{"id":247,"date":"2022-09-30T09:26:36","date_gmt":"2022-09-30T12:26:36","guid":{"rendered":"http:\/\/ensinandopermacultura.paginas.ufsc.br\/?p=247"},"modified":"2022-09-30T09:25:12","modified_gmt":"2022-09-30T12:25:12","slug":"plantas-medicinais-sua-historia-e-usos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/ensinandopermacultura\/2022\/09\/30\/plantas-medicinais-sua-historia-e-usos\/","title":{"rendered":"Plantas medicinais, sua hist\u00f3ria e usos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><img decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-29319\" src=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/ensinandopermacultura\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2021\/03\/mini_renata.png\" alt=\"\" width=\"139\" height=\"127\" \/><\/em><\/p>\n<h2>I<span id=\"Quadro27\" dir=\"ltr\"><\/span>mport\u00e2ncia<\/h2>\n<p><a href=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/ensinandopermacultura\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2021\/03\/conteudo_revisado.png\"><img decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-29479\" src=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/ensinandopermacultura\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2021\/03\/conteudo_revisado.png\" alt=\"\" width=\"96\" height=\"97\" \/><\/a>Os primeiros usos de plantas medicinais pelos seres humanos foram detectados na \u00e9poca dos Neandertais: uma escava\u00e7\u00e3o no norte da Espanha revelou tra\u00e7os de <em>Achillea millefollium<\/em> que indicariam o poss\u00edvel uso medicinal dessa planta. Apesar do debate a respeito da descoberta, datada de aproximadamente 50.000 a.C., \u00e9 forte a probabilidade que nossa rela\u00e7\u00e3o com as plantas medicinais tenha uma longa hist\u00f3ria. Mas por que conhecer plantas medicinais \u00e9 importante em um mundo repleto de medicamentos, frutos de alta tecnologia?<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, os medicamentos que hoje merecem estudos e desenvolvimento pela ind\u00fastria farmac\u00eautica vieram da observa\u00e7\u00e3o e das experi\u00eancias feitas pelo ser humano durante sua hist\u00f3ria de relacionamento com as plantas medicinais. O saber popular sobre elas ainda \u00e9 fonte de pesquisas m\u00e9dicas em fitoterapia, embora a esse conhecimento nem sempre se d\u00ea o cr\u00e9dito devido.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, essa rela\u00e7\u00e3o gerou um saber valioso que extrapola o conhecimento cient\u00edfico, na medida em que faz parte de diferentes conceitos de sa\u00fade, doen\u00e7a e cura constru\u00eddos em diversos contextos hist\u00f3ricos. Conhecer a pluralidade de possibilidades de conservar e recuperar a sa\u00fade atrav\u00e9s de plantas medicinais sinaliza para a capacidade de escolhas do sujeito a respeito dos cuidados que pode tomar para estar saud\u00e1vel e para o seu empoderamento em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p>Por fim, conhecer os usos atuais e hist\u00f3ricos das plantas medicinais possibilita debater os motivos de nosso distanciamento (ao menos ao n\u00edvel da ci\u00eancia) de modelos integrais de compreens\u00e3o do corpo humano para dar lugar a uma concep\u00e7\u00e3o cartesiana, que trabalha com dicotomias que n\u00e3o s\u00e3o satisfat\u00f3rias para perceber a rela\u00e7\u00e3o entre o ser humano e o meio (interno e externo) ao qual ele pertence.<\/p>\n<h2>Objetivos<\/h2>\n<ul>\n<li>Reconhecer o uso atual e pret\u00e9rito de diferentes plantas medicinais, debatendo a respeito das diversas concep\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e doen\u00e7a que as utilizaram.<\/li>\n<li>Abordar o processo de constru\u00e7\u00e3o da racionalidade cient\u00edfica cartesiana, que influenciou a medicina a se afastar das concep\u00e7\u00f5es integrais de sa\u00fade e doen\u00e7a.<\/li>\n<li>Conhecer e identificar os usos de algumas plantas medicinais.<\/li>\n<li>Estimular o uso consciente de plantas medicinais, sempre questionando a respeito de por que adoecemos: as plantas medicinais devem fazer parte de nosso processo de autoconhecimento e da promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade.<\/li>\n<li>Contribuir para o restabelecimento de nossa rela\u00e7\u00e3o, enquanto seres humanos, com as plantas (cuidar e ser cuidado).<\/li>\n<\/ul>\n<h2>Conte\u00fado m\u00ednimo<\/h2>\n<ul>\n<li>Primeiros ind\u00edcios de uso de plantas medicinais por seres humanos.<\/li>\n<li>Plantas medicinais e concep\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e doen\u00e7a: medicina eg\u00edpcia, medicina aiurv\u00e9dica, medicina chinesa, medicina hipocr\u00e1tica, concep\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas na Europa medieval e moderna, medicina ind\u00edgena brasileira, medicina afro-brasileira (candombl\u00e9).<\/li>\n<li>A ruptura na rela\u00e7\u00e3o microcosmos (ser humano) e macrocosmos (ambiente): concep\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e doen\u00e7a no final do per\u00edodo moderno e contempor\u00e2neo.<\/li>\n<li>Uso atual de plantas medicinais: troca de saberes.<\/li>\n<\/ul>\n<h2>Metodologia<\/h2>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o do conte\u00fado pode se dar de diferentes maneiras: <em>slides<\/em> de <em>datashow,<\/em> pranchas com fotos ou jogos l\u00fadicos como o jogo de mem\u00f3ria. O fundamental \u00e9 que o p\u00fablico possa reconhecer as plantas medicinais que est\u00e3o ligadas a diferentes racionalidades e que sejam capazes de perceber que seu uso atual n\u00e3o segue, necessariamente, a mesma l\u00f3gica da utiliza\u00e7\u00e3o pelas diversas medicinas do passado. Algumas dessas racionalidades perduram hoje, e perceb\u00ea-las favorece a amplia\u00e7\u00e3o de possibilidades de escolha por parte dos sujeitos. \u00c9 importante, igualmente, permitir a troca de saberes sobre as plantas medicinais mais conhecidas pelo p\u00fablico, facilitando seu reconhecimento e esclarecendo a respeito de seus usos: o trabalho interdisciplinar \u00e9 primordial nessa etapa da aula.<\/p>\n<h3>Exposi\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-192\" src=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/ensinandopermacultura\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2020\/03\/tempo.png\" alt=\"\" width=\"46\" height=\"59\" \/><\/p>\n<p>120 min<\/p>\n<p>A apresenta\u00e7\u00e3o do conte\u00fado deve ser feita de forma reflexiva e dialogada, estimulando o p\u00fablico a reconhecer diferentes exemplares, que relacionamos \u00e0s diversas concep\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e doen\u00e7a de recortes espa\u00e7otemporais. Iniciamos com a abordagem das plantas utilizadas no per\u00edodo que se convencionou chamar \u201cpr\u00e9-hist\u00f3ria\u201d, relatando as descobertas a respeito do uso da <em>Achillea millefolium<\/em>. Este \u00e9 um momento de reflex\u00e3o inicial, em que o p\u00fablico \u00e9 convidado a perceber qu\u00e3o antiga e m\u00faltipla \u00e9 nossa rela\u00e7\u00e3o com as plantas medicinais e qu\u00e3o diverso \u00e9 o saber acumulado sobre elas ao longo do tempo. Se for poss\u00edvel, leva-se um exemplar dessa planta, conhecida como mil-folhas, para reconhecimento e troca de saberes nesse momento.<\/p>\n<figure id=\"attachment_28732\" aria-describedby=\"caption-attachment-28732\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-28732 size-large\" src=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/ensinandopermacultura\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2020\/05\/ecologia_cultivada_bioativas02-1024x768.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/ensinandopermacultura\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2020\/05\/ecologia_cultivada_bioativas02-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/ensinandopermacultura\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2020\/05\/ecologia_cultivada_bioativas02-300x225.jpg 300w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/ensinandopermacultura\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2020\/05\/ecologia_cultivada_bioativas02-768x576.jpg 768w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/ensinandopermacultura\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2020\/05\/ecologia_cultivada_bioativas02.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-28732\" class=\"wp-caption-text\">Di\u00e1logo reflexivo sobre as plantas medicinais em grupo no Horto Did\u00e1tico de Plantas Medicinais do Hospital Universit\u00e1rio da UFSC. Foto: Jefferson Mota.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Na sequ\u00eancia, sempre atrav\u00e9s de imagens e questionamentos sobre o conhecimento dos usos de plantas relacionadas a contextos espa\u00e7otemporais diversos, apresentamos as concep\u00e7\u00f5es de uso de plantas medicinais que relacionavam, de alguma maneira, o ser humano (microcosmos) ao ambiente (macrocosmos):<\/p>\n<h4><strong>Medicina eg\u00edpcia<\/strong><\/h4>\n<p>O Egito antigo foi unificado como Estado cerca de 3000 a.C. Seu principal tratado m\u00e9dico, o Papiro de Ebers, data de aproximadamente 1500 a.C. Nessa obra, \u00e9 poss\u00edvel perceber que receitas de medicamentos e de alimentos se mesclavam, apontando para a imposs\u00edvel separa\u00e7\u00e3o entre nutri\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. Outro elemento presente na medicina do antigo Egito \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre o ser humano e seus deuses: dentre as diferentes origens das doen\u00e7as figurava a a\u00e7\u00e3o dos deuses, em especial da deusa Sekhmet, que agia atrav\u00e9s do sopro de seus emiss\u00e1rios. Fugindo de concep\u00e7\u00f5es que op\u00f5em \u201cbem\u201d e \u201cmal\u201d, a mitologia eg\u00edpcia estabelecia que a mesma deusa que causava a doen\u00e7a era capaz de cur\u00e1-la atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos, que eram tamb\u00e9m seus sacerdotes. As plantas tinham, portanto, uma a\u00e7\u00e3o que extrapolava o efeito f\u00edsico de suas subst\u00e2ncias. Algumas plantas medicinais: coentro (<em>Coriandrum sativum<\/em>), cominho (<em>Cuminum cyminum<\/em>) e babosa (<em>Aloe vera<\/em>).<\/p>\n<h4><strong>Ayurveda<\/strong><\/h4>\n<p>O Ayurveda, sistema m\u00e9dico nascido na \u00cdndia antiga, \u00e9 de dif\u00edcil data\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, seus primeiros textos est\u00e3o localizados cerca de 1500 a.C, com o estabelecimento dos Vedas, embora sua pr\u00e1tica possa ser muito mais antiga. Os tratados mais conhecidos, o Characa Samhita e o Sushrura Samhita datam de cerca dos s\u00e9culos I e II d.C. Esse sistema relaciona de forma bastante marcante o micro e o macrocosmo: ambas as dimens\u00f5es s\u00e3o compostas por cinco elementos: ar, \u00e1gua, terra, fogo e \u00e9ter. Esses elementos se combinam, dando origem aos doshas, Vata, Pitta e Kapha, respons\u00e1veis por todas as fun\u00e7\u00f5es mentais e f\u00edsicas do ser humano. A doen\u00e7a adv\u00e9m do desequil\u00edbrio dos elementos no corpo-mente, que pode ser causado por diversos fatores que colocam em rela\u00e7\u00e3o os mundos interno e externo ao ser humano. A sa\u00fade adv\u00e9m do reequil\u00edbrio, que pode ser alcan\u00e7ado atrav\u00e9s da alimenta\u00e7\u00e3o, atividade f\u00edsica, \u201chigiene mental\u201d e uso de terapias que empregam plantas medicinais. Algumas plantas medicinais: noz-moscada (Myristica fragrans), quebra-pedras (<em>Phyllanthus niruri<\/em>), c\u00farcuma (<em>Curcuma longa<\/em>).<\/p>\n<h4><strong>Medicina chinesa<\/strong><\/h4>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil resumir as diversas transforma\u00e7\u00f5es pelas quais passou a medicina chinesa at\u00e9 os nossos dias. A principal obra, o Huang Di Nei Jing, apresenta o di\u00e1logo entre o (m\u00edtico) Imperador Amarelo e seu ministro, datado de cerca de 2900 a.C. Por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 uma obra estanque no tempo, pois recebeu influ\u00eancias de diversas escolas filos\u00f3ficas, entre elas o Confucionismo e o Dao\u00edsmo, que contribu\u00edram com as teorias <em>yin\/yang<\/em> e a teoria dos cinco movimentos, desenvolvidas entre os s\u00e9culos II a.C e II d.C. A teoria dos cinco movimentos estabelece a exist\u00eancia dos elementos que comp\u00f5em tanto o micro quanto o macrocosmo: \u00e1gua, metal, terra, fogo e madeira. A teoria <em>yin\/yang<\/em> estabelece que o universo \u00e9 uma dualidade n\u00e3o absoluta, que est\u00e1 em cont\u00ednua transforma\u00e7\u00e3o. Os polos yin e yang precisam um do outro para estabelecer a unidade e est\u00e3o presentes em todos os processos. O ser humano \u00e9 aquele que est\u00e1 entre c\u00e9u (<em>yang<\/em>) e terra (<em>yin<\/em>) e \u00e9 o microcosmo onde os elementos e a dial\u00e9tica entre yin e yang est\u00e3o presentes. Para haver sa\u00fade, \u00e9 preciso que esses elementos estejam em harmonia, que \u00e9 constante movimento. V\u00e1rias s\u00e3o as formas de conservar e estabelecer a sa\u00fade, como no Ayurveda: os medicamentos, que podem misturar plantas, animais e minerais, s\u00e3o s\u00f3 uma via. Algumas plantas medicinais: ginseng (<em>Panax ginseng<\/em>), gengibre (<em>Zingiber officinale<\/em>) e jujuba (<em>Ziziphus jujuba<\/em>).<\/p>\n<h4><strong>Medicina hipocr\u00e1tica<\/strong><\/h4>\n<p>Entre os s\u00e9culos V e VI a.C, uma concep\u00e7\u00e3o de sa\u00fade e doen\u00e7a emergiu na Gr\u00e9cia antiga: a medicina hipocr\u00e1tica. Os escritos atribu\u00eddos a Hip\u00f3crates n\u00e3o podem ser relacionados a uma \u00fanica pessoa, e seria mais correto falarmos em escola hipocr\u00e1tica, embora a exist\u00eancia desse personagem seja admitida por historiadores. O que fica evidente \u00e9 que o pensamento emerge da filosofia grega de teor racionalista, que buscava a origem dos fen\u00f4menos em causas naturais e n\u00e3o exclusivamente na a\u00e7\u00e3o dos deuses. A medicina hipocr\u00e1tica estava baseada na teoria humoral: quatro humores ou l\u00edquidos eram predominantes no organismo humano e estavam relacionados a quatro elementos. A fleuma estava relacionada \u00e0 \u00e1gua; o sangue, ao fogo; a b\u00edlis amarela, ao ar e a b\u00edlis negra \u00e0 terra. Para haver sa\u00fade, os humores deveriam estar em seus lugares e em equil\u00edbrio no organismo. Como os elementos tamb\u00e9m formavam o macrocosmo, v\u00e1rios aspectos eram observados ao se diagnosticar o desequil\u00edbrio humoral: caracter\u00edsticas f\u00edsicas, psicol\u00f3gicas, atividades, esta\u00e7\u00f5es do ano, alimenta\u00e7\u00e3o&#8230; e a terap\u00eautica, quando o desequil\u00edbrio era constatado, poderia empregar plantas medicinais cujas caracter\u00edsticas fossem antag\u00f4nicas ao humor, a fim de restabelecer o equil\u00edbrio. Algumas plantas medicinais: funcho (<em>Foeniculum vulgare<\/em>), s\u00e1lvia (<em>Salvia officinalis L.<\/em>), papoula (<em>Papaver somniferum<\/em>).<\/p>\n<h4><strong>Medicina medieval<\/strong><\/h4>\n<p>O per\u00edodo entre o s\u00e9culo V e XV na Europa \u00e9 conhecido como Idade M\u00e9dia. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade e, em especial, \u00e0s profiss\u00f5es a ela relacionadas, temos o in\u00edcio da diferencia\u00e7\u00e3o entre m\u00e9dicos (f\u00edsicos), barbeiros, cirurgi\u00f5es e farmac\u00eauticos (botic\u00e1rios). Estes \u00faltimos foram muito influenciados pela medicina \u00e1rabe e por sua acuidade matem\u00e1tica. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s plantas medicinais, \u00e9 importante ressaltar que seu conhecimento e seu uso n\u00e3o se restringiam aos profissionais de sa\u00fade, e isso cabe tamb\u00e9m aos demais contextos hist\u00f3ricos explicados anteriormente. A base te\u00f3rica para o emprego de ervas e outros medicamentos era a teoria humoral grega, que classificava as plantas em quentes, frias, secas e \u00famidas, relacionando-as ao micro e macrocosmo. Tamb\u00e9m o mundo natural era visto como espa\u00e7o de a\u00e7\u00e3o de for\u00e7as sobrenaturais que influenciavam, entre outros elementos, a sa\u00fade e as doen\u00e7as. Essas ideias m\u00e1gicas tinham base tanto no catolicismo quanto em concep\u00e7\u00f5es \u201cpag\u00e3s\u201d, criando sistemas bastante peculiares de interpreta\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o das plantas medicinais, como podemos observar nos escritos da monja Hildegard von Bingen (s\u00e9culo XI). Algumas plantas medicinais: cal\u00eandula (<em>Calendula officinalis<\/em>), mandr\u00e1gora (<em>Mandragora officinarum<\/em>) e tanchagem (<em>Plantago major<\/em>).<\/p>\n<h4><strong>Medicina moderna<\/strong><\/h4>\n<p>A partir do s\u00e9culo XV e at\u00e9 o final do XVIII, a Europa viveu a \u00e9poca moderna, embora haja in\u00fameras discuss\u00f5es referentes a essa periodiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 um equ\u00edvoco tratar todo esse espa\u00e7o temporal como se fosse homog\u00eaneo: seu in\u00edcio \u00e9 marcado por concep\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e de doen\u00e7a que ainda relacionavam macro e microcosmo. Um exemplo disso s\u00e3o as obras de Paracelso (s\u00e9culo XVI) e Nicholas Culpeper (s\u00e9culo XVI), que ligavam o ser humano ao mundo natural, principalmente aos astros. A astrologia estava presente, para Culpeper e outros m\u00e9dicos, do diagn\u00f3stico \u00e0 terap\u00eautica, sendo atribu\u00eddos \u00e0 reg\u00eancia de diferentes planetas as plantas medicinais e os \u00f3rg\u00e3os humanos. Esse tamb\u00e9m \u00e9 o contexto do aumento de fluxo de conhecimento entre Europa e outras regi\u00f5es do mundo, como as Am\u00e9ricas, da forma\u00e7\u00e3o de jardins bot\u00e2nicos e, no final do per\u00edodo, da classifica\u00e7\u00e3o bot\u00e2nica de Carl von Linn\u00e9, signo do racionalismo advindo do m\u00e9todo cient\u00edfico. Algumas plantas medicinais: tomilho (<em>Thymus vulgaris<\/em>), hortel\u00e3-pimenta (<em>Mentha piperita<\/em>), dente-de-le\u00e3o (<em>Taraxacum officinale<\/em>).<\/p>\n<h4><strong>Medicinas ind\u00edgenas<\/strong><\/h4>\n<p>Segundo o censo demogr\u00e1fico do IBGE de 2010, existem 305 etnias ind\u00edgenas no Brasil: o dado mostra qu\u00e3o complexo \u00e9 tentar unificar os diferentes sistemas m\u00e9dicos ind\u00edgenas existentes no pa\u00eds e nas Am\u00e9ricas de modo geral. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso lembrar que as fontes sobre os conhecimentos ind\u00edgenas foram produzidas, em sua maioria, pelo colonizador, pelos padres jesu\u00edtas e por viajantes de origem europeia. Em linhas gerais, a cosmologia ind\u00edgena n\u00e3o dissocia o mundo natural do sobrenatural ou invis\u00edvel, percebendo uma unidade entre essa dimens\u00e3o (natural\/sobrenatural) e o social. O mundo \u00e9 habitado por uma diversidade de seres, todos portadores de consci\u00eancia, revelando uma apar\u00eancia externa que esconde uma forma humana interna, vis\u00edvel apenas para os xam\u00e3s. A doen\u00e7a acontece quando h\u00e1 uma ruptura entre a unidade alma-corpo: ela antecipa a separa\u00e7\u00e3o final, que ocorre com a morte. A cura se estabelece com a restaura\u00e7\u00e3o dessa unidade e, a fim de promover esse restabelecimento, que \u00e9 tanto individual quanto social, v\u00e1rios rituais s\u00e3o realizados sob a coordena\u00e7\u00e3o do xam\u00e3, promotor da media\u00e7\u00e3o entre natural\/sobrenatural e social. O conhecimento de plantas medicinais n\u00e3o se concentra na figura do xam\u00e3, mas \u00e9 disseminado em toda a sociedade ind\u00edgena. Algumas plantas medicinais: f\u00e1fia (<em>Pfaffia paniculata<\/em>), quina (<em>Cinchona calisaya<\/em>), ginseng americano (<em>Panax quinquefolius<\/em>).<\/p>\n<p>Plantas medicinais utilizadas no candombl\u00e9: assim como a medicina ind\u00edgena, as pr\u00e1ticas de cura de nossos afrodescendentes foram e ainda s\u00e3o objeto de preconceito e estigmatiza\u00e7\u00e3o. O Brasil foi a maior na\u00e7\u00e3o escravista do \u201cNovo Mundo\u201d, recebendo um ter\u00e7o dos escravos trazidos para as Am\u00e9ricas. Manifesta\u00e7\u00f5es religiosas formadas a partir de matrizes africanas s\u00e3o s\u00edmbolo de sua resist\u00eancia cultural: no caso do candombl\u00e9, aqui tratado, a influ\u00eancia mais forte foi da cultura iorub\u00e1. Na \u00c1frica, as ra\u00edzes do candombl\u00e9 estavam no culto aos ancestrais e \u00e0 terra. Uma vez que, no Brasil, houve a perda de la\u00e7os com fam\u00edlia, grupo \u00e9tnico e territ\u00f3rio, o culto aos antepassados foi substitu\u00eddo pela rela\u00e7\u00e3o das divindades (orix\u00e1s) ligadas \u00e0s for\u00e7as da natureza ou a rela\u00e7\u00f5es sociais. O candombl\u00e9 estabelece uma concep\u00e7\u00e3o de cosmos que \u00e9 qu\u00e1drupla, colocando em rela\u00e7\u00e3o orix\u00e1s, seres humanos, natureza e mortos: a cada dom\u00ednio corresponde um sacerdote. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s plantas, sempre presente nos rituais, o babalossaim \u00e9 o respons\u00e1vel, uma vez que \u00e9 ele que exercia o culto a Ossaim, orix\u00e1 das plantas. De modo geral, o elemento vegetal se relaciona com diferentes orix\u00e1s e carrega o ax\u00e9, a for\u00e7a invis\u00edvel que mant\u00e9m todas as coisas no universo. Como o candombl\u00e9 concebe a unidade entre corpo e esp\u00edrito, as plantas medicinais s\u00e3o usadas para problemas ligados a diferentes esferas da vida humana. Algumas plantas medicinais: boldo alum\u00e3 (<em>Vernonia condensata<\/em>), arruda (<em>Ruta graveolens<\/em>), manjeric\u00e3o (<em>Ocimum basilicum<\/em>).<\/p>\n<p>Para estimular a reflex\u00e3o e o debate sobre o estado da biomedicina hoje, abordamos as transforma\u00e7\u00f5es das concep\u00e7\u00f5es sobre sa\u00fade e doen\u00e7a ap\u00f3s o s\u00e9culo XVII, na Europa, com o desenvolvimento do m\u00e9todo cient\u00edfico por Descartes (Fran\u00e7a, s\u00e9culo XVII), que separa o objeto de estudo do observador; o Iluminismo (Fran\u00e7a, s\u00e9culo XVIII), que estabelece um conhecimento \u201cverdadeiro\u201d possibilitado pela raz\u00e3o e a expans\u00e3o da ind\u00fastria farmac\u00eautica. Nesse processo, as plantas medicinais passam a ser estudadas com o fim de extrair-lhes os princ\u00edpios medicinais (s\u00e9culo XIX), e a medicina se afasta das concep\u00e7\u00f5es hol\u00edsticas de sa\u00fade e doen\u00e7a, direcionando-se ao estudo das partes e especializa\u00e7\u00f5es e \u00e0 busca da doen\u00e7a reificada no corpo do \u201cpaciente\u201d. A rea\u00e7\u00e3o ocorre ap\u00f3s os anos 1960, com o questionamento das iatrogenias e da deteriora\u00e7\u00e3o entre as rela\u00e7\u00f5es m\u00e9dico-paciente, entre outros elementos que fazem parte da crise da biomedicina.<\/p>\n<p>O debate final, antes do reconhecimento de algumas plantas medicinais, \u00e9 direcionado para o questionamento da import\u00e2ncia da autonomia e da autoconsci\u00eancia do indiv\u00edduo, que deve buscar o m\u00e9dico\/agente de sa\u00fade, quando necess\u00e1rio, n\u00e3o como um detentor soberano de conhecimento, mas como um parceiro que, de forma cooperativa, pode auxiliar na preserva\u00e7\u00e3o\/recupera\u00e7\u00e3o da sa\u00fade. O indiv\u00edduo que sofre deve perceber seu sofrimento como um processo global, que envolve tamb\u00e9m o meio: a busca pela sa\u00fade individual deve sempre considerar a sa\u00fade do planeta, restabelecendo, assim, a rela\u00e7\u00e3o entre micro e macrocosmo.<\/p>\n<h3>Pr\u00e1tica<\/h3>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-192\" src=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/ensinandopermacultura\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2020\/03\/tempo.png\" alt=\"\" width=\"46\" height=\"59\" \/><\/p>\n<p>60 min<\/p>\n<p>\u00c9 importante efetuar o reconhecimento das plantas medicinais em um espa\u00e7o onde certa variedade de exemplares esteja presente. Realizamos essa tarefa, nas aulas de permacultura da UFSC, no Horto Did\u00e1tico de Plantas Medicinais do Hospital Universit\u00e1rio.<\/p>\n<figure id=\"attachment_28733\" aria-describedby=\"caption-attachment-28733\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-28733 size-large\" src=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/ensinandopermacultura\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2020\/05\/ecologia_cultivada_bioativas03-1024x768.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/ensinandopermacultura\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2020\/05\/ecologia_cultivada_bioativas03-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/ensinandopermacultura\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2020\/05\/ecologia_cultivada_bioativas03-300x225.jpg 300w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/ensinandopermacultura\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2020\/05\/ecologia_cultivada_bioativas03-768x576.jpg 768w, https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/ensinandopermacultura\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2020\/05\/ecologia_cultivada_bioativas03.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-28733\" class=\"wp-caption-text\">Apresenta\u00e7\u00e3o das plantas medicinais em grupo no Horto Did\u00e1tico de Plantas Medicinais do Hospital Universit\u00e1rio da UFSC. Foto: Marcelo Venturi.<\/figcaption><\/figure>\n<h2>Conte\u00fado Complementar<\/h2>\n<h3>V\u00eddeos<\/h3>\n<ul>\n<li>Assista \u00e0 <em>playlist<\/em> <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/playlist?list=PLBkLTk0zlYHsqqgoBVia4HExYt-Ggalue\">Ecologia cultivada<\/a> no canal da Rede NEPerma Brasil.<\/li>\n<\/ul>\n<h3>Leitura<\/h3>\n<ul>\n<li>Consulte mais sobre plantas do Brasil no site <a href=\"http:\/\/floradobrasil.jbrj.gov.br\/\">Flora do Brasil<\/a>, administrado pelo Instituto de Pesquisas Jardim Bot\u00e2nico do Rio de Janeiro.<\/li>\n<\/ul>\n<h3>Aula<\/h3>\n<ul>\n<li>Acesse o conte\u00fado da aula <a href=\"https:\/\/docs.google.com\/presentation\/d\/e\/2PACX-1vR20_TOWvTrfw-VI_m7YO_elrv3hCEBOwSnh_H67sEciZpSpcWp7lYHTE6ZC4UY2y1rPUuYfw7z2Mvt\/pub?start=false&amp;loop=false&amp;delayms=3000\">Plantas medicinais, sua hist\u00f3ria e usos<\/a>.<\/li>\n<\/ul>\n<h2>Refer\u00eancias sugeridas<\/h2>\n<p align=\"left\">CAMARGO, Maria Thereza Lemos de Arruda. As plantas medicinais e o sagrado: a etnofarmacobot\u00e2nica em uma revis\u00e3o historiogr\u00e1fica da medicina popular no Brasil. S\u00e3o Paulo: \u00cdcone, 2014.<\/p>\n<p align=\"left\">CHEVALLIER, Andrew. The Encyclopedia of Medicinal Plants. New York: DK, 1996.<\/p>\n<p align=\"left\">FRANCIA, Susan; STOBART, Anne. Critical Approaches to the History of Western Herbal Medicine. London: Bloomsbury, 2014.<\/p>\n<p align=\"left\">GARRETA, Rapha\u00eble. Des simples \u00e0 l\u2019essentiel. Toulouse: Presses Universitaires du Mirail, 2007.<\/p>\n<p align=\"left\">LORENZI, Harri; MATOS, F. J. Abreu. Plantas medicinais no Brasil: nativas e ex\u00f3ticas. Nova Odessa: Instituto Plantarum, 2008.<\/p>\n<p align=\"left\">OLIVEIRA, Mar\u00edlia Flores Seixas de; OLIVEIRA, Orlando J. R. de. Na trilha do caboclo: cultura, sa\u00fade e natureza. Vit\u00f3ria da Conquista: UESB, 2007.<\/p>\n<p align=\"left\">PORTER, Roy (org.). Medicina: a hist\u00f3ria da cura. Lisboa: Centralivros, 2002.<\/p>\n<p align=\"left\">SIGOLO, Renata Palandri (org.). Plantas medicinais e os cuidados com a sa\u00fade: contando v\u00e1rias hist\u00f3rias. Florian\u00f3polis: NUPPe, 2015.<\/p>\n<p align=\"left\"><a href=\"https:\/\/redepermacultura.ufsc.br\/ensinandopermacultura\/contato-do-capitulo-ecologia-cultivada-plantas-medicinais-sua-historia-e-usos\/\">Entre em contato com a autora<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Import\u00e2ncia Os primeiros usos de plantas medicinais pelos seres humanos foram detectados na \u00e9poca dos Neandertais: uma escava\u00e7\u00e3o no norte da Espanha revelou tra\u00e7os de Achillea millefollium que indicariam o poss\u00edvel uso medicinal dessa planta. 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