, n\u00e3o ser\u00e1 pelos mesmos motivos veganos &#8211; compaix\u00e3o &#8211; mas pelo vi\u00e9s ambiental uma vez que a pecu\u00e1ria tem sido uma das principais respons\u00e1veis pelas estat\u00edsticas de danos na camada de oz\u00f4nio, causadas pelo metano, pelo uso excessivo de \u00e1gua, desmatamento para pastos, entre outros \u00edndices que ampliam o aquecimento global. O professor Alexandre Costa, pesquisador do IPCC, real\u00e7a, em uma entrevista a Unisinos (Santos, 2020), que<\/p>\n<blockquote class=\"western\"><p>A crise clim\u00e1tica segue se agravando justamente em fun\u00e7\u00e3o de um modo de vida intensivo em carbono, desde a demanda de energia para produ\u00e7\u00e3o de bens de consumo, passando pelo transporte, at\u00e9 chegar num sistema de produ\u00e7\u00e3o alimentar altamente predat\u00f3rio, com desmatamento para expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola e consumo de carne em uma quantidade cada vez mais insustent\u00e1vel. Ent\u00e3o as causas, embora n\u00e3o sejam exatamente as mesmas, guardam liga\u00e7\u00e3o entre si.<\/p><\/blockquote>\n<p>Embora ainda estejamos nesse regime alimentar predat\u00f3rio, a tend\u00eancia dever\u00e1 ser diminuir o consumo de produtos animais, aumentar o aporte de vegetais, recuar na pecu\u00e1ria intensiva e avan\u00e7ar nas agroflorestas, na agroecologia, agricultura org\u00e2nica e outros sistemas alimentares. Trata-se, portanto, de um passo fundamental da pauta no contexto do novo regime clim\u00e1tico que implica em respeito multiesp\u00e9cie e escuta ativa a todos aqueles que prop\u00f5em, de maneira ampla, distribu\u00edda e inovadora, tomar outros seres que n\u00e3o-humanos como \u201cagentes pol\u00edticos\u201d, e n\u00e3o meros objetos funcionais, como o exemplo da galinha.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a permacultura, no entendimento ecol\u00f3gico na era do antropoceno, necessita de outras receitas \u00e9ticas, sobretudo quando ainda se definem zoneamentos com animais para sistemas de servi\u00e7os e alimento aos humanos. Os animais devem estar presentes no zoneamento permacultural, mas n\u00e3o como meros objetos. Estamos falando n\u00e3o s\u00f3 de diversidade cultural, agora, entramos na era do respeito \u00e0 diversidade multiesp\u00e9cie, para usar um termo de Anna Tsing (2022).<\/p>\n<p>O reconhecimento de n\u00e3o-humanos como agentes pol\u00edticos &#8211; e n\u00e3o objetos utilit\u00e1rios, como a ave citada &#8211; explica um salto na consci\u00eancia humana, justo porque ambos, nesse contexto, se equivalem, pois s\u00e3o agentes. Essa vis\u00e3o &#8211; ou biovis\u00e3o &#8211; em que determinados seres antes vistos como \u201ccoisas\u201d, \u201cobjetos\u201d, s\u00e3o chamados ao palco, agora como atores &#8211; como o v\u00edrus do COVID 19 &#8211; e n\u00e3o mais meros desenhos de fundo, \u00e9 uma nova revolu\u00e7\u00e3o paradigm\u00e1tica, dial\u00f3gica e multiesp\u00e9cie, no enfrentamento do novo regime clim\u00e1tico. Essa outra percep\u00e7\u00e3o da vida e do planeta, nos permite problematizar a exclusividade do <i>homo-sapiens-sapiens<\/i>, uma vez que s\u00e3o agentes, tamb\u00e9m, as \u201crochas, as pedras, gatos&#8230;\u201d, na medida em que \u201ctodas essas coisas agem e interagem\u201d (Pickering, 2013, p. 79). A perspectiva das ag\u00eancias pol\u00edticas implode o humano do ego(c\u00eantrico) e tipo de reinado, onde ele era o monarca.<\/p>\n<h2 class=\"western\">O antropoceno \u00e9 patriarcal<\/h2>\n<p>A centraliza\u00e7\u00e3o do sujeito humano n\u00e3o se d\u00e1 s\u00f3 como esp\u00e9cie privilegiada, mais no tocante ao g\u00eanero masculino, branco, ocidental, como centro da perspectiva moderna, assentada numa posi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica por meio do que se chama de \u201cci\u00eancias humanas\u201d, questionada hoje pelas ci\u00eancias n\u00e3o-antropoc\u00eantricas.<\/p>\n<p>Segundo Latour (2022, p. 162) \u201cos organismos fazem seu ambiente, n\u00e3o se adaptam a ele\u201d. O ambiente n\u00e3o \u00e9 algo dado, simplesmente, ele \u00e9 constitu\u00eddo por for\u00e7as de ag\u00eancias coletivas, humanas e n\u00e3o humanas. A Terra est\u00e1 viva, afirma Lovelock &amp; Tickell (2006)<sup><a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote15sym\" name=\"sdfootnote15anc\">15<\/a><\/sup>, em sua teoria de Gaia, que trouxe a no\u00e7\u00e3o da Terra como um sistema em evolu\u00e7\u00e3o, com vida autorreguladora. Apesar dessa teoria ter sido formulada na d\u00e9cada de 1970,<\/p>\n<blockquote class=\"western\"><p>Os cientistas s\u00f3 reconheceram a Terra como entidade auto-reguladora na Declara\u00e7\u00e3o de Amsterdam, em 2001, e muitos ainda agem como se o nosso planeta fosse uma enorme propriedade p\u00fablica que possu\u00edmos e compartilhamos. Eles se aferram \u00e0 sua vis\u00e3o dos s\u00e9culos XIX e XX da Terra, ensinada na escola e universidade, de um planeta constitu\u00eddo de rocha inerte e morta, com vida abundante a bordo: passageiros na jornada desse planeta atrav\u00e9s do espa\u00e7o e do tempo (Lovelock e Tickell, 2006, p. 18-19).<\/p><\/blockquote>\n<p>Importante que se diga que a cr\u00edtica ao antropocentrismo n\u00e3o \u00e9 para combater o humano, mas para lembr\u00e1-lo, sobretudo, de que n\u00e3o estamos sozinhos no planeta, somos ecossistemas humanos e n\u00e3o-humanos. \u00c9 para questionar o fato de que alguns dessa esp\u00e9cie se considerem mais merecedores que outros, como os homens, os brancos, ou ocidentais, sujeitos masculinos criadores de Estados-Na\u00e7\u00f5es, que oprimem parcelas da sociedade por androcentrismos, racismos e colonialismos. Estes Estados-Na\u00e7\u00f5es s\u00e3o patriarcais e as comunidades colonizadas s\u00e3o educadas pelo programa antropo-falo-logoc\u00eantrico, para usar um termo da Suely Rolnik (2018), desde as macro e micropol\u00edticas do capitalismo. H\u00e1 um programinha da cafetinagem rodando pelo <i>status quo<\/i>. O que precisamos \u00e9 denunciar essa educa\u00e7\u00e3o que imp\u00f5e viol\u00eancias simb\u00f3licas, de g\u00eanero, ra\u00e7a, especismo, entre outros. \u00c9 preciso lembr\u00e1-los (aos patriarcados), que eles n\u00e3o est\u00e3o s\u00f3s, e que todos dependemos dos elementos primordiais da exist\u00eancia: o oxig\u00eanio, as plantas, os minerais, a \u00e1gua, a terra, ou seja, tudo aquilo que nos cerca e que, de uma maneira ainda err\u00f4nea, denominamos apenas como coisas n\u00e3o-humanas.<\/p>\n<p>Segundo Domanska (2013, p. 10), a atitude antropoc\u00eantrica \u201capresenta a esp\u00e9cie humana como o centro do mundo, desfrutando de sua hegemonia sobre os outros seres e funcionando como mestres da natureza que existe para atender \u00e0s suas necessidades\u201d. O antropocentrismo \u00e9 uma esp\u00e9cie de monarquia humana entre as outras esp\u00e9cies, um czar entre as naturezas. Por isso, a percep\u00e7\u00e3o do conceito de agentes pol\u00edticos descentra o humano, sobretudo o humano masculino, uma vez que o que foi gerado nessa era industrial de guerras e saques foi uma gest\u00e3o marcadamente masculina.<\/p>\n<p>O patriarcado \u00e9 um agenciamento de biopoder &#8211; e melhor agora \u00e9 dizer, geontopoder (Povinelli, 2022), no antropoceno. Notadamente, foram os homens &#8211; e n\u00e3o as mulheres &#8211; que criaram as corpora\u00e7\u00f5es, as guerras, os governos e as institui\u00e7\u00f5es dos Estados-Na\u00e7\u00f5es da modernidade. Como diz os versos da poetisa (Silva, 2005):<\/p>\n<blockquote class=\"poesia-western\"><p>Mulheres fazem o mundo<\/p><\/blockquote>\n<blockquote class=\"poesia-western\"><p>Fazem o globo girar<\/p><\/blockquote>\n<blockquote class=\"poesia-western\"><p>Fazem tudo num segundo<\/p><\/blockquote>\n<blockquote class=\"poesia-western\"><p>Fazem a vida durar<\/p><\/blockquote>\n<blockquote class=\"poesia-western\"><p>Mulheres n\u00e3o fazem guerra<\/p><\/blockquote>\n<blockquote class=\"poesia-western\"><p>Fazem nascerem na terra<\/p><\/blockquote>\n<blockquote class=\"poesia-western\"><p>Os frutos do verbo amar<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o podemos deixar de ver na permacultura, ainda, os profundos rastros n\u00e3o s\u00f3 do antropocentrismo, por meio de sua \u00e9tica, como tamb\u00e9m dos seus rastros androc\u00eantricos ao constatarmos o quanto sua imagem central \u00e9 marcadamente masculina, ainda que saibamos da exist\u00eancia e presen\u00e7a feminina no seu interior. H\u00e1, ainda, pouco destaque \u00e0 contribui\u00e7\u00e3o das mulheres nesse campo, mas isso ocorre no movimento ambiental de uma maneira geral, apesar de haver mulheres como Maria Thun<sup><span style=\"font-size: medium\"><a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote16sym\" name=\"sdfootnote16anc\">16<\/a><\/span><\/sup>, Raquel Carson, Ana Primavesi, Rosemary Morrow, Simin Fadaee, Su Dennet, Starhawk, Lucia Legan, Masha Hanzi, Joanna Macy, Fl\u00e1via Vivacqua, Vandana Shiva, Nena Alava e tantas outras, assim como eu, que praticam permacultura. H\u00e1 ainda, essas fraturas no movimento ecol\u00f3gico e na permacultura, consequentemente. H\u00e1 muitos paradoxos a serem enfrentados nessa \u00e9poca no antropoceno, e um deles \u00e9 que o humano-homem ter\u00e1 que se abrir para o feminino ou matr\u00edstico. Como disse Latour \u201cNo\u00e9 dos novos tempos, \u00e9 mulher\u201d! Nesse caso, nosso lugar n\u00e3o \u00e9 nem na arca, nem no conv\u00e9s de qualquer navio &#8211; este lugar de marinheiros, piratas, homens\u2026 &#8211; \u00e9 na Terra: que \u00e9 m\u00e3e, prima, tia, av\u00f3, neta, filha, sogra&#8230; a Pachamama de todas as tribos e cl\u00e3s, a terra-floresta dos Yanomami, dos Cariris&#8230;, mas n\u00e3o a mesma m\u00e3e-terra do discurso bin\u00e1rio do patriarcado que imagina essa Terra-natureza feminina-fr\u00e1gil ou entidade a ser dominada e explorada.<\/p>\n<h1 class=\"western\">Algumas conclus\u00f5es: con(fiando) em novos mundos para a grande virada<\/h1>\n<p>Assim como n\u00e3o estamos mais na crise ambiental, e sim nas muta\u00e7\u00f5es, segundo Bruno Latour, tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o estamos mais no contexto da sustentabilidade, segundo Daniel Wahl (2019)<sup><a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote17sym\" name=\"sdfootnote17anc\">17<\/a><\/sup>, uma fase que j\u00e1 ficou para tr\u00e1s, precisamente porque nada de not\u00e1vel se fez, nada de impactante se processou para revers\u00e3o das degenera\u00e7\u00f5es dos ecossistemas, que s\u00f3 aumentam. O trem passou, velozmente, e sequer a transforma\u00e7\u00e3o mais importante aconteceu plenamente, que \u00e9 antes de tudo \u201cfazer um <i>redesign<\/i> da presen\u00e7a humana na Terra\u201d (Wahl, 2019, p. 25) para<\/p>\n<blockquote class=\"western\"><p>Questionar profundamente a nossa maneira de pensar, a nossa vis\u00e3o de mundo e o nosso sistema de valores. Mudan\u00e7as nos nossos modelos mentais, cren\u00e7as b\u00e1sicas e suposi\u00e7\u00f5es sobre a natureza da realidade (Wahl, 2019, p. 25).<\/p><\/blockquote>\n<p>Contudo, e apesar das fraturas ora mencionadas, a permacultura \u00e9 um desenho ecol\u00f3gico que prima pela percep\u00e7\u00e3o sist\u00eamica e mesmo tendo quest\u00f5es a serem problematizadas isso n\u00e3o a invalida, ao contr\u00e1rio, pois a permacultura sempre se reinventou. A aten\u00e7\u00e3o redobrada no antropoceno faz parte das exig\u00eancias desta terceira grande onda tardia da permacultura, que traz para n\u00f3s a pauta da \u201cgrande virada\u201d paradigm\u00e1tica, que deve estar movida e guiada, segundo Joanna Macy e Chris Johnstone, por uma esperan\u00e7a ativa, que \u00e9 uma vis\u00e3o, segundo ela, que deve ser entendida como uma pr\u00e1tica:<\/p>\n<blockquote class=\"western\"><p>Como o <i>tai chi<\/i> ou a jardinagem, \u00e9 algo que fazemos em vez de algo que temos. \u00c9 um processo que podemos aplicar a qualquer situa\u00e7\u00e3o e envolve tr\u00eas etapas principais. Primeiro, buscamos uma vis\u00e3o clara da realidade; segundo identificamos o que esperamos em termos de qual rumo gostar\u00edamos que as coisas tomassem ou de que valores gostar\u00edamos de ver expressos; e, terceiro, damos passos para nos movermos ou a nossa situa\u00e7\u00e3o para esta dire\u00e7\u00e3o (Macy e Johnstone, 2020, p. 13).<\/p><\/blockquote>\n<p>Joanna Macy e Johnstone (2020) dizem: o que deve nos mover \u00e9 a \u201cinten\u00e7\u00e3o\u201d. N\u00f3s devemos escolher \u201co que pretendemos provocar, fazer ou expressar. Em vez de mensurar nossas chances e prosseguir apenas quando nos sentimos esperan\u00e7osos, nos concentramos em nossa inten\u00e7\u00e3o e deixamos que ela seja nosso guia\u201d (Joanna Macy e Johnstone, 2020, p. 13). Nesse sentido, situamos a permacultura como essa plataforma de inova\u00e7\u00e3o transformadora, ag\u00eancia geossocial, ideia \u201cpara adiar o fim do mundo\u201d ou cosmopol\u00edtica de rela\u00e7\u00f5es que se reinventam e redefinem a n\u00f3s &#8211; seus agentes pol\u00edticos e terrestres &#8211; que se dedicam \u00e0s pr\u00e1ticas permaculturais. Quer dizer, uma permacultura que denuncie a dupla fratura, que politize a ecologia, que resgate os mestres e intelectuais org\u00e2nicos, locais, como a permacultura dos beatos do cariri; que se oponha ao neoliberalismo, fascismo e negacionismo, que traga o debate entre humanos e n\u00e3o humanos, promova novas ontologias, reconhe\u00e7a que a luta \u00e9 tanto macro como micropol\u00edtica, e que sobretudo, se situe no Novo Regime Clim\u00e1tico.<\/p>\n<p>A permacultura \u00e9 um chamado para re-exist\u00eancias e co-habita\u00e7\u00f5es, por isso que necessita neste s\u00e9culo XXI, esgar\u00e7ar alguns aspectos fundamentais da sua cosmovis\u00e3o para que possa enxergar todas essas muta\u00e7\u00f5es para al\u00e9m dos \u00f3culos de um biopoder, mas sim do que j\u00e1 se denomina, como um geontopoder &#8211; \u201cessa crise da governan\u00e7a da vida e da n\u00e3o-vida\u201d, segundo Elizabeth Povinelli (2023, p. 266). Se h\u00e1 uma guerra de mundos, conforme afirma Bruno Latour (2020), n\u00f3s, da permacultura temos um lugar, temos sa\u00eddas e tecnologias sociais, vivas e pol\u00edticas, que poder\u00e3o aterrar-nos. Isso exigir\u00e1, entretanto, que comecemos a grande tarefa de nos reinventarmos para re-co-ocupar, re-co-habitar e re-co-assentarmos como terrestres<sup><span style=\"font-size: medium\"><a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote18sym\" name=\"sdfootnote18anc\">18<\/a><\/span><\/sup> nossos pr\u00f3prios territ\u00f3rios. Estamos no ponto da \u201cgrande virada\u201d (Macy e Johnstone, 2020), pois assim como o tempo \u00e9 de uma era de cat\u00e1strofes, tamb\u00e9m o \u00e9 de esperan\u00e7as. O contexto que diz sobre destrui\u00e7\u00f5es \u00e9 o mesmo que se pode dizer, tamb\u00e9m, sobre regenera\u00e7\u00f5es (Wahl, 2019), e \u00e9 dentro do que Latour (2020) chama de \u201cgestos que barrem\u201d, que devemos construir pol\u00edticas para uma permacultura de urg\u00eancia na emerg\u00eancia clim\u00e1tica.<\/p>\n<h1 class=\"western\">Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/h1>\n<p><span style=\"font-size: small\">Capra, F., &amp; Luisi, P. L. (2014). A vis\u00e3o sist\u00eamica da vida: Uma concep\u00e7\u00e3o unificada e suas implica\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas, pol\u00edticas, sociais e econ\u00f4micas. Cultrix.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Cariry, R. C. (2019). Dona Ci\u00e7a: O barro das maravilhas. Interarte.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Castro, E. V. de, &amp; Danowski, D. (2014). H\u00e1 mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Florian\u00f3polis: Cultura e Barb\u00e1rie; Instituto Socioambiental.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Costa, A. (2021). As mil faces de Gaia. <a href=\"https:\/\/quatrocincoum.com.br\/resenhas\/divulgacao-cientifica\/as-mil-faces-de-gaia\/\">https:\/\/quatrocincoum.com.br\/resenhas\/divulgacao-cientifica\/as-mil-faces-de-gaia\/<\/a>. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Domanska, E. (2013). Para al\u00e9m do antropocentrismo nos estudos hist\u00f3ricos. Revista Expedi\u00e7\u00f5es: Teoria da Hist\u00f3ria e Historiografia (ISSN 2179-6386), 4(1), Artigo 1. <a href=\"https:\/\/www.revista.ueg.br\/index.php\/revista_geth\/article\/view\/1768\">https:\/\/www.revista.ueg.br\/index.php\/revista_geth\/article\/view\/1768<\/a> <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Felipe, S. T. (2006). Fundamenta\u00e7\u00e3o \u00e9tica dos direitos animais. O legado de Humphry Primatt. Revista Brasileira de Direito Animal, 1(1), Artigo 1. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.9771\/rbda.v1i1.10249\">https:\/\/doi.org\/10.9771\/rbda.v1i1.10249<\/a> <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Ferdinand, M. (2022). Uma ecologia decolonial (1o ed). Ubu.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Ferreira-Neto, D. N. (2018). Uma alternativa para a sociedade: Caminhos e perspectivas da permacultura no Brasil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Figueir\u00f3, A. S. (2020). O desafio da educa\u00e7\u00e3o diante de um cen\u00e1rio de colapso ambiental no antropoceno. Em Educa\u00e7\u00e3o ambiental\u2014Cen\u00e1rios atuais da sa\u00fade ambiental e humana. Seabra, G. Barlavento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Freyesleben, A. (2023). Os tempos do Antropoceno: Reflex\u00f5es sobre limites, intensidade e dura\u00e7\u00e3o. Hist\u00f3ria (S\u00e3o Paulo), 42, e2023038. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/1980-4369e2023038\">https:\/\/doi.org\/10.1590\/1980-4369e2023038<\/a> <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Haraway, D. (2022). Quando as esp\u00e9cies se encontram (J. Fausto, Trad.). Ubu Editora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Holmgren, D. (2013). Permacultura: Princ\u00edpios e caminhos al\u00e9m da sustentabilidade. Via Sapiens.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">IBGE. (2023). Censo Demogr\u00e1fico 2022: Ind\u00edgenas: Primeiros resultados do universo. (p. 193). IBGE &#8211; Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica. <a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/index.php\/biblioteca-catalogo?view=detalhes&amp;id=2102018\">https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/index.php\/biblioteca-catalogo?view=detalhes&amp;id=2102018<\/a> <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Kopenawa, D., &amp; Albert, B. (with d\u2019Aguiar, R. F.). (2023). O esp\u00edrito da floresta: A luta pelo nosso futuro. Companhia das Letras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Kopenawa, D., &amp; Albert, B. (with Perrone-Mois\u00e9s, B.). (2015). A queda do c\u00e9u. Companhia das Letras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Krenak, A. (2022). Futuro Ancestral. Companhia das Letras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Latour, B. (2018). Qual cosmos, quais cosmopol\u00edticas? Coment\u00e1rio sobre as propostas de paz de Ulrich Beck. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, 69, Artigo 69. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.11606\/issn.2316-901X.v0i69p427-441\">https:\/\/doi.org\/10.11606\/issn.2316-901X.v0i69p427-441<\/a> <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Latour, B. (2020). Onde aterrar?: Como se orientar politicamente no antropoceno. Bazar do Tempo Produ\u00e7\u00f5es e Empreendimentos Culturais LTDA.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Lovelock, J. E., &amp; Tickell, C. (2006). The revenge of Gaia: Earth\u2019s climate crisis and the fate of humanity. Basic Books.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Macy, J., &amp; Johnstone, C. (2020). Esperan\u00e7a ativa: Como encarar o caos em que vivemos sem enlouquecer (1o ed). Bambual.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Mollison, B. (1988). Permaculture: A Designers\u2019 Manual (8o ed). Tagari Publication.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Morel, A. P. M. (2023). \u201cUm mundo onde caibam muitos mundos\u201d: As palavras verdadeiras de educadores zapatistas. Revista de Antropologia, 66, e210610. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.11606\/1678-9857.ra.2022.210610\">https:\/\/doi.org\/10.11606\/1678-9857.ra.2022.210610<\/a> <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Morin, E. (2011). Os sete saberes necess\u00e1rios \u00e0 educa\u00e7\u00e3o do futuro. Cortez Editora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Oliveira, J. C. (2022). Pref\u00e1cio. 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Cadernos PET-Filosofia, 18(2). <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.5380\/petfilo.v18i2.68084\">https:\/\/doi.org\/10.5380\/petfilo.v18i2.68084<\/a> <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Souza, G. M. de. (2020). Envolver o que nos envolve: Permacultura e s\u00edtios ecol\u00f3gicos em paisagens multiesp\u00e9cies na Serra do Espinha\u00e7o. [Tese (Doutorado), Universidade Federal de Minas Gerais &#8211; Departamento de Antropologia e Arqueologia &#8211; Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia]. <a href=\"https:\/\/repositorio.ufmg.br\/handle\/1843\/45379\">https:\/\/repositorio.ufmg.br\/handle\/1843\/45379<\/a> <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Stengers, I. (2018). A proposi\u00e7\u00e3o cosmopol\u00edtica. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, 69, Artigo 69. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.11606\/issn.2316-901X.v0i69p442-464\">https:\/\/doi.org\/10.11606\/issn.2316-901X.v0i69p442-464<\/a> <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Tsing, A. (2022). O cogumelo no fim do mundo: Sobre a possibilidade de vida nas ru\u00ednas do capitalismo. N-1 Edi\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Wahl, D. C. (2020). Design de culturas regenerativas. Bambual Editora LTDA.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small\">Willett, W., Rockstr\u00f6m, J., Loken, B., Springmann, M., Lang, T., &amp; Vermeulen, S. (2019). Food in the Anthropocene: The EAT-Lancet Commission on healthy diets from sustainable food systems. Lancet.<\/span><\/p>\n<div id=\"sdfootnote1\">\n<p><a href=\"#sdfootnote1anc\" name=\"sdfootnote1sym\">1<\/a> &#8211; Universidade Federal do Cariri (UFCA) &#8211; <a href=\"mailto:francisca.fanka@ufca.edu.br\">francisca.fanka@ufca.edu.br<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote2\">\n<p><a href=\"#sdfootnote2anc\" name=\"sdfootnote2sym\">2<\/a> &#8211; Sigla para identidades: L\u00e9sbicas, Gays, Bissexuais, Transg\u00eaneros, Queer ou Questionadores, Intersexuais, Assexuais, dentre outros.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote3\">\n<p><a href=\"#sdfootnote3anc\" name=\"sdfootnote3sym\">3<\/a> &#8211; Donella Meadows \u00e9 autora ao lado do seu esposo, Dennis Meadows, Jorgen Randers e Willian W. Behrens III, da pesquisa conhecida como The limits to Growth, encomendada pelo Clube de Roma ao Massachusetts Institute of Technology, em 1972. Sanson, C. (2022). <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/616607-o-primeiro-relatorio-sobre-os-limites-do-crescimento-completa-50-anos\">O primeiro relat\u00f3rio sobre os limites do crescimento completa 50 anos<\/a> [Instituto Humanitas Unisinos].<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote4\">\n<p><a href=\"#sdfootnote4anc\" name=\"sdfootnote4sym\">4<\/a> &#8211; \u201cAbya Yala, na l\u00edngua do povo Kuna, significa Terra madura, Terra Viva ou Terra em florescimento e \u00e9 sin\u00f4nimo de Am\u00e9rica (&#8230;) Abya Yala vem sendo usado como uma autodesigna\u00e7\u00e3o dos povos origin\u00e1rios do continente em oposi\u00e7\u00e3o a Am\u00e9rica, express\u00e3o que, embora usada pela primeira vez em 1507 pelo cosm\u00f3logo Martin Wakdseem\u00fcller, s\u00f3 se consagra a partir de finais do s\u00e9culo XVIII e in\u00edcios do s\u00e9culo XIX, adotada pelas elites crioulas para se afirmarem em contraponto aos conquistadores europeus, no bojo do processo de independ\u00eancia. Muito embora os diferentes povos origin\u00e1rios que habitavam o continente atribu\u00edssem nomes pr\u00f3prios \u00e0s regi\u00f5es que ocupavam \u2013 Tawantinsuyu, Anauhuac, Pindorama \u2013, a express\u00e3o Abya Yala vem sendo cada vez mais usada por esses povos, objetivando construir um sentimento de unidade e pertencimento\u201d (Porto-Gon\u00e7alves, 2009, p. 29).<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote5\">\n<p><a href=\"#sdfootnote5anc\" name=\"sdfootnote5sym\">5<\/a> &#8211; Confira esse debate em <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=pqd1vjZWH98&amp;t=35s&amp;ab_channel=InstitutodeEstudosAvan%C3%A7adosdaUSP\">Conversa sobre o Antropoceno<\/a> &#8211; <a href=\"https:\/\/www.zeeli.pro.br\/\">Jos\u00e9 Eli da Veiga<\/a>.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote6\">\n<p><a href=\"#sdfootnote6anc\" name=\"sdfootnote6sym\">6<\/a> &#8211; Para cada um destes conceitos existe uma vasta literatura e os leitores podem acompanhar esse debate rico atrav\u00e9s destes autores. Tais conceitos apresentados em sequ\u00eancia n\u00e3o indicam que s\u00e3o sin\u00f4nimos ou correlatos.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote7\">\n<p><a href=\"#sdfootnote7anc\" name=\"sdfootnote7sym\">7<\/a> &#8211; <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mcti\/pt-br\/acompanhe-o-mcti\/sirene\/publicacoes\/relatorios-do-ipcc\">Relat\u00f3rios Especiais do IPCC<\/a>.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote8\">\n<p><a href=\"#sdfootnote8anc\" name=\"sdfootnote8sym\">8<\/a> &#8211; Respectivamente informados por (Latour, 2020; Castro &amp; Danowski, 2014; Kopenawa &amp; Albert, 2015; Tsing, 2022; Ferdinand, 2022; Wahl, 2020; Haraway, 2022; Macy &amp; Johnstone, 2020; Rolnik, 2021).<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote9\">\n<p><a href=\"#sdfootnote9anc\" name=\"sdfootnote9sym\">9<\/a> &#8211; Os organizadores do livro A World of Many Worlds, organizado por Marisol de La Cadena e Mario Blaser (2018) \u201cinspiram-se no convite zapatista e definem o pluriverso como mundos heterog\u00eaneos unindo-se como uma ecologia pol\u00edtica de pr\u00e1ticas, negociando seu dif\u00edcil estar junto na heterogeneidade. A oportunidade do pluriverso surgiria, paradoxalmente, diante da acentua\u00e7\u00e3o do colapso ecol\u00f3gico no Antropoceno\u201d (Morel, 2023, p. 3).<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote10\">\n<p><a href=\"#sdfootnote10anc\" name=\"sdfootnote10sym\">10<\/a>Haraway, D. (2022). Quando as esp\u00e9cies se encontram. Ubu Editora.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote11\">\n<p><a href=\"#sdfootnote11anc\" name=\"sdfootnote11sym\">11<\/a> &#8211; Parte desta an\u00e1lise j\u00e1 foi referida por David Holmgren (2013), quando abordou o que ele chamou de 2\u00aa onda do movimento ambiental e a \u201csubida da revolu\u00e7\u00e3o Friedmanita\u201d (Holmgren, 2013), respons\u00e1veis pelas pol\u00edticas neoliberais implementadas por Ronald Reagan e Margaret Thatcher.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote12\">\n<p><a href=\"#sdfootnote12anc\" name=\"sdfootnote12sym\">12<\/a> &#8211; Comiss\u00e3o Mundial sobre o meio ambiente e desenvolvimento. Nosso futuro comum. Editora Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, Rio de Janeiro-RJ, 1991.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote13\">\n<p><a href=\"#sdfootnote13anc\" name=\"sdfootnote13sym\">13<\/a> &#8211; Em 2021 este pa\u00eds retornou ao acordo, a pol\u00edtica negacionista permanece crescente no mundo inteiro, mesmo com a COP 28 de 2023, tendo retomado o debate sobre o limite da temperatura.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote14\">\n<p><a href=\"#sdfootnote14anc\" name=\"sdfootnote14sym\">14<\/a>&#8211; Felipe, S. T. (2009). Antropocentrismo, Sencientismo e Biocentrismo: Perspectivas \u00c9ticas Abolicionistas, Bem-Estaristas e Conservadoras e o Estatuto de Animais N\u00e3o-Humanos. P\u00e1ginas de Filosofia, 1, 2\u201330.<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.15603\/2175-7747\/pf.v1n1p2-30\"> https:\/\/doi.org\/10.15603\/2175-7747\/pf.v1n1p2-30<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote15\">\n<p><a href=\"#sdfootnote15anc\" name=\"sdfootnote15sym\">15<\/a> &#8211; Teoria criada por James Lovelock e Lynn Margulis.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote16\">\n<p><a href=\"#sdfootnote16anc\" name=\"sdfootnote16sym\">16<\/a> &#8211; Introduziu o calend\u00e1rio astrol\u00f3gico da agricultura biodin\u00e2mica a partir das ideias de Rudolf Steiner.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote17\">\n<p><a href=\"#sdfootnote17anc\" name=\"sdfootnote17sym\">17<\/a> &#8211; Confira o livro Design de culturas regenerativas de Daniel Christian Wahl sobre esse debate entre sustentabilidade e regenera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote18\">\n<p><a href=\"#sdfootnote18anc\" name=\"sdfootnote18sym\">18<\/a> &#8211; Termo utilizado por Latour para designar aqueles &#8211; humanos e n\u00e3o-humanos &#8211; que v\u00e3o resistir ao novo regime clim\u00e1tico.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Grounding in Permaculture for other possible worlds in the Anthropocene Age SANTOS, Francisca Fanka Pereira dos1 Submetido em 26jun2024. Aceito em 11dez2024. Revis\u00e3o por Let\u00edcia Magalh\u00e3es Fernandes e Priscila Silva de FIgueiredo DOI: https:\/\/doi.org\/10.5281\/zenodo.14751274\u00a0 Resumo Este artigo tem como objetivo apresentar uma leitura da permacultura a partir dos estudos cr\u00edticos da Virada Ontol\u00f3gica da Antropologia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"issuem_issue":[27],"issuem_issue_categories":[6],"issuem_issue_tags":[51,49,52,50,32],"coauthors":[4],"class_list":["post-269","article","type-article","status-publish","format-standard","hentry","issuem_issue-primavera-2024","issuem_issue_categories-artigo-cientifico","issuem_issue_tags-anthropocene","issuem_issue_tags-antropoceno","issuem_issue_tags-new-climatic-regime","issuem_issue_tags-novo-regime-climatico","issuem_issue_tags-permacultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/article\/269","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/article"}],"about":[{"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/types\/article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=269"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/article\/269\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":452,"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/article\/269\/revisions\/452"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=269"}],"wp:term":[{"taxonomy":"issuem_issue","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/issuem_issue?post=269"},{"taxonomy":"issuem_issue_categories","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/issuem_issue_categories?post=269"},{"taxonomy":"issuem_issue_tags","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/issuem_issue_tags?post=269"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/revistaperma\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=269"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}