
Water and permaculture in Viktor Schauberger’s vision

FIGUEIRA, Felipe1
Submetido em 29mai2025, Aceito em 3nov2025
Revisão por Gabriela de Toledo e Tatsuo Shubo
DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17586952
Resumo: Este artigo revisita a obra “The Water Wizard”, do naturalista austríaco Viktor Schauberger, e discute suas reflexões sobre a água, que antecipam princípios contemporâneos da ecologia e da permacultura. Suas observações descrevem a água não apenas como uma substância química, mas como um sistema vivo, dotado de “alma” e “caráter”. Para tanto, relaciona suas teorias com achados científicos sobre estrutura molecular da água, condutividade e ressonância, evidenciando a máxima vitalidade da água em seu fluxo natural nos rios, seu movimento natural em vórtices e seus gradientes de temperatura.
Palavras-chave: Viktor Schauberger; vitalidade da água; movimento da água; permacultura; ecologia sistêmica; ética ambiental
Abstract: This article revisits The Water Wizard by Austrian naturalist Viktor Schauberger and discusses his reflections on water, which anticipated contemporary principles of ecology and permaculture. His observations describe water not merely as a chemical substance, but as a living system endowed with “soul” and “character.” By relating his theories to scientific findings on the molecular structure of water, conductivity, and resonance, he highlights the water’s highest vitality in its natural river flow, its vortex motion, and its temperature gradients.
Keywords: Viktor Schauberger; water vitality; permaculture; systemic ecology; environmental ethics.
Introdução
O livro “The Water Wizard” (Schauberger, 1999) me foi apresentado em 2018, quando recebi a visita do Tita, fundador da ONG Nascentes, em uma propriedade rural onde desenvolvia um projeto de agrofloresta e recuperação de nascentes. O livro, ao mesmo tempo que desconstruiu a minha formação em Engenharia Ambiental e também minha compreensão sobre o manejo e a dinâmica das águas na natureza, formulou um desejo intuitivo e profundo de descobrir a visão de Viktor Schauberger sobre a inteligência natural da água em moldar a vida.
Como ocorreu com muitas pessoas, a pandemia trouxe um novo insight e uniu esse desejo à tradução, profissão na qual atuo há 10 anos. Adquiri os direitos autorais do livro para o português do Brasil em 2021 e, nessa caminhada, descobri diversas pessoas que também foram inspiradas por Viktor Schauberger. Desde então, o projeto de publicação do livro conta com uma equipe editorial completa, na qual sou o tradutor e coordenador, cinco apoiadores institucionais do campo das águas e da ecologia, apoio e prefácio do estimado Professor Dr. Demétrios Christofidis, um patrocínio master e uma grande rede de apoio e novos amigos que desejam mudar a atual concepção de manejo das águas aplicado pelo poder público e privado no Brasil e no mundo. Em breve, o lançamento e publicação do livro em português, datada para março de 2026, será divulgada nas mídias com muita alegria e um belo caminho de união percorrido.
Em meio ao nosso crescente contato com as consequências das crises hídricas e do colapso de sistemas ecológicos, junto à crescente perda da referência ética na interação com a natureza, emergem figuras como o austríaco Viktor Schauberger (1885–1958). Sua obra propõe, além de soluções práticas, uma profunda reconexão entre ciência, natureza e espiritualidade. Em seu livro The Water Wizard, suas observações sobre a água, considerada um organismo vivo e em constante transformação, lançam luz sobre práticas regenerativas alinhadas ao que hoje conhecemos como permacultura.
A permacultura é uma ciência sistêmica e de cunho socioambiental que congrega os saberes científicos com os saberes tradicionais populares no planejamento de ambientes humanos permanentes e em equilíbrio dinâmico com a natureza, dentro de uma ética que, hoje em dia, deve buscar novas criações para os princípios do cuidado com a terra, pessoas e os limites de consumo. Tais princípios devem aceitar a intensidade e a escala em que as condições energéticas atuais se manifestam nos contextos ecológico, social, econômico e cultural. As condições para a ocorrência da conexão entre o equilíbrio dinâmico, holístico e sistêmico são justamente o ponto de encontro entre os caminhos de Schauberger e da permacultura.
A água, por Viktor Schauberger
Viktor Schauberger defendia que a água, em seu estado natural, ou seja, nascida em fontes frescas, geralmente próxima a 4 °C, em movimento orgânico e em equilíbrio com o ambiente, é mais do que um líquido: é uma substância viva, dotada de alma, caráter e função vital. Embora românticas, as palavras “alma” e “caráter” tem fundamento científico e sistêmico. Na época de Schauberger, em plena Segunda Guerra Mundial, cuja ciência mecanicista era a voz condutora da tecnologia, houve muita resistência às suas ideias e teorias.
O “caráter da água” citado por Schauberger nada mais é do que seu processo de maturação e transformação, que varia dependendo do ambiente na qual ela permeia. Sim, a água, como qualquer ser vivo, emerge em uma “nascente” e, como nós, tem seu caráter influenciado pelo ambiente de criação na parte primária da vida. Dependendo do seu ciclo de desenvolvimento, ou seja, sua interação com as camadas mais profundas da terra, em um lento processo de transformação geotérmica, energética e estrutural – em sua reação com pH, pressão, temperatura, contorno e interação com minerais e oligoelementos – a água nasce com determinadas características vivas. Se captada no subsolo prematuramente, antes de seu processo total de maturação, a “água juvenil”, como descreve o autor, apresenta-se estéril, ou seja, pobre em sais e microrganismos, biologicamente imatura, já que ainda não carrega a microbiota e os minerais que a tornam nutritiva, além de dotar alta capacidade de absorção de elementos do meio, da mesma forma que um bebê no útero. Segundo o autor, essa característica pode ser extremamente prejudicial a quem a consome, pois tende a retirar minerais do organismo em vez de repô-los.
Quando, em sua pesquisa, Viktor Schauberger cita a “alma da água”, ele se refere à capacidade de sustentar a vida através de sua organização funcional em seu regime natural. Hoje, a ciência também poderia atribuir essa capacidade e organização à estrutura molecular, condutividade e ressonância. Em outras palavras, o autor classificava a organização funcional da água como o estado dinâmico onde ela conserva e renova seus processos vitais, relacionados a seus gradientes de temperatura e sua autorrefrigeração, conectada a seu movimento em vórtices em seu fluxo natural. Também são parte de sua organização funcional, o contato da água com os minerais, raízes e microvida do leito vivo do rio, a exposição à radiação em seu percurso e a condensação de energia em seu movimento, ou seja, sua capacidade de organização e equilíbrio sistêmico através de seu movimento natural.
Autores como (Sokhan et al., 2015), (Brini et al., 2017) e (Sieroka et al., 2024)), trazem em seus estudos conceitos sobre a estrutura molecular da água, capacidade térmica, densidade anômala e outros fatores que convergem com as teorias de Viktor Schauberger. Sabemos que a estrutura molecular, sustentada pelas dinâmicas das pontes de hidrogênio, regulam gradientes e estabilidade térmica da água. A condutividade está relacionada às trocas iônicas proporcionadas pelo contato com sais, gases e organismos dissolvidos na água. Por fim, a ressonância, expressa nos movimentos helicoidais e hidrodinâmicos, organizam a energia em padrões vibratórios. Essas dimensões reforçam a visão de que a água é um sistema vivo, capaz de conservar e renovar sua vitalidade em interação com o ambiente que percorre. Podemos dizer que, segundo Viktor Schauberger, a água está longe de ser um composto “neutro”, pelo contrário: ela muda conforme o ambiente e sua história.
Agora, usando os achados atuais da ciência, vamos entender outro ponto fundamental das teorias do autor sobre a relação sistêmica da água com o mundo. A água é uma substância anômala por excelência e, ao contrário de outros líquidos, sua maior densidade ocorre a +4 °C, e não em seu ponto de congelamento. Esse comportamento singular é crucial para o equilíbrio térmico da natureza e da vida. Viktor Schauberger destacava que o calor específico da água – sua capacidade de resistir a mudanças rápidas de temperatura – é extremamente alto e, seu ponto mais baixo, está apenas 0,5 °C acima da temperatura normal do sangue humano, de +37 °C., ou seja, quando está a +36,5 °C, a água apresenta sua maior resistência a mudanças de temperatura! Isso nos revela que o próprio corpo humano, composto em torno de 60-62% de água em um indivíduo adulto (Lu et al., 2023), se ancora nesse comportamento anômalo para manter a vida estável mesmo diante de intensas variações climáticas. A água, portanto, não é apenas um solvente, é o mediador térmico e vital do organismo.
Não menos importante, o autor defendia com prioridade o movimento natural da água como algo intrínseco a sua qualidade e vitalidade. Schauberger observou que a natureza opera com movimentos centrípetos, espirais, vórtices e ritmos, movimentos estes opostos às formas de linha reta e angular propostos pela engenharia mecanicista. Seus estudos mostram o fluxo da água nos rios em camadas concêntricas espiraladas, com o centro do fluxo sendo mais frio, veloz e denso. Esse fluxo em vórtices cria uma auto-organização que regula a temperatura, oxigena o sistema, transporta nutrientes e impede o acúmulo patogênico.
Quando o rio flui de forma espiralada, ou quando ocorre o fluxo helicoidal de seu núcleo central, ele modela suas margens com inteligência: a curva externa é aprofundada, a interna suavizada, e os sedimentos são distribuídos de acordo com seu peso específico. Esse equilíbrio dinâmico não apenas preserva a estrutura do leito como também fertiliza as margens, permitindo que a vegetação ribeirinha cresça com vigor, criando um ciclo onde o rio alimenta a terra, e a terra, por sua vez, protege o rio com sua vegetação.
Nesse sentido, Schauberger afirmava que, em um rio, o movimento helicoidal que ocorre na parte interna de cada meandro, a chamada “curva dentro da curva”, constitui o órgão sexual da água, já que nesse ponto de inflexão a corrente se regenera, fertiliza e multiplica sua vitalidade. O autor explica que o movimento espiralado longitudinal da água dentro do meandro do rio, uma espécie de vórtice interno que faz a corrente ascender pela margem côncava e retornar pelo fundo, cria zonas de sucção e compressão que lhe permitem absorver oxigênio e nutrientes do subsolo, misturando-os ao fluxo vivo do rio. Essa concepção foi posteriormente aprofundada por John Wilkes, criador das Flow Forms, que demonstrou como o movimento em espiral e o ritmo pulsante da água promovem processos de autodepuração e revitalização do fluxo. Logo, tanto em Schauberger quanto em Wilkes, a forma e o movimento da água revelam um princípio morfogenético essencial à regeneração dos ecossistemas aquáticos (Wilkes, 2003).
Portanto, segundo Schauberger, cada curva do rio não é apenas uma mudança de direção, mas um ato de reprodução contínua da energia e da fertilidade da água. Tal concepção traduz a ideia de que o rio, ao moldar-se em curvas sucessivas, perpetua seu caráter formador e materno, sustentando tanto a si quanto a vida em suas margens. Nessa dinâmica, o oxigênio absorvido nas curvas atua como substância fertilizante, reanimando a corrente com energia vital e enriquecendo o fluxo com elementos capazes de sustentar a fertilidade do solo e a saúde dos organismos que dele dependem, conforme ilustrado na Figura 1.

Figura 1: Imagem da página 32 do livro, concebida por Viktor e traduzida ao português. Seus traços mostram a complexidade do fluxo da água nos rios, seus movimentos vitais e geradores de vida e sua interação com atmosfera, radiação e oxigênio.
Segundo Schauberger, a radiação direta do sol sobre a água desnuda provoca sua degeneração. Embora a água em movimento e com carga orgânica diluída possa resistir melhor ao impacto solar, (Häder et al., 2011) afirmam que a radiação solar provoca formação de espécies reativas ao oxigênio, quebra de matéria orgânica dissolvida e alteração da rede trófica. Viktor Schauberger defendia que a água aquecida perde sua estrutura interna, oxigênio e capacidade vital, tornando-se estagnada e suscetível à proliferação de patógenos. O desmatamento rompe essa proteção natural e agrava o problema: sem sombra, os rios aquecem, seus vórtices se rompem, os sedimentos se acumulam de forma desordenada e o leito se eleva. Isso reduz a infiltração e provoca o desequilíbrio entre superfície e aquíferos, gerando as chamadas “enchentes encadeadas”, fenômeno corriqueiro no Brasil e no mundo, quando uma cheia leva à próxima, em rápida sucessão, pela ausência de recarga subterrânea e perda da capacidade de retenção da paisagem.
Paralelos com a permacultura
Agora que vimos alguns conceitos importantes sobre as teorias do autor em relação ao fluxo natural da água, encontramos paralelos diretos nas técnicas de manejo hídrico da permacultura, como os swales2, os canais curvos de infiltração e os sistemas de captação de água de chuva que respeitam os contornos do terreno e armazenamento de água nos solos. Na permacultura, desenhar com a água é entender que ela busca caminhos harmoniosos, nunca retos, e que seu fluxo saudável regenera a vida ao seu redor.
Ainda sobre a relação de Schauberger com a permacultura, entre tantas virtuosidades como cientista visionário, físico, naturalista e matemático, ele sempre foi lembrado principalmente pelo seu dom como observador. É muito comum vermos o princípio de planejamento “observe e interaja” no meio da permacultura. Schauberger, em contato com a floresta intocada, teve sua consciência tocada pela vitalidade dos movimentos naturais da água na natureza.
De forma romântica e, por vezes, revoltada, o autor escreveu suas teorias enfatizando como a sociedade caminhava em direções totalmente opostas à dinâmica dos movimentos e ciclos vitais da natureza, citando como exemplo a canalização de rios em linha reta, condução da água por tubos lineares, uso de turbinas centrífugas para bombeamento da água, enquanto na natureza, o movimento e a energia são gerados por gradientes de temperatura muito menores. O autor cita e critica tais práticas da sociedade a fim de comparar o comportamento da água na natureza com o da sociedade, que habita o mesmo ambiente. Tal como a água, que ao perder seu leito vital se torna turbulenta e destrutiva, também a sociedade, se mal orientada, degenera em agressividade e desordem.
As práticas citadas acima não se tratam apenas do manejo inadequado: elas alteram algumas características importantes da água vital. Como exemplo, Viktor afirmava que a composição e o “comportamento” do oxigênio na água se alteram, tornando-o “agressivo”, tema que vale a pena percorrermos brevemente. De forma simples, podemos dizer que o conceito de “oxigênio agressivo” proposto por Schauberger dialoga com os ciclos biogeoquímicos na agricultura regenerativa. A oxidação em excesso, seja no corpo humano ou no solo, degenera a vida. Já o equilíbrio entre oxigênio, carbono e umidade promove saúde. A água viva que Schauberger propõe é, de fato, o elo condutor dos processos de respiração do solo e das plantas.
O “oxigênio agressivo”, então, é um estado em que esse composto, intensamente ativado pelo calor ou agitação mecânica, deixa de construir e passa a destruir. Nesse contexto, o oxigênio sofre um aumento em seu potencial redox, tornando-se altamente reativo e manifestando-se, bioquimicamente, na forma de oxidação descontrolada.
Esse processo rompe cadeias moleculares, acelera a decomposição da matéria orgânica e quebra os vínculos sutis que mantêm a estrutura viva da água. No solo, isso se traduz na perda de húmus, na morte de microrganismos benéficos e na proliferação de patógenos. Nos corpos de animais e humanos, o excesso de oxidação gera estresse metabólico, inflamações e enfraquecimento sistêmico. Mais profundamente, Viktor Schauberger afirmava que esse desequilíbrio atinge também o caráter e a alma das pessoas, pois desestrutura os ritmos naturais internos, impedindo o ser de viver em harmonia com os ciclos da vida.
Em sua obra, entre tantas indagações como esta última, Viktor Schauberger também questionava o uso de tubulações de ferro, material utilizado na época, para condução da água, sugerindo inclusive o uso da madeira para o fluxo sistêmico. Criticou fortemente os processos de desinfecção da água com o uso do cloro, associando tal prática ao aumento da incidência de câncer na sociedade. Até o uso de ferramentas de ferro na agricultura, dando preferência ao cobre por questões de oxidação do solo, menciona o autor.
Isso nos revela como um cientista fantástico, visionário e romântico, atuou em meio ao conturbado cenário da Europa Central entre as décadas de 1930 e 1950, período em que a Áustria foi anexada pela Alemanha nazista e subjugada por interesses militares e mecanicistas. Viktor Schauberger, com sua sensibilidade incomum e observações profundas dos ritmos naturais, entrou em confronto direto com a visão científica dominante. Enquanto a ciência ortodoxa se ancorava na Segunda Lei da Termodinâmica e nas tecnologias de explosão, Viktor Schauberger propunha a implosão, a regeneração e a energia viva, conceitos que pareciam místicos demais para seu tempo. Frustrado por não ver suas ideias compreendidas ou aplicadas de forma ética e, após ser forçado a colaborar com projetos militares durante a Segunda Guerra Mundial, o autor morreu desiludido, diante de uma humanidade que insistia em caminhar contra a sincronia viva da natureza. Deixo aqui a máxima de Viktor Schauberger: “Compreenda e copie a natureza!”, tal como propõe a permacultura.
Considerações finais
Considerando as informações até então citadas neste artigo, trago algumas reflexões importantes sobre as ideias de Schauberger, publicadas há quase cem anos, considerando os dias atuais. A população mundial cresceu 112% entre 1950 e 1990 e, 51% entre 1990 e 2022 (World Population Prospects, 2022). O ápice do crescimento populacional está intimamente ligado à sistematização da agricultura (Evenson & Gollin, 2003), a chamada “revolução verde” com os fertilizantes sintéticos, mecanização agrícola com grandes máquinas e sementes de alto rendimento. (Ritchie & Roser, 2018) conecta a expansão da sistematização da irrigação e do tratamento, canalização e distribuição de água “potável” ao aumento populacional. Como dito, Viktor Schauberger associava esse “desenvolvimento” ao aumento da incidência do câncer. Um estudo publicado na revista BMJ Oncology em 2023 revelou um aumento de 79% da doença a partir da década de 1990, justamente os 40 anos de idade da geração dos anos 1950.
Assim, temos uma questão complexa: ao mesmo tempo, em que criticamos as práticas comuns de agricultura e manejo das águas e dos solos, a exploração de matérias-primas, mineração, extração de petróleo e indústria de alimentos, devemos lembrar que nós e nossos ancestrais estamos aqui, frutos de uma imensa população mundial, moldados e inseridos, a partir de certo ponto, nesse exato sistema. Não menos importante, utilizando ao menos alguns de seus recursos todos os dias e também sentindo na pele as consequências de nossos hábitos.
É muito complexo tanto criticar como prover soluções em larga escala e curto prazo para problemas reais num contexto mundial onde as pessoas estão trabalhando, criando seus filhos e buscando uma vida melhor. Assim como Schauberger, o livro “A vida secreta das árvores” (Wohlleben, 2017) também cita como ritmo da natureza é lento em sua criação, defesa e regeneração. Schauberger, em suas previsões quanto ao manejo e interação inadequada com a natureza, bem como sua proposta de copiar a dinâmica natural da água, buscava soluções como a regulação de cursos d’água, armazenamento e manejo e, da mesma forma, a permacultura e seus nichos, como a agrofloresta, buscam antecipar esses processos naturais de regeneração.
Sabemos que a permacultura, antes de qualquer técnica de enxerto ou bioconstrução, apela para soluções do micro ao macro, escala local, mudança no ambiente em que se vive e, daí, faz sentido a expansão para o mundo. Enquanto as políticas públicas permeiam os gabinetes do Congresso e de ministérios por anos e o incentivo público para tais políticas demora, enquanto a fiscalização para leis ambientais quase inexiste e tem oponentes no próprio Congresso, devemos pensar em como reduzir a nossa vida a esse fluxo natural com uma certa urgência.
Reduzir não é apenas consumir menos, é alinhar nossos hábitos ao metabolismo da própria Terra. Como sugere (Capra & Luisi, 2014) em seu livro “A Visão Sistêmica da Vida”, os sistemas vivos operam por ciclos fechados, cooperação, eficiência energética e equilíbrio. Quando reduzimos o desperdício, a velocidade, o ruído e até os excessos nos relacionamentos, começamos a nos mover no ritmo da natureza. Este artigo traz alguns aspectos científicos e filosóficos da obra de Viktor Schauberger e suas relações com a permacultura. Além do caráter científico e informativo, este texto é também um apelo para buscarmos uma sintonia com a escala mínima e inteligente dos sistemas naturais. As consequências aos nossos hábitos, a nós mesmos e ao mundo serão, lentamente, benéficas.
Referências
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Capra, F., & Luisi, P. L. (2014). A visão sistêmica da vida: Uma concepção unificada e suas implicações filosóficas, políticas, sociais e econômicas. Cultrix.
Evenson, R. E., & Gollin, D. (2003). Assessing the Impact of the Green Revolution, 1960 to 2000. Science, 300(5620), 758–762. https://doi.org/10.1126/science.1078710
Häder, D.-P., Helbling, E. W., Williamson, C. E., & Worrest, R. C. (2011). Effects of UV radiation on aquatic ecosystems and interactions with climate change. Photochemical & Photobiological Sciences: Official Journal of the European Photochemistry Association and the European Society for Photobiology, 10(2), 242–260. https://doi.org/10.1039/c0pp90036b
Holmgren, D. (2017). Permaculture: Principles and pathways beyond sustainability. Holmgren Design Services.
Lu, H., Ayers, E., Patel, P., & Mattoo, T. K. (2023). Body water percentage from childhood to old age. Kidney Research and Clinical Practice, 42(3), 340–348. https://doi.org/10.23876/j.krcp.22.062
Ritchie, H., & Roser, M. (2018). Water Use and Stress. Our World in Data. https://ourworldindata.org/water-use-stress
Schauberger, V. (1999). The Water Wizard: The Extraordinary Properties of Natural Water. Gateway Books. http://archive.org/details/TheWaterWizard
Sieroka, N., Lossau, T., & Neudecker, T. (2024). Emergent Properties in Chemistry—Relating Molecular Properties to Bulk Behavior. Chemistry – A European Journal, 30(25), e202303868. https://doi.org/10.1002/chem.202303868
Sokhan, V. P., Jones, A. P., Cipcigan, F. S., Crain, J., & Martyna, G. J. (2015). Signature properties of water: Their molecular electronic origins. Proceedings of the National Academy of Sciences, 112(20), 6341–6346. https://doi.org/10.1073/pnas.1418982112
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Wohlleben, P. (2017). A vida secreta das árvores. Sextante. https://sextante.com.br/products/a-vida-secreta-das-arvores
World Population Prospects: 2022: summary of results. (2022). UN. https://digitallibrary.un.org/record/3989515
1 – Associação Nascentes, felipefigueira.translator@gmail.com
2 – Swale é um termo em inglês e pode ser traduzido como uma via de infiltração ou canal de retenção de águas pluviais, geralmente construído ao longo das curvas de nível de um terreno. Essa técnica visa reter e infiltrar a água da chuva, reduzindo a erosão e promovendo a recarga do lençol freático, sendo amplamente utilizada na permacultura e em práticas de manejo da paisagem (Holmgren, 2017).
